Amigos

sábado, dezembro 31, 2011

O CÍNICO

“Você tá falando sério que nunca ouviu nada sobre Diógenes, a lenda Diógenes, o cínico, o filósofo, o grego? O discípulo de Antístenes, que foi discípulo de Sócrates, não conhece mesmo? Francamente, você é um fisioterapeuta. Um doutor! Ou não é doutor o fisioterapeuta? Então. Doutor fisioterapeuta! Deveria saber, oras. O Tonho! Tonho! É surdo. Por favor, chame aqui aquele safado do Antonio José, o cínico. Rá, Rá, Rá, Rá. Antonio José, o cínico. Esse você conhece? Pois é, chame aquele ordinário que eu quero dá uma mijada e ele consumiu com o meu negócio de mijar. Eu esqueço o nome daquele troço. Papagaio! Isso! Levou o papagaio pra lavar lá fora e até agora não trouxe de volta. Malandro. Aí ele! O Tonho, cadê o papagaio? Então vá logo que eu to apertado! Como eu ia dizendo, Diógenes foi um filósofo grego. Dizem que viveu entre 413 e 323 a.C.. Foi um sujeito interessante até. A filosofia dele, a qual ele seguia, a escola cínica, desprezava tudo quanto era riqueza, conforto, convenção. Obedecia, de certa forma, à natureza. Ele andava descalço, dormia debaixo das pontes, comia o que lhe dessem. Se embrulhava numa capa imunda, velha, furada e saía pela cidade. Cadê o Tonho que não vem nunca com esse papagaio? Vou mijar nas calças. Faz um favor, vai lá pra mim e vê se o Tonho tá fabricando o negócio. Aí Tonho, eu já tinha mandado ver se você tinha morrido. Até que em fim, né? Ahhh! Como é bom! Que alívio! Despreze ali no vaso pra mim, Tonho. Toma. Mas voltando no que eu tava te falando; sabe, conta o anedótico que parte do tempo Diógenes morava numa barrica. Essas barricas grandes. Isso. Parecida com um barril. A propósito, eu já te contei a história do casal de Igarapaba que não podia engravidar e foi num benzedor que colocou a mulher de cabeça e tronco dentro duma barrica só com as pernas pra fora? Não?! Rá, Rá, Rá, Rá. Essa é boa história também! Uma hora eu te conto. Me lembre de te contar. Mas então, a barrica. A barrica era tipo dum barril grande. Isso! Um tonel. Muito bem! Essa barrica ficou famosa na Grécia inteira... Famosa também ficou a história do encontro que Alexandre, o grande, teve com o cínico, em Corinto. Do Alexandre, o grande, você já ouviu falar? Claro que já. Alexandre na ocasião teria perguntado ao cínico se ele queria alguma coisa, algo que amenizasse sua miséria. Um teto, por exemplo. O cínico disse que, certa vez, teria visto um rapazinho bebendo água numa fonte, no côncavo da própria mão. Disse que diante daquela cena percebeu que ainda possuía coisas supérfluas. Contou que então teria jogado longe a vasilhinha de madeira que trazia consigo. A reação do Alexandre? A reação dele eu não sei não, mas deve ter ficado admirado. Mas e então? Vamos começar o exercício? Vamos que eu não quero tomar seu tempo.”

Obs. É aniversário de 3 anos do blog, e o que eu tenho a dizer está no meu perfil, ok?



segunda-feira, dezembro 26, 2011

ESTADO ANÍMICO

Estou em meu estado anímico. Preciso ter pressa em escrever para que não retorne ao estado puramente animal perdendo assim o ímpeto narrativo. Quero falar de um amigo. E é preciso estar em estado anímico para falar desta alma iluminada. Ele foi, sem a menor dúvida, um dos pacientes mais interessantes que tive até aqui em minha carreira como fisioterapeuta.

Era artista plástico e, segundo o próprio, de reconhecimento nacional e, ocasionalmente, internacional. Sua matéria prima era composta por retalhos, madeira e sucatas das mais diversas origens. Debruçava-se por horas sobre aquelas formas sólidas e ali lutava até conseguir dar nova versão ao emaranhado disforme. Costumava dizer que não fazia nada demais e que qualquer esfomeado ou famigerado seria capaz de travar a mesma luta com êxito equivalente, caso fosse o caminho apontado rumo ao que lhe saciaria o apetite. E concluía dizendo que era ele próprio um esfomeado famigerado pela vida.

Seus amigos eram todos desajustados perante a sociedade, contudo perfeitamente ajustados perante seu olhar. Não gostava de se relacionar com pessoas socialmente ajustadas. Não mais que o necessário. Costumava dizer que os certinhos só serviam para tarefas burocráticas e compor a biomassa. Um bando de acomodados, ele dizia.

“Cale a boca. Ouça a buzininha! Ouviu? Me leve à sacada, vamos! Vê aquele catador de lixo? Sim, aquele mesmo. Este é um verdadeiro artista! Passa todos os dias aqui, exceto aos sábados e domingos, sempre sob o sol do meio dia. Ele sabe exatamente qual roupa lhe torna mais absurdo aos olhos da sociedade. Possui um senso estético invejável. É meu colaborador. Traz a matéria prima para meus trabalhos. Traz e não diz nada. Negocio o preço ouvindo-o dizer se é pouco ou se está bom, e isso é tudo. Nem bom dia!, nem boa tarde!. Pega o dinheiro e segue com sua buzininha de Chacrinha. Vê a jaqueta preta de couro que ele está usando? Pois é, faz mais de uma semana que ele a adquiriu das mãos de alguém que quis se sentir generoso e por isso lhe deu a velha jaqueta encostada no fundo do maleiro. Essas calças jeans largas e rasgadas, essa corda que lhe serve de cinto, esses chinelos ao invés de tênis ou sapatos, tudo isso é de propósito. Ele faz questão de ser absurdo. Essa foi a maneira que encontrou de atrair os olhares e assim poder desprezá-los. Essa é sua respostas à sociedade que o trás à margem. É um cínico. Conhece a história de Diógenes, o cínico? Não? Ora, mas você não sabe nada?!”


domingo, dezembro 25, 2011

NATAL MACABRO

Ainda é Natal [gosto disso]. É com certeza a data que mais gosto no ano. Tenho a sorte e a alegria de estar em família [outra coisa que venero na vida]. Estamos todos bem [isso é mágico]. Divertimo-nos com muita naturalidade [temos apenas o suficiente, e isso nos basta]. Não troco o meu Natal em família por nenhum outro Natal do mundo. Minha alma sorri e canta essa alegria sincera de viver. E não sou um desavisado. Sei que o tempo escoa, o elenco se renova, os seres perecem [sei que os nossos Natais são contados]. Os tenho como verdadeiras jóias [dádivas do Mestre].

Se eu fosse o magnífico Ferreira Gullar, esse seria o momento de puxar alguma memória dos Natais passados e entremear com o Natal presente com elegância, maturidade e ressonância. Não sendo um Gullar, sigo com meu ‘espírito uvas frescas, cerejas, pêssegos maduros, figos em calda, passas e castanhas’.

Comi com singular moderação. Bebi apenas o suficiente para não deixar de beijar o lábio de vidro da taça e sorver sua saliva doce e gelada. Os meus olhos é que me embriagaram do desfrute da ocasião. Mais do que qualquer consumação, foi em ver os meus queridos que me satisfiz ao ponto de transbordar em alegria.

Não consegui escrever uma crônica natalina conforme, intimamente, havia me proposto [nos últimos dias, andei lendo “Histórias Extraordinárias” de Edgar Allan Poe; e quem já leu sabe que, sob essa influência, fica meio difícil escrever algo belo, leve e romântico, conforme eu gostaria de oferecer no blog]. Sentado para escrever, apesar do delicioso clima natalino que dominava toda minha casa e todos em casa, tudo que consegui imaginar foram figuras de Noéis macabros em ações hediondas [foi mesmo mancada ter pegado Poe logo após Nelson Rodrigues justamente em vésperas de Natal, mas coincidiu]. Enfim, achei melhor não publicar minhas tentativas de texto. Teria sido um conto de terror, algo discrepante de meu verdadeiro estado de espírito.

Se eu estivesse lendo algo mais leve, algo como o livro cuja propaganda vi no jornal, o livro do canadense Neil Pasricha, onde ele fala sobre pequenos prazeres e sensações da vida, “O Livro Do Sensacional”, talvez eu escrevesse algo mais condizente com meu real estado de espírito. E quer saber, provavelmente eu nem leia o livro [não sou adepto dos best-sellers].

