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CARTAS A TAS (THE UNFORGIVEN)

Ituverava, 20 de Maio de 2009.

Caro Tas, és para mim o irmão que jamais tive nesta nossa terra de belezas únicas, inigualáveis: rubras, ocres e de tantas outras cores. Assim como eu, bebera das águas vermelhas e barrentas do nosso Rio do Carmo. Quando inocente e imberbe, fora batizado naquela manhã de sexta feira 13 nas mesmas águas em que tantas vezes se aventuraria em sua mocidade. Feioso e cabeçudo como poucos, fora a criança mais indômita a pisar por estas plagas. Feito um selvagem nativo, correste misturado com os lobos e cães do mato pelos matagais e florestas. Tas, quantas vezes sangrou e urrou açoitado por timbetes na face vadia durante as corridas em fuga? E eu contigo, lembra? Quantas vezes, amigo? Assim como eu, você soube como poucos as aventuras e desventuras de ser um moleque encardido de pés descalços a queimar a sola no solo incandescente de nossas ruas de asfalto e paralelepípedos. Sendo assim, e por muitas outras circunstâncias, vejo em você bem mais que um amigo de infância. Vejo um irmão para minha vida inteira. E somente agora entendo a finalidade e efeito das reguadas do Professor Tenório em sua cabeça durante as aulas de português. Você se tornou um grande comunicador, de relevância nacional, amigo. Um ícone icônico. Um avatar do saber. Uma celebridade com conteúdo, tutano. E hoje, quero em demasia resgatar tua identidade natal, amigo. Pare de vislumbrar o espaço, as naves! Pare com estes sonhos supraterrestres. Volte os olhos para nossa pequenina cidade, a bela morena da tez rubra. Quer saber afinal o que foi que me jogou nesta represa de nostalgia? É isso que se pergunta ao ler minhas palavras introdutórias, meu caro? Sim. Direi agora. Ocorreu o seguinte. Nesta semana, nossa cidade fora homenageada pela tevê. Falaram, dentre outras tantas coisas e pessoas, do nosso ouro branco, o algodão. Falaram do magnífico Gustavo Borges. Aquele mesmo. Aquele o qual ensinamos a nadar e tantas vezes salvamos de horríveis caldos nos córregos Calção de Couro e Lava Pés. Falaram inclusive do Vitor Martins, o Vitinho. De sua poesia, a qual toda ela está repleta de nossa influência, amigo; fato que não mencionaram. Lembra dos bares que nós três frequentávamos, do Largo Velho, da praça? Porém, de você propriamente, Tas, esqueceram por completo. Que lástima! Ai de nós! Isso não é justo, ou é. Mas quero te alertar. Você precisa resgatar sua origem com urgência. Tenha pressa. Pare e pense um pouco. Nossa cidade também não me atraía muito no começo, é preciso acostumar-se a ela, como disse Vincent certa vez. Contudo, existem aqui figuras exóticas e interessantes, e belos retratos de mulheres que você deve ter gravado na memória, e que certamente dariam belos quadros se fossemos pintores. Belas esculturas, caso fossemos escultores. Há muito que ver e produzir aqui. Pense. Quando puder, escreva-me. Sei existir aí figuras até mais interessantes do que as que habitam aqui, mas aqui estou. Conforta-me ver em seu blog que você se interessa um pouco por nossa cidade, e isto é uma boa coisa, já é alguma coisa... E agora encerro esta pedindo para que jamais se esqueça de que as morenas daqui são mesmo magníficas, são belas figuras, capazes de despertar poesia no coração de qualquer poeta. E gostaria de falar sobre este tipo de arte contigo, no entanto por ora só nos resta escrevermos bastante. Quando revelei a Vincent minha intenção em lhe escrever, ele pediu que lhe transmitisse um singelo recado; sabe bem como ele é simplório; ele disse: “Ache belo tudo o que puder, a maioria das pessoas não acha belo o suficiente.”* Bonito, não?

*Frase de Vincent Van Gogh em carta destinada ao irmão Theo.

Obs. O texto foi inspirado e possui citações do livro “Cartas a Théo”, de Vincent Van Gogh)

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