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Cartas a Tás (33 de 60)




Ituverava, 26 de julho de 2009


Aqui estou mais uma vez, meu amigo Tás. O mundo não dá um tempo. Os acontecimentos não param, mas a memória...Ah! A memória! Esta ganha em vigor a cada alvorada que se revela aos olhos dos viventes.
Esta semana estive em companhia de um Sr de 101 anos de idade. Ele nasceu em 1908. Se os anos 1950, 1960 e 1970 parecem tão distantes; o que dizer dos primórdios dos 1900?
O homem é lúcido. Conversa pouco, o que para mim é sinal de lucidez (riso). Tem lá umas escapadas de memória, umas confusões quanto à escalação do grau de parentescos dos familiares, mas isso é nada diante a serenidade, boa audição, boa visão e respostas coerentes do ancião.
Perguntei-lhe se havia imaginado, lá na usa mocidade, ultrapassar os 100 anos. Ele respondeu: “trabalhava na lavoura, tinha por distração a marcenaria, vez ou outra ia pescar, e o tempo (breve pausa) passou”.
Foi isso que ele disse. Com calma. Com resigno. Com simplicidade. Com sapiência.
Já parou para pensar em como será quando estiver com 100 anos?
Sentará a porta de sua casa de fronte a Praça Rui Barbosa, do nosso centro cultural, com sorte em companhia de uma bela enfermeira, que se não desperta paixão ao menos ornamenta bem o ambiente com sua presença feminina. Esta moça nem saberá de que se trata as velharias de que você tanto falará como; twitter, blog, videomaker, serão cousas tão ultrapassado como tanoeiro, mineiro e bedel.
E então, com um livro de contos de Jefhcardoso, exclamará a quem queira ouvir: “conheci este escritor antes de ele ser famoso; bom moço, bom moço!”

É isso amigo. Apenas o tempo trará o verdadeiro valor desta amizade.

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