E dentro do Natal, tomando posse do que me compete deste clima natalino, fico devendo uma crônica, admito; porém, desejo a todos um ótimo final de Natal e um ótimo resto de ano [espaço de tempo que também considero mágico]. Obrigado a cada leitor pelo carinho da atenção! Obrigado pelo apoio constante dos que deixam sua marca comentando e enriquecendo cada postagem com suas deliciosas observações e compartilhamentos! Abraço!

sábado, dezembro 10, 2011

O CHEIRO DO DIABO

Bateu no portão, e, enquanto aguardava, tomou um pouco da chuva fina que caía naquela manhã de céu impenetravelmente nublado. Vendo que ninguém vinha atendê-lo, levou a mão à maçaneta e pode perceber que, como sempre, estava aberto o portão. Abriu um pouco. Apenas o suficiente para perceber que estava destrancado. Assim, pressupôs que houvesse gente no interior da casa. Fechou o mesmo logo em seguida, mas houve tempo para vislumbrar pela fresta da abertura o cãozinho, aparentemente esquizofrênico, saltitando eufórico atado ao arame por sua corrente corrediça. Bateu novamente e aguardou.


Dessa vez, teve mais sorte. Dona Amélia veio atendê-lo. Pediu para que entrasse e não reparasse por ela não lhe apertar a mão, pois estava com as suas molhadas e ensaboadas. Thor Nelson, que já estava apreensivo por sua entrevista de trabalho, não disfarçou a pressa em ir direto ao ponto. Entrou ultrapassando o som do próprio bom dia que proferiu mais pra dentro de sua boca do que para fora. Dona Amélia foi à frente e pisou sobre a corrente do cachorro para que ele não pulasse nas pernas de Thor e o sujasse com suas patas úmidas e barrentas.


O rapaz atravessou o estreito corredor margeado pela horta de pimentas e taiobas, e estranhou a presença de um grande carro no espaço sempre desocupado da garagem. Era a primeira vez que via ali aquele carro. Achou indelicado perguntar de quem seria o jipe, mas ficou olhando com a intenção de inspirar um esclarecimento espontâneo por parte de sua patroa de ocasião.


Contudo, Dona Amélia não notou ou fingiu não notar. Disse para que Thor entrasse no quarto e descesse Seu Felipe da cama para a cadeira, e o deixasse na porta do banheiro que ela terminaria de esfregar “umas pecinha de ropa” e já iria dar o banho no marido. Com o enfermo posicionado diante do banheiro, e vendo que Dona Amélia não se apressava, Thor voltou para o quarto do homem e começou a observar o quão claustrofóbico era aquele cubículo. Foi quando ouviu uma voz masculina vindo da direção do quarto ao lado. Parecia alguém falando ao telefone. Em alguns momentos, era possível entender parte do sentido da interlocução. Noutros, a tonalidade grave da voz masculina abafava o sentido da conversa. Parecia ser uma transação comercial ou algum embaraço por conta de prestações de contas, comércio. Thor voltou os olhos para a janela do quarto do enfermo, que sempre estava apenas com uma fresta aberta, e tentou abri-la por completo empurrando primeiramente uma das partes. Foi quando encontrou a resistência de um velho muro de tijolos à vista cobertos por limo ancestral. A folha da janela bateu e não abriu mais que poucos centímetros. Foi até a outra folha da mesma e repetiu o gesto. Pode ver que o muro igualmente impedia o progresso da abertura.


Ouviu quando o homem começou a alterar o tom de voz com seu interlocutor. Logo o homem estava aos berros. Dona Amélia surgiu na porta do quarto e, meio desconcertada, explicou que o corredor da casa era muito estreito, como ele podia ver, e que nem a janela era possível abrir por conta do muro do “vizim”, que seria “chato e injuado pra dedél. Da moda duoto, casa de pobre é tudo isprimidim” Ela disse e, em seguida, perguntou ao rapaz se ele não queria sentar-se na sala e ver a televisão enquanto ela dava banho no marido.


Sentado na sala, Thor Nelson pode ouvir, casualmente, e com mais clareza, a conversa do homem que estava dentro do outro quarto com a porta entreaberta e na escuridão. Realmente falava de negócios. Explicava que aquilo não era o cheiro do diabo, pois o diabo, conforme ele dizia, todos sabiam que cheirava a enxofre, e aquilo estava muito mais pra cloro. E que se não quisesse, não precisaria ficar com o lote de desinfetante que encomendara. Dona Amélia, em poucos minutos, gritou do banheiro para que Thor fosse ao seu auxílio para devolver o enfermo ao leito. Ao terminar as operações de ajudante, o rapaz partiu para a entrevista sem perguntar quem seria o dono da voz masculina proveniente do quarto ao lado do quarto do enfermo. Dona Amélia despediu-se com um comentário sobre a chuva: “Vai chuvê o dia ínterim”.



Obs. Repito: Estamos na final do Prêmio Top Blog 2011! Eu digo estamos, pois essa é uma vitória de todos que me apóiam nesse trabalho. Muito obrigado a você que votou em meu blog e divulgou minha campanha! Esse prêmio é nosso!

domingo, dezembro 04, 2011

O GALO ERA UM BODE

O galo cantou. Aquele maldito galo deveria sofrer de algum distúrbio do sono. Cantou quando era uma hora. Tornou a cantar quando era uma e vinte e sete. Ele sentiu vontade de matar e comer o bicho. Sempre que o galo cantava após a meia noite, sentia vontade de degolá-lo com as próprias mãos, esgotar-lhe o sangue até a última gota, e comer o bicho ao molho pardo. Não que apreciasse tal iguaria. Na verdade, na verdade, jamais havia provado o prato. Imaginava comer o galo ao molho pardo por lhe parecer um requinte de sofisticada crueldade alimentar-se do bicho embebido em seu próprio sangue. Tinha fome e sede de vingança.

Mas o galo era um bode. Sim, o galo era apenas um bode expiatório. Bem como o calor insuportável, o despertar tardio ao meio dia daquele domingo e, principalmente, a possibilidade de acontecer a entrevista de trabalho na manhã que seguiria. Tudo lhe tirava o sono naquela noite e lhe trazia pensamentos tumultuados e inquietantes relacionados aos acontecimentos dos últimos dias. Mas o que lhe incomodava de fato, e levava seu sono para outras cabeças distantes e mais tranquilas, era o sumiço de seu pai.

Afinal, onde andaria aquele velho velhaco, rabugento mor, inquiridor constante, cafajeste elegante, aquele crápula?

Lembrou-se do pai, de sua voz rouca e metálica. Lembrou-se de uma fala recorrente do velho, e era como se pudesse vê-lo abaixar o jornal e falar de sua poltrona: “Thor, o tempo é mesmo implacável. Não perdoou nem Jane Fonda, que aos 23 anos, isso em 1960, meu amigo, parecia um anjo dotado de beleza inesgotável; o que dizer de nós miseráveis mortais condenados ao eterno anonimato nessa terra de vaidades?” Sorriu com a lembrança do velho e talvez tenha dormido, talvez não.

Obs. Estamos na final do Prêmio Top Blog 2011! Eu digo estamos, pois essa é uma vitória de todos que me apóiam nesse trabalho. Muito obrigado a você que votou em meu blog e divulgou minha campanha! Esse prêmio é nosso! E este humilde conto, que começou ao pé da página em A PEQUENA LOJA, continua em O CHEIRO DO DIABO. Ser ler, por favor, comente. Obrigado!

sábado, novembro 26, 2011

GIVANILDO CASA GRANDE

Passava a poupa digital da ponta do indicador sobre a televisão para conferir a cor e a textura da poeira quando ouviu o toque da campainha. Olhou pelo olho mágico da porta que dava para a rua. Viu que era Givanildo, o vizinho do lado direito de quem estivesse de frente para sua casa.

Aquilo era incomum, nunca se visitaram. Nunca se freqüentaram os vizinhos. Estranhou a presença de Givanildo à sua porta. Mais estranho era perceber que Givanildo era a imagem e a semelhança da finada Dona Neuza, sua mãe.

Abriu a porta. Givanildo sorriu um sorriso que abrigava alguma partícula de sarcasmo mal ocultado, talvez propositalmente. O vizinho estendeu a mão para cumprimentar Thor Nelson: “Olá, Thor! Como vai? E seu pai, tem notícia do velho?”

Givanildo era o mais velho dos três filhos da finada Dona Neuza. Formou-se em Administração de Empresas e Contabilidade. Possuía uma imobiliária: “Oi, Givanildo. Não... Não tenho notícias de meu pai...” Disse Thor Nelson.

“Sabe por que estou aqui? [...] É que vou aumentar o meu muro” Givanildo era figura cativa da coluna social do jornal local. A cada ano comprava um carro maior para sua garagem, colocava mais silicone nos peitos e nas nádegas da esposa, e também, todos os anos, aumentava um tanto a casa que herdara de sua mãe. Talvez o pai de Thor tivesse razão ao dizer que o vizinho tinha um complexo de Napoleão latente, pois era baixinho e arrogante como o imperador francês.

Thor já pressupunha a razão da visita: “Sim!?” Respondeu com ar de tédio.

“É. Vou aumentar o meu muro novamente. Sabe como é. Sua casa não tem nenhum dispositivo de segurança, os ladrões podem facilmente pular para o meu quintal passando pelo seu. E tem mais, a Elaine gosta de privacidade, gosta de ficar bem à vontade em nossa piscina”

Thor Nelson, com evidente desdém, respondeu ao que o vizinho explicava: “Tá [...]”

