Pular para o conteúdo principal

Poesia Para Vida

Poesias Para Vida

A Morte estava em seu imenso jardim a podar algumas roseiras, a aparar alguns arbustos, arrancando alguns matinhos, quando veio o som do autofalante, bem no auto da imensa estufa de jardinagem, a chamar-lhe para o serviço.
Como sempre era urgente, e ela já sabia que aquilo ocorreria, estava de sobre aviso, uma vez que conhecia o momento exato em que um cliente precisaria de seus serviços.
Foi, passou por toda parentela que se encontrava a porta do quarto hospitalar do pobre ancião, colocou-se lado a lado com os que se encontravam junto do velho a beira do leito. Alguns a sentiram romper sua passagem com um calafrio que percorrera num segundo dos pés a cabeça, ou vice versa. Outros dizem ter sentido algo estranho, como um mau presságio ou coisa assim.
O fato é que ela veio; certo que nem antes e nem depois da hora exata marcada no livro da vida; Ao chegar deparou-se com o ancião a lutar intensamente para deixar as dependências da carne, era uma gemência, uma respiração dificílima, já estava fadigado de tanto tentar desgarrar-se da aparência que conhecia; Ao aproximar-se do homem ela lhe trouxe alívio, com imensa experiência, coisa que adquiriu desde o primeiro protozoário que partiu até o prezado momento em que se encontrava ali: Arrancou o pobre de sua carcaça como quem retira uma carta de um envelope, pediu-lhe que aguardasse num canto do quarto e partiu. Retornou para o seu jardim, mas é claro que o sabor daquela manhã já havia mudado devido a interrupção do desfrute, dizia ela em sua intimidade que as manhãs são como o café, se não é tomada toda de uma vez do início ao fim, elas ficam frias e perdem o aroma e o sabor. Pensando dessa maneira, é claro que não era uma senhora muito bem humorada com seu ofício, de bem com a Vida por assim dizer.

Comentários

  1. Já leu "Intermitências da Morte", do Saramago?Essa personificação da morte se parece muito com o que ele faz no livro.Ótimo texto!Gostei da sacada final, que a morte "não é muito de bem com a vida".
    Grande beijo

    ResponderExcluir
  2. Te conheço garota?! Minha irmã querida, eu nunca li Saramago, já passa da hora né!? Obrigado pela visita; e vê se não some, pois muito me honra um comentári de vossa autoria.
    Beijos

    ResponderExcluir
  3. Jeff.
    Sempre venho neste seu espaço para ler algo.( estou economizando na livraria ). Brincadeira..é que sempre encontro algo interessante para ler.
    Sempre me surpreendo com sua escrita.
    Ler sobre a morte não é algo muito agradável..mas vc conseguiu preender atenção e colocar humor no final da estória!!!
    Parabéns mais uma vez!!

    Ma Ferreira

    ResponderExcluir
  4. Bom dia amigo, tenha um excelente feriado!!! Jefh, como sempre, tuas crônicas me fazem "passear" nas páginas do ontem em minha atual existência...Lendo essa lembrei, os tempos em que ainda trabalhava no hospital, lembrei as noites de plantão, as despedidas... mas busquei lembrar mais as chegadas daqueles que retornavam a vida fisica através do nascimento...Procurei registrar a felicidade dos olhos daqueles que ansiosos esperam o novo integrante da família...Foi bom lembrar...obrigada jefh...muita paz!!!

    ResponderExcluir
  5. Muito bom!
    O efeito de gerar um interesse maior ainda de ler mais e mais ao decorrer do "texto" é incrivel!
    Parabens pelas escolhas!
    Otima semana. Abraço

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Comente. É isso que o autor espera de você, leitor.

Postagens mais visitadas deste blog

ARMELAU – O MESTRE TAXIDERMISTA BRANDON

Brandon, escriturário e mestre do ofício da taxidermia, um homem dotado de extrema magreza e aspecto frágil, o qual naturalmente compensava com a cara de ódio como se desse ao mundo o recado de sua real ferocidade, era todo ele uma imensa contradição entre a delgada solidez física e a subjetividade da personalidade inflada. A despeito de sua aparente fragilidade, o homem cria-se uma fera e tentava convencer todos à sua volta do quanto nada significava aquela aparência. Aos finais de semana, ocupava-se em dar trato aos bichos mortos e passear com seu poodle pelo bairro em atitude vigilante. Mantinha também na rede social um grupo no qual se compartilhava toda e qualquer presença e ou atitude suspeita nas imediações. Certa vez, quando Armelau atravessava o portão de sua morada para sair em uma caminhada, o poodle de Brandon invadiu sua garagem. Antes mesmo que o sonâmbulo voltasse o rosto para o interior da área, a fim de ver aonde ia o pequeno invasor, Brandon, sem pedir licença, inv...

Nando Reis - O Show (Eu e Ela)

Se eu não te amasse tanto, seria fácil construir a crônica de um dia ‘comum’ com um algo mais, com um Nando Reis cantando pra gente namorar, mas tudo fica diferente quando a verdade é que, pra você, eu guardei o amor que nunca soube dar; pra você eu guardei o amor que sempre quis mostrar; com você eu sempre quis compartilhar tudo o que sou e, quem foi moleque com Cabeça Dinossauro, gosta do Nando; e o Nando é um cara bem legal, um cara que fala de amor de um jeito diferente do que andavam falando até então. E por falar nisso: _ Por onde andei enquanto você me procurava? Eu e você, juntos; não precisou mais nada; e era para ser apenas mais um dia de muito trabalho, apenas mais um sábado. Foi quando, dentro do hospital, eu soube que o Nando viria à São Joaquim da Barra; vê se pode! É logo ali. (sorrio). Ele foi cantar na Festa da Soja; da soja; vê se pode! É bem ali. (sorrio novamente). Então Pensei: “A vida é mesmo coisa muito frágil, uma bobagem, uma irrelevância e, se eu estiver...

Os Namorados

Direi sobre o que vi e não inventarei nada. São quatorze anos dessa minha jornada como fisioterapeuta. Aprendo muito com todos. A minha profissão oferece isso. Você entra nas casas das pessoas, toma café em suas xícaras, água em seus copos, aplica as técnicas físicas, e ouve os seus desabafos. A doença do homem era grave, muito grave. Era um casal tão bonito aquele! Ele um jovem senhor, ela uma jovem senhora. Filhos em idade pré-universitária, fortes, belos e saudáveis. Ele sempre trabalhou com afinco para oferecer os tais confortos de classe média à sua família. Ela sempre o apoiou e deu suporte para que ele pudesse trabalhar sem preocupar-se com as coisas dos meninos, da casa... Um dia uma dor. Outro dia a mesma dor. Um dia uma consulta, uma batelada de exames, um suspense mórbido que pairava no ar. Dias seguintes, um encaminhamento para um centro especializado em oncologia. Oh, que palavra triste essa! Nada mais seria como fora até então. Vejamos agora o amor de verdade dar mais um ...