Amigos

sábado, janeiro 31, 2009

Um Abraço

Um Abraço


No enlace de um abraço,
O cheiro que sente no peito afagado,
O calor que dissipa da sua roupa,
Algo se desprende de tua alma;
Palavra mutua que se diga ao pé do ouvido,
Quase nunca é inteligível.

Apure o sentido tátil e olfativo,
Firme-se no enlaço desse abraço,
Tenha por um momento um tronco amigo;
Seja senhor e cativo,
Viva na prisão de um eterno abraço,
E sinta a matéria do espírito:
Abrace forte, abrace com carinho!

“Imploda” no enlaçar do abraço,
Estremeça neste bom amparo,
Sustente e seja sustentado,
Perdoe e seja perdoado,
Amarre bem amarrado,
E abrace novamente apaixonado.

Que o abraço lhe sufoque,
Sua alma ele toque;
Ainda que venha regado em densas lágrimas:
Acolha e seja acolhido.
Abraço intenso que mate uma saudade,
Recomponha e proteja a alteridade.

Abrace a mãe, o pai, e o filho;
Venha de mansinho,Abraço de bicho preguiça.
Abraços comoventes, comovidos, condolentes e condoídos.
Viva na eternidade de um abraço inesquecível,
Sinta o bem de sentir quem se tem;
Como é bom poder abraçar alguém!!!

Abrace o teu bem, para o teu próprio bem:
Liberte-se nesta prisão de outrem,
Seja eterno e eternize, enfim:
Bom pra você e bom pra mim,
Mas nunca, nunca participe de um abraço fingido;
Colha o do urso, porém, do rato e da serpente, se desvie


Comemore este momento de vitória,
E seja o apoio no fracasso.
Cumprimente e seja cumprimentado,
Console essa dor de perda que quase mata;
Sufoque uma solidão,
Prove o sabor da sinceridade.

Abrace a tua causa, tua peleja, tua gloria;
E que este abraço enriqueça a tua estória.
Abrace como se não houvesse mais ninguém;
Corra para o abraço e largue todo enfado:
Como criança abrace feito carrapato,
E com o abraço da jibóia, muito cuidado!

Para mim e para você: aquele abraço!!!


Por Jéferson Cardoso de Matos.