“E isso vai gerar alguma despesa com materiais e mão de obra. Mas é uma melhoria da qual até sua velha casa irá se beneficiar. Afinal, cada vez que invisto em minha casa as casas vizinhas acabam sendo mais valorizadas no mercado imobiliário por estar ao lado de uma construção de alto padrão, endente? Também terei que reinstalar minha cerca elétrica. E o pessoal não faz isso de graça. Já perguntei. Aliás, nada é de graça, não é mesmo?”

“Givanildo, to desempregado, meu pai tá desaparecido. Não posso nem contar com a aposentadoria dele. Até tranquei a faculdade. A coisa tá feia, amigo. Não tenho como contribuir com nada. To levando as contas com um bico que to fazendo, cuidando dum doente”

“É, mas de qualquer jeito a sua casa irá se valorizar. E outra; você tem obrigação de contribuir, o muro que cerca sua casa está dentro de meu terreno, é meu. Você o usa o tempo inteiro sem que eu te cobre nada. Já disse isso ao seu pai, o Veloso”

“Givanildo, eu não quero discutir com você o mérito dessa questão, amigo. Eu agora não posso contribuir com nada. Espere meu pai voltar, aí você conversa com ele”

“Um, sei. Vou falar com o meu advogado, aí vejo se é mesmo o caso de esperar que seu pai volte pra conversar sobre a obrigatoriedade de sua contribuição”

“Givanildo, converse com quem você quiser. E tem mais; o muro não está em seu terreno conforme você vem dizendo. É só olhar pelo padrão da energia, ele demarca em qual terreno o muro está situado de fato. Meu pai já disse isso há muito tempo pra senhora sua mãe, já disse pra você inclusive. Esse muro tá dentro do nosso terreno”

Givanildo puxou a calça para cima pegando pelas laterais do cinto, acomodou a parte inferior da barriga dentro da calça, apalpou sua bolsa escrotal, e fez uma firula como se fosse embora no decorrer da conversa; chegou a dar um passo; retornou com a mão estendida para o vizinho; disse que já não tinha tempo para continuar a conversa, e se despediu: “Depois eu falo com o seu pai, se é que ele vai voltar mesmo”


“Passe bem!”


“Passe bem...”


Obs. Este humilde conto continua em O GALO ERA UM BODE. Se ler, por favor, comente. Obrigado!

sábado, novembro 19, 2011

A IMPRENSA SUPREMA

Ao chegar em casa, assim que fechou a porta atrás de si, sentiu a melancólica atmosfera opressora lhe esmagar como se um saco de sessenta quilos de tristeza lhe fosse recolocado sobre sua cabeça.

A situação não era tão difícil enquanto estava na rua. Talvez por distrair-se observando o vai e vem das pessoas. O fato é que, ao ver a casa vazia e os habituais cantos costumeiros de seu pai agora desocupados, a poeira sorrateira acumular-se sobre a poltrona verde musgo reclinável, as pilhas de jornais intactos crescerem feito planta nos cantos da sala, um arrependimento liquefeito invadia a chaga aberta na alma após a última discussão que tiveram. A discussão que antecedeu ao sumiço do velho. Parou de pé diante da cozinha, e começou a recordar aquela manhã.


Era como se pudesse ver perfeitamente toda a cena: Era hora do café, café fresco e pães à mesa. O velho enxugou as mãos no pano de pratos encardido que trazia sobre o ombro esquerdo e sentou-se e tomou o jornal nas mãos. Vestia o velho roupão vinho em tecido acetinado, o mesmo que usava todos os dias a mais de cinco anos, desde o falecimento da esposa por atropelamento. Por baixo do roupão, o que era possível notar pelas descuidadas pernas abertas, usava sempre uma das calcinhas da falecida. O rapaz fingia não saber dessa excêntrica forma de nostalgia do pai. Nunca mencionara o assunto. O velho repousou o jornal sobre a mesa, acendeu um cigarro, reabriu o jornal e comentou a queda de mais um ministro: “Em dez meses de mandato da presidenta, já são seis os ministros que entregaram o cargo. Já viu algo parecido? Vê só o nível da roubalheira que essa gente vive?”


Thor Nelson fez questão de demonstrar seu desconforto pela fumaça do cigarro do pai, mas o velho, vendo que o incomodava, fazia por onde direcionar ainda mais a fumaça ao rapaz. Ele queria saber o que o filho achava de mais um ministro cair em tão pouco tempo de mandato da presidenta, apenas dez meses de mandato. O rapaz disse que não se importava, e que aquilo era um jogo de interesses pelo qual não se interessava.


O velho deu um murro na mesa que fez com que as xícaras e a faca da manteiga tilintassem. “Aí, ta vendo como você é? Ta vendo? Você não se interessa por nada mesmo. Nunca vai ser ninguém nessa vida. Onde já se viu não querer saber da política do país? Fica aí, metido com esses romancistas idiotas, esse bando de fracassados, bêbados, doidos, drogados. É isso que você quer ser, esse é o seu ideal de vida? Ser um desajustado como são todos esses vagabundos que se dizem escritores, intelectuais?”


Thor Nelson ficou surpreso pela reação desproporcional do pai. Desde a morte de sua mãe, eram os únicos na casa, e o que restou da família.

Apanhou seu pão e sua xícara de café e caminhou até a porta da cozinha como que para tomar um pouco de ar fresco e despoluído, e evitar a discussão. Ali, decidiu expor seu ponto de vista ao iracundo pai. “Essa onda de denúncias da imprensa, em minha opinião, é algo leviano e contraproducente. O que vai mudar se tiver um escândalo a cada semana? Tirando o lucro dos jornais e o movimento da famigerada imprensa, nada muda de fato. Acho que o trabalhador não ganha nada com isso. Apenas se revolta cada vez mais e vai ficando descrente e desmotivado”.


“Ah, e você se diz um democrata... Que grande democrata você é! Quer saber? Você não existe, Thor! Você é um caso pra ser estudado, estudado por uma junta de especialistas. Seus pensamentos são absurdos. Você não existe!”


Thor Nelson sabia que aquilo era em parte pelo Alzheimer. Seu pai ficava cada vez menos previsível e cada vez mais descompensado. Irava-se por nada. Suas reações eram desproporcionais. Não demorava cinco minutos para que se desculpasse. Mas naquele dia Thor Nelson não quis ficar para uma reconciliação. Disse que não agüentava mais o velho e que arranjaria um lugar para si. Bateu a porta e partiu. Ao retornar, só encontrou a casa vazia. Percebeu que uma mala e parte das roupas de seu pai haviam desaparecido, inclusive as calcinhas da falecida mãe, todas. E daquela triste manhã, já havia quatro meses que não via o velho. Dois dias depois, após falar com os conhecidos, que só teriam visto o velho descer a rua bem vestido pela hora do almoço, decidiu prestar queixa de desaparecimento à polícia.


Obs. Este conto conhece sua continuação em GIVANILDO CASA GRANDE. Se ler, não se acanhe, comente. Abraço!

sábado, novembro 12, 2011

UMA DO TCHAIKOVSKY

Fazia alguns dias que ajudava o casal. Sempre se despedia prometendo voltar na manhã do dia seguinte. Um dia voltou e não foi atendido. Bateu no portão. Abriu o portão, enfiou a cabeça para dentro do quintal e chamou. Não foi atendido. O cachorro latia, mas não era para ele, o cachorro latia para o lado, como se visse algo se mover em meio a fumaça tóxica de uma fogueira que, pelo cheiro, deveria estar consumindo uns plásticos ou qualquer outra coisa não orgânica. O cachorro se quer o olhava. Era um pequeno vira latas atado a um arame que poderia percorrer em toda sua extensão de três metros, aproximadamente, eu creio. O cão não tinha o menor indício de ferocidade, e mesmo assim era mantido preso, o tempo inteiro. Talvez devesse a isso o fato do cão ser um tanto esquizofrênico.


O cão latia sem olhá-lo, ele chamava pela dona da casa, a fumaça tóxica impregnava os ares, ninguém atendia. Decidiu tentar chamar Dona Amélia ao telefone, tinha o número. O telefone chamava até o fim, e nada de atender. Abriu novamente o portão e pode ver que a porta da cozinha estava aberta. Talvez Dona Amélia tivesse deixado Seu Felipe sozinho por um instante e ido até a venda, ou à casa de alguma vizinha (algo que um cuidador mais zeloso condenaria veemente). Não havia o que fazer. Não queria invadir a casa. Dona Amélia bem poderia não querer atendê-lo naquele dia, mas poderia também ter enfartado sobre o dorso do marido moribundo enquanto trocava o frasco de dieta. Poderia também, por motivo desconhecido, ter antecipado o banho do pobre homem, contando para tal com a ajuda de algum vizinho para removê-lo do leito.


