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O Cobrador - Parte I



Poucos viram quando o homem atravessou os portais da cidade, caminhando a passo lento, sob o forte sol do meio dia. Suas vestes eram farrapos imundos. Seis cachorros magros, vira-latas, de tamanhos e cores variadas, o escoltavam.
Seus cabelos eram negros, encaracolados, sujos e oleosos, e ostentava na face um longo cavanhaque estreito, e finos bigodes ponte agudos; tudo aparentando sujeira antiga, coisa grossa.
No lombo ia um saco de estopa, tão encardido quanto o transportador. Os pés arrastando umas sandálias de couro; ressecadas, rotas, tudo impregnado por uma espessa camada de barro, resultante de poeira e suor misturados.
Passo a passo, sem nenhuma pressa, nem aparente cansaço, mas com o olhar fixo na linha horizontal (nem acima, nem abaixo desta linha), seguia adentrando a cidade. Atravessou os portais e desceu a longa avenida que conduzia para o interior do pacato local; ganhando ruas, ia sempre em frente, como se soubesse exatamente qual o local a que queria chegar.
Apenas um carro fez uma breve parada ao seu lado, o condutor disse algumas palavras e seguiu lentamente, como se observando o forasteiro, que indiferente continuou sua caminhada.
Após alguns minutos, alcançou o que seria o centro da cidade, o exato músculo cardíaco do lugar, onde tudo se encontrava, para onde as ruas principais convergiam. Havia ali uma praça, pouco arborizada, de grama rala, alguns bancos esparsos, e de aspecto bem rústico, porém, toda calçada de pedras portuguesas.
O homem, fedendo em seus andrajos, parou, fitou o sol a pino, desceu o saco do lombo e começou a retirar meticulosamente os objetos que ali trazia.
O primeiro objeto retirado fora um pano preto, o qual serviu como forro para o chão; sobre este depositou um grande livro de capa marrom em couro, de folhas amareladas, rebeldes e bem surradas, em seguida retirou do saco um termômetro ambiental, aparentemente muito antigo; depois apanhou um velho relógio de dar corda, com números em algarismos romanos e por fim uma moringa de barro.
Sentou-se sobre o forro. Cercado pelos cães que o circundavam, num giro, conferiu os objetos com um olhar inspetor. Um a um fixou os olhos sobre aqueles, abriu o livro em determinada pagina e naquele momento, curiosamente, os ventos cessaram e a pagina permanecia marcada sem a necessidade de um marcador para tal. Voltou o termômetro de frente para si, após examiná-lo com cuidado. Deu corda em seu velho relógio e em seguida tomou um gole do liquido que estava contido dentro de sua moringa de barro, enxugou a boca com o dorso da mão, e iniciou uma leitura concentrada.
Não havia quem passasse por ali e não notasse a exótica figura que chegara; era o “mendigo”, como diziam. Este ferrara na leitura com tal afinco, que duas horas após iniciá-la não havia sequer se movido. Parecia uma estátua. Era incrível ver que, apesar do forte sol, o homem não se incomodava!
Das doze horas e trinta, momento de sua chegada na praça, até ás dezoito horas, quando o sol se punha, o homem lia sem trégua.
Algumas pessoas que passavam até se aproximavam, e alertavam, que, daquele jeito, ele teria uma insolação; morreria debaixo daquele sol: _O Sr vai assar deste jeito. Diziam alguns. Outros diziam: _Está louco; não teme passar mal e até morrer por insolação?
O homem nestes momentos desviava o olhar do livro, encaminhava-o aos olhos de quem falava e não dizia nenhuma palavra; voltava-se para o livro, e a pessoa logo seguia caminho sem nenhuma demora; afinal o cheiro do homem era mesmo insuportável; forte e ácido, dificultava a respiração mesmo dos que não estivessem tão próximos.

O calor, de grau em grau, só aumentava. Ao meio dia; hora da chegada do forasteiro na cidade, os termômetros registravam trinta graus e meio. Esta temperatura seguiu aumentando após ás treze horas, até atingir quarenta graus Celsius no meio da tarde. Algo impressionante.
Calor naquela instância era coisa comum, os munícipes já estavam acostumados com as altas temperaturas, com a incômoda sensação térmica daquelas tardes, porém, certo que, naquela ocasião a temperatura subiu rápido demais. Os antigos moradores eram os que mais estranhavam aquele fenômeno, e olhando para o céu, protegendo os olhos com a mão sobre a fronte, exclamavam: _Este calor está infernal! Ao que ninguém discordava.
Naquele dia tudo fora muito diferente; deu-se que o calor de súbito só fez subir.
Segundo teria dito um transeunte mais curioso, o velho termômetro do homem estaria estragado, pois registrava invariavelmente, por coincidência, quarenta graus cravados e irredutíveis, desde sua chegada.
No final da tarde, quando o sol já se punha e a lua principiava sua exibição, os termômetros regrediram um pouco, porém, por incrível que possa parecer, a sensação térmica perdurava. Era como se os quarenta graus não tivessem regredido em nada, em um mísero grau que fosse, e seguiu uma noite extremamente abafada.
O “mendigo misterioso”, então, exatamente ás dezoito horas em seu velho relógio, ouviu o badalar do sino da igreja, prostrou-se de joelhos, em uma atitude parecida com a de oração, e ali permaneceu completamente imóvel até o romper do sol, que se dera um pouco antes das seis horas.
_Que calor será esse afinal; quem é o forasteiro? Diziam os antigos moradores do local.

Comentários

  1. Não vejo a hora de saber quem é o tal "forasteiro". Muito bom e bem escrito o conto! Parabéns novamente!

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  2. Valeu Beça!
    Mantenha contato. Não haverá mistério que permanecerá encoberto diante de minha pena, creio.
    Abraço, amigo!

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  3. Meu querido retribuindo a sua visita ao meu blog, encontro-me encantada por encontrar essa deliciosa história que com certeza me fará voltar para descobrir que é essa figura tão machadianamente interessante!
    grande abraço e tendo um tempo retorne ao
    casadefadas.blogspot.com

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  4. Muito obrigado por vir, Rozzi! Tenho um carinho muito especial por esta história que criei em uma tarde de intenso calor (sorriso).
    Pode esperar-me que retornarei sim.
    Abraço: Jefhcardoso

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  5. Oi jef estou retribuindo sua visita ao meu blog.Eu como voce tb gosto muito de escrever mas vc já é um veterano e otimo escritor. Criei o meu blog recentemente em comemoração ao meu cinquentenário rsrsrsrs e vou sempre dar uma espiadinha no seu para tomar umas aulinhas ok???? Ahhhhhhhhhhhh quanto a "árdua" tarefa de perpetuar a espécie...., será tão árdua assim????? rsrsrsrrs

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  6. Eliana, obrigado por sua atenção. "Árdua?". Não, não... [sorrio]. Boas blogagens! Abraço!

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