
Já era noite quando os religiosos foram acolhidos à porta do hospital por Dr. João Jivago e pela enfermeira, Adelaide da Piedade, mais a equipe de enfermagem.
Imediatamente a chefe de enfermagem os conduziu ao quarto da enfermaria destinado aos “contaminados” pelo forasteiro.
Gementes e delirantes, nos corredores nada que diziam fazia algum sentido, mas quem perambulava por ali e ouvia os balbucios dos moribundos religiosos jurava ter ouvido coisas horripilantes.
Foram introduzidos no quarto que já estava lotado; ali dividiram espaço com cabo Antão e sua tropa, que já se encontravam internados, e além destes contaram com a companhia do também “enfermo”, delegado aposentado, Dr. Florisvaldo Bonaparte, cujo qual, na ocasião da entrada do “mendigo” na cidade, havia travado um breve contato com o forasteiro; tendo se aproximado e dito que seu município não era um bom lugar para vadiagem, ao que o “mendigo” teria permanecido calado e indiferente.
Logo após esta passagem curiosamente o delegado começou a apresentar fortes dores abdominais, ao que, a bem da verdade, já era habituado, pois tinha constipações intestinais que duravam às vezes uma semana, mas naquela ocasião a constipação veio acompanhada por febre, náuseas e uma flatulência de odor insuportável; algo semelhante ao cheiro exalado pelo forasteiro fétido.
E fora por este motivo que o ex-delegado fora internado. Logo estava melhor. Os médicos insistiram para que Dr. Bonaparte aceitasse a alta, mas o homem se recusava, argumentava que estava mais seguro no hospital, pois temia uma recaída, ao que achava que poderia ser fatal. Assim o homem ia ficando e se irritava grandemente se os médicos insinuavam ser mais que tempo para alta; estes, cautelosos, evitavam o embate.
Cabo Antão é que não estava nada bem. Catatônico, permanecia imóvel; não falava uma palavra, não emitia qualquer som que fosse; ardia em febre, mas sequer gemia.
Dr. Ernesto Guerra e Dr. João Jivago vinham muito atenciosos, se revezavam nas visitas e cuidados com os doentes. Examinavam a todos, tomavam notas, levavam informações a quem buscasse saber, evoluíam suas condutas; mas ao chegar ao cabo Antão faziam ares de lamentação, não dispunham de muitos recursos para aquele caso, então saiam silenciosos, cabisbaixos.
Porém, mesmo nestas ocasiões após visitarem o cabo Antão, antes de deixarem o quarto, a cada visita que realizavam eram obrigados a prestar um relatório completo, minucioso ao inquiridor delegado.
O homem, a despeito de sua avançada idade, pouca estatura, físico delgado, era realmente enérgico. Mesmo durante a enfermidade interrogava a cada pessoa que ali entrasse, fosse o doente colega de quarto, médico, funcionário ou visitante; para ele, todo civil lhe era seu subordinado. Além de interrogar não se acanhava, apesar da bata cedida pelo hospital, a qual expunha as nádegas de quem a trajava, em dar ordens; dizia que fazia aquele exercício para não perder o hábito, e que era a sua maneira de contribuir para manter a ordem do local.
Logo que os religiosos chegaram ao quarto o delegado saltou do leito e indicou as camas em que os homens de Deus deveriam ser colocados. Os auxiliares de enfermagem fizeram cara de desagrado, porém acabaram acatando mais aquela ordem.
Delegado Bonaparte frustrou-se grandemente ao ver que os religiosos não apresentavam condições de atender aos “interrogatórios”. Perguntou o que pôde aos auxiliares, porém estes já haviam sido orientados pelos médicos a não dar muita trela à autoridade, pois tinham muitas tarefas de primeira ordem para lhes tomar o tempo por demais escasso e o delegado inquiria demais. Sem dúvida que o delegado ficara desgostoso, e muito, ao não obter informações sobre o caso, tratava então de ocupar-se dos outros enfermos.
Por diversas vezes naquela noite o delegado dava ordens aos soldados para que verificassem qual era o estado de consciência dos religiosos, a fim de interrogá-los a cerca dos fatos ocorridos na praça. Dava ordens também aos mesmos para que mudassem a posição de cabo Antão no leito dizendo:
_Virem este soldado para o outro lado, uma vez que se encontra imóvel é eminente o risco de desenvolver as temidas feridas por compressão, as tais escaras, estes buracos onde se escondem as vis bactérias devoradoras de carnes.
Se acaso o soldado não apresentasse condições de desempenhar a ordem proferida a autoridade se irritava, puxava a campainha de chamado para a enfermagem e repetia a ordem à enfermeira que chegasse em um tom mais elevado; ao ver sua ordem ser executada regozijava-se grandemente de satisfação.
Aquela noite transcorreu quente, sombria e mórbida. Pela manhã, a notícia do agravamento do estado de saúde de ambos os religiosos fora mais um peso para a já combalida cidade.
Lado a lado, cada qual gemendo suas lamentações, confissões e delírios, ambos os homens de fé sucumbiam àquele terrível mal, que pouco a pouco ia ceifando um grande numero de vidas preciosas, deixando no ar o terror aderido ao odor e a fumaça.