Eis o mistério. Onde estaria Dona Amélia que não atendia o portão naquela manhã, justo ela que sempre abria o portão sorridente ao primeiro chamado? Os mais histéricos teriam invadido a casa sob o pretexto de prestar socorro. Os mais moderados esperariam até algo mudar a cena, fosse o que fosse. Os mais eruditos buscariam a solução em uma citação literária. Os mais religiosos na bíblia. Nosso jovem herói, ajudante desempregado, decidiu ir até o insólito bar do Farias para comer uma coxinha e tomar uma brota-atola bem gelada. Foi. No caminho, ouvia no velho MP3 Tchaikovsky, A Valsa das Flores, de “O Quebra-Nozes”, eu creio. Comeu a coxinha, que mais justo seria ser chamada de coxona, e tomou o refrigerante bem gelado. Pensou um pouco na questão dos finados. É que, a caminho da casa do casal, passou diante do portão do cemitério principal da cidade e viu um grande monte de flores empilhadas. Ponderou que até as flores mortas do dia de finados atestavam que nada que é humano é perene, mas tudo é na verdade perecível e ilusório, “vaidade de vaidades, tudo é vaidade”, como dizia o pregador.


Transcorridos cerca de quarenta minutos, retornou à casa do casal. Bateu no portão com a chave da própria casa. Dona Amélia veio atender ao primeiro chamado, como de costume, sorridente e receptiva. Não explicou nada, sequer mencionou a alteração do horário, era uma criatura livre de formalidades. Ela estava com a casa parcialmente revirada. Era dia de faxina. Nosso herói não disse nada sobre a espera. Entrou, ajudou, como de costume, e partiu com um trocado no bolso.



Obs. Este humilde conto continua em A IMPRENSA SUPREMA. Se ler, por favor, comente. Obrigado!

sábado, novembro 05, 2011

AMÉLIA É QUE ERA MULHER DE VERDADE

Partiu. Partiu para a casa de Dona Amélia. Fazia quase um mês e meio que ia ali todos os dias pela manhã, exceto aos domingos. Bem no início da manhã. Mudava Seu Felipe de lugar e posição. Colocava-o na cadeira de banho e de volta no leito. Vez ou outra, passeava com ele pela calçada na cadeira de rodas.


Seu Felipe havia sofrido um derrame e estava acamado e, praticamente, todo paralisado. Era magro feito um fiapo. Possuía pernas, braços e pescoço longos feito gravetos. Tinha um rosto comprido e delgado, e com os traços profundos e secos como entalhes em madeira. Seus cabelos estavam constantemente oleosos e amassados. Eram lisos e de cor escura e, apesar de contar mais de sessenta anos de idade e uma vida inteira desregrada, eram poucos os fios brancos. Falava pouco. Em presença de Dona Amélia, dizia nada. Parecia mudo. Em ausência de Dona Amélia, o pouco que dizia resumia-se em coisas inconclusas, estranhas, descontextualizadas, ininteligíveis, confusas, delirantes, e, por vezes, reveladoras e engraçadas.


Cada vez que ele ia ajudar o casal ganhava um trocado. Dona Amélia era lavadeira, e também recebia gorjetas freqüentes dos filhos, ajuda da assistência social do município, ajuda de uma comunidade doutrinária, auxílio doença, por conta de uma hérnia de disco, a aposentadoria do Seu Felipe. Com o dinheirinho que recebia de Dona Amélia pagava uma média, o almoço, outra média. Era apenas um trabalho temporário. Surgiu em bom momento. Ele era vizinho de Dona Amélia e, certo dia, ao ver a dificuldade com que a pequena mulher manobrava a cadeira de rodas do marido na calçada, se ofereceu para ajudar. Mas a dificuldade maior de Dona Amélia não era manobrar a cadeira, mas sim tirar o homem da cadeira de rodas para colocá-lo na cadeira de banho, e de volta na cama, e depois mudar as posições a cada duas horas; recomendação da enfermeira do posto de saúde que a visitava uma vez por semana para ver como andavam as coisas, tomar café, falar de banalidades e partir após os últimos conselhos repetidos.


“Você é forte. Pega ele numa facilidade... Eu nunca que conseguia pegá ele assim. Meu filho, quandotáqui, pega ele assim também, igual bebê. Mas eu, com esses bracim fino e cansado de tanto esfregá a ropa, não dou conta nem de mudá ele de pusição. Mi dá uma dor nas costa quando não tem ninguém aqui e eu preciso fazê isso. A Ritinha, infermera do posto, disse que tem que mudá ele de duas em duasora, mais eu num dô conta, num dô mesmo. Com ajuda dos fí e dus vizim, eu mudo, quano muito, duas veiz por dia. Fí, cê importa de isperá só um poquim até eu dá uma lavadinha nele, e aí se põe ele de vorta im riba da cama pra mim? Hoje eu tô sozinha mais ele”


Bem, ele não se importou em esperar para ajudar (como ficou claro no início do texto). Não recusou o trocado que ela lhe ofereceu em paga do favor. Não refutou o pedido dela para que ele fosse descê-lo da cama ao iniciar o dia posterior, nem para esperar o banho e posicioná-lo novamente na cama. Foi. Chegou por volta das sete. Enquanto ela preparava o banho, levou-o na cadeira de rodas até a calçada para que recebesse a radiação do nascer do sol. Não custava nada para ele ajudar aquelas pessoas. No mais, era um trabalho temporário que lhe garantiria algumas refeições naqueles dias ingratos.



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quarta-feira, outubro 26, 2011

XONGAS

Sua ausência lhe causava um vazio. Esse vazio era preenchido por saudade e tédio. Muita saudade, e todo o tédio do mundo. Não havia como atravessar àquela rua sem lembrar-se das vezes em que a atravessaram juntos, sorrindo e se resvalando nas mãos, nos antebraços, braços, nos ombros, quadris, coxas, pés, nos troncos, nas faces, nas frontes, nas cabeças, nos cabelos um do outro. Praticamente se embolavam diante do trânsito nervoso, tenso, bem como dos transeuntes apressados de caras amarradas. Naquelas ocasiões, nada importava de fato, senão o amor que os envolvia e os movia na travessia daquela rua, e na travessia de todas as ruas que cruzavam juntos.

A química do amor... A química do tédio... A química da saudade... Quem é que nunca provou dessas poções mágicas e transformadoras? Quem? Quem?


Ele sentia vontade de escrever. Escrever era a única maneira barata e acessível de espiar aquele tumulto de sentimentos à deriva no marasmo dos sentidos em que vivia seus dias. Mais uma vez pensou nas palavras de João Paulo Cuenca durante um bate papo na feira literária de Paudalho, Pernambuco: “Eu precisava escrever para dar conta daquele momento, e assim eu comecei a escrever num velho computador”. O escritor disse esta frase quando se referiu a um momento muito difícil de sua vida onde morou em um minúsculo apartamento em um conjunto residencial que mais parecia uma colméia superlotada.


Pensativo, preparava-se para atravessar a rua. Tinha em sua mão um copinho plástico de água fresca que acabara de extrair do bebedouro dentro da pequena loja. Já deixava na calçada o pensamento e a química da saudade. Agora sentia seu corpo reagir ao pensamento e à química da angustiante solidão que pairava sobre sua cabeça. Sabia que, ao chegar em casa, era a casa vazia, poeirenta e mofada que lhe aguardava. De longe, avistou uma figura que se aproximava lhe dirigindo a palavra e enlanguescendo o passo, ao mesmo tempo em que aumentava a oscilação dos braços a roçar o abdome roliço e globoso. Cumprimentaram-se. Era o Xongas, João Xongas. Perguntou de como ia sua mãe. Ele, o Xongas, detalhista como poucos, decidiu explicar. Explicou. O outro ouviu. Na boca de Xongas, perdigotos eram vírgulas, pontos, e pontos e vírgulas. Sentiu medo do amigo. Como tomaria sua água depois daquela conversa? Perdeu um copo de água fresca. Despediu-se, e partiu.


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sábado, outubro 15, 2011

A NIGHT IN TUNISIA

Na véspera do feriado da padroeira, estive em Ribeirão Preto pra realizar exames médicos. Próximo à hora do almoço, já havia feito o exame e estava na rua de um sebo sobre o qual havia visto uma matéria falando a respeito no caderno Ribeirão da Folha de São Paulo de algumas semanas passadas. Achei o sebo diferente de todos que eu já havia visitado, pois ao contrário da maioria, que são sempre escuros e com forte cheiro de poeira, ele é claro e com leve cheiro de poeira. Eu sabia o que queria, digo, sabia razoavelmente o que queria, sabia em sentido genérico. Eu queria um bom livro barato, queria apenas um livro, queria o livro do Reinaldo de Moraes, queria o livro que o tornou conhecido na década de 80; “TANTO FAZ” é o nome do livro. Não tinha. Quando isso acontece dentro de um sebo, de o livro que você procura não constar, você está livre para vagar e divagar por entre as prateleiras. O sebo é um universo paralelo, é uma máquina do tempo. Uma vida inteira não basta para explorar devidamente as miríades culturais de um bom sebo. Eu queria também um filme. Qualquer filme, contanto que fosse bem velho. Encontrei o “A PEQUENA LOJA DOS HORRORES”, versão original, em preto e branco. Fiquei apaixonado pela inocência, simplicidade e, principalmente, pela trilha sonora. Aquele Jazz, feito para ser sombrio em uma comédia de humor negro, é algo fantástico. Hipnótico e sombrio. Faz com que viajemos no tempo passando por um túnel escuro, soturno e romântico. Precisava também de música. Escolhi Miles Davis para levar. A canção “A Night In Tunisia” dá um livro. Tudo em mãos. Filme, música e, claro, alguns livros que não o que eu havia procurado em princípio. Saio do sebo mais rico e feliz. Agora estou aqui, contaminado por essas reminiscências de sebo e empolgado com o texto "A PEQUENA LOJA" que postei antes deste. Creio ter encontrado minha voz mais profunda e sutil, conforme me aconselhou o amigo de twitter, o escritor Miguel Sanches Neto. Acredito muito nos personagens da trama que criei, eles estão vivos e com vida em abundância. O texto é simples, como tudo que escrevo, mas o realismo ali contido é algo elétrico que me move. Usei também Miles Davis para compor a atmosfera que precisei para escrever. O dia chuvoso contribuiu muito. Sei que se fosse uma tarde de sol eu não teria realizado o texto conforme fiz, ou nem teria o feito. Está tudo tão latente que creio não conseguir esperar uma semana para atualizar o blog conforme costumo fazer. Woops! Não esperei mais que poucas horas para fazê-lo [sorrio].


