Pular para o conteúdo principal

O Céu de Anabela: A Continuação

Quando Anabela perdeu sua fala, sua capacidade de caminhar, seus movimentos, seu controle sobre suas necessidades fisiológicas, sua vida profissional, social, era um período em que, ironicamente, ela se utilizava mais que qualquer outra coisa da comunicação verbal. A jovem expandia seus domínios profissionais, freqüentava cursos, era dinâmica, e assim cada vez mais respeitada em seu meio de trabalho.
Veja quão irônico pode ser o destino que nos aguarda:
Do stress da correria diária na imensa capital ao leito de hospital, passando por um dia normal, uma dor de cabeça, tal e tal.
Agora seu mundo se restringia as quatro paredes amarelas de seu pequeno aposento de dois vírgula cinco metros quadrados. Seu mobiliário era composto por uma grande cama hospitalar em ferro maciço; antiga, cinza, um tanto descascada. Havia também uma cômoda em mogno onde ficavam suas roupas de cama, pijamas, fraldas, lençóis e no topo quatorze polegadas de bobagens e futilidades. E sobre um pequeno criado ficavam o pilão, para preparar as medicações a injetar via sonda, algumas medicações e etc.
Era ali que Anabela via os dias praticamente se repetir, exceto pelas raras visitas que as vezes surgiam.
Vinha alguém e falava. Outro a alimentava. Outro a trocava. E Anabela nada, nada e nada...
Porém o céu, este não falhava, era um espetáculo diário extraordinário.
O olhar de Anabela buscava a janela que dava para o muro amarelo com esparsas manchas, dali viam-se também as velhas telhas da casinha ao lado, cobertas por musgo, e acima deste telhado o céu.
Ah, o céu! Como era lindo para Anabela admirar aquela maravilha de criação. O céu jamais se repetia, ao contrário de sua vida, todos os dias revelava uma nova face; fosse pelas nuvens, pela tonalidade de azul, pelo dourado ao refletir os raios solares, ou pelos insetos e pássaros que o riscavam com seus namoros, acrobacias exibicionistas ou caçadas encarniçadas; o céu de Anabela era extraordinário.
Anabela às vezes apenas fixava uma imagem do céu em sua mente e fechava os olhos; era quando ela sonhava voar. E como Anabela voava! Anabela sobrevoava toda cidade, os campos, e numa trilha de ar ia distante com suas enormes asas de um branco capaz de cegar quem o encarasse.
Anabela às vezes sentia vontade de correr, contorcia-se, convulsionava, dizia ao mundo algo que o mundo não interpretava. Noutras vezes Anabela queria gritar, então chorava, chorava, chorava alto, realmente gritava; sua boca a salivar profusamente, seus olhos abundavam em lágrimas, revolviam revoltosos e tornavam-se nascentes de um rio indomável.
Se não fosse o céu ou este ou aquele fato, seria tudo tão igual.
Não havia a correria dos carros, o vai e vêm das pessoas, a agenda lotada, todas as coisas a que ela se acostumara acabaram.
Como pesava o ponteiro do relógio seis ou dezoito acima, e havia poderosos freios doze abaixo; tudo ia lento, era a expressão mais verdadeira do marasmo. Que bom que o céu lhe restara!
Os anos passaram. Com os anos vieram fatos. Um dia a casa estava cheia, era gente de longe que vinha e entrava. Todos traziam ares pesados, semblantes carregados.
Da enfermidade de um ente ao velório foram poucos dias, porém para Anabela não havia dissociação entre tempo curto e tempo longo, tudo era só um tempo, um pacote, como dizem os comerciários.
Rostos distantes deram o alarde; as lágrimas prenunciaram; e os trajes negros a guardar luto o desvendamento do caso. Anabela chorou muito naqueles dias, porém, não disse palavra.
Noutra ocasião a casa esteve novamente cheia, vieram os rostos distantes, mas dessa vez todos sorridentes e bem falantes; vestiam os trajes que provavelmente julgavam ser os mais apreciados. O ente, um rapaz muito jovem, provavelmente era o festejado, pois era o mais sorridente da casa, entrou de terno e gravata; fora procurar uma colônia que ali achou poder ter deixado; depois daquele episódio tornar-se-ia visita na casa; e meses depois apareceria com um bebê de colo. Anabela achou lindo o bebê, porém ela não disse palavra.
Anabela percebia que as coisas mudavam, mas para ela o importante era o céu. O céu de Anabela era o que realmente importava.

