Amigos

quarta-feira, dezembro 31, 2014

REVEILLON

Bala que partiu não tem volta. E se ela vai de encontro ao leito venoso do rio da vida que corre rumo ao fim, ai ai ai... Pode imediatamente dar início aos preparativos para a grande convenção final. Compre flores, muitas flores. Se possível, uma coroa com alguns dizeres genéricos bem bonitinhos, sensíveis, comoventes. Peça a um poeta para elaborar um texto bem tocante no sentido da compreensão das almas mais sensíveis. E se não conhecer nenhum poeta disponível, que horror!, mesmo que amador, deixe que o pessoal do marketing se encarregará do conteúdo, eles sempre sabem o que o povo gosta de ler de modo geral, amplo e irrestrito. 

Já decidiu quem é que levará o seu esquife à mansão dos mortos? Veja bem, melhor que seja gente forte e saudável. Já teve infeliz que fez a escolha errada e acabou caindo na própria rua da cova, ao pé do sepulcral. Um vexame total para os amigos, não os tem, sim, mas tem parente, não importa que sejam poucos os tais, parentes e familiares: mãe e irmã, sobrinhos e sobrinhas, primos e primas, cunhado... Só indigentes perdem completamente o contato com as origens aborrecíveis da vida. Mas e o esquife em si será daqueles com ornamentos e em madeira nobre, sim. Não. E quem é que pode nos dias de hoje dar-se a tais luxos. Mas vê lá se não faz muita economia nessa ocasião tão especial da sua história; só se morre uma vez na vida, hein.

A roupa também tem que representar bem. Não importa que nunca tenha usado um traje social em vida; quando se morre, faz figura para quem vier ver, não é a seu gosto que tem que ser, entenda isso logo de uma vez. É uma ocasião muito importante pra você se apresentar daquele jeito jeca que passa todos os dias parecendo que não tem outra troca senão uma bermuda velha e uma camiseta branca toda furada, peças que veste ao rastejar da cama e que pendura na cabeceira ao final de mais um dia modorrento. Ah, e aquele chinelo ridículo, por favor, hein, não vá aparecer dentro do caixão de meias e com aqueles chinelos.

Olha, se começar a feder, não terá como esperar o pessoal que chega naquele vôo do nordeste. Sua tia, a irmã da sua mãe, certamente quererá vir para vê-la. Sim. Vê-la. Pois quem é que perde tempo em vê-lo, novo defunto estraga festas. Não seja sentimentalóide, oras. Elas só se vêm em ocasiões especiais. Virá ela e o filho, aquele barbudo e bem sucedido no ramo da agiotagem, aquele que sempre conta seus sucessos nas aquisições quando aparece a cada década. Verdade é que eles nem deveriam vir. Primeiro, por que perderão o passeio que pagarão ainda durante o ano inteiro. Depois, acabarão deixando todo mundo tenso e envolvidos numa espera inútil, não dará tempo mesmo de verem sua cara, defunto. Passagens aéreas são muito concorridas nesta época do ano por conta das festas; embora nunca tenha andado de avião, você sabe. Terão que arranjar hospedagem, pois o padrão deles não admite improviso em casa de parente. Será mais um constrangimento.

Com a papelada não se preocupe, meu amigo. Aquele seu cunhado que te detesta e vive te criticando pelas costas tomará a frente de tudo só pra poupar sua irmã bonitona da trabalheira burocrática. E ele é bom com essas coisas, não é mesmo. Já trabalhou em cartório e até fez Direito, embora jamais tenha passado no exame da Ordem.

Bem capaz que apareça alguma daquelas mulherezinhas com quem andou se enroscando e chafurdando nos últimos anos. Caso apareça de fato, fará contra ponto à sua esposa, mulher decente, maravilhosa. Uma loba. Continua em plena forma, às portas dos quarenta bem vividos e bem rodados. Mulherão do caramba. Ainda bem que não fez filhos nela. Seria um transtorno pra vida inteira ter que ficar tratando de guarda, visitas, deveres com você, que nunca prestou pra nada que fosse compromisso sério.

E só estou tentando entender como é que você veio parar aqui, em Ilha Comprida, plena noite de ano, só pra ver a queima de fogos. Com tanta Copacabana por aí, e você vem parar justamente aqui, e na quitinete do seu cunhado. Deve ter deixado o lugar um lixo, nojento, seu porco. E depois ainda terão que dar um jeito na pia da cozinha entupida e imunda e naquelas latinhas todas jogadas por toda parte, e até camisinhas você deixou pra fora do cesto do banheiro. Um horror. Sua roupa limpa misturada à roupa suja, e tudo vai de embolada. Nem sei como é que conseguiu se vestir para chegar até a praia. A morena que conheceu no quiosque levará um susto de morte. Ela se arrependerá até o último fio de cabelo crespo da alma por ter aceitado deixar a bandeja pra te acompanhar à beira do mar.

Tem de tudo aqui. É uma tribo contemporânea. A cada ano a repetição só tende a aumentar. Muita gente de branco, garrafas de champanhe barato empunha pelo gargalo e taças em brindes desordenados e tilintares surdos. Cada qual com seu objeto de captar imagem e acessar internet do momento, algo que muito diz sobre a condição social dos felizes fotógrafos da ocasião. Uma molecada de mãos atadas às mãos dos pais. Uma molecada adolescente planejando suas aventuras sexuais pelo calçadão. Gente pulando ondinhas. Oferendas à Iemanjá.

Vai começar a queima dos fogos, o show pirotécnico bancado pela prefeitura municipal de Ilha Comprida – SP. Até que você não ficou mal com esta roupa. Não havia escolha de uma camisa melhor para dar o tom dramático à ocasião, camisa branca. Além do mais, esta camisa combina perfeitamente com a bermuda caqui do ano passado.

Vem a primeira rajada de fogos. O céu fica colorido por inúmeros pontos fugazes, que sedem vez a outros pontos igualmente fugazes, que parecem eclodir de dentro de seus predecessores. É bonito. E com tanta gente se movimentando por toda parte, e gente inebriada pelo espetáculo que ilustra o céu especialmente estrelado na noite da virada, é claro que malandro tentará aproveitar o delírio coletivo pra fazer função e gozar sorte. A mulher não quer largar a bolsa e o malandro já tá muito louco chapado na pedra quente da lata, pra coçar o dedo falta isso aqui, um triz. O marido dá um passo à frente pra tentar desvencilhar a mulher da bolsa ou até mesmo resgatar a bolsa de volta, eu sei lá, eles terão que explicar tudo direitinho ao delegado da 8° DP de polícia, é, lá na delegacia, dentro em poucos minutos.

A segunda bateria de fogos sobrepõe-se a primeira e parece que o melhor ainda estava reservado para compor um espetáculo crescente. No céu, os pontos são brancos, amarelos, verdes e vermelhos. Em sua camisa, infelizmente para alguns poucos, e nem me venha com hipocrisia dizer que estatísticas e noticiários possuem sentimentos, que passo-lhe um esculacho sem o menor cuidado em ofender, logo o borrão carmim estará estampado. E parecerá vivo na manhca crescente e cada vez mais informe. Sentiu queimar as costas como se uma brasa lhe tivesse repousado sobre a pele e o peito foi quem umedeceu, pois varou o projétil. Arfou em busca do ar, que não veio. As forças e o tônus se esvaiam no fluxo da brisa marítima e das brisas mais das ocasiões públicas festivas. Soltou a mão da morena e levou a mão à ferida da saída como que pra conferir o bilhete de partida. Caiu de joelhos de frente pro cargueiro que estava atracado próximo à praia desde o início da semana. 

Tudo culminou naquele desfeche: desde a sua decisão de passar a virada do ano vendo a queima de fogos em Ilha Comprida, até o meliante que achou de aproveitar o ensejo pra angariar algumas bolsas na moral. E não há como retroceder na trajetória certeira. E como já disse, bala que partiu...

segunda-feira, dezembro 08, 2014

ARMELAU – HELLHAISER E OS SETE EURICOS

Naquela manhã chuvosa, as horas não passavam no relógio de parede posto diante da mesa de Armelau, à meia altura. O ponteiro dos segundos era vermelho e o funcionário, dominado por tédio e apatia, achou de acompanhar a passagem do tempo com os olhos fixos no movimento daquela estreita haste hipnótica até completar a hora para o almoço.

Logo perdeu de vista o fundo branco do aparelho e viu a cor escarlate tecer uma fina película opaca, algo feito uma névoa insinuante, que se expandia do centro para as extremidades do objeto e aos poucos tomava a forma de um furo pregueado na parede diante o funcionário bocejante.

Armelau ouviu passos ecoados do corredor. Ajeitou sua postura na cadeira tratando de voltar os olhos imediatamente para a tela do computador, e deitou a mão sobre o mouse, e fingiu ler algo atentamente para não ser surpreendido por algum superior em pleno ócio no ofício.

Era Edmundo Hellraiser, o encarregado de setor, que na verdade não sabia ser Hellraiser, pois seu nome de batismo era Edmundo Ambrósio, a alcunha de Hellraiser fora colocado pelo pessoal do almoxarifado, por motivos especiais e vingativos. Cabe destacar que o almoxarifado da empresa era uma espécie de oficina do Diabo. Ali ficavam os funcionários mais antigos, maldosos e maledicentes do local.

Mas Edmundo bem que merecia o apelido. Vivia reclamando da vida e falando mal dos outros. Estava sempre fritando alguém, e quando não tinha a quem fritar por ali, fritava seu marido a qualquer um que quisesse ouvir. Sim, marido. Não eram oficialmente casados, porém viviam juntos há muitos anos. Ele dizia que o marido era um preguiçoso. E dizia que ele era depressivo, e que nunca havia se recuperado da perda da mãe, e que fora um erro ter se juntado ao cônjuge, e que o sujeito só sabia dormir e jogar videogame... Dizia o tempo todo. Daí a alcunha de Hellraiser, o renascido do inferno. E então o maledicente de todas as gentes entrou pela sala de Armelau e disse que tinha que colocar uma balança para pesar os fardos de papel ao lado da mesa dele.

Assim, de súbito, no meio da manhã... Armelau achou aquilo estranho e preferiu não discutir. Os carregadores de fardos de papel nunca andam sozinhos e aquilo perturbaria sobremodo o ambiente. Seria um abrir e fechar de porta sem fim. Gente conversando sobre coisas que não interessam a ninguém e olhando tudo dentro da sala com olhos curiosos e perscrutadores. Um cheiro de constrangimento pairava no ar. Mas ele consentiu com a cabeça num gesto resignado.

Armelau voltou os olhos para o local onde estaria o relógio e o objeto não guardava de modo algum sua forma original. Apenas o buraco esférico circundado por um halo róseo contrátil e de fendas escarlate pairava molemente na parede diante de sua mesa, à meia altura.

Hellraiser saiu pelo mesmo corredor que o trouxe e retornou antes mesmo que qualquer elemento acusasse a mínima passagem de tempo. O tempo se extinguiu como por um encantamento e Armelau procurava aflito outro relógio ao pé da tela do seu computador. Não havia nada lá. Tateou os bolsos em busca do celular e também não o encontrou. Ficou tenso por não saber que horas era e assim, consequentemente, não poder sair para o almoço.

Novamente ouviu passos em direção à sua sala e viu Hellraiser entrar, mas dessa vez acompanhado de um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete Euricos. Por algum motivo de fundo pessoal o homem queria provar a Armelau que ele não tinha autonomia nenhuma sobre sua sala ou até mesmo sobre si.

Euricos eram auditores e cada qual correspondia a um vício humano. Havia o Eurico Glutão, o Eurico Avaro, o Eurico Luxurioso, o Eurico Iracundo, o Eurico Invejoso, o Eurico Preguiçoso e o Eurico Orgulhoso.