Gostou desta humilde postagem? Não? Tudo bem, eu entendo. Mesmo assim, ajude-me votando em meu blog para o Prêmio Top Blog 2011, logo abaixo do meu perfil aqui. Obrigado!

A PEQUENA LOJA

Caminhava, quando, ao passar pela pequena Rua da Ladeira, vi o anúncio fixo ao vidro da portinhola da estreita porta de uma das muitas lojinhas espalhadas entre velhos edifícios e sobrados residenciais e comerciais do bairro que já fora centro comercial em tempos remotos. O anúncio dizia: “CONTRATAMOS!”

Em minha cabeça, o peso de três meses de aluguel vencidos, contas e dívidas, cobranças, inadimplência na faculdade, e meu pai desaparecido há quatro meses. Sem sombra de dúvida, o período mais sombrio de toda minha vida.

Fato que nunca havia notado aquele comércio. Na adolescência, passava por aquela calçada com freqüência. Mesmo não sendo um grande observador, creio que, ao menos daquela quadra, posso descrever de olhos fechados todos os edifícios ali sitos. Frequentei demais aquela calçada para não o fazer. Como teria me escapado um comércio naquele lugar tão familiar?

Por mais acanhado que fosse o negócio, estaria ali há tempos. Tinha um aspecto de velhice consolidada. A estreita parede da fachada, na cor mostarda, desbotada e descascada a margear os portais de madeira escura, imbuia; tudo parecia devastado pelo tempo. Aquela loja existiria ali certamente há muitas décadas. Até o pequeno vidro retangular da portinhola tinha o aspecto destorcido dos vidros que envelhecem e parecem escorrer para a base como que derretidos pela passagem de muitas décadas... Sim. Admito. Nunca havia notado o lugar.

Nas vezes em que ali passei, nas muitas vezes em que ali passei, devo ter andado distraído. Ou então, devo ter imaginado que fosse apenas mais uma porta residencial; assim a inclui no montante de pequenas portas residenciais ao longo da rua.

Era uma loja velha e escura onde um corredor longo e estreito, também escuro, levava a uma sala de tamanho médio que dava acesso a outros dois portais sem portas. Havia uma inscrição sobre o batente da porta de entrada. Porém, de tão velha, descascada e apagada, não era possível ler o nome da pequena loja. Lia-se apenas: “LOJ M SH K’ S T OW” e o resto era mera especulação.

Em meu favor, apenas o fato de que, quando garoto, eu tinha mania de andar olhando para o chão. Erguia a cabeça somente vez ou outra. Hábito adquirido em decorrência das incontáveis vezes que queimei a sola dos pés descalços nas bitucas de cigarro. Fazia uma espécie de varredura das calçadas com o olhar. Passei naquela rua quando adulto também. Mas apressado como todos somos, quem é que nota pequenas portas?

Não importa. O fato é que a velha loja estava ali e poderia saciar minha necessidade por emprego. Era minha chance.

Ao atravessar a pequena porta, era um longo, e estreito, e escuro corredor que conduzia ao interior de uma sala quadrada pouco iluminada. Dentro da sala, pude ver que o chão era de tacos em péssimo estado de conservação; foscos, riscados, com falhas. Entre dois portais, havia um pequeno balcão de madeira escura, imbuia. Atrás do balcão, um velho computador na cor bege, um dos primeiros modelos. Diante do monitor da máquina, estava sentada uma jovem de cabelos castanhos escuros com as pontas loiras, e de óculos de aros largos e lentes grossas. Ela tinha o olhar fixo na tela refletida em suas lentes. Dirigi-me a ela que parecia não ter ouvido soar a campainha musical no momento em que atravessei o portal da rua adentrando o estreito corredor. Não ouviu ou talvez tenha simplesmente ignorado minha chegada como deveria fazer toda vez que estivesse compenetrada em uma conversa no MSN.



“Oi” Disse eu.

“Oi” Respondeu ela, e sem desviar os olhos da tela.



“Vi lá fora que estão contratando...”

“Uhnrhum”



Eu não queria dizer que não sabia do que se tratava aquele comércio, isso poderia denunciar minha extrema necessidade por um emprego, fosse qual fosse. Naquela situação desesperadora, qualquer trabalho fixo aliviaria parte de minhas preocupações e dívidas, e, mais que isso, seria terapêutico por abstrair-me do emaranhado de problemas comprimidos em minha cabeça quente.

“Quem é o responsável pelas contratações?” Falei assim apenas para valorizar o evento, pois me pareceu que ao dizer ‘contratações’, e não simplesmente ‘contratação’, elevaria o status da empresa. Ela olhou-me pela primeira vez e, com ar de extremo enfado, perguntou mascando um chiclete: “É currículo?”

E vendo que eu não dizia nada, mas já transparecia em minha face uma ligeira afetação pelo descaso da recepção, completou: “Se for currículo, pode deixar aí em cima do balcão que eu entrego pro Seu João na hora em que ele voltar”

Agora eu sabia que quem detinha o poder de melhorar o meu destino se chamava Seu João e provavelmente estaria almoçando às onze horas da manhã, e com efeito retornaria ao meio dia para que a moça do MSN fosse por seu turno almoçar.

Emendei: “A que horas o Seu João volta?” Ela certamente queria me irritar. Se não queria, indubitavelmente possuía o dom. “É currículo?” Ela disse outra vez, num rápido desvio de olhar da tela para mim e, antes de esperar por qualquer resposta, voltou a teclar uma mensagem para o provável velho gordo maníaco pelado tarado escroto casado pai de família com quem ela falava a manhã toda no computador. Bastava. Aquela moça, com seus modos displicentes e mal educados, acabara de fechar uma porta que poderia ajudar a melhorar minha vida tão necessitada de melhorias. Um soco no balcão e alguns desaforos seriam a exata medida de meu desabafo e pedido de demissão prévio ao analise de currículo, entrevista e contratação.

Foi quando saiu do portal da esquerda um jovem magro, pálido, descabelado, esquálido, de óculos parecidos com os da recepcionista, visivelmente estrábico, vestindo calça jeans justa e camisa xadrez, com alguns livros velhos nas mãos e perguntando: “Ingrid, você sabe se esses aqui já foram catalogados?”

Sem desviar os olhos da tela, ela respondeu que não sabia, e que era para ele deixá-los sobre o balcão que ela veria depois. Ele não se importou com a pouca atenção; pareciam se entender. Ele disse: “Então ta” Olhou-me ali parado diante do balcão, e retornou pelo portal que havia surgido como num evento de materialização seguido por desmaterialização. Ao ver que a falta de atenção da moça do MSN, a Ingrid, não era algo pessoal, fiquei mais calmo e vi se esvair o meu ímpeto de esmurrar o balcão e desaforá-la. Como eu não trazia em mãos nenhuma cópia do meu currículo, saí para providenciar. Decidi voltar no dia seguinte, talvez.


Obs. Esta postagem é comemorativa do terceiro ano do blog, a completar-se no dia 01.01.12, e também comemora a adesão de mais de 3500 generosas pessoas que me apóiam. Quer saber o que aconteceu em seguida? Este conto continua em “XONGAS” [se ler, por favor, comente]

domingo, outubro 09, 2011

O NAMORO FOI UM FILME

Ela chegava sempre no horário certo ao trabalho. Não adiantava nem atrasava. Frustrada pelo casamento que resultou em filhos, conflitos, calúnias, vivia uma vida dura, dupla. Se por um lado se realizava em ver os filhos crescerem sob seus cuidados de mãe zelosa e trabalhadora, por outro ficava frustrada por ainda amar o cafajeste que tanto lhe causou danos à vida. De dia era uma trabalhadora mãe exemplar, à noite uma mulher triste e solitária.

