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Cartas a Tás (47 de 60) " Um Sonho De Sabedoria - Parte III de III"


...sem noção de em qual direção seguir.
Levantei-me e caminhei perdido, alimentei-me de insetos e mel silvestre. Parecia ser o fim de meu sonho, até que, no meio da floresta, ouvi vozes. Ao aproximar-me fiquei perplexo com o que vi: belas musas em uma reunião. Enquanto as observava, uma delas aproximou-se e disse: _Quem és tu, ó forasteiro? Por ventura é quem busca decifrar os enigmas da sabedoria?
Disse que sim e perguntei quem era ela. A moça, voltando-se ao grupo de musas exclamou num brado: _Vejam, amazonas, como são engraçados estes tipos, quando chegam parecem mesmo inofensivos, mas dêem oportunidade e verão quão traiçoeiros são! E voltando-se em minha direção concluiu: _Sou Pentensiléia Icamiaba, patife, e vejo que tens enfrentado os perigos como um bravo, a despeito de ser um homem. Sendo assim, direi a frase que lhe aproximará ainda mais da grande sabedoria: “É preciso coragem para ser um sábio”. _Siga-nos, seremos suas guias na continuação do caminho.
Pentensiléia não primava por paciência, mas era uma guerreira formidável, e nos tornamos bons amigos. Ela e seu grupo me conduziram em toda travessia pela floresta, até as proximidades da Bolívia, onde me confiou a um grupo que lembravam os antigos Incas, estes me guiaram até o Chile, ora em canoas, ora por terra. Na fabulosa cordilheira, contornamos os picos e seguimos até a margem do Pacífico, aproximadamente na altura de Arica. Ali segui navegando no barco Argos, do capitão Fernão. Seus falastrões marujos Hércules, Teseu, Nestor, Orfeu e outros; durante a viajem toda, não se cansavam de contar curiosas aventuras que teriam vivido em mares distantes; uma comédia aqueles sujeitos! Durante o percurso, de tão belas as paisagens, fiquei tentado a permanecer ali, vagabundo e sem destino. Porém, logo recobrei o juízo e, ao aportar em Vina Del Mar, segui para Valparaíso, indo finalmente a Santiago. Ali minha referência era uma casa antiga, apelidada de “La Chascona”. Ao chegar fui recepcionado por um simpático senhor, muito bonachão, que veio falar comigo: _Ablas espanhol? Perguntou-me, ao que respondi: _Nem um “poquito”. Ele apenas sorriu e serviu-me uma taça de vinho. Logo chegou o carteiro com uma correspondência que ele passou-me. No destinatário lia-se em letras douradas: “A alma de um sábio é impregnada por seu país”. No remetente dizia: _Do amigo Neruda.Foi quando senti um cutucão em meu ombro, eu ainda sorria satisfeito por tamanha viajem: “J. Homem Comum...Homem...Acorda J. ! Acorda Homem, ou vai perder a hora para o trabalho.” Respondi ainda um pouco sonolento: _Sim mulher. Já estou levantando, mas antes preciso escrever um sonho para enviar ao meu amigo Tás.

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