Aquilo já era demais. Aquela gente toda passando pra lá e pra cá era de enlouquecer até mesmo o pacato Armelau. E o homem não aceitou. Levantou-se de sua mesa e gritou furiosamente com uma voz gutural para que Hellraiser e os Euricos sumissem pelo buraco da parede, que naquele momento apresentava o diâmetro de uma roda de carroça.

Os Euricos correram pela porta por onde haviam entrado e Hellraiser ficou vesgo, girou, revirou os olhos e apontou sua língua fina e estreita para fora da boca cada vez mais achatada. Sua cabeça também se achatou. Sua pele passou de rósea à branca e o sujeito estrebuchou em terríveis espasmos lançando os braços à frente e as pernas para os lados. Seus membros se encolhiam e apontava-lhe no prolongamento do cóccix uma pequena calda, que se alongara sobremodo a cada espasmo da criatura. Logo o corpo todo do encarregado de setor retraiu-se e o ser inumano assumiu a forma de um pequeno animal. Caiu no chão e escalou a parede até alcançar o furo.

Armelau estava aterrorizado e tentou fugir de sua própria sala. Esbarrou no copo plástico de café, que banhou sua perna manchando a calça. Sentiu o calor na virilha e tentou abanar-se. Ao retornar os olhos na direção da criatura metamorfoseada, viu apenas uma pequena lagartixa plantada ao lado do relógio de parede. Era meio dia e meia, hora de partir para o almoço.

domingo, outubro 12, 2014

NORMANDO, O PARANORMAL












NORMANDO, O PARANORMAL





Para Normando, o mundo das coisas visíveis era simplesmente o esconderijo das coisas invisíveis.

Numa noite tumultuosa e tempestiva, uma em que os ventos balouçavam furiosamente as janelas e deitavam as copas das velhas árvores quebrando galhos e guinchando assovios infernalmente agudos, Normando acordou ao sentir um repelão no pé esquerdo, que pendia para fora dos limites do colchão durante a agitação causada por um horrível pesadelo.

Levemente angustiado, Normando sentou-se à beira do leito, olhou no relógio de cabeceira, que marcava 03h33min, sentiu o corpo todo dorido e ainda com a impressão de ossudas e nodosas garras em torno de seu tornozelo, ainda meio besta sob a sedação do sono, sentou-se à beira da cama e procurou por suas pantufas tateando com as plantas dos pés. Primeiro, na lateral da mesma por sobre o tapete branco encardido de tricô, depois, embaixo da mesma. As pantufas haviam desaparecido mais uma vez. Lamentou o fato recorrente e foi mesmo descalço até a cozinha para tomar um copo de água fresca, não gelada; Normando sempre detestou água gelada e com gosto de geladeira. Se alguém quisesse agradar Normando, que não lhe oferecesse água gelada em momento algum. Mais do que tomar água, Normando precisava ir ao banheiro. Tinha a bexiga preenchida até a uretra. No entanto não sentia presença de coragem e ou disposição para pisar no úmido chão do banheiro com os pés descalços. Decidiu que iria até a escura lavanderia em busca de algum outro calçado.

Abriu a porta rangente da lavanderia, procurou o interruptor da luz, porém encontrou apenas uma superfície peluda sobre o que seria o interruptor. Retirou rapidamente a mão do local e trouxe-a para junto de si, rente ao peito. Respirou fundo, mentalizou uma oração e tentou novamente a ação. Desta vez encontrou lá o interruptor e acendeu a luz, que pouco iluminava. Havia uma pequena prateleira ao canto da parede posterior do cubículo. Encontrou um par de velhos chinelos e inclinou-se para apanhá-lo. No canto posterior do cubículo, à esquerda do batente de entrada, uma mulher arquejada chorava copiosamente enquanto desprendia de seu corpo chamuscado uma odorífera fumaça fina. Normando, lívido e gélido, achou melhor ignorar a triste figura da lavanderia. Passou rente à figura desconsolada e sequer se lembrou de apagar a luz. Fechou a porta e quase estatelou ao ouvir os terríveis gritos vindos lá de dentro. Uma mistura entre “minhas carnes ardem em brasas!” e “apague esta maldita luz, seu miserável!”. Normando abriu a porta apenas o suficiente para que sua mão alcançasse o interruptor e apagasse a luz. Fechou a porta. Respirou fundo. Seguiu orando.

Tudo ficou silencioso e o homem pode finalmente ir ao banheiro aliviar-se da pressão hidrostática que ameaçava romper com sua bexiga. Levou a mão à maçaneta e tentou abrir a porta do banheiro, porém deveria estar emperrada, pois parecia fechada por dentro, o que seria impossível, uma vez que estava só em casa.
Tentou mais uma vez com um movimento um pouco mais vigoroso. Novamente não obteve sucesso. Levou as mãos à fronte, curvou a cabeça e viu a porta abrir-se espontaneamente. Antes de tentar entrar, espiou pela fresta produzida pela abertura e viu uma mulher sentada ao vaso. A mulher era loira, aparentava pouco mais de vinte anos, usava um longo e alvo vestido de noiva e trazia um buquê nas mãos e chorava olhando para a parede diante de si.

Normando desistiu de usar o banheiro e foi pelo corredor até o quarto, abriu a porta que dava para o quintal e decidiu aliviar-se ao pé da figueira centenária, sob a sombra da retorcida copa em noite de luar. Ratazana surgiu através das sombras do corredor, lépida e faceira, abanando o rabo e ansiosa por cheirar primeiro os pés e depois o dejeto fluído expelido pelo rapaz. Ao iniciar o fluxo, o rapaz suspirou com o alívio do desaperto. Porém, antes mesmo de terminar o esvaziamento, foi alvejado por um forte golpe na face. Era um morcego que havia se chocado contra seu rosto. O animal, após o forte impacto, o qual produziu um hematoma na parte inferior da órbita direita de Normando, passou a rastejar pelo chão como que ferido gravemente em suas capacidades sensoriais e motoras. E sangrava profusamente o bicho. Já Normando não sofreu nenhum dano mais grave. Ficou apenas com o rosto intumescido.





NORMANDO - CABEÇA, CORPO E DICOTOMIA



Normando decidiu que era tempo de desfrutar um pouco o ar puro do campo, aliviar o stress da cidade e esquecer por algum tempo os fantasmas de sua casa. A família possuía uma pequena propriedade herdada de um tio avô, solteirão e suicida, situada entre densos e extensos canaviais.  Seria o lugar ideal para tomar um fôlego, sorver da atmosfera livre que há nos lugares mais bucólicos e receber uma porção da paz sertaneja.

Veio mais um dos inúmeros dias nos quais amanhecera insone, e então decidiu partir antes mesmo de clarear. Quase atropelou uma mulher e uma criança vestidas de branco e que vagavam pela pista. Na verdade só não atropelou porque os atravessou. Um efeito parecido com o que ocorre quando passamos por densa neblina ou uma cortina de fumaça. Embora as figuras fossem perfeitamente nítidas por de trás do pára brisa; contudo eram apenas tristes espectros.

Quando Normando finalmente avistou a propriedade ao pé da estreita e inclinada estrada de chão, o sol já flamejava. Fazia tanto tempo que não ia ao local, que fez um intenso exercício de memória para encontrar a familiaridade adormecida em algum sótão de sua mente de todos aqueles detalhes: a figueira disforme na frente do terreiro, a casinha e o telhado do alpendre mal sustentado por um caibro carcomido por cupins, o fusca azul abandonado debaixo da jabuticabeira e as galinhas empoleiradas sobre o capô e a capota do veículo.

No quintal da casa, havia um homem cortando lenha à vigorosas machadadas. Porém o homem não estava lá por completo. Ao menos sua cabeça não estava atada ao corpo pelas vértebras cervicais na base do crânio conforme o convencional. Era um homem incompleto no sentido mais próprio e amplo da palavra. Ia apenas com o corpo até o ápice do pescoço. Porém, muito limpo, não se via nele o menor vestígio de sangue extravasado. Era, por assim dizer, um ser perfeitamente ajustado e saudável, á sua maneira incomum. Mas a cabeça do homem é que era o grande enigma da incomum situação. Onde afinal andaria uma cabeça desprovida de um corpo apto à sua locomoção era intrigante o bastante para corroer as entranhas de toda e qualquer alma, ainda que não fosse das mais curiosas.

O corpo sem cabeça cortava um toco, deitava o cabo do machado sobre o ombro e seguia a passos indecisos, tateando o solo em seu redor na busca de mais alguma acha de lenha. Era aflitivo perceber que durante algum tempo fugia-lhe completamente a mínima noção da próxima ação a ser executada. Estacava. Girava o braço livre do machado volvendo a parte anterior do tórax como se procurasse por algo que esquecera. Certamente se apercebera da falta da cabeça, que havia ficado alguns metros atrás. Aquilo incomodava a quem visse. Um corpo sem cabeça e indo em frente e indeciso, coisa mais horrível. Mas é o que acontecia. Era um homem sem cabeça e uma cabeça certamente perdida por aí sem um corpo. Cada qual em um ponto distinto.

Claro que o corpo, como sendo provido de suas pernas, levava certa vantagem sobre a cabeça sem membros. Mais tarde e com um pouco mais de observação, ficou claro como funcionava a sociedade dicotômica daquelas personagens surpreendentes: a cabeça era depositada sobre alguma pedra ou qualquer outra superfície plana e ficava ali parada, esquecida no tempo, mergulhada em suas próprias ideias, contemplativa, filosofando, achando certa graça ou falta de graça em tudo a seu redor. A cabeça sempre se aborrecia das ações inopinadamente tomadas pelo corpo. No entanto o que mais a incomodava, chegando até mesmo a enfurecê-la, eram os ataques das formigas cabeçudas. Considerava aquilo, além de doloroso, humilhante.  Punha-se aos gritos pelo corpo surdo que, de algum modo sensorial ou extra sensorial, sempre pressentia a cabeça em apuros.

Normando nem bem consentira da existência daquela dicotomia e já era assaltado pela figura que surgia subindo pela estreita estrada de chão. Um homem de paletó preto, monóculo e chapéu, e barba longa, e bigode com guias elevadas e curvas. Conversava sozinho e disse que tinha apenas 32 anos e que já era tido como um sábio, embora fosse apenas lido e curioso. Disse, bem lá atrás, e seguiu caminho. Encontrou o corpo solitário em nova tarefa diferente do manuseio da lenha. Ele roçava um pedaço de terra e arrancava do chão algumas ramas de mandioca. Aquilo era um sinal de que o corpo certamente sentia fome.

O homem estacou (sim, novamente o termo “estacou”, pois sempre prefiro esta palavra à palavra “parou”; parece algo mais correto e relevante), digo o tal tido como sábio, estacou diante do corpo e fez um cumprimento com o chapéu; algo que lembrou uma leve reverência. O corpo sequer dignou-se a interromper sua faina. Tinha muita fome. Normando retribuiu ao cumprimento.

Civilizados por civilizados, cada qual age conforme ache conveniente. Mas o corpo não era de todo néscio. Seguia seus instintos básicos de sobrevivência e aquilo não deixava de ser, de certa forma, um modo inteligente de garantir a existência; ou seja, uma forma ainda que rudimentar e primitiva.

Dado certo momento, não sem ser alvo da perplexidade do sujeito tido como sábio, o corpo interrompeu a colheita da mandioca, enxugou o suor do pescoço e seguiu pelo caminho que ainda tinha sobre sua superfície poeirenta as pegadas frescas do suposto sábio precoce.