Era apenas uma menina quando se apaixonou por aquele inútil. Ele veio cheio de mimos, zelos, obséquios, perfumes, sorrisos, camisas de corte social de cores da moda, frases de efeito, sapatos de pelica, carinhos, calças bem ajustadas, afagos, ouro no pescoço, dentes brancos reluzentes, cartola e fraque de Mandrake.

Como não se apaixonaria por aquele arsenal sedutor operado por um homem, ainda por cima, mais velho e experiente? Parecia o príncipe loiro dos contos de fadas, mas numa versão ruiva. Entretanto aquilo era apenas o namoro, e namoro é maquiagem, é cena, é artifício, é filme. Se você atualmente namora e agora se ofende com o que digo, não se ofenda. No entanto se já namorou na vida e hoje sabe que o namoro é a fase do conto de fadas do relacionamento afetivo, concordará que não exagero nem minto. ‘Vá comer um quilo de sal lado a lado para saber quem está junto de você na verdade’, assim dizia as avós dos netos mais velhos que andam por aí em nossos dias.

Ela pagou o preço caro por apaixonar-se por um canalha. Quando veio a monotonia do casamento, ele já flertava a muito com uma movimentada vida de solteiro. Queria voltar à esbórnia, farra, orgia, pândega, boemia. Queria perder-se nas madrugadas, virar os olhos diante de caras pintadas inalando os fortes perfumes que não custam caro e por isso são derramados aos litros nos pescoços suados floridos por hematomas em formato de bocas tortas alcoolizadas. Queria as mulheres que na maioria não namoram nem se casam; as que se dedicam a fins comerciais. Começou a chegar tarde o traste. Chegava com os colarinhos sujos por batons baratos com desenhos de fissuras de lábios não caros. Suas roupas cheiravam a almíscar falsificado; as íntimas cheiravam à náusea dos becos que ninguém sonda; becos insondáveis. Chegava faminto e furioso. Bastava a mínima palavra dela para que explodisse e lhe descesse o braço impiedosamente. Noite de espetáculo. Crianças assustadas chorando e pedindo a Deus para que, por misericórdia, não deixasse a mãe morrer em meio aos socos, pontapés, desaforos do pai carrasco. Aquilo durou até o traste ter a brilhante idéia de difamá-la. Disse aos quatro ventos que ‘Aquela vagabunda é uma infiel, anda com os crápulas do trabalho, eu sei; pensa que me engana; safada! cachorra! ordinária!’. As surras desta fase eram as mais violentas. Um demônio corno se apossava do traste e ele era tomado pela fúria do chifrudo maldito que encenava com maestria. Quem sabe fosse filho de corno furioso e aquilo estivesse entalhado no mais recôndito confim de sua natureza obscura. Ela não o traia, mas sua vocação para corno era notória. Tanto bateu na pobre coitada que a opinião pública começou a duvidar da boa índole da moça. ‘Se tanto apanha, certo que deve haver algum motivo’. Fato era que tinha alguns crápulas por colegas de trabalho. Ele fora ardil, maquiavélico no sentido mais próprio da palavra. Escolheu justamente o mais sem qualidades dentre os crápulas reconhecidos pela opinião pública e lhe empossou do cargo de amante de sua esposa infiel. Ela jamais o traiu, possivelmente nem em pensamento. Ela jamais traiu os filhos, os votos, os preceitos da moral, o sentimento. Quando a situação atingiu o ápice da calúnia e se tornou insustentável, ela viu-se na obrigação de expulsa-lo de casa. Ele saiu com mala em punho proferindo impropérios e bravatas. Três quarteirões adiante, ria à larga. Foi buscar no meretrício aquela que, supostamente, lhe faria o homem honrado que ele sempre fora. Ela continuou em sua rotina de trabalho. Chegava sempre no horário. Suspirava ao saber notícias do traste e ironizava as más sortes do canalha. Fingia desprezo. Sentia saudades. Contudo a saudade era apenas uma confusão de coisas; era saudade do namorado, do príncipe encantado, do personagem do conto de fadas, do filme do namoro.


Obs. Esta postagem é comemorativa do terceiro ano deste blog, a completar-se no dia 01.01.12, e também a adesão de mais de 3500 generosas pessoas que me apóiam. Será uma série de singelas postagens onde pretendo revelar peculiaridades dos dias comuns de um homem comum vivendo uma vida comum. Peço o seu voto para este blog no Top Blog 2011. Caso queira, clique no selo logo abaixo do meu perfil e vote. A arte gráfica ilustrativa é de Ana Santarosa, minha filha de nove anos.

domingo, outubro 02, 2011

UM DIA COMUM

Tudo pronto. Você pisa na rua e seu papel está sendo desempenhado publicamente. Talvez você não pense assim e ache-se o mesmo dentro ou fora de seu ambiente mais restrito, sua casa, mas é hipocrisia do pensamento afirmar isso, tampouco você é obrigado a refletir sobre essa questão. Pessoas do ramo já refletiram e refletem de mais sobre todas as questões questionáveis. Cidadãos comuns não precisam ser filósofos para conquistar o sustento. Sócrates pensava muito. Dizem que, certa ocasião, em Potidéia, ele teria permanecido imóvel, absorto em seus pensamentos, durante vinte e quatro horas, tudo diante da estupefação dos colegas soldados numa campanha militar. Mas Sócrates, além de soldado dos bons, foi um filosofo dos melhores. Você não é um Sócrates, pode levar sua vida sem se ocupar tanto em pensar, pensar, pensar.


Voltando ao assunto, convenhamos: ninguém é o mesmo dentro e fora de seu ambiente doméstico, seu lar. Assumimos um personagem assim que colocamos os pés para fora de casa, e abandonamos o outro personagem, e claro que, um leva em si partes e influencias do outro. Esse que “vai” é o ser social, e não o ser íntimo que “ficou”. Se fosse o contrário, apenas um exemplo básico: banheiros e quartos seriam comunitários, um para cada quarteirão. Imagine você dormindo com o quarteirão inteiro em um tatame, e na hora de defecar trocando informações sobre a vida alheia com o vizinho de vaso. Imaginou? Eu nem quis imaginar uma coisa tão bizarra, desculpe, não sou muito imaginativo.


Trabalhadores partem para desempenhar as mais variadas funções, nos mais variados locais, em suas mais variadas condições e pensamentos. Você viu um pouco de cidade e adentrou à empresa em que trabalha. A empresa, antes de existir, foi o sonho de alguém. Dom Quixote imaginou e empreendeu uma grande empresa. Queria ser o último dos cavaleiros andantes, queria salvar princesas, enfrentar dragões, promover a justiça. Para tanto, recrutou Sancho Pança. Eram nobres os ideais daquele velho lunático. A empresa na qual você atua, e não por acaso é usado o termo ‘atuar’ para designar o exercício de função, também começou do sonho de algum sonhador. Alguém que não apenas sonhou, mas empreendeu em uma direção, por um objetivo. Cada um cumpre seu papel. Não é Dom Quixote quem atua como Sancho Pança, nem o contrário.


Farei uma afirmação, de certa forma, irresponsável. Você pode até discordar e rebater no espaço aqui destinado aos comentários, não me ofenderei de modo algum. O texto não é pessoal. Mas quero me atrever a dizer que acredito que, você é o seu sonho. Ou seja, seu papel, o qual você desempenha, é seu personagem no palco da vida, e a maneira como você o faz é sua marca pessoal. Observe o dia comum. Faça um blog. Diga ‘bom dia!’. Sorria. Seja. Pense. O dia comum foi feito para atuarmos. René Descartes já dizia a frase que se tornou um hit através de tempos e gerações: “Eu penso, logo existo”.


Obs. Esta postagem inaugura a sessão de postagens comemorativas do terceiro ano deste blog, a completar-se no dia 01.01.12, e também a adesão de mais de 3500 generosas pessoas que me apóiam nesta empresa [sorrio]. Será uma série de singelas postagens onde pretendo revelar peculiaridades dos dias comuns de um homem comum vivendo uma vida comum.


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A arte gráfica ilustrativa é de Davi Santarosa, meu filho de onze anos.

domingo, setembro 25, 2011

EU, O TÉCNICO EM INFORMÁTICA, E A FUNKEIRA

Eu estava com um problema em meu computador de mesa. Ele iniciava e, poucos minutos depois, surgia uma mulher na tela dançando funk sobre um fundo verde fluorescente e o aparelho desligava-se de súbito. Eu perdia tudo o que estivesse fazendo. No início isso acontecia a intervalos regulares de trinta minutos, creio. Com o tempo, os intervalos foram se tornando menos espaçados. Logo chegou ao ponto de absurdos três minutos de funcionamento constante. Por fim, era apenas a dançarina funkeira entusiasmada a exibir sua condição física de atleta antes do apagão vindouro.

Comentei com um amigo, que me indicou um técnico dizendo que o sujeito era bom e praticava preços justos - ‘preços justos’ é um conceito bem interessante em se tratando de relações comerciais. Tomei o aparelho e fui ao profissional bem recomendado.