domingo, janeiro 25, 2009

O Barack Baleiro

O Barack Baleiro



Naquele dia acordei bem cedo, me preparei para sair, apanhei o esboço do livro que levaria para a editora na Avenida Paulista, desci até a portaria do prédio após pedir um táxi. Do Sumaré, que era onde eu estava, até a editora não seria um longo trajeto. O motorista já me aguardava na frente do edifício; deveria ser a sua primeira corrida naquele dia.
Entrei, cumprimentei e indiquei o percurso; ele disse-me que seria rápido pois o trânsito naquele horário ainda aquecia os motores.
Apenas concordei com um leve aceno de fronte.
O homem era um senhor de certa idade, gentil, deveria ser aposentado e trabalhar para complemento do orçamento; seu táxi era impecável, e ao entrar no veículo sentei-me e avistei o jornal do dia, que estava ali intacto.
O motorista percebeu que notei o exemplar, então me disse: _ Se o Sr quiser ler, fique a vontade, deixo ai para os clientes mesmo, mas dou uma olhada quando é possível.
Então peguei o jornal, e na manchete de capa vi uma foto do presidente americano recém eleito, era uma foto de quando ele era garoto; nela, trazia nas costas um saco imenso, ia cercado por senhoras negras, algo muito parecido com a imagem de qualquer quintal brasileiro.
O texto falava da posse, a imensa escalada que aquele cidadão afro-americano galgou até alcançar o topo da maior potência de nosso tempo, ficava por conta da foto, dispensava qualquer outro argumento.
Paramos no primeiro semáforo, a luz do dia começava a acender, havia poucos carros, porém pessoas já lotavam os pontos de ônibus aos bocejos; o motorista parou no sinaleiro, olho para o lado e um menino maltrapilho se aproxima com uns pacotes de balas em suas mãos, assustei e o motorista percebeu, disse-me então: _Vejo que o Sr não é daqui, mas não tenha medo, conheço o garoto faz muito tempo.
Ao que repliquei com certa surpresa: _Conhece?!
_Sim, pode olhar Dr, e não sinta medo, este garoto é figura local, compõe o cenário do sinaleiro, vive na marginal, com as balinhas ajuda a mãe a alimentar outros quatro irmãos pequenos, seu nome é Barack Baleiro.
Eu não disse nada, o motorista perguntou se tinha das macias, o garoto disse que naquele dia só tinha as durezas, mas que da outra ficaria devendo, mesmo assim meu chofer comprou um dos pequenos.
Seguimos caminho, mais alguns minutos e outro sinaleiro, vem outro garoto, este trazia bolinhas, vinha fazendo um numero de malabarismo. Nas proximidades dois adultos parecem supervisionar o pequeno, achei estranho, e como na vez anterior, tive um certo receio.
_O Sr Dr, não precisa ter medo, este menino vive também aqui na marginal, é cria do meio, joga suas bolinhas, ganha uma moedinha, é isso o dia inteiro, os adultos são seus pais, o colocaram nesta vida para garantir o sustento, sei que não é certo, mas aconteceu.
_Você o conhece também?!
_Sim Dr, esse é o Barack Malabarista, um artista do meio fio, um artista que começou cedo.
Andamos mais um pouco, deixamos a marginal, pegamos uma avenida que já tinha mais movimento, os raios do sol agora eram mais acesos, outra parada, outro sinaleiro, outro menino, esse já era o terceiro.
_Dr antes que o Sr se espante, já vou logo dizendo, conheço esse menino que vêm sorrindo e seu serviço oferecendo, esse é outro Barack Brasileiro, esse é flanelinha, vejo todos eles crescendo, as pessoas os olham com medo, mas eles estão acostumados, sabem que o motivo são os garotos perigosos que também estão por aí vivendo.
Comentei que era incrível como ele conhecia todos aqueles do caminho; ele sorriu e continuou dizendo: _Sim Dr, aqui não há quem eu não conheça, são mais de trinta anos nestas avenidas, vi as reformas na marginal, vi vários governos, eu vi muitas mudanças públicas e de empresas, mas a única coisa que não muda, são os malabaristas do sinaleiro, os baleiros da marginal, os flanelinhas e o nosso medo.

Ouvi a tudo como quem lê um tratado filosófico, usei toda minha atenção, e todos argumentos de minha alma para aprender o máximo com a aula do taxista, em seu caminho costumeiro. Ao chegarmos na Paulista, para mostrar que fui um aluno atento durante o percurso, eu exclamei.
_Impressionante como aqueles garotos, além de terem nome de presidente, também são extremamente parecidos com a foto da capa do seu jornal do dia!
_É Dr, o gene veio do mesmo continente, a diferença é que os nossos vieram nos navios negreiros e para ser brasileiro.
O carro parou em frente ao imponente prédio onde fica a editora; saltei, agradeci a corrida, e segui meu caminho não mais brasileiro, nem menos brasileiro; apenas entendendo que pode haver Baracks em todos sinaleiros.