Comentários

  1. Adorei o céu de Anabela.

    PS vim te ver Ana Luiza

    ResponderExcluir
  2. Oi Ana! Que bom que adorou. Volte sempre. Fiquei muito feliz por sua visita e comentário.

    ResponderExcluir
  3. ...meninoooo!

    que encanto de canto, my God!

    o céu de Anabela me fez refletir.

    deixo beijos

    ResponderExcluir
  4. que fantastica essa historia,estava lendo e imaginando a Anabela,sua vida..que encanto,essa historia concerteza me fez refletir...
    Adoreii

    ResponderExcluir
  5. Que bom que gostou, Rosana! Muito obrigado por visitar-me. Volte sempre. Abraço: Jefhcardoso.

    ResponderExcluir
  6. Nossa...
    Realmente fiquei arrepiada com "O Céu de Anabela" ... perfeito
    É tão triste e corta tanto o coração... mas infelizmente é uma realidade para muitos...

    Acho que depois dessa começarei a reparar um pouco mais o céu

    Um grande abraço

    ResponderExcluir
  7. Que bom que gostou, Jociane! O céu é como a poesia, depende dos olhos que vê.
    Abraço: Jefhcardoso.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Comente. É isso que o autor espera de você, leitor.

Postagens mais visitadas deste blog

O Sr. e o Dr.

Ao ser levado à presença daquele Sr de seus maturados 84 anos, estava na verdade indo rever um bom pedaço de minha infância. Afinal, aquele homem de baixa estatura, tórax roliço e finas pernas de passarinho era figura muito frequente nas ruas mais movimentadas de minha terra, há uns 20 anos. Vestido com um jaleco branco sentava com boa postura em sua “motoquinha”, percorria toda cidade com seu jeito lépido. Mas agora ele se encontrava muitos anos à frente daqueles dias; e já não mais conservara sua autonomia para o “ir e vir” a toda parte. Pior ainda, naquele momento sofria com a recuperação de uma fratura no fêmur, ocorrida após uma queda dentro de sua própria casa. _Quão dura é a realidade do ancião que de andar dentro do próprio lar, pode quebrar-se ao chão, isso quando não se quebra de pé, sem mais nem menos, indo apenas posteriormente ao solo, ao que chamam de fratura espontânea. Mas retornemos ao nosso “continho”. Dia após dia, sessão após sessão, meu novo amigo ancião, recuperav...

É Primavera

Era uma manhã de setembro quando o velho Alincourt chegou diante do belo lago de minha cidade, estacou sobre um terreno baldio sito à margem direita, ergueu ao alto os dois braços com ambos os punhos cerrados e vibrou de modo indescritível. No punho esquerdo o velho trouxe uma porção de terra em pó, poeira formada por noventa dias de estiagem. Ao abrir aquela mão, os vigorosos ventos de setembro levaram consigo a terra, que se desprendia e esvaía pelos ares, formando uma fina nuvem de poeira vermelha a andar no ar. O céu tornara-se vermelho, assim como a própria terra do lugar. Da mesma mão desprenderam-se folhas secas. Incontáveis folhas em tonalidades marrons, beges, amarelas. Um enorme urubu, atraído por um odor propagado pelo vento, passou a oferecer uma sombra circular sobre a cabeça do velho. Após a primeira ave, vieram outras da mesma espécie. Em pouco tempo eram seis, vinte e duas, trinta e cinco, cinqüenta e uma, mais de cento e três. Os ventos anunciaram uma carcaça canina...

O Verbo Blogar

O Blog, á nossa maneira, á maneira do blogueiro amador, blogueiro por amor, não dá dinheiro; mas dá prazer. Isso sim. Quando bem trabalhado dá muito prazer. Quando elaboramos uma postagem nos percorre os sentidos uma onda de alegria. Somos tomados por uma euforia pueril. Tornamo-nos escritores ou escritoras que “parem” seus filhos; tornamo-nos editores; ou produtores; ou mesmo jornalistas, ainda que não o sejamos; tornamo-nos poetas e poetisas; contistas e cronistas; romancistas; críticos até. Queremos compartilhar o quanto antes aquilo que criamos. Criar é uma parte deliciosa do “blogar”; e blogar é a expressão máxima da democratização literária – e os profissionais que não façam caretas, pois, se somarmos todos os leitores de blog que há por aí divididos fraternalmente entre os milhões de blogs espalhados pelo grande mundo virtual, teremos mais leitores que Dan Brown e muitos clássicos adormecidos sob muitos quilos de poeira. Postar é tudo de bom! Quando recebemos comentários o praze...