La chegando, o cara me recebeu muito bem. Atendia em um velho sobrado, onde funcionava sua oficina, loja, lan house e casa. Exibiu seu conhecimento em informática, que parecia amplo. Levantou prováveis hipóteses diagnósticas. Descartou, rindo, minha sugestão de que poderia ser o caso de uma simples formatação, já que eu jamais havia formatado aquele aparelho. Preferi não insistir, afinal ele era o técnico. Batendo em meu ombro, ele disse pra que eu deixasse a máquina para teste e orçamento. E orçamentou, do verbo orçamentar. Pediu pela fonte e mão de obra de troca da mesma o equivalente ao que seria uma formatação. Aceitei. Trocou a fonte. Deu-me a fonte quebrada como se fosse um fígado carcomido por cirrose extirpado do corpo do aparelho. Disse que testou a máquina e que eu poderia levá-la para casa, pois agora estava perfeita. Levei. Uma hora depois, tempo que provavelmente superou o teste fail feito na oficina, o problema voltou com a mesma eficiência do costume, porém o fundo sobre o qual a funkeira dançava agora era azul enseada e ela estava mais magra, mais ágil. Em seguida, tudo desligado, tudo perdido. Dê-me paciência, Senhor!


Voltei ao técnico. Ele quis encontrar outras razões e explicações para aquele comportamento temperamental, instável e atípico de minha máquina. Não aceitei de modo algum trocar outra peça conforme me sugeriu. Acabamos por concordar em fazer uma formatação para ver no que resultava. Deu certo. Então perguntei sobre minha nova fonte, sobre sua necessidade e superfluidade. Ele gaguejou um pouco antes de discorrer com desenvoltura em mais uma explicação técnica recheada de fundamentos e jargões próprios do técnico.


Computador arrumado, tudo certo, vamos ao acerto. Tudo certo? Como assim tudo certo? Se ele tivesse formatado conforme eu pedi teria me poupado de despender o dobro do valor para resolver apenas um problema. E o tempo e deslocamentos que isso me custou, não entra na conta? E pareceu-me que eu não era a única pessoa ciente destes fatos. Havia um cheiro de constrangimento no ar. Mesmo assim o técnico não mudou sua expressão técnica para cobrar o valor integral de uma formatação. Eu tive que dizer de improviso parte da crônica supracitada ali mesmo, na hora, no local. Acabei saindo da oficina com meu computador de fonte nova, formatado, e com um vale formatação feito, muito contra gosto, pelo técnico. O computador atualmente funciona bem, está mais rápido, eficiente, porém a funkeira nunca mais deu o ar da graça.


Obs. Arte gráfica de Davi Santarosa Obs.II Solicito o seu voto para o Top Blog 2011, é só clicar logo abaixo do meu perfil e votar. Obrigado!

segunda-feira, setembro 12, 2011

LENÇÓIS MOVEDIÇOS BRANCOS DE CETIM

O que não me pertence eu não ofereço a ninguém. Amor dos outros é amor dos outros, é sagrado. Um amor inspirado em um inverno de umidade extremamente baixa é um amor praticamente fadado ao fracasso. É um amor que supostamente não resistirá às primeiras chuvas primaveris. É um amor seco, árido, opaco, sem futuro. Admita.

Admita que os versos contidos nas parábolas e elipses do vôo ininterrupto do beija flor cego duram até que seu coração pare de bater, pois o pavor de pousar lhe faz versar até o último pulsar em seu diminuto peito amante da vida. Queira logo um gole do vinho tinto sagrado com o qual o mestre brindava aos seus principais convivas e comensais. Queira em vida, e vida abundante. Queira enquanto o teu querer é capaz de mover montanhas.

Não tenho nenhum dragão para enfrentar. Ai de mim assim, sem dragão medieval para enfrentar, sem dragão asiático para mitificar, sem uma Harley Davidson para montar! Não tenho uma rainha para saudar, e isso é melancólico como a cólica seguida da cólera vespertina. Ai de mim sem rainha para saudar! Pensando bem e mais além, pensando no coletivo, não temos futuro como não tiveram os punks na Inglaterra ou no ABC paulista. Ai de nós que nem punk somos!


Por aquela rua que só desce fui pra nunca mais subir. Não é questão de capricho. Nem princípios de beira de precipício. Questão de amor próprio, amor precioso, amor principal, preciso. E não é questão apenas de um amor qualquer como pode imaginar ter sido. Questão de amor é coisa séria. Não brinco com isso. E seria coisa mais séria ainda, não fosse o cotidiano nosso de cada dia que nos dai hoje.


Seja grande. Não seja um pigmeu sem caráter, sem pigmento brioso na face, sem nobreza no olhar. Converse com as flores. Ouça o que diz o dia. Respeite o amor que se move no horizonte.


Tome em seus braços a vida faceira que se espreguiça pelos lençóis movediços brancos de cetim. Queira o beijo fresco da manhã sabor hortelã. Queira a feroz, mortal, angelical maçã em que o inverso agonizante injetou a nova primavera. Queira teu bem. Desvie de teu mal. E lembre-se que o que não me pertence eu não ofereço a ninguém. Amor dos outros é amor dos outros, é sagrado. Um amor inspirado em um inverno de umidade extremamente baixa é um amor praticamente fadado ao fracasso. É um amor que supostamente não resistirá às primeiras chuvas primaveris. É um amor seco, árido, opaco, sem futuro.



Obs. Foto realizada na cidade de Delfinópolis MG. ObsII. Solicito o seu voto no Top Blog 2011. Caso queira, clique no selo abaixo do meu perfil. Obrigado!

quarta-feira, agosto 31, 2011

MACONHEIROS DESGRAÇADOS

Não imaginava que o último dia de agosto viria com notícia de morte, tempestade de poeira e chuva, história. Fazia calor logo ao iniciar o dia. Um pouco eu trabalhava. Um pouco eu tentava respirar próximo à janela do quarto abafado pela noite inteira de respirações à porta fechada.

“Ta vendo essa grade na janela? Não tinha. Colocaram depois que o ladrão entrou por ela. Ele entrou e fez a festa. A gente tinha ido almoçar fora. O ladrão trepou no muro, pulou, arrombou a janela, entrou aqui no quarto, levou um relógio de parede igual àquele da sala. Você reparou o relógio lá da sala? Pois é. Era igual àquele. O ladrão levou também cordão de ouro, anel, pulseira, brinco. Levou um montão de roupa do meu genro. E ainda deixou a camiseta velha dele. Você acha. Vestiu uma de meu genro e largou a dele aqui. Vê se pode. Aí, depois desse dia, puseram essa grade”.


O ladrão ter entrado e feito um limpa era algo de se esperar de um ladrão. Mas o ladrão entrar e trocar de roupa e ainda doar sua velha camisa ao genro da mulher foi algo, no mínimo, inusitado.


“Mas essa não foi a única vez que entrou ladrão aqui nessa casa. Outro dia, depois que entrou o ladrão aqui pela janela, entrou pela cozinha. Ele trepou no muro do fundo, subiu no telhado da varanda, foi até o telhado da cozinha, tirou algumas telhas e pulou pra dentro. Fez a festa. Levou um tanto de trem. Liquidificador, panela, o relógio da parede. Você viu o relógio de parede da sala? Pois é. Era igual também. Até trem de comer ele levou. Jogou trem pro chão. Fez uma imundície”.


Aquela casa parecia ser mesmo muito visada pelas histórias que eu acabara de ouvir. Fiquei em dúvida se seria a casa muito visada ou a rua, o bairro.


“Aqui nessa rua já roubaram uma porção de casa. Í, um monte... Aí embaixo, do lado do bar, já roubaram. Ali do outro lado. Do lado de cima. São ‘os maconheiro’. ‘Os maconheiro’ é que roubam as casas. ‘Os maconheiro’ desgraçados..."



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sexta-feira, agosto 12, 2011

O CASAMENTO DE PAULO CESAR

Depois de tantos incidentes só nos restava acompanharmos o final da cerimônia de casamento de minha irmã em relativa tranquilidade. A consumação dos votos de eterna e cada vez mais breve e fugaz dedicação, fidelidade e lealdade.

Padre Berzerk talvez não percebesse, mas transparecia sarcasmo a cada pergunta e resposta. Parecia inconscientemente disposto a preservar e fortalecer sua fama de sacerdote moderno e liberal. Fez questão de alertar aos noivos de que poderiam desistir antes de confirmar o absoluto sim: “Ainda há tempo para desistirem, depois...”. Dizia isso com certa malícia explicita no tom de sua voz e em sua expressão facial.

Hans estava visivelmente impaciente. Tinha absoluta pressa e se precipitava nas positivas. Estava muito necessitado de ir ao banheiro eliminar alguns litros do chope acumulado por uma tarde inteira de bebedeira.

Sarah estava distante e indiferente. Divertia-se focando com o olhar vagante os rostos dos convidados que estavam em seu campo de visão. Parou em Paulo Cesar. O rapaz não se conteve e rompeu em um choro dolorido, desconsolado, compulsivo. Temi o pior. E meu temor se fez justificar.

