Pular para o conteúdo principal

Cartas a Tás (36 de 60); Thunderstruk

















Ituverava, 09 de agosto de 2009, dia dos pais.


Devo interromper a seqüência do conto “O Contador” para recordar a memorável noite do dia dos pais na Praça 10 de Março, em agosto de 1980.
A praça 10 estava repleta de famílias que perambulavam em seus melhores trajes. Naquele domingo a prefeitura havia montado uma estrutura para apresentações musicais no coreto da praça.
Duplas sertanejas aqueciam suas cordas vocais com notas agudas e graves. Os violeiros dedilhavam seus instrumentos e afinavam caprichosamente as cordas. Corais de vozes também se preparavam para a cantoria.
Meninos de cabelos lavados, úmidos e bem penteados para o lado, lambiam seus sorvetes, abocanhavam seus chumaços de algodão doce. As meninas, com fitas nos cabelos, exibiam seus belos vestidos rodados. Senhores e senhoras, apesar de toda simplicidade, vestiam-se da melhor maneira que lhes era possível. Todos trajavam as suas “roupas de ver Deus” como diziam; o que nunca discerni se era uma referência ao traje com que se iam as igrejas aos domingo, o que me parece mais provável, ou se era a roupa com que se vestiria um individuo defunto em sua última aparição pública, o velório.
O mendigo trovador, Tonzinho Capeta, destoava de todo aquele capricho e espírito festivo. Empunhando uma garrafa de cachaça, quase vazia, gritava seu pseudo-sermão aos quatro ventos, a todo pulmão, anunciando o que seria o fim do mundo, à volta do Divino, bem ali, na Praça 10 de Março em Ituverava; justamente naquele domingo em que se celebrava o dia dos pais.








Todos ignoravam a mensagem apocalíptica do mendigo, até que o jovem Tás, vestido todo de preto, com sua imensa boina na cabeça, tomando o plug de um cabo entre os dedos o conectou ao amplificador principal e começou a dedilhar o instrumento “satânico”, que havia comprado com o dinheiro supostamente surrupiado da cesta de oferendas da igreja.
Todos se afastaram assustados, os adultos tampavam os ouvidos das crianças e protegiam a face dos pequenos contra seus corpos. Era o som de Thunderstruck a causar terror a todos; anos depois AC/DC a gravaria. O som ecoava aos quatro ventos com grande estrondo em meio aos trovões que seguiram aos primeiros acordes.
Apenas Toizim Capeta teve coragem para postar-se diante do coreto-palco; mais que isso, Toinzim dançava freneticamente, entornava a garrafa em grandes goles, murmurava na introdução juntamente com a voz estridente do interprete ituveravense, ria a gargalhar, olhava para a população perplexa e indagava: “Não falei que era hoje que o mundo acabava?” E ao dizer estas palavras rindo e rebolando, a cachaça escorria pelo peito. O mendigo imundo dançava quando sacou um cigarro e, aparando o forte vento com a mão esquerda, aproximou-se de um pequeno fogareiro de uma lixeira a fim de acender seu cigarro. Foi então que as chamas lhe abraçaram. Mesmo ardendo em chamas o homem não parava de dançar. Crianças choravam, adultos se benziam e Tás, arrebentava Thunderstruck. Era como ver a fusão de Brian Jonhson e Angus Young numa mesma pessoa.Fora aquela uma noite terrivelmente memorável! A melhor apresentação solo de Thunderstruck que alguém pode um dia conceber. E o único fato positivo em toda aquela tragédia, foi que, Toinzim jamais tornou a fumar ou beber.


Comentários

  1. Olá, Jeferson.
    Gostei deste post, consegui visualizar as cenas conforme a "minha igreja", a "minha praça", o meu "mendigo". Mas a música foi comum para nós dois, ou melhor, para todos que a ouviram.
    Só fiquei na expectativa da foto da tua família no início do post, não vai sair?
    Obrigado pelo comentário, achei forte isso: Quando o mundo treme é que provamos nossas bases.
    Parabéns.
    Abraços,
    Rubens

    ResponderExcluir
  2. Agora sou eu quem agradece pela visita. Quanto a foto, sairá sim, aguardo um momento oportuno, ou melhor, um texto que saia de minha nascente familiar. Abraço, amigo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Comente. É isso que o autor espera de você, leitor.

Postagens mais visitadas deste blog

O Sr. e o Dr.

Ao ser levado à presença daquele Sr de seus maturados 84 anos, estava na verdade indo rever um bom pedaço de minha infância. Afinal, aquele homem de baixa estatura, tórax roliço e finas pernas de passarinho era figura muito frequente nas ruas mais movimentadas de minha terra, há uns 20 anos. Vestido com um jaleco branco sentava com boa postura em sua “motoquinha”, percorria toda cidade com seu jeito lépido. Mas agora ele se encontrava muitos anos à frente daqueles dias; e já não mais conservara sua autonomia para o “ir e vir” a toda parte. Pior ainda, naquele momento sofria com a recuperação de uma fratura no fêmur, ocorrida após uma queda dentro de sua própria casa. _Quão dura é a realidade do ancião que de andar dentro do próprio lar, pode quebrar-se ao chão, isso quando não se quebra de pé, sem mais nem menos, indo apenas posteriormente ao solo, ao que chamam de fratura espontânea. Mas retornemos ao nosso “continho”. Dia após dia, sessão após sessão, meu novo amigo ancião, recuperav...

É Primavera

Era uma manhã de setembro quando o velho Alincourt chegou diante do belo lago de minha cidade, estacou sobre um terreno baldio sito à margem direita, ergueu ao alto os dois braços com ambos os punhos cerrados e vibrou de modo indescritível. No punho esquerdo o velho trouxe uma porção de terra em pó, poeira formada por noventa dias de estiagem. Ao abrir aquela mão, os vigorosos ventos de setembro levaram consigo a terra, que se desprendia e esvaía pelos ares, formando uma fina nuvem de poeira vermelha a andar no ar. O céu tornara-se vermelho, assim como a própria terra do lugar. Da mesma mão desprenderam-se folhas secas. Incontáveis folhas em tonalidades marrons, beges, amarelas. Um enorme urubu, atraído por um odor propagado pelo vento, passou a oferecer uma sombra circular sobre a cabeça do velho. Após a primeira ave, vieram outras da mesma espécie. Em pouco tempo eram seis, vinte e duas, trinta e cinco, cinqüenta e uma, mais de cento e três. Os ventos anunciaram uma carcaça canina...

O Verbo Blogar

O Blog, á nossa maneira, á maneira do blogueiro amador, blogueiro por amor, não dá dinheiro; mas dá prazer. Isso sim. Quando bem trabalhado dá muito prazer. Quando elaboramos uma postagem nos percorre os sentidos uma onda de alegria. Somos tomados por uma euforia pueril. Tornamo-nos escritores ou escritoras que “parem” seus filhos; tornamo-nos editores; ou produtores; ou mesmo jornalistas, ainda que não o sejamos; tornamo-nos poetas e poetisas; contistas e cronistas; romancistas; críticos até. Queremos compartilhar o quanto antes aquilo que criamos. Criar é uma parte deliciosa do “blogar”; e blogar é a expressão máxima da democratização literária – e os profissionais que não façam caretas, pois, se somarmos todos os leitores de blog que há por aí divididos fraternalmente entre os milhões de blogs espalhados pelo grande mundo virtual, teremos mais leitores que Dan Brown e muitos clássicos adormecidos sob muitos quilos de poeira. Postar é tudo de bom! Quando recebemos comentários o praze...