Passados poucos minutos, tempo suficiente apenas para sumir da vista do visitante e ressurgir, vinha subindo o estreito caminho de terra batida o corpo com a cabeça debaixo do braço. Buscou então a sombra de uma figueira e sobre o côncavo de uma das maiores ramas das grandes raízes da árvore, à sombra, depositou sua companheira pensante.

Era uma bela cabeça. Tinha o porte de uma abóbora moranga média madura e a forma de uma pequena e jovem jaca. Eu diria não ter nem mais nem menos do que 40 anos de vida. Era um tanto quanto calva. Na face, trazia uma barba principiada a grisalha, contudo sobre a cabeça os brancos fossem ainda bem raros.

A cabeça não tinha a mesma ausência de modos do corpo. Era polida em seus modos. E tão logo avistou o visitante e Normando, os saudou com um sonoro e firme “Boa tarde, senhores!”, ao que o visitante, seguido pelo paranormal, retribui numa mistura de perplexidade e respeito. Naquela tarde de sábado, era a primeira vez que o homem tido como sábio tinha consciência de estar diante da dicotomia entre corpo e cabeça. Uma experiência nova e aparentemente rara para ele. Já para Normando a coisa não surpreendia muito.

quinta-feira, setembro 25, 2014

QUEM TEM TATUAGEM É SUSPEITO DE ARRUAÇA E LIBERTINAGENS

Um parafuso saindo de um casulo, como se fosse um bicho da seda, porém não. Um parafuso. Sim. A criatura metamorfoseada sobre a escápula do rapaz era a peça usada para prender partes em partes e nada tinha da sutileza de uma transformação biológica. Uma das tatuagens mais enigmáticas que já avistei.

O leitor que por acaso vá correndo os olhos descontraídos por sua linha do tempo e se depare com meu título acima certamente será tomado dos pés à cabeça por um brusco sobressalto, um repelão, um solavanco. Afinal, quem na atualidade é capaz de ignorar que a tatuagem deixou de ser um estigma dos tempos passados para passar à modinha da ocasião? Atualmente, conforme já disse em outro texto, quem não possui nenhuma tatuagem é que é diferente, por assim dizer.

Mas a coisa não funciona bem assim em todos os ermos situados abaixo da linha do equador. Há ainda os nascidos pouco antes ou pouco depois da segunda metade do século que expirou e que fazem questão de evitar papo com pessoas que exponham as marcas artificiais impressas na pele e pagas em diversas parcelas no cartão de crédito.

Em lugares aonde o tórax vai nu e apenas a parte debaixo da vestimenta é de uso obrigatório, lugares como saunas, por exemplo, não há como os tatuados omitirem do seu dorso, dos membros ou do pescoço suas marcas encomendadas.

Arrependidos ou satisfeitos são obrigados a exibir seus tribais, suas caveiras mexicanas, seus nomes de familiares, parentes e amigos, suas rosas dentadas e serpentes coloridas, seus beija-flores e aranhas, golfinhos e distintivos de clubes, e coisas indefiníveis, e coisas indecifráveis, e outras coisas indizíveis até.

Aos olhos do bom ancião conservador, aquele pobre sujeito marcado por vontade própria não merece confiança alguma. Como não podem impedi-lo de entrar nos lugares públicos, esperam que ao menos eles, os próprios tatuados, tenham a consciência e o bom siso de não tentar ingresso nos assuntos que circulam nas rodas de conversa das gentes de bem. Deveriam antes permanecer mudos e arrependidos, reflexivos.

Mas eu presenciei o conflito moral e agora posso tentar trazê-lo à luz (ou treva) da rede social. Ocorreu numa manhã de sábado, no salão de estética. O ancião fazia uma limpeza de pele, enquanto o rapaz tatuado fazia uma vigorosa esfoliação geral deixando à mostra suas costas com o tal parafuso recém saído do casulo.

Naquela ocasião, havia outros dois clientes no mesmo horário. Cada qual travava um assunto. Todos seguiam animados em uma conversa comum. O tatuado bem que tentava se entrosar, porém, toda vez que tomava a palavra, a conversa morria subitamente e os demais clientes apenas entreolhavam-se em uma concordância plena e silenciosa de censura.

E não era porque o tatuado se saísse mal na conversação não. Falavam de carro, conhecia até os motores. Falavam de pessoas, conhecia todas. Falavam de pescaria, conhecia os rios, peixes e lugares. Mas aquela tatuagem... Aquilo incomodava. Na visão do ancião, aquilo, além de ser uma marca grotesca, era também uma criatura repulsiva. A tatuagem e o rapaz compunham uma simbiose, e que deveria ficar em silêncio.

domingo, setembro 14, 2014

CASO SEJA ELEITO

Parecia o anúncio de um grande espetáculo circense, mas não era. Um cordão composto por carros estampados com legendas, cores e rostos sorridentes. Como sorriem esses homens! A vida é bela, Benigni! Carros de som estrondam o cancioneiro da moda com paródias que superam o horror do mau gosto das canções originais de apenas um refrão e uma onomatopéia. Caminhões e caminhonetes densamente tripulados desfilam em um contínuo teste de paciência dos amortecedores. Pessoas indo a pé, compondo o cortejo, empunham bandeiras com cores uniformes, trajam camisetas impressas com os mesmos rostos sorridentes estampados nos carros e nas bandeiras.

O sol está ardente e a principal avenida da cidade repleta pelas gentes. Transeuntes atordoados e, ao mesmo tempo, curiosos, bem como costuma ser comum nos ermos mais pacatos em circunstâncias normais. O ir e vir de um lado a outro pelas calçadas do comércio do centro da cidade é constante.

A turba tumultuosa chama a atenção pelo alarido que impõe de modo imperioso. Um homem vinha pelo meio da rua transitando no nervo do séquito com os braços erguidos e gesticulando como um maestro regente de toda aquela balburdia insana. O adversário surgia a poucos metros e cumprindo o mesmo trajeto, com um tropel equivalente e algo progressivamente mais barulhento, efeito Doppler, talvez.

Embora se aproximassem bastante as turbas, não se encontrariam jamais. Feito água e óleo que seguem uma substância após a outra por meio de um estreito canal, seguiam-se e repeliam-se, propeliam-se e continham-se, porém, jamais mesclavam suas cores e representações.

Através daquela nefasta folia de candidatos a reis, os postulantes aos cargos públicos digladiavam pelo voto dos populares. Queriam com aquilo provar o merecimento da confiança das gentes e conquistar os acentos nas cobiçadas cadeiras que representam aquele mesmo povo que assisti a tudo com um misto de curiosidade, espanto, indiferença e aborrecimento.

Senhoras passam irritadas e queixosas do barulho inoportuno. Dentro dos estabelecimentos, atendentes e clientes reclamam da dificuldade de comunicação das transações de consumo. O vendedor da loja de calçados diz que aquilo é uma encheção de saco. Um senhor esfaimado pede uma esfirra e um guaraná, porém recebe uma coxinha e uma cerveja. A criança chora assustada e a mãe, irritada, chacoalha a pobre coitada ao invés de afagá-la.

Por outro lado, não obstante, a proposta é de um grande festejo, uma enorme farra democrática. É como se a administração pública brasileira só tivesse o que festejar e o eleitor motivos de sobra para votar cantando e saltitando em seus espetaculares candidatos da vez. Ora, se um pobre diabo entra dançando e cantando para votar, é evidente que será tomado por louco pelos que aguardam pela vez na fila. Porém as gentes que pedem o voto daqueles pobres eleitores nestes exatos e supracitados termos não respondem por loucas jamais e sempre podem recorrer das caluniosas denúncias de improbidade.

Se eu não tivesse já sido inteirado de que a terra é esférica, suspeitaria seriamente de que o mundo está de cabeça para baixo. O bom senso é falta de educação e rabugice. Refugio-me numa loja sob pretexto de comprar um short de corrida. O dono da loja é um velho conhecido meu. Nem bem o cumprimento e já ouço sua queixa do tumulto que passa diante seu estabelecimento. Ele diz que é incrível, mas a cada momento aquela gente eleva mais e mais o som a fim de impor-se mutuamente, e que o ouvido dele não é pinico, e que aquilo é, bem, deixa pra lá, quer saber quanto custa o short?

Deixo o centro, porém o carnaval segue manhã a fora. Enquanto me afasto, vejo gente conhecida e reconhecidamente desprovida de qualquer inclinação política e ou ideologia partidária empunhando uma bandeira a fim de complementar o ordenado. Já dentro do carro, penso que cada um faz o que pode e que o espetáculo não pode parar.

sábado, setembro 06, 2014

CAFÉ, MAGREZA E SUSPEITAS

Agora estou atrasado. Estaria adiantado, não fosse o ladrão ter aparecido. Entraria no banho vinte minutos mais cedo e, por conseguinte, chegaria também vinte minutos antes do horário ao trabalho, o que seria ótimo para organizar algumas pendências.

Mas então o telefone tocou. Atendi. Era Adélia. Dizia que havia um carro prata, muito parecido com o nosso, da mesma marca, porém doutro modelo, estacionado diante de nossa casa e com um sujeito magro e muito esquisito ao volante.

Bem, minha família acabara de deixar nossa casa em nosso carro e retirou o veículo da garagem passando por de trás do veículo suspeito estacionado à entrada. Atualmente não mora ninguém na casa da frente. A casa ao lado, a da esquina, faz frente pra rua perpendicular à nossa. As outras casas próximas não são de receber tipos estranhos, ainda mais um sujeito magro que aguarde dentro do carro antes das sete horas da manhã de uma quarta feira útil.

No interior da casa, eu me agito. Os pensamentos aceleram e começam a girar tecendo conjecturas variadas. O café, tomado em jejum, é absorvido pela corrente sanguínea e age como combustível extra ao stress da situação. O pulso ganha velocidade e provoca ardor no coração, progressivamente mais turbulento. As notícias de violências, invasões, assaltos ocorridos em dias comuns de semana, tudo adquiri contorno de real terror.

Pode haver um ladrão sim, bem agora, diante de minha porta, imaginando que a casa tenha ficado desocupada a partir das sete e apenas aguarde o momento exato para saltar do carro e iniciar suas vis ações criminosas. Arrombar a porta e adentrar a casa. Ele não imaginaria haver ali dentro ainda o dono a se preparar para sair uma hora após os demais habitantes do lugar.

Abri a porta da sala e fui até a caixa do correio espiar pela fresta, que oferece uma diminuta faixa de visão da rua.

E vejo. Vejo o carro prata. Dentro, o tal sujeito magro e muito suspeito. Ele veste uma jaqueta preta com detalhes vermelhos; uma muito parecida com a que o Michael Jackson usou no clipe de Thriller, porém com a disposição das cores invertida. Tem um celular na mão. Olha o celular, depois o aperta na palma da mão, olha novamente. Tudo indica uma espera ansiosa.

Estando a três metros de distância, não vejo o seu rosto nitidamente. Meu campo de visão é limitado. Mas também eu não sou visto do lado de fora.

As mãos ossudas, mãos inquietas, nervosas e ansiosas, mãos que suponho sejam de um ladrão prestes a executar um crime. São mãos estranhas demais para um homem honesto. E o sujeito está muito ansioso pra alguém que não fará nada de errado.

Por outro lado, pode ser que ele seja mesmo magro por conta de um metabolismo demasiadamente acelerado e não pela ansiedade crônica que o toma antes de cada crime. Conheço pessoas assim. O pai da amiga de minha filha, por exemplo, é um sujeito magro e come feito um desesperado. No entanto, a esta altura, eu já nem sei de nada. Afinal não são os gordinhos que costumam ser ansiosos e comem desesperadamente para satisfazer a ansiedade, e desenvolvem compulsão alimentar, e adquirem problemas com o peso? E pode ser que ele seja de fato um ansioso de longa data e tenha ingerido muito café antes de sair de casa, agravando assim o quadro. Todos sabem que café em demasia causa agitação.

