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GENYSIS – O PAI DO CHICO

“Ela disse que é pro senhor entrar” indo à frente, adentrando e seguindo pela casa, falou a cuidadora ao visitante, que respondeu com um gesto positivo de cabeça e seguindo após a mulher.

Havia no corredor, inundado por uma fina nevoa de luz solar salpicada de filamentos de poeira, um grande retrato em preto e branco de uma moça em traje de festa e com um largo sorriso de graúdos dentes de perolas. Ainda no corredor, seguindo à direita do visitante, à porta de entrada do vestíbulo onde a anciã o aguardava, havia uma cômoda repleta de relíquias, imagens de santos, bibelôs e porta retratos.

“Parece que ela está dormindo. Mas o senhor pode falar com ela. Se ela não acordar, o senhor terá que voltar outra hora” explicou a mulher.

“Dona Eulália, bom dia! A senhora está me ouvindo?” “Perfeitamente, meu caro. Mas quem é senhor?” “Sou o escrevente que a senhora pediu para que chamassem.” “Sim. Claro! Seja bem vindo! Qual o seu nome, meu filho?” “José.” “José?” “José.” “Ah, José!..., o senhor não sabe o quanto minha vida tem sido difícil...; mas isso não vem ao caso. O senhor trouxe papel e caneta para anotar o que vou lhe ditar? Ah, o senhor tem um desses aparelhinhos modernos de escrever!, hein, um computador! Tem certeza de que não perderá aí o que vou lhe contar?” “Fique tranqüila. Saindo daqui imprimirei tudo em bom papel. É que neste aparelho eu escrevo mais rápido. Estou muito acostumado e ele oferece algumas facilidades.”

 “O senhor viu aquela moça do retrato no corredor? É minha filha... Bonita, não? E é muito erudita, formou-se em História; é doutora em História! Saiu de casa muito cedo, pra ir à universidade. O pai não queria que ela fosse embora pra estudar não. Dizia que ela tinha tudo aqui e poderia ser professora como eu, dar aula nos mesmos colégios. Mas ela não quis saber. Precisou que ele assinasse uns papeis pra ela ir morar fora, quando ainda era menor de idade; o pai foi obrigado a assinar, muito contragosto. Não queria contrariá-la. Quando ela encasquetava com alguma coisa, o senhor precisava ver!, ninguém a demovia da intenção... Foi estudar na universidade onde o pai do Chico Buarque era o reitor. Ele a adorava!”

A cuidadora, que o tempo inteiro permanecia ao lado de ambos, disse em voz baixa ao visitante, para que a patroa não ouvisse: “Nem tudo que ela fala é lá muito confiável; dá umas variadas, coitada! Muita coisa é fantasia da cabecinha dela, mas outras não; isso é o Alzheimer, doença mais triste!”

Comentários

  1. Me envolveu pela narrativa e surpreendeu pela precisão do problema. Uma doença que só quem convive com as vítimas da mesma pode descrever. Afasta o sujeito da consciência de si e do outro. Lamentável.

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  2. Também sou cuidadora de um doente de Alzheimer, sei como é triste. Gostei de ler. Grata pela partilha.

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    Respostas
    1. Muito bom! Obrigado por compartilhar aqui, Arlete! Tudo de bom! Beijo!

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  3. Oiiii retribuindo a visita rsrsrs
    Gostei muito do texto, esperando os próximos capítulos.
    Beijoooos ate a próxima.

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  4. Jeferson,

    Excelente texto, material, narrativa perfeita!

    Ganhou uma fã!!!

    Grande abraço!
    Maíra

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  5. Muito bom o seu blog Jefferson. Bons textos. Parabéns.

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  6. Gostei muito do seu texto! Vou ler os outros.. Grande abraço e parabéns!

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    Respostas
    1. Leia tudo, tudo, tudo [sorrio] São mais de 300 º~º Beijo, Ana Laura!

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  7. Adorei, ganhou uma nova leitora!

    Abraços, sucesso!

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  8. Gostei do seu blog, virei leitora, beijos !

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  9. Vim retribuir a visitinha e me deparo com essa história fantástica, já estou seguindo, um super abraço.
    Carla Fabieene "Minhas Paixões Futilidades"

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  10. Olá,

    Impresionante entrada....gostei....

    Beijos,
    Lany

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