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Cartas a Tás (44 de 60)


Ituverava, 11 de setembro de 2009
Veja amigo Tás, na medida em que lhe escrevo estas cartas, na mesma proporção nos afastamos.
Por que digo isso?
Por uma razão muito simples: note que há uma resposta sua apenas para a carta de numero 2, as seqüentes, todas, sem nenhuma exceção, vão sem o menor indício de atenção de sua parte.
E é claro que não pretendo passar dos 35 aos 100 anos de minha vida lhe escrevendo cartas, amigo. Ora francamente! Era só o que me faltava! De mais a mais o conterrâneo há de convir que não é nenhum Sarney, Roberto Carlos, Pelé, Amado Batista ou Xuxa para que eu fique aqui lhe dando atenção como a um rei de algo.
Jogou onde afinal, amigo?
Bem, queira desculpar-me se nesta sou mais emotivo que racional, assim ficando destituído da própria razão.
É que nesta manhã ocorreu um fato delicadamente especial. Eu ia para o trabalho, peguei a rua que liga a avenida da represa com a rodoviária, a rua Luiz Aró. No caminho passei por várias pessoas que transitavam indo para ter com as mais variadas atividades; somos hoje uma cidade lépida, pulsante, movimentada, meu caro.
Chamou-me a atenção especialmente alguns tipos bem pitorescos. Ocorreu que entre crianças indo para a escola em vãs, serviçais da construção civil em suas bicicletas, trabalhadores de serviços burocráticos em seus belos e grandes carros e, grande numero de trabalhadores em seus veículos populares, todos trafegavam entre os “carroceiros”: veja você que em pleno século XXI, na era da informática, no mundo globalizado; homens de chapéu na cabeça, com suas colunas curvadas ao sentar-se nas tábuas que lhes servem de banco, com as rédeas a tocar seus animais modestos, de aparência apática até, trafegam como se os tempos modernos fossem mera ficção.
É isso que vemos aqui durante uma caminhada de mil metros, do trecho que liga uma grande periferia a um bairro de classe média, por volta das sete horas da manhã.
Nesta mesma manhã cheia de contrastes e cores avistei um senhor que carregava enormes pepitas de ouro de seu quintal para um depósito à 100m de distância. Ao me aproximar notei a grande familiaridade. Sabe quem era o senhor que carregava o ouro feito um duende das fábulas européias? Seu avô, meu amigo. Ninguém menos que o Sr Budaquidê Zumbi do Carmo. Ficou muito feliz ao me ver. Conversamos um pouco, ele contou-me até um causo a seu respeito, o qual contarei noutra feita quando dispuser de mais tempo, e quando eu disse que continuava tentando me corresponder com você ele admitiu que, apesar de você ser um bom menino, era um tanto orgulhoso, metido a besta. Mas louvou minha determinação e disse que o mundo dá muitas voltas, para que eu não tivesse desânimo em meu magnífico espírito. Foi o que ele disse. Agradeci e segui meu passo.

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