Mas afinal, o que um sujeito tão magro faz parado diante minha casa num horário em que aparentemente todos saíram para trabalhar? É um ladrão. Só pode ser. Ligarei para a polícia. Ligarei para a polícia, já está resolvido. Pronto.

Outro pensamento chega espavorido. A qualquer momento a Rosalma chegará para passar a roupa e acabará pega pelo bandido, que a fará abrir o portão e entrará em casa com ela feita refém. Preciso ligar imediatamente para Adélia e pedir para que avise a Rosalma para não chegar agora, pois estou chamando a polícia e o sujeito parece extremamente perigoso e determinado. A polícia virá e abordará o cidadão que, vendo-se cercado, não reagirá e permitirá sua revista e a do veículo. Encontrarão a arma do assalto e o pé de cabra do arrombamento. Tudo será resolvido.

Adélia entendeu o recado e se comprometeu em contatar a funcionária e alertá-la para que não se aproxime do local onde o roubo está sendo engendrado por aquele abjeto monstro ansioso e descompensado. Rosalma estava a uma quadra de distância e ficou aflita com o recado, paralisada. Disse que aguardaria nova ligação para saber se já poderia chegar ao trabalho. Quis prender Adélia ao telefone, mas Adélia tinha já cliente e tinha que desligar para continuar o trabalho, mesmo que tensa.

Vou mais uma vez até a caixa do correio e observo o criminoso. Não posso ver de modo algum o seu rosto, mas aquelas mãos... Aquelas mãos não deixam dúvida. Aqueles dedos longos estão se aquecendo para aprontar as piores ações concebíveis por aquela mente doentia. Ele é magro demais para ser honesto e inocente. Mário Prata certamente concordaria comigo e teria absoluta certeza de tratar-se de um ladrão feroz e ainda notaria outros indícios que não alcancei em minhas observações turvas pela adrenalina da situação extrema.

Ligo para a polícia, porém não me identifico. Narro toda a situação e o cabo fala com um soldado enquanto me pergunta sobre a aparência do sujeito e de como ele está vestido. Há um agitamento perceptível do outro lado da linha. O cabo pede para que o soldado deixe o arrombamento para depois e vá primeiro tratar de minha denúncia. Pede pra que eu diga mais uma vez o endereço e confirma que será enviada uma viatura, que por sinal já se encontra nas imediações.

Percebo que minha descrição do que via causou uma reação elevada no policial. Será que o que eu disse confere com a aparência do arrombador que está sendo procurado logo cedo? Será que aquele estado de agitação é normal no policial, que pode ter passado a noite em rondas e ocorrências de seu plantão e que, sob efeito de muito café, já não contêm sua ansiedade por estar muito pilhado?

A polícia não vem logo e decido ir mais uma vez ver se o sujeito desistiu do crime e evadiu-se do local. Porém ele permanece lá, com suas mãos nervosas e agitadas. Os minutos assumem a forma de uma eternidade. Tomo uma arma em punho e decido que haverá luta. Agora sou eu ou ele. Não há como fugir da verdade humana. Somos todos selvagens.

Há barulho na rua. Talvez a polícia o tenha abordado e já o tenha algemado. Vou mais uma vez até a fresta da caixa do correio. O carro ainda está lá. Porém o sujeito deixou o local. Conversa agora com meu vizinho da direita, o que sempre está viajando. No estante seguinte, ambos passam no carro do meu vizinho e o carro do suspeito é deixado diante de minha casa. O mistério parece solucionado. Pelo modo e tempo pelo qual conversaram amigavelmente, trata-se de um conhecido do vizinho.

Agora posso tomar meu banho em paz, mas ainda tenho que ligar avisando para que Adélia avise Rosalma de que está tudo em ordem; também ligo para a polícia e aviso ao cabo que tudo não passou de um mal entendido.

Entro no banho e ouço o abrir do portão. Rosalma já está em casa e iniciou seus trabalhos. Preparo-me para sair. Deixo o quarto e encontro Rosalma na sala, passando as roupas. Pergunto se recebeu o recado e digo que está tudo bem agora. Ela diz que já sabe e que o carro que está lá fora é do filho de uma irmã da igreja.

Parto para o trabalho num passo apressado, já estou atrasado. No meio do caminho, tenho um sobressalto. Afinal, quem é que pode garantir que meu vizinho, Rosalma e o filho da irmã da igreja não fazem parte de uma terrível quadrilha de assaltantes?

quinta-feira, agosto 14, 2014

A CAMINHO DE CAFARNAUM

A ESTALAGEM

 Era uma tarde quente e com um sol de estorricar qualquer cristão desprovido de abrigo sombreado. Lavado em suor, o viajante avistou uma estalagem à beira do caminho e imediatamente rumou para lá. Ao adentrar o estabelecimento, encontrou o estalajadeiro por de trás do balcão longo, alto e espesso, em mogno, fazendo uma refeição com o prato na palma da mão direita e um garfo tortamente empunhado com a esquerda. Era um homem robusto o estalajadeiro, ruivo e dotado de sobrancelhas densas e furiosos olhos verdes.

“Preciso de um aposento, senhor. Estou na estrada há dois dias e careço demais de um bom banho e lençóis limpos sobre uma cama fresca, por favor.”
“O senhor é paulista?”
“Sim.”
“Aceita linguiça?”
“Não, obrigado. Mas se o senhor tiver um aposento, ficarei muito grato. Preciso de um banho, e é urgente!”
“Elga, leve este homem ao 13. Tá limpo lá, menina? O senhor não tem mais bagagens, além dessa mochila? Estranho isso! Tá indo pra onde?”
“Cafarnaum. Passei no concurso público e a vaga saiu pra lá.”
“O que o senhor faz?”
“Sou professor. Dou aula de literatura.”
“Ah, professor... Mas não vai dar certo não, viu? Sua vida não tá dando certo.”
“Como assim?”
“Sua vida, oras. Ela não tá dando certo.”
“Mas o que é isso?! O senhor é vidente por acaso?”
“A coisa é mais séria do que você imagina, meu amigo. Elga, pare de rir menina boba e vá levar este homem ao 13 logo de uma vez. Não vê que o sujeito quer descansar?”
“Por aqui, moço.”

Não tendo outra opção, o viajante acompanhou a moça ao aposento que lhe fora indicado.

“O que você é dele?”
“Sobrinha.”
“Porque tá rindo?”
“Sua cara, moço, o senhor não imagina sua cara quando o tio falou aquelas coisas.”
“O seu tio é mesmo vidente?”
“Não sei. Se é, nunca contou pra ninguém.”
“Mas justo agora ele tinha que dar uma de adivinho?”
“Aqui é o 13, moço.”
“Obrigado! Ah, mais uma coisa: servem jantar aqui?”
“Não. Só café da manhã, a partir das seis. Mas o senhor pode pedir comida pelo telefone. Tem os números dos serviços de entrega sobre o criado.”

Elga era muito alta e tinha o sorriso solto. Seus olhos eram duas pedras opalescentes e sua tez era branca como nuvem e contrastava com o tom de cevada de seus cabelos longos. Ao deixar o viajante diante o apartamento número 13, ela saiu pelo corredor saltitando feito uma grande criança. O hóspede notou cair-lhe um objeto metálico do bolso de trás da calça. Adiantou-se para fazer a cortesia de apanhá-lo para a moça, porém esta imediatamente voltou o passo ao ouvir o tilintar do objeto no solo e dirigiu-se afoita para ele. O viajante pode ver do que se tratava e ficou sobressaltado pelo visto. Achou melhor duvidar de sua visão. Elga tomou o par de algemas prateado e não prestou qualquer indício de satisfação, apenas continuou seu caminho e desapareceu pelo corredor.



BANHO DE FOGO

 O chuveiro era poderoso e esguichava água com alta pressão e grande abundância. Havia dois registros: um seria para água aquecida e o outro para fria. No entanto, o melhor mesmo era manter apenas na modalidade fria, pois ao abrir minimamente o registro de água quente a temperatura da água era tão alta que seria capaz de queimar a pele em um segundo. E queimou. Queimou parte da face e do pescoço no recuo do homem. Ele gritou. Disse um palavrão estendido ao máximo que pode. Ficou irritado e decidiu que reclamaria na recepção. Tomou o telefone e viu que alguém estava na linha antes mesmo de qualquer discagem. E quem estava lá não estava só, conversava.

“Ele é meio aparvalhado. Tem medo de perder o emprego, mas não dá um jeito na vida. Disse pra todo mundo que tá desesperado, mas não muda aquela cara de tonto, aquele jeito sonso, aquela expressão de contínuo sono.”
“E você acha que seu tio o manda embora mesmo?”
“Claro.”
“Que pena! Eu fico com tanto dó.”
“Fica nada. Você fala assim mas não tá nem aí. E nem deve ligar mesmo. Ele é muito lerdo.”
“Elga! Como você é ruim.”
“Tá. Depois a gente se fala. Agora eu tenho que atender o cliente do 13, que tá n alinha ouvindo a gente faz tempo. Pois não, senhor.”

No sobressalto de ser surpreendido espionando, o viajante, imediatamente, deitou o telefono no gancho sem dizer qualquer palavra. Voltou para o banheiro e observou no espelho que a queimadura havia produzido apenas intensa vermelhidão em sua faça e uma pequena bolha no pescoço. Deu o caso por encerrado e terminou seu banho frio, quando ouviu alguém bater à porta. Não esperava por ninguém, mas achou que deveria ser a sobrinha do estalajadeiro para saber se desejava alguma coisa.

“Quem é?”
“Hans, o seu vizinho aqui da frente, do 14.”
“O que o senhor deseja, seu Hans?”
“Falar com você, ora!”
“Só um momento que vou vestir-me. É cada uma!”
“O que disse?”
“Um momento. Vou vestir-me!”
“Claro, claro. Vocês jovens não perdem uma oportunidade pra esquisitices. Ficar pelado dentro do quarto e desacompanhado. Aonde é que já se viu um troço desses? Ainda bem que não temos um incêndio por aqui hoje, ao menos até o momento.”
“Pois não, senhor, desculpe a demora. Mas em quê posso ajudar?”
“Preciso de fósforos, ou um maldito isqueiro. Quero acender o meu cachimbo e não há uma brasa dos infernos pra que eu faça essa belezinha aqui funcionar.”
“Lamento, mas não fumo.”
“Não fuma? Tem certeza?”
“Claro que sim. Não fumo e jamais fumei em toda a minha vida.”
“Ah, não fuma não, é? Mas e drogas, não fuma drogas?”
“Senhor, isso é alguma brincadeira?”
“Não. Pareço estar brincando? Não. Jamais brincaria com assunto tão sério. O senhor é paulista, não é?”
“O senhor já desceu na recepção para procurar seus fósforos?”
“Essa hora? Você deve ser maluco. Aqui, agora, só amanhã, meu filho. A sobrinha do estalajadeiro deve estar se preparando pra chibatar aquele desocupado do namorado dela até o imbecil desfalecer. Diversão mais esquisita a deles! E os gritos então? Ainda não ouviu, não é? Espere até um pouco mais tarde e verá que é impossível pegar no sono antes do infeliz parar de apanhar e gritar.”
“O senhor não repare, mas eu preciso fazer uma ligação. Com sua licença.”
“Ligação?”
“Com licença, senhor. Até logo!”