sábado, janeiro 17, 2009

Poesia Para Vida

Poesias Para Vida

A Morte estava em seu imenso jardim a podar algumas roseiras, a aparar alguns arbustos, arrancando alguns matinhos, quando veio o som do autofalante, bem no auto da imensa estufa de jardinagem, a chamar-lhe para o serviço.
Como sempre era urgente, e ela já sabia que aquilo ocorreria, estava de sobre aviso, uma vez que conhecia o momento exato em que um cliente precisaria de seus serviços.
Foi, passou por toda parentela que se encontrava a porta do quarto hospitalar do pobre ancião, colocou-se lado a lado com os que se encontravam junto do velho a beira do leito. Alguns a sentiram romper sua passagem com um calafrio que percorrera num segundo dos pés a cabeça, ou vice versa. Outros dizem ter sentido algo estranho, como um mau presságio ou coisa assim.
O fato é que ela veio; certo que nem antes e nem depois da hora exata marcada no livro da vida; Ao chegar deparou-se com o ancião a lutar intensamente para deixar as dependências da carne, era uma gemência, uma respiração dificílima, já estava fadigado de tanto tentar desgarrar-se da aparência que conhecia; Ao aproximar-se do homem ela lhe trouxe alívio, com imensa experiência, coisa que adquiriu desde o primeiro protozoário que partiu até o prezado momento em que se encontrava ali: Arrancou o pobre de sua carcaça como quem retira uma carta de um envelope, pediu-lhe que aguardasse num canto do quarto e partiu. Retornou para o seu jardim, mas é claro que o sabor daquela manhã já havia mudado devido a interrupção do desfrute, dizia ela em sua intimidade que as manhãs são como o café, se não é tomada toda de uma vez do início ao fim, elas ficam frias e perdem o aroma e o sabor. Pensando dessa maneira, é claro que não era uma senhora muito bem humorada com seu ofício, de bem com a Vida por assim dizer.

A ansiosa solicitude pela vida (Feliz 2009)

A ansiosa solicitude pela vida

Dois grandes amigos conversavam enquanto o mais jovem, ansioso por se tratar de sua estréia, se preparava para apresentar-se a uma imensa platéia; o mais velho, experiente senhor de cerimônias, lhe orienta:
_Vá meu filho, estão todos a sua espera, e com grande euforia. Todos querem lhe conhecer, por tanto, ande, e não seja tão tímido, tem gente que há meses espera para ver a sua cara.
_Sim mas, você tem certeza que ele já foi embora pare que eu possa entrar?
_Não; ele lhe espera, mas você entrando ele vai embora, vocês vão cruzar-se na porta, se verão apenas nesta hora: olhe, olhe, ele esta se aproximando, entre e vê se não enrola: vamos, como é, não vá amarelar!
_Não se trata disso, é que, bateu... “tipo” um friozinho na barriga; estou ouvindo um barulho imenso, uma arruaça: o sujeito, pelo visto, fez grande sucesso! Olhe o tamanho da festa de despedida que estão fazendo para ele!
_Meu Deus; como você é ingênuo! Essa festa é sua, amigo. _A dele foi na chegada; na verdade pouca gente agradece quando vocês saem.
_Me parece meio ingrato isso!
_Mas se faz parte da profissão, o que se ha de fazer? E ande logo, que ele está parado à porta, lhe esperando para poder ir embora e lhe ceder o lugar.
_Eu não sei se estou pronto de fato; meu coração esta disparado, é muita adrenalina, minhas pernas estão feito borracha; Toda essa gente! _Tem certeza que os mais amigos dele não vão virar-me à cara?
_Disso eu não falo nada, afinal, cada qual tem seu jeito de encarar mudanças, mas isso também não é problema seu, você não pode fazer nada além do seu papel, que é entrar e correr.
_Sabe, enquanto estávamos lá dentro, eu pensava: “Teve colega que entrou e tomou uma tremenda vaia, vai que não vão com a minha cara”.
_Isso acontece, cada um vive o seu momento, há gente passando por tudo nesse mundo, há quem se mate por uma faixa de tecido branco e muito fino, mas a você cabe o seu papel na história e chega dessa conversa, está todo mundo lhe esperando para mudar tudo.
_Aí, não falei! _ Está na cara que vai dar errado; afinal eu não venho para mudar nada, quem tem que mudar são eles, é neles que ha um monte de pendências.
_Você tem razão, não nego, mas se você atrasa na entrada sou eu quem fica encrencado, tem gente que já tomou umas a mais e está começando a dar trabalho, assim, a festa pode terminar em confusão e tragédia, por tanto, é melhor você entrar logo.
_Pronto, mais um motivo para que eu não atravesse àquela porta; com bêbado eu não trato, se começa assim, já começa tudo errado.
O senhor de cerimônias, percebendo que o jovem estava mesmo muito receoso com aquela estréia, temeu pelo andamento da festividade, intuiu que o principal convidado, a atração maior da noite, estava ao ponto de voltar para traz; foi quando na filosofia encontrou o argumento que faltava.
_Meu jovem, não se preocupe, tenho tudo sob controle; preparei um discurso que esclarecerá essa gente que lhe espera.
O Senhor de cerimônias apanhou uma folha de papel e, após pigarrear, a fim de angariar a atenção de todos, iniciou um breve discurso:

_Amigos, por favor! _ Um minuto de vossa atenção; antes que o grande convidado entre quero participar-lhes de umas palavras, creio serem propícias; gostaria que refletissem sobre elas, quem as disse marcou-me muito, é um grande sábio, o maior que conheço.
E assim o mestre de cerimônias seguiu com seu discurso:

“...não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?
Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em seleiros; contudo, vosso pai celeste as sustenta. Por ventura, não valei vós muito mais do que as aves?
Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?
E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam.
Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda sua glória, se vestiu como qualquer deles.
Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?
Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: com o que nos vestiremos?
Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas;
Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas.
Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.”(Mt 06: 25-34)
O senhor de cerimônias, chamado “Tempo”, preparou com seu discurso a entrada do seu jovem amigo estreante “2009”. Este, após ver todos receberem a mensagem, ficou tranqüilo, entrou e começou a correr confiante que todos haviam capitado que: o futuro a Deus pertence, as mudanças estão dentro de cada um que se proponha a realizá-las e ao ano só confere passar.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Gaza, Faixa de Tecido Leve e Muito Fino

Faixa de tecido leve e muito fino


Fiquem com tudo.
Coloquem os seus sobre os trapos dos meus.
Ame aos seus, e ondeie aos meus;
Afinal, os meus tem olhos rosa enquanto os teus são cinza!
Somos mesmo tão diferentes em tudo?
Nascemos sem que nossos pais conhecessem o amor?
Quando crescemos não nos apresentaram a caridade?
E por ventura envelhecemos sem sentir o dom supremo por um dia se quer?
Então, que importa quem chora a dor da perda para quem desconhece os olhos do vizinho?
Joguemos fogo uns nos outros devido à diferença de local de nascimento.
Nascer em determinado lugar, é mesmo uma afronta aos interesses de quem nasce em outro.
Não tolere os do outro lado da faixa de tecido leve e fino.
Vamos tingir a faixa de vermelho inocente.
E quando esta secar a tomaremos já na cor marrom incoerente.
Imagine que lindo: a faixa vermelha, a faixa marrom...
O dialogo não é coisa de homem de verdade?
Falar não causará medo a ninguém.
E sem medo não queremos faixa leve e transparente.
E o que pensarão de nós se não a tingirmos?
Dirão por aí que não possuímos força para tingir tecidos.
E o dialogo em nosso mundo não muda a cor sequer de um fio estúpido.
Pois então fique com tudo.
Com a faixa de tecido, com as saudades de muitos e com os mundos.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Aos formandos de 2008

