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KB - LUCKY STRIKE - OS FAMÉLICOS GALOS INFELIZES

Ele chegou dois dias antes do dia marcado para o encontro. Pensou em tomar um banho, cochilar um pouco e depois rever o seu plano. Fazia muito calor naquela manhã. Faria mais ainda à tarde. Não conseguiu desligar por minuto que fosse. Embora o corpo pedisse por algum descanso, o colchão poeirento e os pernilongos não permitiam. A cama, toda frouxa, balançava muito ao mínimo movimento. Decidiu não vestir-se e descer o colchão ao chão, cobri-lo com a toalha úmida na qual se secou, mas não adiantou. O calor o fazia aquecer a toalha úmida em poucos minutos com sua abundante transpiração e seu pequeno ventilador giratório preso junto à parede da cabeceira da cama produzia mais ruído do que vento.

Irritou-se. Sentou-se nas ripas do estrado descoberto. Pensou em ir à janela fumar um Lucky Strike, mas decidiu não ir. O plano era bem outro. Ficaria incógnito até o dia do encontro. Já havia calculado descer ao refeitório para o café na manhã do dia seguinte e de lá mesmo pediria as refeições pelo telefone do hotel em alguma bodega das proximidades. Deixaria tudo combinado e acertado previamente. Falaria com o magricela da recepção, o cara da cara seca e cheia de bexigas. Daria uma gorjeta ao figura.

Na tevê, apenas o canal religioso e uma infinidade de missas pra tudo que é necessidade, crime, pecado e gosto. Anoiteceu enfumaçando e olhando as paredes brancas e observando a movimentação de suas habitantes dominantes, esguias damas de oito pernas compridas e donas de inúmeras armadilhas engenhosas plantadas em cada canto e orifício do vestíbulo. Rente ao bocal de luz, por exemplo, uma trama de pequenos esqueletos de insetos esgotados até a última gota pendia como um suvenir de numerosas caçadas bem sucedidas.

Apagou a luz, deixou a janela um pouco aberta para que entrasse alguma brisa noturna, porém não adormecia. Parecia impossível. Uma vez tendo em conta vencidas as adversidades animais e climática, quando o sono e o cansaço pareciam principiar pequena vitória, vinha um sobressalto do susto causado pelo estrondo de enormes máquinas ruidosas. O estrepito de pneus gigantes rolando no asfalto, coletivos a cada dez ou quinze minutos, cada vez mais velozes ao cair da noite, sendo que, muitas vezes, vinham até três seguidos, o despertavam a cada breve cerrar de pálpebras.

E umas tantas motos de escapamentos barulhentos urravam rua abaixo conclamando desordem e decretando a impossibilidade da paz. Também carros com sons a todo volume estrondando funks repetitivos como se todos emitissem uma mesma e única música também contribuíam para a desordem sonora e atordoamento dos sentidos.

Mas em um dado momento o transporte público encerrava suas atividades febris e os motoqueiros e motoristas desordeiros encontravam algum bar ou boca de fumo para acalmar a sanha de ver o mundo em chamas de uma vez por todas.

Aí a fauna local ressurgia em seu esplendor noturno. Alguma casa vizinha ao hotel mantinha uma rinha desativada de decrépitos galos no quintal. Eram os galos cantores mais infelizes e melancólicos que ele já havia ouvido na vida. O canto dos galos sucedia-se em diversas lamúrias em direção ao seu quarto, à sua janela, e sempre soava como um lamento de bicho cego e idoso, carcomido por artrite, penitente de dores por todo o corpo, sem galinhas, famélico e sem esperanças. "É um canto de mau agouro", ele pensou.

Havia também uma infinidade de cães e uma imensa variedade de tipos de latidos nas imediações. Hora os bichos latiam em revezamento, outra hora sobrepunham latido a latido com notório esforço dos histéricos menores em suplantar o ladrar dos maiores. Esganiçavam-se os pequenos. “São os mais irritantes em sua mediocridade e ignorância da própria insignificância”, pensou ele; “todos muito histéricos e imbecis”, completou. Latiam para todo e qualquer maloqueiro que se perdia para cima ou para baixo da rua. Latiam uns para os outros. Latiam por ruídos que o ouvido humano não capta. Latiam para espectros que o olho humano não vê. Latiam por tédio. Latiam por ira. Latiam por mágoa. Latiam por solidão e desespero.

“Pena que só tenho facas e não tenho uma arma para abrir fogo contra esses malditos cães em suas respectivas casas”, concentrou-se no canto triste dos galos até amanhecer insone.

Comentários

  1. Que texto! rsrs
    O começo lembrou a casa da minha avó.
    Ela mora de frente para uma avenida e você só imagina os barulhos...
    Sem contar que quando a gente dorme, o vizinho do lado começa uma barulhada que dá vontade de ter uma arma.... haha
    Obrigada pelo carinho em meu blog, o Samuel é muito querido mesmo. ^^
    Beijos. ♥

    Diário da Lady

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito legal! É ótimo quando rola alguma identificação! Obrigado por sua atenção, Lady! Um abraço!

      Excluir
  2. Olá ! Jeferson..

    homen abençoado.parabéns
    seu espaço é muito bom gosto de ler.
    te seguindo espero que aprove-me para
    retornar mais vezes....
    é muito bom ter família, esposa,amigos que
    apoia....continue...bom inicio de semana

    abraços.

    ResponderExcluir

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