O viajante fechou a porta e foi sentar-se na cama para tentar entender o que estava acontecendo. O hospede da frente ficou parado diante a porta fechado por algum tempo antes de retornar para seu próprio quarto.

 

sábado, julho 26, 2014

A VOLTA DO GRANDE CIRCO NONSENSE - AMÁCIO MAZZAROPI

AMÁCIO MAZZAROPI


No rosto do homem, a inexpressão dominava suas feições limitadas, fixas e absolutas e um tom parvo se impunha a tudo que o interpelava. Mas o timbre de sua voz contradizia de certa forma a ausência de expressão e brevidade de comunicação. Olhava as pessoas em sua volta, retribuía ocasionalmente algum cumprimento formal, respondia alguma pergunta simples, hora através de um breve sim e outrora através de um breve não. Mas tanto o advérbio concordante como o discordante eram ambos proferidos firme e secamente. Definiam perfeitamente a vontade natural do homem. Cabia tão somente aos seus cuidadores acatar ou desacatar seu desejo manifesto.
 
E era justamente nos momentos de tomada de decisão entre fazer a vontade do homem ou descumpri-la que sua cuidadora mor e também esposa merecia um olhar mais curioso. Ela gabava-se o tempo inteiro por cuidar muito bem do homem, pois dizia que ele era um homem bom a vida toda, bom marido, bom pai e por aí ficava. Ele era bom. Não era ótimo nem excelente. Mas era bom e apenas bom.

“Ele está comendo com a própria mãozinha. Precisa ver que gracinha. E ele aprendeu a fazer manha. Se for outra pessoa que vai pra dar comida pra ele, ele enrola e não come. Trava a boquinha ou então fica um tempão com qualquer coisinha mastigando, mastigando, mastigando sem fim. Aí venho eu e ele come cada pratada de comida que dá gosto. Precisa ver que belezinha!”

E o homem realmente, apesar de a mulher dizer que se alimentava muito bem, emagrecia a olhos vistos. Uma coisa impressionante. Amanhecia com o porte de uns setenta quilos. Pela hora do almoço, já havia disposto de uns quinze quilos, no mínimo. As roupas vestidas após o banho matinal sobravam em seu corpo ao termino da mesma manhã. No final da tarde, mais uns vinte quilos de massa haviam se esvaído de suas carnes como por encanto, simples tal qual evaporação.

Após o jantar, no final da tarde, antes mesmo do cair da noite, alimentavam-se sempre muito cedo, costume dos tempos de roça, lá estava o homem, uns quarenta ou cinquenta quilos mais magro do que iniciara o dia; era uma verdadeira incógnita se ele realmente chegaria ao dia seguinte com alguma carne cobrindo os ossos.

“Eu vou te falar uma coisa e é perigoso o senhor não acreditar. Eu já levei esse coitadinho em tudo que é médico daqui. Teve um doutor que disse que isso é da doença dele mesmo. E que, por ele não se mexer quase nada, aí vai ficando assim mesmo, magrinho, vai murchando tudo, atrofiando. Eu não sei mais o que fazer. Mas eu tenho muita fé em Deus e Nossa Senhora de Aparecida. À noite, eu rezo, rezo, rezo... rezo a noite inteirinha. Quando é pela manhã, bem cedinho, aí o senhor precisa ver, quando é bem cedinho ele já tá outra vez fortinho, com as carninhas todas cobrindo os ossinhos dele e tudo. Uma gracinha! Aí vem o resto do dia e vai a gente sofrer tudo de novo. Uma judiação!”

Seria sempre por volta da meia noite o momento mais aflitivo. Exaurido de forças e esvaído de carnes, o homem estertorava e estridulava sobre a cama até parecer não ter mais energia nem mesmo para atravessar aquela hora que traria a madrugada seguinte.

“Aí vem a enfermeira da noite e dá pra ele uma vitamina, de colherinha em colherinha, e ele arriba outra vez”.

O homem novamente transformava-se diante olhos e bocas estupefatas que quisessem testemunhar o estranho fenômeno de recomposição física. Pelo início da manhã, ficava até difícil transportá-lo na cadeira de banho até o banheiro para os primeiros cuidados no início do dia, de tão recomposto que ele se encontrava.

“Ela gosta muito dele. Ela faz de tudo pra agradar ele. Se for preciso, ela tira dela mesma pra oferecer pra ele. Já faz quinze anos que ela tá com a gente. De primeira, ela era empregada aqui. Aí, quando ele ficou doente, eu precisei de alguém que me ajudasse no banho dele e ela se dispôs. Depois precisei de ajuda pras trocas dele e pra dar os remédios na hora certinha. Ela tem a cabeça muito boa. Não esquece de nada e é muito atenciosa. Ela até fez curso de enfermagem e agora, além de ajudar aqui em casa, ela também trabalha no hospital de enfermeira. Ele gosta muito ela”.

A moça era caprichosa e sabia que o enfermo gostava ou havia algum dia gostado muito do Mazzaropi. Fazia sempre agrados temáticos ao patrão. Certa vez, ao visitar parentes, veio de Minas com um chapéu de palha de presente e introduziu a peça no vestuário do patrão. A patroa não recusou o agrado e permitiu seu uso diário. Noutra ocasião, enquanto pagava algumas contas no centro da cidade, em horário de almoço, a moça avistou em uma vitrine uma calça verde em corte social e uma bela camisa xadrez quadriculado em tonalidades de vermelho e azul. Não teve dúvida. Comprou para o patrão e fez o agrado.


O cinto e a botina foram fáceis de conseguir. Ele sempre gostou do estilo roceiro e sempre usou tais peças em seu vestuário, tinha ambas em seu guarda roupas, esquecidas dentro de caixas. A enfermeira foi e resgatou-as. As novas aquisições sim eram novidades. A calça verde pula brejo e a camisa xadrez, mais o chapéu de palha foram peças que deram uma mudada em seu estilo de proprietário rural e reforçaram um traço típico caipira.

Logo seus cabelos brancos foram tonalizados ao ponto de escurecer tornando-se negros como as penas do anu, o mesmo ocorreu com seu fino bigodinho. O detalhe é que em posse de suas faculdades administrativas de si mesmo o homem jamais havia usado barba e ou bigode.

O acaso fez das suas e tratou de dar acabamento ao personagem. Certa vez, em uma fria manhã de inverno, veio então, da roça, um antigo compadre, a fim de visitá-lo. Trouxe consigo uma prenda, um rolo de fumo goiano, que enrolado em seu braço envolvia e escondia o membro inteiro do visitante. O enfermo recebeu o presente e ninguém impediu o uso. Era um gosto antigo dele o de mascar fumo e pitar cigarro de palha. Algo que a esposa só revelou à enfermeira na ocasião na qual surgiu o tal presente pendurado na parede da varanda.

“Gosto de enfermo é coisa que não se nega. Afinal, a vida é uma só e que mal pode haver em ter um prazer bobo onde abundam tantos desprazeres inevitáveis”, pensava a esposa com outras palavras.

A vida seguiu com suas peculiaridades. O homem, vestido tal qual seu suposto ídolo da televisão, emagrecia durante o dia, assistia ou não assistia aos filmes do comediante, mascava o fumo picado e depositado em sua boca para que não ficasse nervoso, como a esposa dizia. Cuspia no chão, conforme conseguia, escorrendo pela boca. Pitava um cigarrinho só, da mão da própria esposa, e emagrecia até dar meia noite, para então engordar em companhia da enfermeira prestimosa e dedicada até o amanhecer.

A enfermeira passou a chamá-lo de Mazzaropi, como um modo descontraído de dirigir-se ao patrão. Mas a esposa, muito dada às formalidades do trato, não via aquela intimidade com bons olhos. Quando surpreendia a moça em tal gracejo, a corrigia de imediato e retificava que o nome do marido era Amácio, e que assim ela deveria chamá-lo. Em confidência aos filhos, estudava a possibilidade de demitir a moça por postura inadequada.

“Onde é que já se viu ficar chamando o pai de vocês de Mazzaropi. Que coisa mais sem graça!”

quinta-feira, maio 01, 2014

THE SMITHS, O CONTO

OS SMITHS
 

Toda aquela casa abrigava sombras em suas paredes, em seus cantos mais ocultos, debaixo dos móveis e tapetes, nas frestas das tábuas, nos rodapés, no escorrer dos peitorais e batentes, nos vãos das janelas e das portas, nos ralos, nas tomadas, nas gavetas, nas pessoas. Mais tarde, bem mais tarde, o cenário ficaria conhecido para muito além de Manchester. Algum dia alguém concluiria ser melhor demolir aquele monumento ao horror e o demoliria. Então acabaria de uma vez por todas com o abrigo de sombras e interromperia a morbidez dos curiosos.

Todos, naquela casa, sofriam com as loucuras mórbidas e omitidas. Sofriam ativamente, ou passivamente, mas ninguém estava livre das sombras frias e opressoras tomando a tudo e a todos. Ali, na época dos acontecimentos, os dias passavam sem que houvesse oportunidade para que as crianças brincassem ao ar livre e fossem simplesmente pessoas normais, felizes. Eram crianças tristes, tímidas e introspectivas. Quando não na escola, em casa, eram praticamente confinados aos seus pequenos quartos. Restava a ambas apenas os devaneios e jogos solitários como únicas formas de distração. Assim sendo, não demoraram a apresentar os primeiros sinais decorrentes da violência a qual estavam sujeitas.

Manchester das sombras era distante de tudo que fosse alegre e florido. A maioria ali só pensava em trabalhar durante a semana nas indústrias para então poder se embriagar no final de semana, feito máquinas que se lubrificam. A família Smith, aparentemente comportada em sua casa aquecida, era, na verdade, uma associação da mais horrenda desestruturação. Algo inimaginável a quem olhasse do lado de fora das tábuas. Padrasto embriagado e libidinoso, mãe sedada e frígida, filhos assustados e sem referência de um comportamento mais saudável e adequado.

Enquanto Hindley se distanciava cada vez mais do mundo, o mal se instalava pouco a pouco no coração de Brady. Ele sentia a efervescência da revolta crescer cada vez que percebia os movimentos truculentos do padrasto contra sua mãe, no quarto ao lado. A mulher nunca queria, mas sempre era usada como um pedaço de carne viva. E o homem nunca se satisfazia por completo. Sempre lhe restava energia para mais alguma visita a outro cômodo da casa após a mulher adormecer sob o efeito de álcool e fortes sedativos. O homem costumava dizer que a pequena Hindley tinha o sono agitado e que a faria dormir. Noites infelizes e intermináveis eram aquelas.

Os inexplicáveis e perturbadores ruídos abafados que vazavam do quarto da pequena Hindley angustiavam e sufocavam o confuso e atordoado Brady, que nada entendia, porém sentia-se ainda pior do que quando o padrasto estava sobre sua mãe. Ficava exausto, sem forças nem mais para tentar entender o que de fato acontecia ou odiar tudo aquilo. Encolhia-se envolto em pavor e angústia e, às vezes, chorava até o sono tomá-lo ou o dia amanhecer; qual viesse primeiro.

Quando feito dia, sentava-se à beira da cama e ali permanecia durante longos minutos a ver a escassa luz permear as entradas possíveis e salpicar a grotesca sombra, que se retraia, recuava e escondia-se quando tocada pelos fótons. Naqueles amanheceres, quando não percebia sinal de vida vindo do quarto dos adultos, torcia para que eles estivessem mortos e tudo aquilo que não entendia findasse de vez.