Aos formandos de 2008


A todos formandos, de toda diversidade de cursos que capacitam os estudantes de nosso país, parabéns pelo sonho, pelo esforço e pela realização.
Presenciei esta semana a um evento sublime; Uma formatura de pré-escolares e
fiquei boquiaberto. Não apenas pela minha filhinha que pertencia à turma dos formandos, mas por toda turma dela, por toda geração a qual ela pertence e pelo trabalho magnífico dos educadores na atualidade. Sei que nem tudo são flores na educação nacional, sei que existem numerosos problemas de ordem social, cultural, financeira, mas nada é perfeito e os exemplos de sucesso certamente inspiram a fuga do fracasso, portanto, miremos os acontecimentos positivos nesse momento, fiquemos neles por estes instantes focados.
Hoje se fala com muita naturalidade que a função dos novos mestres é mostrar que é possível “aprender se divertindo”. E como se divertem os pequeninos! E é nessa filosofia que se revela uma estratégia ousada da educação contemporânea, os alunos terminam o curso pré-escolar cheios de orgulho por ter aprendido divertindo-se. Em meu tempo a pré-escola servia para ambientar o aluno com as ferramentas de ensino, acostumá-lo ao convívio social e familiarizá-lo com o alfabeto e os algarismos árabes, mas não era tão prazeroso como pude ver atualmente ao acompanhar meus filhos.
O grupo de formandos não era grande, o palco era o anfiteatro de nosso centro cultural, montado com simplicidade, mas muito bom gosto, houve um momento solene, um juramento: fantástico, exemplo de compromisso com a pátria, com a família, com a sociedade, o qual os comprometidos com tal ato o fizeram com a seriedade inerente ao grande caráter, com a mesma seriedade entoaram o hino nacional: Mão esquerda no peito, brados, brados e brados a cada nota musical mais alta de nossa canção patriótica.
Na seqüência daquela noite surpreendentemente de gala, fomos convidados a assistir num telão montado ao lado do palco a um filme, e adivinhe: Uma produção ituveravense, atores e atrizes pré-escolares, uma encenação a céu aberto de um clássico infantil : O Mágico de OZ, minha nossa, aquele filme sem dúvida mostra a nós adultos que o potencial de quem vem vindo é infinito, assim como o nosso, porém se mal aproveitado, pode embotar, mofar, pode não resultar em alegrias, pode não resultar em benefícios aos detentores de tamanha capacidade.
Para os numerosos problemas de desenvolvimento educacional, fico com a frase de um Sr ituveravense, que sempre me causou impacto, ele dizia: “Jovem, o Brasil tem um potencial tão grande que independente de quem o governe, seremos dentro de duas a três décadas, a maior potência do mundo”. E isso meu amigo disse-me pela primeira vez há uma década passada.
Portanto se o futuro do país esta nas mãos dos formandos de 2008, o Brasil continua sendo uma jovem nação com um futuro brilhante pela frente, não pela imposição das armas, mas pelo talento de nossos oradores diplomatas, que desde a mais tenra escola já dão mostra de um potencial de infinitas possibilidades. Parabéns aos formandos de 2008.

O Velho Espírito Natalino

O Velho Espírito Natalino


Vovô hoje vive um novo momento.
Começou com um problema, que trouxe uma vida nova.
Mas nele, sem dúvida alguma, ainda vive um sonho antigo...

"Olha só quem vem vindo!
Ora se não é o bom e velho espírito natalino!
Ele está mesmo velhinho,cansado, mas bem vivo.

Lembro-me dele chegando quando eu era ainda menino; esperava presente, mas me alegrava qualquer presentinho.
Eu sonhava com o grande dia. No comércio, meus olhos colavam na vitrine e refletia aquelas maravilhas, todo aquele brilho...
Juro que em sonho brinquei com cada um daqueles brinquedinhos.

O tempo passou. Cresci e me tornei rapazinho. Trabalhando, dava e recebia presentinhos.
Já compreendia até a mensagem mais importante, a do nascimento do Deus Menino.
E alegrava-me muito ver as ruas enfeitadas.
Haviam tantos eventos com o tema natalino!
Canções comoventes, tudo mágico e festivo; havia sempre um papai Noel gordinho; mas na falta destes mais nutridos, eles se tornaram bem magrinhos. Mas eram personificações dele, disso nunca duvidei.

Mias alguns Natais, casei-me e tive abençoados filhos. Sempre havia festa em minha casa.
Todos esperávamos ansiosos parentes e amigos de longe vindos. Um bom cheiro de comida perfumava toda a casa; coisa muito melhor que almoço de domingo; vinha um, vinham tantos, há quanto tempo eu não lhes via!!! Muitas vezes a casa se enchia que mal cabia tanta alegria.