Paulo César começou a ver-se no lugar de cada mártir de gesso que habitava e ornava o interior da catedral. Viu-se ainda bebê no colo de Maria. Viu-se amarrado e flechado como São Sebastião. Viu-se crucificado e desfalecido no madeiro do calvário. Soltou um grito agudo e prolongado. Caiu resvalando nos convidados que estavam ao seu lado. Sarah recolheu o leve ar de sorriso e fez-se toda espanto. Paulo César ia ao solo pela segunda vez naquela noite. Arrependi-me e culpei-me por não o ter enviado a um hospital, teria evitado mais aquele episódio imensamente triste. Para piorar ainda mais a situação, o rapaz, ao invés de tomar seu comprimido, improvisou tomando um dos de papai. Justamente um que previa em sua extensa lista de reações adversas poder causar alucinações.

Padre Berzerk deixou os noivos e foi em socorro do pobre convulsivo. Vendo que ele tardava em sair da crise epiléptica e apresentava-se cada vez mais roxo, gritou para que chamassem o resgate. Eu mesma liguei.

As pessoas se afastavam com terror e medo estampados em suas caras assustadas. Papai gritava “Asmodeu!” como se tivesse visto sua profecia confirmada. Os garotos se aproximaram com celulares filmando e dizendo que o zumbi iria bombar no You Tube. Eu me sentia muito culpada, e era mesmo culpada.

Um senhor, médico ortopedista, após verificar que o enfermeiro roxo não mais tinha pulso, começou a massagear seu tórax e solicitou que outro homem, um fisioterapeuta, fizesse respiração boca a boca. Logo a equipe de resgate estava dentro da igreja assumindo o controle das ações e tentando reverter o quadro. E foi sob manobras de reanimação que Paulo César recuperou a respiração e a freqüência cardíaca. Posicionaram-no em uma maca. Colocaram-lhe uma máscara de oxigênio. Transportaram-no para o interior da ambulância. Paulo César só voltaria à consciência no dia seguinte. Teve ainda mais duas crises convulsivas do trajeto da igreja até o hospital onde fora admitido na UTI.

Todos convidados esqueceram o casamento. Acompanharam curiosos e excitados à ação da equipe de paramédicos. Hans foi ao banheiro e, quando retornou, não mais viu Sarah que foi embora a bordo de um Corsa prata de alguns amigos. Eu e o restante da parentela fomos para casa com papai. Não houve casamento naquela noite e em nenhuma outra até a presente data. Os noivos estão dando um tempo. Paulo César nunca mais teve crises epiléticas. Está tomando o remédio com a devida regularidade. Papai esqueceu-se por completo de Asmodeu. E eu um dia voltarei para contar sobre casamentos e ou divórcios.


sábado, julho 30, 2011

O CASAMENTO DE SEU TURÍBIO

Paulo Cesar atravessou a rua e conduziu papai à praça conforme pedi. Posicionou a cadeira de rodas de modo que sentado no banco tivesse o velho de frente para si. Tirou do bolso o iPhone e digitava uma mensagem quando sentiu de súbito forte sonolência e torpor. Mais tarde nos contou que olhava para papai parado ali em sua frente, contudo não se recordava de quem era papai, tampouco de já tê-lo visto antes - soube tempos depois, pela boca de um profissional, que naquele momento Paulo Cesar fora acometido por uma sensação de “jamais vu” seguida por convulsão.

Um minuto depois, Paulo Cesar recobrava a consciência. Sujo, ralado e amarrotado, visivelmente constrangido, o rapaz apresentava pequenas escoriações na fronte e na face, no dorso da mão e no antebraço, e tudo apenas do lado direito do corpo. Disse se recordar ter visto pequenos pontos luminosos que começaram a piscar e se fundir à imagem repentinamente e estranhamente desconhecida de papai que agora ele reconhecia perfeitamente, como sempre.

Alguns garotos que estavam do lado de fora da igreja rodeavam Paulo Cesar quando cheguei a tempo para ajudá-lo a erguer-se do chão. Riam e, eufóricos, comentavam a cena que presenciaram um minuto antes:

_Meu, o cara correu muito doido pra frente, cê viu?! Ele tipo atropelou a cadeira do velho e só parou por que bateu no carro do pai do Tavinho.

_Nossa, véio! Amassou a porta do carro do Tavinho; o pai dele vai ficar muito loco.

_O cara virou tipo um zumbi, cê viu? Nossa, véio!...

_Meu, que loco! O cara tipo surtou, véio! Muito doido! Nossa!

_E a ora que ele caiu no chão e começou a estrebuchar então? Achei que ele fosse morrer, meu!

_Eu também pensei: “Já era esse cara!”

_Ficou roxo da cor da camiseta do Franco e babando, véio!

_Meu, será que não espirrou baba na gente? Eu ouvi falar que quem leva baba dum cara assim fica tipo igual ele, é tipo mordida de zumbi, tá ligado?

_Se liga, véio! Vamo lá pra dentro que o troço já começou...

Paulo Cesar sofria de múltiplos tipos de epilepsia. Naquela noite, em especial, fora acometido por um episódio de epilepsia cursiva, e por isso correu inconsciente durante a crise parecendo não se dar conta de qualquer obstáculo.

Eu queria chamar um taxi para encaminhá-lo ao hospital, porém ele se recusou dizendo que aquilo acontecia às vezes, e que havia se esquecido de tomar o remédio naquela noite, no entanto tinha uma cartela consigo e tomaria ficando bem. Peguei eu mesma a cadeira de papai para conduzir de volta à igreja, e pedi a Paulo Cesar que ficasse conosco, contudo sem qualquer incumbência para com o papai. Ele aceitou. Foi ao banheiro no interior da catedral para lavar o rosto e o braço, e quando retornou encontrou uma brecha entre os presentes para assistir à continuação da cerimônia, isso do lado oposto ao que estávamos eu e papai. Entendi perfeitamente. Papai estava mesmo exaustivo com o seu persistente Asmodeu e agora com os olhos mais arregalados que o habitual.


Este conto é a continuação de “O Casamento de Sarah”. Aceito comentários críticos, não tenha receio em dizer o que achou.

sábado, julho 16, 2011

O CASAMENTO DE HANS

Com papai gritando cada vez mais alto e a intervalos menores “Asmodeu!”, incumbi Paulo Cesar de levá-lo para tomar um ar puro no jardim de frente à igreja. Paulo Cesar descia a cadeira de papai pela rampa lateral quando cruzou em diagonal com Sarah, que acabara de descer da clássica limusine preta e se encaminhava rumo à escadaria da catedral. Ela riu do escândalo proporcionado por papai, e ergueu o riso até Paulo César, que, atônito e mais estrábico que o habitual, imediatamente estacou no meio da rampa, e por muito pouco não abandou a cadeira de papai à própria sorte para melhor absorver o impacto da imagem que lhe paralisara (Sarah).

Os ombros brancos à mostra, a franja vermelha guardando metade do olhar para a noite nupcial, a outra metade corria furtiva sobre as caras embasbacadas pela suavidade da flor rubra e alva que rompia pelo corredor principal do modesto templo erguido ao estilo gótico a custo de muito esforço dos fiéis. Em momento algum ela procurava por Hans, que era um mero coadjuvante naquele espetáculo todo onde ela, a flor rubra e alva era, sem a menor dúvida, a estrela solitária. No esplendor de sua adolescência agonizante, Sarah era algo como um rubi cravado no peito da perfeita fêmea de mármore.

Não se sabe quantos sorrisos ela lançou naquela noite. De uma coisa tenho certeza, pois a conheço bem, não eram sorrisos de felicidade, ela não sorri quando feliz, ela gargalha largamente na alegria. Ela sorri quando quer debochar de alguém, quando pensa em algo que coloca a todos em situação patética e ou ridícula. E naquela noite ela sorriu para todos que tiveram a sorte de alcançar a graça de seu olhar.

Sarah sorria de papai, que tanto se esforçou para que Hans, um alto executivo da multinacional onde papai fora um reles contador, notasse-a. Ela sorria por que na noite anterior ao casamento estava com os amigos comendo hambúrguer, rindo dos vídeos que cada um tirava do bolso, mandando mensagens pelo twitter, tomando refrigerante e comendo fritas enquanto gargalhava de curtas histórias jogadas ali sobre o tampo da pequena mesa da lanchonete MacChina.

De pé, de costas para o púlpito, de frente para os convidados, sobre o degrau que elevaria à altura do padre, Hans, um alemão com quase dois metros de altura, pelo menos vinte e cinco anos e dois casamentos mais velho do que Sarah, com sua barriga barrica de chope mal acomodada dentro do terno de corte fino italiano, com sua cara vermelha sanguínea, com suas sobrancelhas espessas e longas, e com o largo sorriso amarelo cigarro, aguardava por sua jovem noiva.


Obs. Este conto é a continuação de “O Casamento de Sarah”, mas pode perfeitamente ser lido e interpretado solitário, ao sabor do leitor do blog. Continuo aceitando e até pedindo por críticas impiedosas, não se acanhe.

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