
Fechou o pequeno álbum após virar à última pagina, beijou a capa de olhos fechados, o enfiou no bolso do paletó, tomou entre a poupa dos dedos indicador e polegar da mão direita a asa da xícara vermelha, sorveu um pouco, viu que já estava de morno para frio o seu chá e então entornou em grandes goles todo conteúdo da xícara. Levantou-se, foi até a cozinha e deixou a xícara sobre a mesa. Caminhou até a sala, abriu a porta e saiu no seu pequeno jardim árido, o mesmo que era possível avistar da cozinha; é que os cômodos eram contíguos. Apanhou um regador de latão, todo enferrujado, abasteceu-o com água até o limite de transbordar e foi regando os arbustos secos um a um, depois, com mais umas quatro ou cinco abastecidas, regou o pequeno gramado. Ao terminar retornou para sua poltrona na sala, havia aberto o paletó; pois durante a movimentação para aguar as plantas, sentiu esquentar seu velho corpo. As mangas de seu agasalho estavam molhadas pelo contato com a água ao encher o regador, isso lhe incomodava um pouco, incomodou mais quando esfriou novamente a sua temperatura corpórea, ao ficar ali parado na poltrona, mas não foi providenciar nem para trocar, nem para secar. Fechou novamente todos botões do velho casaco, cruzou os braços sobre o tórax, as pernas na altura da tíbia e ali permaneceu por um bom tempo parado. Tocaram a campainha, era o verdureiro. Foi atende-lo, apenas para dizer que fazia uma bela manhã e que não ia querer nada naquele dia. O verdureiro agradeceu mesmo assim, concordou que era bela aquela manhã fria com sol, e perguntou sobre a vizinha da frente. Esta já estava fora havia dias. O ancião informou que passava uma temporada na casa de uma filha que morava distante, segundo ela havia dito, mas que retornaria em breve.
A vizinha em questão era uma jovem senhora divorciada, pessoa muito simpática e afável, única visita cordial que o ancião recebia em seus dias. Já havia mais de um mês que ela havia viajado, ele sentia falta de encontra-la na hora da compra de verduras, sentia falta também de suas visitinhas ao portão, sempre com um pratinho na mão a oferecer alguma quitanda fresca que costumava fazer.
Despediu-se do verdureiro com um aperto de mão e um sincero “tenha um bom dia”, retornou para seu lugar de meditação e após mais algum tempo levantou-se, foi até o quarto e apanhou um caderno grande, o qual levou até a mesa da cozinha, começou a escrever compenetrado, começou e terminou uma carta sem parar nenhuma vez, sem nenhum rascunho e, sem demora, encheu uma folha, frente e metade do verso. Ergueu-se, levou a folha até a geladeira e a fixou na porta por um pequeno ímã. Sentou-se na cadeira, apanhou uma faca de pão com grandes serras, que estava situada entre os farelos do que comera na véspera, empunhou seu longo cabo de madeira com as duas mãos, e com o mesmo olhar que exibiu naquela manhã inteira, cravou o utensílio de cozinha em seu peito, na altura do externo, ligeiramente á esquerda de seu tórax. Fez isso numa só estacada, gemeu, suspirou e curvou-se sobre a mesa. Foi encontrado somente três dias depois, noutra bela manhã fria com sol. Quem o encontrou fora sua vizinha, que ao chegar de viajem, veio saber como passava seu amigo ancião, bateu em sua porta em vários períodos dos dias. Sabia que os filhos moravam fora, e presumiu que se o ancião fosse viajar deixaria algo em sua caixa de correio, ao menos um bilhete. Chamou então a polícia, esta teve que saltar o muro que dava para a rua, e arrombar a porta da sala, o cheiro que estava na casa já era muito forte, e haviam muitas moscas agitadas ali na frente, sobre o pequeno jardim árido. O soldado que adentrou primeiro a casa tomou a carta em sua mão, correu os olhos rapidamente, e disse para o colega que entrou na seqüência: “A solidão é foda!”
A vizinha veio logo que fora aberto o portão, ela se encarregou de entregar a carta aos filhos; o que deve ter feito ao professor de sociologia, que foi o primeiro a chegar no local.
Isso é tudo que sei, é tudo que conto, e ponto.
A vizinha em questão era uma jovem senhora divorciada, pessoa muito simpática e afável, única visita cordial que o ancião recebia em seus dias. Já havia mais de um mês que ela havia viajado, ele sentia falta de encontra-la na hora da compra de verduras, sentia falta também de suas visitinhas ao portão, sempre com um pratinho na mão a oferecer alguma quitanda fresca que costumava fazer.
Despediu-se do verdureiro com um aperto de mão e um sincero “tenha um bom dia”, retornou para seu lugar de meditação e após mais algum tempo levantou-se, foi até o quarto e apanhou um caderno grande, o qual levou até a mesa da cozinha, começou a escrever compenetrado, começou e terminou uma carta sem parar nenhuma vez, sem nenhum rascunho e, sem demora, encheu uma folha, frente e metade do verso. Ergueu-se, levou a folha até a geladeira e a fixou na porta por um pequeno ímã. Sentou-se na cadeira, apanhou uma faca de pão com grandes serras, que estava situada entre os farelos do que comera na véspera, empunhou seu longo cabo de madeira com as duas mãos, e com o mesmo olhar que exibiu naquela manhã inteira, cravou o utensílio de cozinha em seu peito, na altura do externo, ligeiramente á esquerda de seu tórax. Fez isso numa só estacada, gemeu, suspirou e curvou-se sobre a mesa. Foi encontrado somente três dias depois, noutra bela manhã fria com sol. Quem o encontrou fora sua vizinha, que ao chegar de viajem, veio saber como passava seu amigo ancião, bateu em sua porta em vários períodos dos dias. Sabia que os filhos moravam fora, e presumiu que se o ancião fosse viajar deixaria algo em sua caixa de correio, ao menos um bilhete. Chamou então a polícia, esta teve que saltar o muro que dava para a rua, e arrombar a porta da sala, o cheiro que estava na casa já era muito forte, e haviam muitas moscas agitadas ali na frente, sobre o pequeno jardim árido. O soldado que adentrou primeiro a casa tomou a carta em sua mão, correu os olhos rapidamente, e disse para o colega que entrou na seqüência: “A solidão é foda!”
A vizinha veio logo que fora aberto o portão, ela se encarregou de entregar a carta aos filhos; o que deve ter feito ao professor de sociologia, que foi o primeiro a chegar no local.
Isso é tudo que sei, é tudo que conto, e ponto.
(com este conto, Jefhcardoso, participou de um concurso literário, ao qual não venceu, porém, deixou seu registro; um conto baseado em acontecimentos reais)
profundo o texto, gosto assim...
ResponderExcluirparabéns!
obrigada pelo coments, tenha um ótimo domingo
beijos
Parabéns Jeferson pelo blog e pelo texto muito bom e bem discorrido.
ResponderExcluirÉ realmente triste, por imaginar que também neste exato momento é realidade de muitos, que talvez possam não chegar a este extremo, mas que lotam os hospitais, asilos e lares com seus olhares tristes e perdidos num presente que não lhes pertencem mais.Espero que o nosso futuro seja diferente(risos). Mais uma vez Parabéns pelo blog.
(clerisfolhasaovento.blogspot.com; clerisgotasdeamor.blogspot.com)