O tempo continuou passando e tudo mudando.
Dividi com outras famílias os meus queridos filhos; estes me deram até netinhos; lindos espertos e ligeiros netinhos.
Meus passos é que foram ficando cada vez mais inseguros e lentos nos caminhos.
Num belo dia, de forma repentina, ocorreu-me um descompasso, um desatino: uma doença me transformou novamente em menino. E só não fui parar num berço por não caber, creio. Voltei a usar fraldas, enormes fraldas. E se eu perdia o sono, ninguém vinha me dar colo. Passei a ser um bebê com mais de sessenta, setenta, enfim, com muitos quilos e um corpo encurvado e flácido, frágil.

Aquela comida que esperava para provar à meia-noite da véspera do dia natalino não era mais por boca que vinha, vinha por uma borrachinha enfiada em meu longo nariz aquilino. Assim meu paladar tornou-se esquecido.

E desde já ninguém espere de mim gracinhas, palavras ou passinhos, sou um bebê nas necessidades, mas na idade sou um velho. Não reclamo, pois sei que esta é uma face comum do destino. Ainda há muito pra ser feliz.

Neste dezembro, em especial, mal posso esperar pelo grande dia. Muitos virão aqui, pois se lembram deste velho amigo. Abraçarão a mim e aos meus queridos que estarão comigo. Minha casa esta enfeitada, tem uma guirlanda, tem umas bolinhas...

Estava tomando o sol na varanda e vi pela porta do corredor; vi passarem adultos e meninos!
Meus olhos vêem tudo, eu não digo, mas por dentro estou sorrindo; apesar dos pesares, o amor nunca me tem faltado. Não tenho posses, mas, de certa forma, sou um homem rico: recebo tesouros em forma de carinho; agradeço a todos por cada sorriso. Agradeço aos que me inspiraram e aos que me retribuíram em algum momento da vida.

Agradeço a Deus por estes maravilhosos cuidadores, por cada visitantes e pelos colegas de asilo. E, claro, pelo infalível espírito natalino".

Aos enfermos que estão vivendo a luta pela vida em um leito e aos seus cuidadores em todas instâncias dentro e fora da esfera familiar: meu feliz Natal!

Por Jéferson Cardoso de Matos: Fisioterapeuta.

( foto de Wellington Galego)

O Império São-Paulino

O Império São Paulino



Farei nestas breves palavras minha singela homenagem ao São Paulo Futebol Clube, pela aquisição de sua mais nova conquista. Não levarei muito tempo nesta escrita, pois meus braços, - para ser mais preciso, meus cotovelos - doem sobremodo, uma vez que sofrem com uma inflamação terrível. O pior é que me foram acometidos os dois cotovelos, por esta epicondilite bilateral:_ O mais incrível é que eu não me lembro de ter feito nada que pudesse causar esta inflamação aguda, mas vamos as palavras.

O São Paulo construiu um império que ostenta a fabulosa marca “6 – 3 – 3”, ou seja, é o primeiro hexa campeão brasileiro, é o primeiro time a conquistar por três anos consecutivos o longo campeonato nacional, e ainda é detentor da façanha de vencer três mundiais interclubes: _Como doem esses meus cotovelos!!!

Na Roma antiga, no fabuloso império romano, as pessoas se divertiam com grandes espetáculos, que assim como o nosso futebol arrastava as multidões a grandes estádios e lá as paixões se inflamavam. Eram três os tipos de espetáculo, havia os espetáculos que são os de circo onde homens se enfrentavam, assim como fez o São Paulo, no campeonato do equilíbrio, da igualdade: uma vez que empresários não nos deixa os craques, são onze contra onze em campo, usando das mesmas armas, sendo o diferencial no combate a estratégia, o método, a disciplina tática. Sendo assim, o mérito pertence ao General Ramalho e seus fiéis soldados; Mais cruel e dramático era o espetáculo de anfiteatro, onde homens combatiam feras, assim como nossos clubes enfrentam a fera da evasão de craques, e até de aspirantes a craque, a fera do assédio inoportuno dos empresários, a fera das contusões, a fera dos estádios com suas torcidas agressivas, a fera das finanças deficitárias, a fera do despreparo de alguns árbitros, e contra estas feras o São Paulo saiu-se melhor que os demais , mérito da entidade. E por último os espetáculos de teatro, que diferente de nosso teatro atual, onde há grande diversidade de temas, os atores romanos representavam as histórias dos deuses, e comparando também este espetáculo o feito do São Paulo de tão grandioso aos mitos o equipara, uma vez que com suas conquistas perguntamos se alguém pode repeti-las, sendo assim o feito extrapola nosso imaginário e confere ao Tricolor Paulista ares de divindade.

