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O GRANDE CIRCO NONSENSE - O TRUQUE DO DESAPARECIMENTO

Tocou o interfone, que na realidade era usado como campainha, e ficou aguardando um instante até que a mulher, diga-se, nunca vista antes, surgisse após o correr da pesada porta de metal e vidro canelado. ‘Pois não?’ Disse ela apenas com parte do corpo à mostra. ‘Olá, bom dia! Eu vim ver o senhor Alio... Sou o mágico dele! Sou o mágico Pipo!’ Disse ele um tanto quanto surpreso ao ver que uma pessoa desconhecida lhe atendia.

‘Ah, sim! Entre, seu mágico! Ele está ali, na frente da televisão.’ A mulher disse e foi caminhando à frente através da longa sala retangular para conduzir o visitante até a cozinha, que também funcionava como sala de televisão e copa. No caminho, ela se apresentou como a nova mulher do dia, e diarista, e massagista, e enfermeira, e cuidadora, e cozinheira...

O mágico Pipo seguiu a mulher até o ancião que estava em sua velha poltrona do costume, puída e completamente reclinada diante à televisão. Ao ver Pipo se aproximar, o homem estendeu a mão cordialmente com a intenção de recepcionar e cumprimentar o mágico. O resto das formalidades Pipo dizia e o velho apenas concordava com movimentos positivos e bruscos de cabeça. Ele estava agitado. Apesar de ser apenas nove horas da manhã, a tevê exibia uma animada sessão de exorcismo, o que deve ter alterado o humor do ancião impossibilitado de protestar de modo inteligível ou mesmo levantar e desligar o aparelho.

Uma mulher negra e bastante obesa surgiu através da porta da cozinha que dava para o quintal. Com os olhos estatelados, enxugava as mãos na blusa e os lábios com o dorso da mão. Era Genilda, a mulher da noite. O mágico já a conhecia de nome e fatos, porém foi ali e naquela ocasião que foram apresentados um ao outro.

‘Eu nunca havia te visto, mágico!’ Disse a mulher. ‘Toda vez que o senhor chegava eu já tinha ido embora. Fico só à noite, e logo cedo eu vou embora.’ O mágico sorriu de modo simpático e aproveitou para perguntar sobre a mulher do dia que o atendia todas as vezes e que hoje não estava lá. Mas antes que concluísse sua pergunta, o mágico vacilou e não se lembrava do nome da mulher.

Genilda, com ares de dramaticidade, atalhou e concluiu a pergunta de seu interlocutor: ‘A Milésia?’, e inclinou a cabeça para a esquerda, juntou as mãos diante do grande abdome, lançou seus imensos olhos estatelados em um olhar vago pelo chão e começou a detalhar o caso: ‘A Milésia foi mandada embora, seu Pipo. Ela não trabalha mais aqui não senhor.’ E continuou sua explicação sem que ninguém lhe perguntasse mais nada. ‘Ela não tava trabalhando direito fazia é tempo. Eu chegava à noite e o serviço tava todo por fazer, todinho pra mim. Ela não tava fazendo é nada. Aí eu não aguentei mais. Pedi pro patrão mandar ela embora.’ E tirando seus grandes olhos do chão os levou até a novata e declarou em tom soturno: ‘Ele mandou ela embora. Coitada! Ela tá com depressão, sabe?’

A apreensão tomou forma de vez no rosto da novata que até ali em momento algum pareceu mesmo natural e ou à vontade.  ‘Mas ela não tava trabalhando direito, tava deixando tudo pra mim.’ Completou a mulher da noite sem desviar os seus grandes olhos de sobre a nova mulher do dia.

O mágico Pipo percebeu que estava diante de algo muito estranho, algo mais estranho do que costuma sugerir a própria realidade. Ele conhecia o ancião, seu Alio, mas não conhecia aquelas pessoas. Conhecia também, e bastante, a funcionária que o recebia três vezes por semana e que ali não estava naquela manhã. Então recordou que o nome dela não era Milésia. E lembrou que o patrão sim, o filho do ancião, seu contratante, esse se chamava Milésio, e intuiu que a confusão fora feita ao tornar o nome do homem feminino e o atribuir à antiga funcionária que teria, segundo Genilda, sido demitida.

Pipo, finalmente, lembrando-se do nome da mulher que o recebia, se voltou para a mulher da noite e perguntou: ‘Mas o nome dela não é Lenalva?’ A novata inocentemente interferiu e apressou-se em dizer que não, que era Milésia, que todos a chamavam de Milésia. Mas Genilda novamente lançou seus enormes olhos em direção ao chão e, como se forçasse grandemente sua memória, retornou o olhar ao mágico dizendo: ‘É verdade... Todos a chamam de Milésia, coitada!, mas o nome verdadeiro dela é Lenalva.’ A afirmação da mulher da noite causou espanto na outra que não havia notado a incomum coincidência nominal que residia em um patrão chamado Milésio ter uma empregada chamada Milésia.

Diante dessa história de nome verdadeiro e nome falso, mágico Pipo acreditou nada mais ter a acrescentar. Tirou a cartola de sua cabeça e a depositou encima da mesa, cobriu o corpo com a própria capa e precipitou-se num salto para enfiar o braço dentro de sua cartola alegrando o ancião com mais um número de sua performance. Pipo não conseguiu retirar nada lá de dentro, como de costume. Porém fez sorrir o velho e proporcionou um momento agradável ao homem.

Comentários

  1. Olá! Em primeiro lugar, teu texto está muito legal. A gente vê as cenas! Em segundo, parabéns pleos quatro anos de blog. Um dia eu chego lá também.

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  2. Olá Jefh, venho lá do outro texto... e ainda a pouco falei do "mágico" rsrssssss... Quando tenho algum tempo quero "devorar" os textos! (sorrioooo) Realmente é uma estória(história?) e tanto...mistério! Nomes falsos, verdadeiros...parece que vai ter continuidade essa cena...fico aguardando! Tenha uma feliz e abençoada semana... (como disse antes você sempre tirar lindos textos da "cartola"...)

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  3. Tienes una manera de narrar muy fluida y entretenida que logra captar el interés del lector. Felicitaciones! Por otro lado y si ha sido de tu agrado mi blog te invito a ser seguidor del mismo.

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  4. Nossa! Adorei! Parabéns pelo blog e obrigada por visitar o meu.
    Abraços.

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  5. Interessante seu texto. Gostei bastante. SUCESSO!!!!!!

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