Pular para o conteúdo principal

CARTAS A TAS (55 de 60) - NA TERRA BATIDA DA CADEIA



Ituverava, 18 de outubro de 2009

Cocão, meu velho, o que poucas pessoas sabem é de sua aptidão para o esporte bretão, que arrasta multidões por toda extensão continental de nosso Brasil a fora.

Certo é que, fora um verdadeiro demônio com a bola nos pés, meu amigo. 


Em outra carta, uma de número 19, cheguei a mencionar sua habilidade para conduzir a gorduchinha no campo das memoráveis peladas, velhaco. Sócrates nunca admitiu, mas foi com você que o doutor Magrão aprendeu a valer-se do calcanhar para ludibriar os adversários.


Você, seu matreito, possuía um bom chute de direita, mas era com a perninha esquerda, torta e forrada de densos furúnculos, alguns já adormecidos e outros plenamente ativos, perna forrada de perebas sobre perebas e banhada em pus,  que impunha o mais pleno terror aos goleiros de nossa época. Eles tremiam nas bases com seus potentes chutes a qualquer distância que fosse do gol. Era imprevisível o seu arremate, brejeiro. Com o semblante fechado, a cara contorcida em ódio, a arcada inferior projetada à frente e com os incisivos da base à mostra, punhos serrados, lá vinha o golpe furioso. A bola zunia. Infeliz do goleiro que cometesse a imprudência de interpor-se entre o gol e sua trajetória.


Lembra daquela ocasião em que derrubou o travessão com uma bolada violentíssima, quando jogávamos contra o time do Bicão? O goleiro, Pipão, tem problemas para lembrar fatos mais antigos e até os do dia de hoje. Ficou, por assim dizer, meio desmemoriado, lerdo, aéreo e fora de área, às vezes.


Mas a recordação que ficou mais viva em minha mente foi daquele jogo em que recebíamos o time da Vila São Jorge para disputar um mini torneio que o locutor Argemirão havia organizado para a molecada. As canelinhas finas chispavam umas contra as outras em meio à névoa que se erguia no campão de terra batida da antiga cadeia. Das celas, estendiam-se as mãos dos presidiários, que se divertiam fazendo movimentos a fim de aterrorizar os meninos mais medrosos, como eu, no caso.


A partida caminhava para seu final. Vencíamos por 2X1, resultado que nos tornaria campeões; lembra? O jogo estava muito disputado. O time da vila não parava de dar sufoco. Foi então que o treinador, sr. Diorgenes, chamou-lhe a um canto para conversar. No lance seguinte, já no campo do adversário, você correu para a bola e deu uma bicuda que a lançou para o lado de fora da cadeia; já havíamos usado esta estratégia por diversas vezes como recurso de finalizar a partida enquanto o placar ainda nos fosse favorável.


Você, Cocão, propôs-se a apanhar a bola e saiu em disparada rumo a rua José Sandoval. Apanhou a bola, precipitou-se para dentro de um bueiro e saiu apenas quando lhe avisamos que o time adversário havia desistido de esperar o retorno da única bola do jogo. Isso ocorreu quatro horas depois da sua bicuda. Foste um herói naquele dia como em tantos outros.


Comemoramos à grande. Tomamos muita guaraná maçã com pururuca artificial por conta do treinador sr. Diorgenes, lá na venda do seu Tóti Custório. Bons tempos aqueles! Bela jogada, parceiro!

Comentários

  1. eeee jefersommmmm cumpriu seu sonho..heheheheh mais vc ja ta qze igual a ele....calvo e escritor...hehehhehe abraço

    ResponderExcluir
  2. Heinnnn, amigo, que chic, do lado de uma celebridade... E olha que eu estou falando com o Tas... rsrssrssrsr.... Não, agora é sério, Jeferson, ficou legal a foto, e o blog tá show! Abrassss, me add no msn, depois te passo, ok?! Até mais!!! Wellington (TOM GALEGO)

    ResponderExcluir
  3. Eh Dr Jeferson , foi o presente do dia do Fisioterapeuta!!!! virou celebridade , ou melhor nos contos da vida e tanto no seu trabalho profissional és uma celebridade !!!Adorei a Foto , fiquei feliz por vc e o Blog está de Parabens !!!
    um abraço !!!

