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VALENTINA, A ORQUÍDEA # 01

Uma orquídea é um ser capaz de gerar desavenças e, paradoxalmente, angariar simpatias e boas amizades? Não sei. Não estou aqui para dar respostas. Com sorte, serei capaz de gerar alguma interrogação, quem sabe? Às vezes penso que Valentina não é deste mundo. Somente uma criatura de outro mundo seria capaz de fender um inverno e fazer jorrar um fluxo intermitente hora primaveril hora de outono. Por ocasião da data comemorativa do dia do amigo, recebi em um vaso muito singelo e bem arranjado um presente de amizade, é claro. O vaso de barro vinha trajando uma caixa de papelão xadrez quadriculada em branco e azul. Do vaso se erguia inclinando-se curvada e pejada por seis belas flores brancas a frágil e encantadora criatura. Risonha e formosa como um sonho colorido e maravilhoso, Valentina, a orquídea, não tinha como ser mais graciosa. Ela trazia um pouco acima da base de seu caule um laço de fita azul de cetim que combinava com imensurável perfeição com sua figura e personalidade. Da ...

VIDINHA E O PEDINTE DO AMOR

O andarilho parou diante à empresa, observou o letreiro ao alto, certificou-se de não haver nenhum segurança e adentrou pela recepção do setor onde ela era recepcionista e foi ter direto diante sua mesa: “Oi! Você tem aí um trocado? Qualquer moedinha serve. Só um trocado pra um pobre coitado. Estou com fome, com sede, o de sempre. Mas vejo que você é bonita. Acho que estou apaixonado por você..., Vidinha. Não é que você é mesmo lindinha..., Vidinha! Eu troco um trocado por um beijinho seu, linda. Vamos embora daqui, Vidinha. Vem comigo pelo mundão sem fim e sem fronteiras”. Por mais repentina e inusitada que fosse a proposta do mendigo apaixonado, Vidinha, que não se chamava Vidinha de fato, é claro, por um momento sentiu-se enternecida e lisonjeada pelo modo cativante com que o andarilho do amor revelou sua paixão repentina e fulminante. Nos dias seguintes, todos os dias, nas vezes em que entrava e saía da empresa, lá estava sentado à porta, todo sujo e roto, o andarilho do amo...

GENYSIS – O PAI DO CHICO

“Ela disse que é pro senhor entrar” indo à frente, adentrando e seguindo pela casa, falou a cuidadora ao visitante, que respondeu com um gesto positivo de cabeça e seguindo após a mulher. Havia no corredor, inundado por uma fina nevoa de luz solar salpicada de filamentos de poeira, um grande retrato em preto e branco de uma moça em traje de festa e com um largo sorriso de graúdos dentes de perolas. Ainda no corredor, seguindo à direita do visitante, à porta de entrada do vestíbulo onde a anciã o aguardava, havia uma cômoda repleta de relíquias, imagens de santos, bibelôs e porta retratos. “Parece que ela está dormindo. Mas o senhor pode falar com ela. Se ela não acordar, o senhor terá que voltar outra hora” explicou a mulher. “Dona Eulália, bom dia! A senhora está me ouvindo?” “Perfeitamente, meu caro. Mas quem é senhor?” “Sou o escrevente que a senhora pediu para que chamassem.” “Sim. Claro! Seja bem vindo! Qual o seu nome, meu filho?” “José.” “José?” “José.” “Ah, José!..., o senho...