No andar das carruagens, enquanto uns caem, outros tropeçam e muitos são atropelados, o São Paulo impera, e apesar de minha dor monstruosa de cotovelos eu não poderia deixar de registrar tal fato, mas deixemos as dores de lado e por mais este feito inédito, memorável, ao São Paulo rendamos nossos aplausos: mas vou de vagar, com calma, pois meus cotovelos nesta fase aguda podem ficar ainda mais inflamados.

Parabéns São Paulo por mais esta conquista indexada ao seu vasto império de espetáculos, e quanto aos meus cotovelos, um dia eles saram.

Seja bem-vindo, Corinthians!!!

Seja bem-vindo, Corinthians!!!


O torcedor de futebol é antes de tudo, um fingidor de emoções, uma vez que “finge odiar o maior rival”, que na verdade lhe serva para as mais exaltadas emoções. Veja o exemplo da maior rivalidade paulistana, que brigam feito dois irmãos; também pudera, são filhos da mesma mãe, a capital; são como Caim e Abel, numa eterna alternância de papéis; hora um assume um Caim vigoroso e noutra hora o mesmo é sujeito à queda de um frágil Abel, e vice-versa, num constante ciclo de morte e ressurreição.
Quando o assunto é futebol são duas as razões de emoção, que são: torcer pelo sucesso de seu time e pelo fracasso dos outros, porém, anote aí, entre todos os outros, você elege o seu preferido ao fracasso, e é justamente aí que mora o adultério de sua relação futebolística. Nesse momento o palmeirense por exemplo, veste qualquer camisa pelo gosto do fracasso corintiano.
Um homem ao amar uma mulher, pó ventura ele passa a odiar todas demais? Se usar de sinceridade há de admitir que todas as outras ainda gozam de sua simpatia, e até de certa admiração, e é essa a natureza, o destino, nascer homem e assim o ser.
Agora imagine você eleger entre todas as outras, uma para concentrar todo seu ódio, não seria meio suspeito você procurar essa “tão detestável”, sempre que houver uma oportunidade, só para dar uma “secadinha”, às vezes de 90 minutos, isso quando não há acréscimos, e quanto as suas emoções exaltadas a cada lance da “odiada”!?
Cá entre nós, isso não deixaria, assim, um clima meio estranho entre você e sua companheira?
Pois bem, torcedor de futebol, palmeirense como eu, vamos assumir logo nossa paixão corintiana, verdade que desde o dia em que selamos laços com o matrimônio da bola, carregamos duas paixões: uma licita, perfeitamente aceitável nos padrões sociais e outra ilícita, cheia de concupiscências. Se você ainda reluta em aceitar estas verdades, eu já não mais farei segredo, é isso: volte Corinthians, volte para esta casa que também lhe pertence, volte pois lhe esperamos com saudades de triunfar sobre você muitas vezes! E não se ausente por mais tempo, pois sem você a casa fica vazia. Quanto ao nosso irmão caçula, São Paulo, ele é esforçado, tem alcançado grandes feitos, mas no máximo nos desperta uma “invejazinha”, sentimento pouco carregado para os apaixonados da bola; na família de Adão, no máximo chega a ser o Sete, mas apesar de seus grandes feitos, quem é Sete para roubar a cena na história de Caim e Abel?
*
Obs.: Esta foi minha primeira publicação em uma coluna de um jornal, por isso a postei aqui como texto inaugural de meu blog. A paixão por futebol é algo intrínseco de meu ser, porém possuo diversas paixões.
Obs. II: Mais uma coisa: sou palmeirense desde sempre.

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