Era hora de sair e ir para a escola. Nem sempre Hindley conseguia levantar-se facilmente. Brady ia até sua cama e lhe empurrava no ombro avisando ser já hora de partirem. Hindley se colocava sentada e inexpressiva. O irmão tinha que ajudá-la a sair da cama e vestir-se. A menina amanhecia com os lençóis e roupas sujos por estranhas manchas. Vez ou outra havia sangue. Seria o nariz da menina que sempre sangrava quando ela demorava a dormir pelo tal sono agitado, o qual, curiosamente, apenas o padrasto percebia. De pé, ao dar os primeiros passos, o que às vezes era algo sofrível, pois a menina sentia dores nas pernas e nos quadris, Brady a apoiava até que Hindley conseguisse por si mesma sustentar-se.

A caminho da escola, em algum momento, sorriam e até brincavam. Eram oito quarteirões de reconstituição de ânimo. Nas calçadas quadriculadas, Brady ensinava a irmã a contar cada quadro pisado como um ponto. No começo, ela nunca queria participar do jogo, nada dizia. Seguia o irmão apenas andando com seus grandes olhos azuis fixos no nada e margeados por sombras remanescentes da casa. Pouco a pouco, a menina reencontrava motivos para sorrir das peripécias do irmão. Próximos à escola, ambos já caminhavam ao mesmo passo.




FANTOCHE

 
Era comum na escola Brady não conseguir prestar atenção à aula. Passava grande parte do tempo olhando fixamente pela janela ou debruçado sobre a carteira. Nos intervalos, passava o tempo observando seus colegas no pátio, enquanto aqueles estivessem distraídos. Seu conforto era quando encontrava Hindley e então lanchavam juntos.

Eram frequentes as reclamações por parte das professoras, as quais sempre diziam que Brady, apesar de inteligente, era desatento e apático, um preguiçoso. Enviavam bilhetes à mãe, os quais sempre retornavam assinados, porém nenhuma convocação de reunião era atendida pelos responsáveis.

Numa manhã, seguida por uma noite das mais angustiantes, Hindley não conseguiu levantar-se para ir à aula de modo algum. Brady, após muito insistir para que a irmã reagisse, decidiu deixá-la dormindo. Iria mesmo só. Aquela manhã na escola fora uma das mais tumultuadas de sua passagem pelo ensino fundamental. Agrediu um colega de sala, agrediu a professora de matemática, que tentou intervir, agrediu a inspetora, que veio a seguir aos berros. Terminou suspenso. A mãe, que havia trabalhado durante a noite toda no pub e tirou o dia para dormir, assinaria o comunicado da suspensão sem nem mesmo ver do que se tratava.

Com o papel na mão agitando-o ao vento, o caminho de casa parecia mais longo do que sempre para o garoto. Ao passar diante de uma casa, Brady viu um pequeno cão branco com manchas pretas que ladrava por de trás de um portão estreito e de grades. Lentamente aproximou-se do bicho. O cão fez um recuo e continuou latindo. Brady enfiou o comunicado no bolso e retirou do outro o pão com carne oferecido na merenda da escola. Ele levava aquele lanche para a irmã.

Com o pão na mão, Brady conseguiu prender a atenção do animal. Para onde ele movia o pão o cão seguia com o olhar e a cabeça, e já não mais latia. O garoto retirou um pequeno pedaço do lanche e lançou ao cachorro, que o abocanhou imediatamente.

Brady notou que o portão da casa não estava trancado de fato. Moveu o trinco e empurrou apenas o suficiente para dar passagem ao animal. Recuou um ou dois metros e lançou mais um pedaço do pão. O cão hesitou um pouco em princípio, porém não resistiu; atravessou o portão e foi até o pedaço do lanche. Usando continuamente o mesmo artifício Brady conseguiu fazer com que o cãozinho lhe acompanhasse por duas quadras e meia.

Vendo que seu recurso se esgotou, o garoto decidiu que seria o momento de finalizar o plano. Abaixou-se diante do cão e ofertou o punho quase fechado. O cão se aproximou e começou a farejá-lo. Num repente, Brady saltou para cima do animal e trouxe-lhe junto ao peito firmemente atado em seus braços. Daí em diante disparou numa corrida eufórica pelas poucas quadras restantes com o cachorro seguramente contido contra si.

O cão chegaria em casa já com um nome escolhido pelo garoto e seria um presente para Hindley. O nome do cão era Fantoche. A menina aprovou o cão e o nome, e demonstrou grande contentamento em recebê-lo.




TOMORROW

Era mais de meio dia e a mãe de Brady e Hindley ainda dormia. Maggie era garçonete em um pub, porém havia dois dias que não ia ao trabalho e passava o tempo inteiro trancada no quarto enfumaçado, sob a cama, sob efeito de vodca e sedativos, dormindo e fumando.

Maggie teve Brady ainda na adolescência. Ela tinha apenas 16 anos quando o garoto nasceu. A identidade do pai de Brady nunca foi conhecida com certeza, porém Maggie afirmava que o pai era um repórter que trabalhou por uma temporada em Manchester, e que ele teria morrido um mês antes de o garoto nascer. Hindley, três anos mais nova do que o irmão, seria fruto de um relacionamento casual de Maggie com um viajante, um vendedor de peças automotivas de uma firma sediada em Londres, mais um caso de paternidade duvidosa. Sendo assim, Maggie sempre conservou seu sobrenome de solteira e o transmitiu aos filhos. 

John, o padrasto, havia saído no meio da manhã sob pretexto de procurar emprego nas fábricas para na verdade afogar-se em garrafas de rum e retornar apenas no início da noite, cambaleante. Ao chegar, John costumava cochilar e, em seguida, cometer suas torpezas rotineiras. O homem só não espalhava o terror pela casa quando se excedia na bebida a ponto de desmaiar até o dia seguinte. O que era sempre um alívio para os Smiths.

As crianças conseguiram manter Fantoche escondido debaixo da cama de Brady por mais de três dias. Às vezes o cão latia um pouco, porém logo era calado pelo garoto, que, apavorado, o detinha com seu travesseiro abafando o som do animal. O padrasto, sempre tomado por tontura e torpor alcoólicos, não ouvia o bicho e continuava desmaiado.

Mas aquela situação não duraria para sempre conforme era possível se prever. No início da noite daquele dia, John retornou mais ébrio e iracundo do que de costume. Aquilo era o prenúncio de mais uma noite angustiante, uma na qual Hindley sentiu mais dor do que sempre e gritou mais alto do que nunca. Fantoche então disparou a latir. Como Brady mantinha a cabeça debaixo da coberta e do travesseiro não consentiu perceber o cão latindo de seu quarto em direção ao da irmã. Após algum tempo com o cão ladrando, cessaram os sons da garotinha e fez-se silêncio. De repente, debaixo da atmosfera esmagadora daquela casa, a porta do quarto de Brady abriu-se violentamente. O garoto não se moveu debaixo de seu isolamento acústico. Fantoche voltou a latir e rosnar para o grande homem de meias e cueca que rompeu a passos largos e cambaleantes através do portal. John viu o cão e começou a gritar ofensas ao bicho e principalmente ao garoto. Então Brady deixou seu isolamento e, trêmulo, sem perceber, urinou no colchão. Sentiu o conforto da urina que aquecia seu colo. Fantoche continuou latindo de debaixo da cama. John recuou e no instante seguinte retornou calçado de suas botas.

O homenzarrão empreendeu uma breve perseguição ao pequeno animal. E após encurralá-lo num canto, seguiu com uma longa sessão de pontapés. Minutos depois, o cão agonizava ensanguentado por todas as cavidades e orifícios. Minava o fluido vital enquanto expirava. Hindley surgia lívida na porta do quarto do irmão. Ela foi até o animal e, com dificuldade, tomou-o em seus braços dirigindo-se para seu próprio quarto. John acusava o garoto por todo aquele transtorno. Dizia que ele era um marginal igual deveria ter sido o porco de seu pai que emporcalhou a porca de sua mãe, dizia entre os dentes e com ódio no olhar.

Em seguida, insatisfeito e furioso, o violento John partiu para cima do garoto e fez com que ele sofresse como jamais havia sofrido até então. Manchester amanheceu mais nublada que de costume e as sombras daquele domicílio não permitiram que a mínima partícula de luz ali penetrasse. Apesar de todos os estrondos, não se sabe como, Maggie levantou-se somente pela manhã e nada perguntou sobre os rumores da madrugada. Ao encontrar o cão inerte e ensanguentado ao lado de Hindley, decidiu partir às pressas com as crianças para casa de sua irmã Nancy, em Glasgow.

Com muita pressa, arrumava duas malas médias. Porém, John despertou e inquiriu do motivo daquela arrumação repentina. A mulher não conseguia responder ao inquiridor e rompeu numa crise de choro. O homem disse que aquilo era pela falta das medicações e que aquelas crianças estavam mesmo impossíveis, de enlouquecer a qualquer um. Apanhou um frasco de sobre o criado de cabeceira de Maggie do qual retirou diversos comprimidos e disse para que ela os tomasse, e que aquilo lhe acalmaria. Vendo que a mulher não reagia, tomou-a pelos cabelos e a fez engolir um a um todos os comprimidos que julgou conveniente. Minutos depois, Maggie dormia mais uma vez e John saía pela porta da rua a fim de pelos bares embriagar-se novamente.




MANCHESTER TO GLASGOW

 
Coração de criança é mesmo teimoso. Resiste em esperança, mesmo quando tudo apresenta uma face contrária. É a natureza infantil quem alimenta essa crença de que tudo pode melhorar. Mas na vida dos Smiths, o tempo passava e Maggie não reagia, não tomava uma atitude quanto às atrocidades de John. A mulher até pensava, tentava tomar uma medida, porém era vencida pelo medo, pela falta de energia, pelo comodismo. Ela e seus filhos eram reféns daquela criatura sórdida e violenta, daquela situação indigna.

Até que um dia, na semana na qual Brady completou onze anos, ela, que na ocasião frequentava o trabalho assiduamente, com as poucas economias de gorjetas que conseguiu reunir, decidiu ir para Glasgow sob pretexto de tirar férias. John, como era de se esperar, teve uma reação das mais violentas. Ficou furioso, ensandecido. Segurava a cabeça da mulher por entre as mãos e inquiria do motivo de ela estar querendo fugir dele. A mulher negava por entre súplicas, lágrimas e explicações atropeladas que queria deixar John, porém o homem só crescia em violência e fúria. Surrou Maggie com socos no topo da cabeça até que ela desfalecesse ao lado da cama por falta dos sentidos.

As crianças se trancaram no quarto de Brady assim que o tumulto começou e ali o irmão orientou para que a irmã permanecesse em silêncio e usasse do isolamento acústico que ele criara como forma de transcender aos horrores da casa. A menina chorava e expressava sua preocupação para com a mãe. Mas Brady dizia que ficaria tudo bem e que logo tudo voltaria ao normal, e eles poderiam sair dali e ficar juntos da mãe.

John afastou-se vendo a mulher desfalecida no quarto e caminhou até a sala contígua, sentou-se no sofá com uma garrafa de rum e fumou um cigarro. Tomou meia garrafa em grandes talagadas direto do próprio gargalo. Acalmou-se por algum tempo. Em seguida, ergueu-se e caminhou até o quarto da menina. Brady esforçava-se para não ouvir o ranger das tábuas sob as botas do padrasto.

Vendo que a menina não se encontrava em sua cama, o homem foi direto ao quarto do enteado. Primeiro John tentou abrir volvendo a maçaneta. Viu que a porta estava trancada pelo lado de dentro. Advertiu para que o garoto abrisse e disse que precisava conversar com eles.

O garoto não respondeu. Os irmãos continuaram com as cabeças cobertas conforme estiveram durante o período de maior turbulência. O padrasto advertiu mais um tanto e passou a fazer ameaças às crianças. Vendo que não era atendido, John mudou de atitude e ficou extremamente agressivo. Disse que derrubaria a porta caso não a abrissem imediatamente e começou a dar com o punho na mesma. Hindley urinou por medo.