Imediatamente a chefe de enfermagem os conduziu ao quarto da enfermaria destinado aos “contaminados” pelo forasteiro.
Gementes e delirantes, nos corredores nada que diziam fazia algum sentido, mas quem perambulava por ali e ouvia os balbucios dos moribundos religiosos jurava ter ouvido coisas horripilantes.
Foram introduzidos no quarto que já estava lotado; ali dividiram espaço com cabo Antão e sua tropa, que já se encontravam internados, e além destes contaram com a companhia do também “enfermo”, delegado aposentado, Dr. Florisvaldo Bonaparte, cujo qual, na ocasião da entrada do “mendigo” na cidade, havia travado um breve contato com o forasteiro; tendo se aproximado e dito que seu município não era um bom lugar para vadiagem, ao que o “mendigo” teria permanecido calado e indiferente.
Logo após esta passagem curiosamente o delegado começou a apresentar fortes dores abdominais, ao que, a bem da verdade, já era habituado, pois tinha constipações intestinais que duravam às vezes uma semana, mas naquela ocasião a constipação veio acompanhada por febre, náuseas e uma flatulência de odor insuportável; algo semelhante ao cheiro exalado pelo forasteiro fétido.
E fora por este motivo que o ex-delegado fora internado. Logo estava melhor. Os médicos insistiram para que Dr. Bonaparte aceitasse a alta, mas o homem se recusava, argumentava que estava mais seguro no hospital, pois temia uma recaída, ao que achava que poderia ser fatal. Assim o homem ia ficando e se irritava grandemente se os médicos insinuavam ser mais que tempo para alta; estes, cautelosos, evitavam o embate.
Cabo Antão é que não estava nada bem. Catatônico, permanecia imóvel; não falava uma palavra, não emitia qualquer som que fosse; ardia em febre, mas sequer gemia.
Dr. Ernesto Guerra e Dr. João Jivago vinham muito atenciosos, se revezavam nas visitas e cuidados com os doentes. Examinavam a todos, tomavam notas, levavam informações a quem buscasse saber, evoluíam suas condutas; mas ao chegar ao cabo Antão faziam ares de lamentação, não dispunham de muitos recursos para aquele caso, então saiam silenciosos, cabisbaixos.
Porém, mesmo nestas ocasiões após visitarem o cabo Antão, antes de deixarem o quarto, a cada visita que realizavam eram obrigados a prestar um relatório completo, minucioso ao inquiridor delegado.
O homem, a despeito de sua avançada idade, pouca estatura, físico delgado, era realmente enérgico. Mesmo durante a enfermidade interrogava a cada pessoa que ali entrasse, fosse o doente colega de quarto, médico, funcionário ou visitante; para ele, todo civil lhe era seu subordinado. Além de interrogar não se acanhava, apesar da bata cedida pelo hospital, a qual expunha as nádegas de quem a trajava, em dar ordens; dizia que fazia aquele exercício para não perder o hábito, e que era a sua maneira de contribuir para manter a ordem do local.
Logo que os religiosos chegaram ao quarto o delegado saltou do leito e indicou as camas em que os homens de Deus deveriam ser colocados. Os auxiliares de enfermagem fizeram cara de desagrado, porém acabaram acatando mais aquela ordem.
Delegado Bonaparte frustrou-se grandemente ao ver que os religiosos não apresentavam condições de atender aos “interrogatórios”. Perguntou o que pôde aos auxiliares, porém estes já haviam sido orientados pelos médicos a não dar muita trela à autoridade, pois tinham muitas tarefas de primeira ordem para lhes tomar o tempo por demais escasso e o delegado inquiria demais. Sem dúvida que o delegado ficara desgostoso, e muito, ao não obter informações sobre o caso, tratava então de ocupar-se dos outros enfermos.
Por diversas vezes naquela noite o delegado dava ordens aos soldados para que verificassem qual era o estado de consciência dos religiosos, a fim de interrogá-los a cerca dos fatos ocorridos na praça. Dava ordens também aos mesmos para que mudassem a posição de cabo Antão no leito dizendo:
_Virem este soldado para o outro lado, uma vez que se encontra imóvel é eminente o risco de desenvolver as temidas feridas por compressão, as tais escaras, estes buracos onde se escondem as vis bactérias devoradoras de carnes.
Se acaso o soldado não apresentasse condições de desempenhar a ordem proferida a autoridade se irritava, puxava a campainha de chamado para a enfermagem e repetia a ordem à enfermeira que chegasse em um tom mais elevado; ao ver sua ordem ser executada regozijava-se grandemente de satisfação.
Aquela noite transcorreu quente, sombria e mórbida. Pela manhã, a notícia do agravamento do estado de saúde de ambos os religiosos fora mais um peso para a já combalida cidade.
Lado a lado, cada qual gemendo suas lamentações, confissões e delírios, ambos os homens de fé sucumbiam àquele terrível mal, que pouco a pouco ia ceifando um grande numero de vidas preciosas, deixando no ar o terror aderido ao odor e a fumaça.
Ei! viajei com o texto....MUITO bom!
ResponderExcluir;)
Obrigado, Piolha! Volte sempre.
ResponderExcluirAbraço: Jefhcardoso.