
Ituverava, 09 de agosto de 2009, dia dos pais.
Devo interromper a seqüência do conto “O Contador” para recordar a memorável noite do dia dos pais na Praça 10 de Março, em agosto de 1980.
A praça 10 estava repleta de famílias que perambulavam em seus melhores trajes. Naquele domingo a prefeitura havia montado uma estrutura para apresentações musicais no coreto da praça.
Duplas sertanejas aqueciam suas cordas vocais com notas agudas e graves. Os violeiros dedilhavam seus instrumentos e afinavam caprichosamente as cordas. Corais de vozes também se preparavam para a cantoria.
Meninos de cabelos lavados, úmidos e bem penteados para o lado, lambiam seus sorvetes, abocanhavam seus chumaços de algodão doce. As meninas, com fitas nos cabelos, exibiam seus belos vestidos rodados. Senhores e senhoras, apesar de toda simplicidade, vestiam-se da melhor maneira que lhes era possível. Todos trajavam as suas “roupas de ver Deus” como diziam; o que nunca discerni se era uma referência ao traje com que se iam as igrejas aos domingo, o que me parece mais provável, ou se era a roupa com que se vestiria um individuo defunto em sua última aparição pública, o velório.
Devo interromper a seqüência do conto “O Contador” para recordar a memorável noite do dia dos pais na Praça 10 de Março, em agosto de 1980.
A praça 10 estava repleta de famílias que perambulavam em seus melhores trajes. Naquele domingo a prefeitura havia montado uma estrutura para apresentações musicais no coreto da praça.
Duplas sertanejas aqueciam suas cordas vocais com notas agudas e graves. Os violeiros dedilhavam seus instrumentos e afinavam caprichosamente as cordas. Corais de vozes também se preparavam para a cantoria.
Meninos de cabelos lavados, úmidos e bem penteados para o lado, lambiam seus sorvetes, abocanhavam seus chumaços de algodão doce. As meninas, com fitas nos cabelos, exibiam seus belos vestidos rodados. Senhores e senhoras, apesar de toda simplicidade, vestiam-se da melhor maneira que lhes era possível. Todos trajavam as suas “roupas de ver Deus” como diziam; o que nunca discerni se era uma referência ao traje com que se iam as igrejas aos domingo, o que me parece mais provável, ou se era a roupa com que se vestiria um individuo defunto em sua última aparição pública, o velório.
O mendigo trovador, Tonzinho Capeta, destoava de todo aquele capricho e espírito festivo. Empunhando uma garrafa de cachaça, quase vazia, gritava seu pseudo-sermão aos quatro ventos, a todo pulmão, anunciando o que seria o fim do mundo, à volta do Divino, bem ali, na Praça 10 de Março em Ituverava; justamente naquele domingo em que se celebrava o dia dos pais.
Todos ignoravam a mensagem apocalíptica do mendigo, até que o jovem Tás, vestido todo de preto, com sua imensa boina na cabeça, tomando o plug de um cabo entre os dedos o conectou ao amplificador principal e começou a dedilhar o instrumento “satânico”, que havia comprado com o dinheiro supostamente surrupiado da cesta de oferendas da igreja.
Todos se afastaram assustados, os adultos tampavam os ouvidos das crianças e protegiam a face dos pequenos contra seus corpos. Era o som de Thunderstruck a causar terror a todos; anos depois AC/DC a gravaria. O som ecoava aos quatro ventos com grande estrondo em meio aos trovões que seguiram aos primeiros acordes.
Apenas Toizim Capeta teve coragem para postar-se diante do coreto-palco; mais que isso, Toinzim dançava freneticamente, entornava a garrafa em grandes goles, murmurava na introdução juntamente com a voz estridente do interprete ituveravense, ria a gargalhar, olhava para a população perplexa e indagava: “Não falei que era hoje que o mundo acabava?” E ao dizer estas palavras rindo e rebolando, a cachaça escorria pelo peito. O mendigo imundo dançava quando sacou um cigarro e, aparando o forte vento com a mão esquerda, aproximou-se de um pequeno fogareiro de uma lixeira a fim de acender seu cigarro. Foi então que as chamas lhe abraçaram. Mesmo ardendo em chamas o homem não parava de dançar. Crianças choravam, adultos se benziam e Tás, arrebentava Thunderstruck. Era como ver a fusão de Brian Jonhson e Angus Young numa mesma pessoa.Fora aquela uma noite terrivelmente memorável! A melhor apresentação solo de Thunderstruck que alguém pode um dia conceber. E o único fato positivo em toda aquela tragédia, foi que, Toinzim jamais tornou a fumar ou beber.
Todos se afastaram assustados, os adultos tampavam os ouvidos das crianças e protegiam a face dos pequenos contra seus corpos. Era o som de Thunderstruck a causar terror a todos; anos depois AC/DC a gravaria. O som ecoava aos quatro ventos com grande estrondo em meio aos trovões que seguiram aos primeiros acordes.
Apenas Toizim Capeta teve coragem para postar-se diante do coreto-palco; mais que isso, Toinzim dançava freneticamente, entornava a garrafa em grandes goles, murmurava na introdução juntamente com a voz estridente do interprete ituveravense, ria a gargalhar, olhava para a população perplexa e indagava: “Não falei que era hoje que o mundo acabava?” E ao dizer estas palavras rindo e rebolando, a cachaça escorria pelo peito. O mendigo imundo dançava quando sacou um cigarro e, aparando o forte vento com a mão esquerda, aproximou-se de um pequeno fogareiro de uma lixeira a fim de acender seu cigarro. Foi então que as chamas lhe abraçaram. Mesmo ardendo em chamas o homem não parava de dançar. Crianças choravam, adultos se benziam e Tás, arrebentava Thunderstruck. Era como ver a fusão de Brian Jonhson e Angus Young numa mesma pessoa.Fora aquela uma noite terrivelmente memorável! A melhor apresentação solo de Thunderstruck que alguém pode um dia conceber. E o único fato positivo em toda aquela tragédia, foi que, Toinzim jamais tornou a fumar ou beber.
Olá, Jeferson.
ResponderExcluirGostei deste post, consegui visualizar as cenas conforme a "minha igreja", a "minha praça", o meu "mendigo". Mas a música foi comum para nós dois, ou melhor, para todos que a ouviram.
Só fiquei na expectativa da foto da tua família no início do post, não vai sair?
Obrigado pelo comentário, achei forte isso: Quando o mundo treme é que provamos nossas bases.
Parabéns.
Abraços,
Rubens
Agora sou eu quem agradece pela visita. Quanto a foto, sairá sim, aguardo um momento oportuno, ou melhor, um texto que saia de minha nascente familiar. Abraço, amigo.
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