John esmurrava e chutava a porta das crianças com algum cuidado para não atrair a atenção dos vizinhos. Fazia para intimidá-los de modo que apenas eles ouvissem e temessem. O garoto jurou à irmã que não abriria sob ordem alguma, e que o padrasto poderia até mesmo derrubar a porta que eles não sairiam do isolamento. Ficaram em total silêncio com as cabeças abafadas. Ficou tudo quieto. O homem parecia ter saído pela porta da rua. Aguardaram por um tempo razoável e decidiram sair. Certificaram-se de que o padrasto não os aguardava do lado de fora do quarto. Aparentemente ele havia saído. Brady sempre tomava a frente das ações, Hindley o seguia. Foram até o quarto da mãe e a encontraram acordada, porém deitada e chorando muito, aos soluços. Os filhos viram com espanto que a mãe tinha um grande hematoma no entorno de seu olho direito. Ela os abraçou e pediu perdão. Eles retribuíram os abraços e recolheram suas lágrimas, beijaram-na.

Vendo as crianças tão aflitas, Maggie disse que tudo ficaria bem e pra que elas lhe ajudassem com as bagagens o mais rápido possível. Minutos depois, partiam. Pegaram o que foi possível e sob grande apreensão. Já na rua, a passo rápido, aos arrancos trazia a pequena Hindley ao passo. A mulher olhava para trás o tempo todo, e só repousou quando sentiu o movimento do trem a caminho de Glasgow. Finalmente estavam seguros.





 
SOMBRAS EM GLASGOW
 
Em Glasgow, os Smiths foram bem recebidos pela irmã e o cunhado de Maggie. Nancy era enfermeira na maternidade do centro da cidade, enquanto seu marido, Hoffman, um homem bom, calmo e afetuoso, estava desempregado naquele momento. Porém era um competente confeiteiro e também postulava o cargo de pastor efetivo na igreja luterana, na qual atuava como pastor auxiliar havia dois anos. Eles não tinham filhos. Tinham sim a intenção de realizar a adoção, no entanto tudo dependeria da melhora das finanças. O momento não era bom.  Por mais que Nancy trabalhasse, seu salário bastava apenas para o aluguel e as despesas básicas da casa.

Embora Maggie não tivesse revelado os verdadeiros motivos pelos quais deixara John e Manchester, as sombras persistiam sobre os Smiths como uma pecha permanente por onde quer que fossem. Ela apenas dizia à irmã que estava cansada do companheiro e da vida que levava em Manchester, das bebedeiras do homem, da cidade. A irmã, obviamente, intuía a circunstância de as coisas não irem nada bem por lá. As crianças eram muito introspectivas e Maggie também buscava isolar-se o quanto possível. Nancy e Hoffman comentavam sobre o estranho comportamento da mulher e dos sobrinhos. Maggie passava o dia todo trancada no quarto, fumando, e com as crianças por perto; parecia não ter disposição para nada, como bem notou o cunhado.

Ao término da primeira semana, Nancy sentiu-se obrigada a revelar qual era o momento financeiro que atravessavam e em seguida tentou animar a irmã a procurar algum trabalho provisório na cidade, caso pretendesse prolongar sua estadia por mais alguns dias. Então a segunda semana transcorreu de maneira relativamente mais natural. Maggie não teve dificuldade em conseguir um trabalho temporário durante o dia numa lanchonete do centro, nas proximidades da maternidade na qual Nancy trabalhava. Logo deu início ao processo de transferência dos filhos para um colégio local. As crianças ficaram um pouco mais soltas na companhia do tio. Vez ou outra, até saiam do quarto para ver um pouco de televisão e ajudavam com pequenas tarefas na preparação de algum confeite encomendado que surgisse.

Contudo, logo Hoffman percebeu que o comportamento das crianças não era antinatural somente no modo recluso de portarem-se, mas principalmente nas estranhas manias que ambos apresentavam. Por mais de uma vez, Hoffman surpreendeu Brady enquanto o garoto brincava de modo estranho com o siamês da casa, o Chuvisco. O gato tentava de todas as maneiras escapar do garoto, porém era contido pelo rabo enquanto o menino lhe puxava as orelhas de modo brusco e repetitivo. O tio explicava que o animal não gostava daquilo e poderia até mesmo arranhá-lo. O menino deixava o brinquedo vivo e voltava emburrado para o quarto, só saindo do local quando a mãe retornava do trabalho ou para fazer alguma refeição. 

Hindley não preocupava menos o tio. Ela sempre aparecia com arranhões no ventre dos antebraços. No início, o tio achou que fosse por também brincar de modo brusco com o bichano, contudo jamais flagrara qualquer ato agressivo por parte da menina para com a criação, para quem a pequena tinha apenas carinhos e afagos. Foi então que passou a observar a criança com maior atenção e pode ver que a menina usava pequenos objetos para coçar a pele do antebraço produzindo os arranhões que logo se tornavam sulcos. Para tal a criança utilizava pequenas moedas, tampas de caneta e até mesmo pedriscos. A menina também acordava no meio da madrugada aos gritos. A mãe dizia que aquilo era terror noturno e que a criança já estava medicada e com acompanhamento médico em Manchester para conter os episódios. A cama na qual dormiam os dois irmãos sempre amanhecia urinada. A suspeita do problema logo recaiu sobre a pequena Hindley, no entanto bastou providenciar um colchão para Brady para ficar claro que não era Hindley quem sofria de enurese noturna.






MENTIRA MISERÁVEL
 
Após quinze dias da permanência de Maggie e as crianças em Glasgow, John passou a visitar a casa dos cunhados quase todos os finais de semana. Se no começo era recebido com certo receio da parte de uns e frieza da parte de outros, logo conseguiu estabelecer uma relação cordial para com os cunhados e dúbia para com a mulher, que a cada dia ficava mais confusa e insegura quanto ao acerto e firmeza de suas últimas decisões. Já as crianças sempre pioravam o comportamento na semana que seguia às visitas do padrasto.

John dizia que estava e parecia realmente estar transformado. Pedia outra chance em nome das coisas boas que aconteceram entre eles, pois achava que nem tudo havia sido tão ruim que não valesse a tentativa de um reinício. Momento no qual a mulher permanecia em silêncio, contudo ouvia com atenção, apesar de vez ou outra o olhar vagar sobre as sombras do passado recente.

Embora em um primeiro momento John parecesse a quem o visse ser predominantemente seco, era um homem charmoso. Magro e alto, ele tinha o rosto longo e o nariz afilado, longos cílios e grandes olhos castanhos escuros, e seus cabelos também eram castanhos e ondulados formando um discreto, porém denso topete. Vestia muito bem os trajes sociais adquiridos em brechós de bairro. Tinha a voz grave e suave, bem marcante. Articulava bem a fala e economizava ao extremo nas palavras. Escolhia cuidadosamente os vocábulos.

Maggie jamais se esqueceu da noite na qual o conheceu de fato. John tornara-se frequentador assíduo do pub no qual ela trabalhava. O homem sempre ofertava generosas gorjetas acompanhadas de incisivos e maliciosos gracejos. Certa noite, ele disse que era capaz de retirar suas roupas íntimas ali mesmo ao lado da mesa sem que ela derrubasse uma única gota dos drinques que trazia sobre a bandeja repleta de copos transbordantes. Naquela noite, ficaram pela primeira vez. John aguardou até que Maggie terminasse o trabalho. Enquanto eles saíam, a moça desculpava-se por estar vestindo apenas trapos. Ele disse que era mesmo horrível que alguém tão bela tivesse preocupação com tais coisas e que a proposta feita dentro do pub valia para qualquer lugar.

Foi um namoro breve e intenso o deles. Ao cabo de apenas um mês, Maggie se mudara do quartinho de aluguel onde morava com alguma bagagem e as duas crianças pelas mãos para o número 16 da Wardle Brook Avenue. Cheia de esperanças e motivação, foi viver em companhia do surpreendente John. Naquela ocasião, ele era empregado em uma transportadora e bebia moderadamente nos finais de tarde e de modo mais intenso nos finais de semana. Fumava também com moderação e evitava o consumo de tabaco dentro de casa. A bebida fez com que ele perdesse alguns dias de trabalho e a bebedeira veio junto com o período de desemprego. Passou a consumir álcool diariamente e revelou seu lado mais impaciente e impulsivo. As coisas pioraram muito quando teve que vender o carro pelo qual tinha verdadeira veneração. Ele sempre culpou Maggie por seu declínio financeiro e moral, cada vez de modo mais violento, agressivo. E foi assim que a mulher encontrou-se, pouco a pouco, como quem descesse uma longa escadaria sem corrimão, cada vez mais depressiva e dependente de álcool e sedativos.
 

Nas visitas que John fazia aos Smiths, em Glasgow, sempre levava presentes para todos. Estava bastante sociável e comunicativo. Aparecia bem trajado, perfumado e barbeado. Dizia que deixara a bebida e até pretendia frequentar alguma igreja. Nos momentos em que se via a só com Maggie, dizia estar muito arrependido de todo mal que seu gênio impulsivo havia lhes causado. Ele parecia falar de uma entidade que o aprisionou e atormentou e que agora dela se libertara como por encanto.

John comprou um belo furgão e disse que agora eles poderiam passear com frequência por todo o Reino Unido, e levava-os a passeios ao centro de Glasgow e esforçava-se por agradar as crianças com doces, brinquedos e sorvetes. Brady relutava em aceitar qualquer coisa oferecida pelo padrasto, que dizia compreendê-lo e que aquilo era por força da idade, dos hormônios aflorando. Hindley já era mais receptiva aos mimos do homem, enquanto Maggie, pouco a pouco, cria no sonho de serem novamente uma família, no entanto agora estruturada e feliz. Foram tantas as visitas bem sucedidas que um dia a mulher, embora advertida pela irmã de sua precipitação, decidiu ceder às promessas de John e assumiu o compromisso de retornarem todos para Manchester assim que fosse concluído o ano letivo das crianças.






HAND IN GLOVE

Ao chegarem à cidade de Manchester, no final da tarde daquela sexta do retorno, John disse que tinha um xerez guardado na dispensa e propôs uma pequena comemoração à Maggie, que questionou da importância do abstêmio não ceder à tentação do primeiro trago.  O homem riu em tom de zombaria e afirmou que a vida não poderia ser resumida apenas a trabalho e preocupações, e que era preciso vez ou outra dar uma relaxada para melhor suportar a imensa quantidade de aborrecimentos cotidianos.

Deixaram as crianças à própria sorte e adentraram o velho e sombreado quarto de paredes cinza do casal. Minutos depois, John e Maggie dirigiam-se para o carro dizendo que dariam uma volta em busca de mais bebida e que logo retornariam. Recomendaram para que as crianças se recolhessem em seus respectivos aposentos e já fossem dormindo. Hindley quis chorar e Brady fechou o cenho. Com os imensos olhos azuis marejados e sem dizer nenhuma palavra, a menina suplicava com todo o seu ser para que a mãe não a deixasse. Maggie beijou ambos e seguiu seu homem com algum pesar antigo e toda resignação de sempre.

A noite vinha com um insinuante e intenso luar e o clima estava especialmente fresco naquela ocasião. A caminho da loja de bebidas, John propôs um passeio pelas redondezas de Saddleworth Moor sob pretexto de contemplar o luar e também procurar uma luva que teria perdido por ali durante um frete que realizou atravessando aquela região na véspera.