GENYSIS - O CHEQUE ENCANTADO

“Ela tinha uma letra linda! Precisa ver!” disse a cuidadora enquanto preenchia o cheque para pagar por umas fraudas ao pessoal da farmácia. “Quando eu ia ao banco levar algum cheque preenchido por ela, o banco inteiro se admirava da caligrafia na folha; o papel corria de mão em mão; ao final, vinha o próprio gerente para descontar e dizer com grande ênfase que aquele sim dava gosto em pagar.” “Tem algo escrito com a letra dela para que eu possa ver?, uma pequena amostra?” perguntou o visitante, com sincera curiosidade. “Acho que sim. Aguarde um momento, por favor...” disse a cuidadora e dirigiu-se à penteadeira da qual abriu uma gaveta e começou a revirar o interior da mesma: “Aqui está! Uma carta que ela não enviou à filha. Mas aqui a letra dela já não estava tão boa; mesmo assim dá pro senhor ter idéia do quanto era bonita. Pode ler. Ela não se importa. Eu mesma já li e não tem nada de mais.” O visitante examinou por algum tempo o remetente do envelope e depois o desti...

GENYSIS - A CRIAÇÃO SURDA

A fachada da casa ostentava um estilo que há muito havia caído em desuso e sofrera por contínua substituição ao gosto de momento do mercado imobiliário. Os jovens das cidades parecem odiar as memórias do lugar tanto quanto os velhos das mesmas cidades estimam as mesmas memórias. O curioso é que, com sorte, os jovens sempre envelhecem e passam a suspirar pelas memórias não preservadas e destruídas pelos outros jovens da ocasião. Naquela casa era trabalho inútil apertar a tecla do interfone mudo. Após duas ou três preensões o visitante perceberia que ali o código era o estalar das velhas e infalíveis palmas, de preferência com as mãos por sobre o velho, desbotado e ferruginoso portão marrom. E o som certamente demorava algum tempo para atravessar a decrépita fachada e alcançar alguém no interior da residência, pois até o latido do cão só era ouvido após a segunda tentativa e durante a terceira salva de palmas. E somente após todas essas barreiras é que a cuidadora vinha ver e rece...

PERUCA DE COBALTO

Descia pela rua adjacente. ‘Treze concursos públicos e nenhuma sorte’, pensava enquanto caminhava. Atravessou a rua a passo largo com sua peruca de cobalto, salto alto, mascando fumo, pisando forte, das atenções sendo alvo, desdenhando dos olhares com ares de deboche. Ganhou a avenida principal da pequena cidade esquecida no tempo, guardada no passado, de hábitos e costumes ultrapassados. Contou sete pessoas dentro de uma kombi amarela parada no cruzamento e que, de repente, começou a soltar fumaça pelas janelas e pelo escapamento. Estaria o motor fundindo ou estaria fundido o motor? A kombi não se movia, apenas tremulava. Nas mesas dos bares, pessoas teciam conversas intermináveis entre um gole e outro de bebidas inesgotáveis. Senhores idosos acompanhados de moçoilas casadoiras riam da própria sorte que o dinheiro comprou entre talagadas de Martini e baforadas de fumaça feito dragões de komodo com suas línguas venenosas. Alguém toca um rock em alguma porta distante. É Pink Floyd. O...

AGDA E OS MENINOS SEM ROSTO

Não era toda noite que ela saia na noite com um traje com ares melancólicos como o qual ela escolheu para aquele encontro de amigos após a aula. Geralmente escolhia uma roupa leve, colorida e alegre, e levava alguns acessórios e a maquiagem dentro da bolsa para só depois da última aula ir ao banheiro arrumar-se. Estava cansada do dia de trabalho enfadonho e das pequenas tramas e intrigas de certa colega da empresa, uma com quem dividia a mesma sala. Enjoada do sacolejo do ônibus. Impressionada com meninos que se atiravam do piso alto de um restaurante para a rua como forma de fuga ou diversão. É claro que aquilo poderia dar errado, resultar em um pé quebrado, traumas na coluna, dores difusas, lesões articulares. “Eram uns meninos negros e de cabeça raspada, todos mal nutridos e não tinham mais que doze anos cada. Vi quando um se jogou após ser empurrado pelo qual certamente seria o líder e idealizador da farra. Em seguida, o suposto líder empurrava outro que ia meio desesperado, rel...