    ResponderExcluir
  4. E a Jeferson ficou legal a foto em hehehe agora tem q escrever uns contos pra nos!!! haha abraços

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Comente. É isso que o autor espera de você, leitor.

Postagens mais visitadas deste blog

ARMELAU – O MESTRE TAXIDERMISTA BRANDON

Brandon, escriturário e mestre do ofício da taxidermia, um homem dotado de extrema magreza e aspecto frágil, o qual naturalmente compensava com a cara de ódio como se desse ao mundo o recado de sua real ferocidade, era todo ele uma imensa contradição entre a delgada solidez física e a subjetividade da personalidade inflada. A despeito de sua aparente fragilidade, o homem cria-se uma fera e tentava convencer todos à sua volta do quanto nada significava aquela aparência. Aos finais de semana, ocupava-se em dar trato aos bichos mortos e passear com seu poodle pelo bairro em atitude vigilante. Mantinha também na rede social um grupo no qual se compartilhava toda e qualquer presença e ou atitude suspeita nas imediações. Certa vez, quando Armelau atravessava o portão de sua morada para sair em uma caminhada, o poodle de Brandon invadiu sua garagem. Antes mesmo que o sonâmbulo voltasse o rosto para o interior da área, a fim de ver aonde ia o pequeno invasor, Brandon, sem pedir licença, inv...

Nando Reis - O Show (Eu e Ela)

Se eu não te amasse tanto, seria fácil construir a crônica de um dia ‘comum’ com um algo mais, com um Nando Reis cantando pra gente namorar, mas tudo fica diferente quando a verdade é que, pra você, eu guardei o amor que nunca soube dar; pra você eu guardei o amor que sempre quis mostrar; com você eu sempre quis compartilhar tudo o que sou e, quem foi moleque com Cabeça Dinossauro, gosta do Nando; e o Nando é um cara bem legal, um cara que fala de amor de um jeito diferente do que andavam falando até então. E por falar nisso: _ Por onde andei enquanto você me procurava? Eu e você, juntos; não precisou mais nada; e era para ser apenas mais um dia de muito trabalho, apenas mais um sábado. Foi quando, dentro do hospital, eu soube que o Nando viria à São Joaquim da Barra; vê se pode! É logo ali. (sorrio). Ele foi cantar na Festa da Soja; da soja; vê se pode! É bem ali. (sorrio novamente). Então Pensei: “A vida é mesmo coisa muito frágil, uma bobagem, uma irrelevância e, se eu estiver...

Os Namorados

Direi sobre o que vi e não inventarei nada. São quatorze anos dessa minha jornada como fisioterapeuta. Aprendo muito com todos. A minha profissão oferece isso. Você entra nas casas das pessoas, toma café em suas xícaras, água em seus copos, aplica as técnicas físicas, e ouve os seus desabafos. A doença do homem era grave, muito grave. Era um casal tão bonito aquele! Ele um jovem senhor, ela uma jovem senhora. Filhos em idade pré-universitária, fortes, belos e saudáveis. Ele sempre trabalhou com afinco para oferecer os tais confortos de classe média à sua família. Ela sempre o apoiou e deu suporte para que ele pudesse trabalhar sem preocupar-se com as coisas dos meninos, da casa... Um dia uma dor. Outro dia a mesma dor. Um dia uma consulta, uma batelada de exames, um suspense mórbido que pairava no ar. Dias seguintes, um encaminhamento para um centro especializado em oncologia. Oh, que palavra triste essa! Nada mais seria como fora até então. Vejamos agora o amor de verdade dar mais um ...