Ao chegar à proximidade de uma charneca, John estacionou o carro no acostamento e disse para que Maggie fosse até o porta-malas e de lá apanhasse uma lanterna enquanto ele vestiria a jaqueta preta de couro. Ela teve um imenso sobressalto ao tatear o porta-malas não iluminado sem encontrar nenhuma lanterna, porém apenas os nítidos contornos do que seria uma grande e espessa pá. Ficou indecisa entre perguntar qual era a utilidade daquele objeto ou apenas dizer a John que não havia encontrado a lanterna. Sempre temendo que qualquer coisa enfurecesse o homem como nos não tão velhos tempos, optou por não dizer palavra alguma. Ficou parada com os olhos sobre ele.

John já se encontrava do lado de fora do carro, encostado à porta e trajando a jaqueta de couro, e com a lanterna em uma das mãos e um cigarro apagado na outra, ambas calçadas por brilhantes luvas pretas de couro. Colocou a lanterna debaixo do braço e levou um cigarro à boca com uma das mãos para acionar o isqueiro com a outra. Maggie ficou lívida aparentando refletir o luar e sentiu seu sangue evaporar pelas têmporas como se os sentidos se esvaíssem acompanhando a fumaça do cigarro do homem. Este fixou os olhos firmes e impiedosos sobre os da mulher e apenas indagou em uma palavra o motivo dela tê-lo abandonado uma vez.

O espírito de Maggie se esvaía a cada segundo. Ela estremecia e continha o choro iminente. Não apresentou reação alguma. Era como se ela conhecesse desde o início de seu retorno qual seria o seu destino final. Pensava na sorte das crianças e sua cabeça girava cada vez mais aérea, gasosa e veloz. Até que num instante fora arrebatada pelo violento choque da chapa de metal contra o flanco direito de seu crânio. Sentiu o sangue evaporar-se num primeiro momento para em seguida escoar pela imensa fenda aberta ao céu. Percebeu o calor do líquido que fluía e cobria aquecendo sua face gélida, tudo em uma fração de segundo. Vieram muitos outros golpes em seguida, os quais ela nem mais sentia, pois apenas o primeiro já fora suficiente para impulsionar a translação completa.

John cavou uma cova rasa e em seguida descalçou as longas botas marrons de salto dos pés da mulher. Tirou seu casaco azul de veludo e também a calça branca justa. Cuidadosamente removeu as peças íntimas, que eram azuis e contrastavam com a pele alva da vítima. Retirou o colar de contas brancas e os brincos de opalas ocultados em suas madeixas loiras. Ao lado do furgão, foi possível ver uma sombra furiosa montar a figura jaz quedada inerte ao solo e, em uma breve sessão de movimentos frenéticos e convulsivos, um espectro devorar o outro de modo selvagem e definitivo.






NUM LEITO RASO
 

John voltou para casa em estado de completo êxtase. Cantava e dançava dentro do carro. Com os vidros abaixados e o vento açoitando o rosto, agitava o braço para fora da janela e gritava frases de canções alegres. Gritava bem mais alto do que o som do rádio.

Ao chegar ao número 16 da Wardle Brook Avenue, ao estacionar o furgão, o homem notou luzes acesas no interior da casa. Deu um soco no volante e desceu do veículo furioso. Rompeu pela porta da frente aos gritos contra as crianças. Dizia que eram uns delinquentes e que não sabiam acatar a mais simples das ordens, e que era para estarem dormindo havia muito tempo. Em seu furor e êxtase não se deu conta do sangue que tingia a gola e o peito de sua camisa branca por debaixo da jaqueta. Os Smiths se entreolharam com os olhos a saltar das órbitas.

Brady ignorou as palavras furiosas do padrasto e partiu para cima dele com socos e pontapés inúteis contra a horrenda criatura, enquanto Hindley gritava desesperadamente. O garoto não surtia qualquer efeito sobre o homem, que logo o tomou pela gola da camiseta dizendo que lhe daria uma lição para que jamais esquecesse. O menino queria saber da mãe, queria matar o padrasto, queria ter forças para ferir, queria poder qualquer coisa. Tomado pela gola da blusa era arrastado na direção do quarto do casal. Volveu a cabeça e conseguiu cravar os dentes sobre o punho direito de John. O homem gritou em fúria e largou o garoto, que correu para a cozinha e tomou um pequeno cutelo de culinária. Não hesitou em partir para cima do grande homem, porém aquele tomou o utensílio da mão do menino com a facilidade de quem toma um brinquedo de uma criança. Em seguida, John passou a desferir violentas cutiladas contra o crânio do garoto, que caiu ao lado da pia e logo foi abrigado por um lago vermelho e espesso.

No furor dos fatos, John não percebeu o quanto Hindley gritava de terror. A menina estava estacada diante à cozinha e presenciara toda a cena do embate entre o monstruoso homem e seu tão caro e valente irmão. Quando o padrasto foi em sua direção dizendo que a acalmaria e que acabaria tudo bem, a menina encontrava-se cataléptica diante o irmão repousado no lago sobre o chão da cozinha.

John tomou a menina nos braços tal qual um pai zeloso e rumou para o quarto do casal a fim de depositá-la no leito. Passou a elogiar a criança atônita. Acariciava os seus cabelos e dizia que ela sim era a jóia dos Smiths, a única jóia dos Smiths. Depositou-a sobra cama e saiu dizendo que ainda tinha um trabalho a realizar, mas voltaria em um momento.

Com o puído tapete marrom da sala envolveu o corpo do garoto e o depositou na traseira do furgão. Munido de panos e rodo, rapidamente fez desaparecer a grande mancha do chão da cozinha e sobre o local colocou um tapete redondo e branco de barbante. Nem bem terminou o trabalho ouviu soar a campainha. Era o comissário de polícia. Queria saber se estava tudo certo por ali, pois havia recebido uma denúncia por parte da vizinhança sobre gritos e tumulto provenientes do local. John vestia agora um suéter azul e recebeu o policial placidamente. Convidou-o para que entrasse e tomasse um lugar no sofá. O oficial entrou e recusou o convite a sentar-se. John ofereceu chá. O oficial também recusou e agradeceu. Em seguida perguntou quem mais morava naquela casa. John explicou que moravam ele, a esposa e as crianças. E disse que todos dormiam naquele momento, exceto o casal, e que ele estava preparando um chá para a mulher, e que foi justamente quando também ouviu um tumulto, porém nitidamente vindo da região sul, e acrescentou que era comum aquilo acontecer por aqueles lados. O oficial olhava em todas as direções e nada lhe pareceu suspeito. Ele não passou da sala. A mobília era mínima e tudo já se encontrava em perfeita ordem. John perguntou se o homem queria falar também com a mulher. O oficial disse que não seria necessário, despediu-se e partiu.

John voltou entusiasmado para o quarto e de lá saiu somente uma hora depois. Pegou as chaves do furgão e rumou para Saddleworth Moor. Cantava pelo caminho todo, agitava-se. Em outra localidade distante da qual esteve horas antes com Maggie, ele estacionou o furgão e retirou de trás o corpo do garoto envolvido no tapete. Retirou também a pá e cavou outra cova rasa. Desenrolou o menino, desvencilhou-o de suas vestes, debruçou-o sobre o pequeno monte de terra removida depositado ao lado da cova e começou a mover sua sombra grotesca sobre a sombra inerte do garoto.

Percebendo que a temperatura do corpo do menino ainda estava conservada, supôs que Brady ainda vivia. Naquele momento teve então seu furor triplicado. Ergueu-se sob a lua, tateou o amontoado das vestes do garoto e retirou do sapato do menino o cadarço. Prendeu o fio firmemente pelos dois punhos e envolveu o pescoço de Brady. Sua sombra movia-se freneticamente sobre a sombra do garoto, que parecia a sombra de uma marionete com apenas a cabeça e o tronco atados por fios enquanto os braços balançavam largados à própria sorte.  Aquilo durou a eternidade de três minutos.

Com as roupas e os calçados aos pés, finalmente Brady descansava em paz no repouso de seu módico leito em Saddleworth Moor.






SUFFER LITTLE CHILDREN
 

Por três longos dias e longas noites Hindley esteve sob os auspícios do padrasto. A criança alternava períodos de choro com períodos de catalepsia. John a enfeitava com seu único vestido branco de festa e dizia que ambos eram realmente como pai e filha, uma linda família, e dizia que sempre passeariam juntos nos finais de tarde e que todas as outras meninas de sua idade a invejariam.

Na terceira noite do suplício, atormentado pelo choro constante da criança, John disse a Hindley que a levaria para ver Maggie e Brady e que era lindo o lugar onde eles a aguardavam. A criança já não mais existia em um plano coerente e resistia na forma de uma tênue e delicada sombra de si. Sua alma aguardava sequiosa por uma libertação divina. Tudo que restava era o sonho confortante da fuga daquela existência para assim finalmente desvencilhar-se daquela sombra monstruosa que se apossara dela e dos seus por completo.

John rumou mais uma vez com grande alegria para Saddleworth Moor. Aquele lugar sempre revitalizava sua disposição e robustecia sua sombra. Conhecia por discretas características memorizadas cada sítio onde estivera antes com os Smiths. Tinha uma fabulosa memória fotográfica o homem. Em um dado momento, pouco antes de chegar à região do túmulo de Maggie, John fez com que a menina passasse do banco de trás do veículo para o banco da frente, a seu lado. 

Durante todo o percurso Hindley olhava pela janela, observava as estrelas e a lua e chorava baixinho. O padrasto escolheu outro lugar que não os anteriores para estacionar o furgão. Hindley, conforme o homem providenciara, vestia seu vestido branco de festa e usava ornamentos de conchinhas nos cabelos, pulseiras delicadas e seus melhores sapatos, que também eram brancos. Seus olhos azuis habitavam o fundo de um longo túnel de sombras tornando-se quase imperceptíveis. Suas madeixas loiras emolduravam a tez translúcida de um anjo encarnado.

A sombra do homem movera-se grotescamente como das vezes anteriores. Ele consumava os assassínios com seu ato mais torpe. O tempo escorreu mais atroz e longo que das vezes anteriores. A sombra de John não se satisfazia de modo algum. Com as próprias mãos o homem cometeu o ato que cumpriu sua intenção e traiu seu desejo libertando o anjo de debaixo de si para a eternidade em um terno suspiro aliviado.

Adormecida para o mundo e acordada para o cosmo, Hindley teve seu repouso sagrado em mais uma cova rasa de Saddleworth Moor. Adormeceria ali para sempre sem jamais ter seu sono incomodado pelas inúmeras buscas errantes que perscrutariam cada palmo daqueles pântanos e charnecas sem obter sucesso na busca de seus restos mortais e os de seu irmão. Apenas o cadáver de Maggie seria encontrado alguns meses depois e no entorno da área de Azevim Brown Knoll.

Nancy, tenaz e obstinada, buscou diligentemente junto à polícia resposta para o desaparecimento completo dos pequenos Smiths e encontrou apoio no grande clamor popular pela total solução do caso. Com o conjunto das evidências a perícia criminal do Departamento de Polícia de Manchester conseguiu colocar John na cena do crime e, embora ele jamais tenha confessado qualquer um dos assassinatos, isso fora o suficiente para incriminá-lo. John foi sentenciado à pena de prisão perpétua e esteve em diversos presídios, até ser considerado pela justiça um psicopata irrecuperável, sendo então transferido para um manicômio judicial.

Para por fim ao intenso movimento dos repórteres e curiosos vindos em visita de diversos lugares do Reino Unido e outras localidades, o Conselho de Manchester decidiu por demolir o número 16 da Wardle Brook Avenue em Hattersley sem, no entanto, jamais conseguir eliminar as sombras do local.

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