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domingo, fevereiro 27, 2011

HÓSTIA SAGRADA E ÁGUA BENTA

O fato é que o homem estava cada vez mais prostrado. Já não reagia à presença de quem quer que fosse. Decidiram que o melhor seria chamar um padre para que lhe ministrasse a eucaristia e, quem sabe, assim por acaso, a extrema unção divina.

O padre veio de boa vontade. Dona Elvira fez questão de recebê-lo pessoalmente à porta, contrariando as recomendações de Cleuza.
Ao ver o padre Bento, dona Elvira encheu-se de alegria. Tornou-se radiante. Beijou-lhe a mão, agradeceu por diversas vezes seguidas a prontidão com que ele atendeu ao seu chamado. Fez com que ele se sentasse à mesa para desfrutar um café como há muito não era servido naquela casa, e proferiu as mais variadas ordens à Cleuza, que não ficou parada por um segundo sequer durante a hora e meia que durou a visita.

Cleuza, vendo que Dona Elvira não finalizava nenhum assunto que iniciava, tratou de interromper a patroa perguntando se ela queria que vestisse seu Honório também com a parte de cima do pijama; caso o padre quisesse vê-lo naquela hora. Dona Elvira disse que sim, e logo em seguida guiou o sacristão até o aposento onde repousava o enfermo.

_Aí está ele, senhor Padre. Daquele bruto homem que o senhor conheceu no vigor de seus dias de lida de roça só restou este caquinho aí largado. Ele já não reconhece ninguém. Outro dia, o filho trouxe a netinha, por quem ele tinha verdadeira paixão, mas foi o mesmo que nada. Nem sinal de entendimento.
_Pobre seu Honório! Disse o padre, enquanto tirava do bolso uma pequena bíblia e uma caixinha de madeira contendo hóstia e um pequeno frasco com água benta. Dona Elvira pediu para que o padre ficasse à vontade para usar o pequeno oratório para depositar os seus objetos. Ele agradeceu. Depositou os objetos e iniciou a oração enquanto aspergia a água benta sobre o enfermo.

Seu Honório começou a tossir. Possivelmente alguma gota de água benta lhe entrou pelo largo orifício de uma das narinas. Tossia e não parava mais. O padre ficou assustado. Cleuza se apressou em sentar o enfermo para que ele parasse de tossir e recobrasse o fôlego. O Padre rezava compulsivamente. Cleuza gritou para que ele batesse nas costas de seu Honório. Padre Bento parecia petrificado com a situação. Cleuza gritou novamente, agora dizendo para que ele acudisse 'pelo amor de Deus!'. Então o pároco estapeou violentamente as costas do enfermo. Dona Elvira pouco viu e pouco ouviu de toda cena ocorrida diante de sua face. É que ela rezava em alta voz e comprimia os olhos o tempo inteiro. E quando viu o marido recobrar o fôlego, agradeceu ao Padre que, segundo ela, fora o responsável pela recuperação de seu Honório, que, ainda segundo ela, certamente teria morrido se não fosse a presença de espírito daquele santo homem.

O padre puxou um lenço do bolso e enxugou o suor da testa, retomou o ritual e ministrou a eucaristia à dona Elvira, que já não mais ia à missa devido ao marido enfermo, e então se valia daquelas visitas mensais para entrar em comunhão com o sagrado. Cleuza não participou do ritual. Foi para o tanque lavar umas pecinhas de roupa. E já era quase a hora de ela ir embora.

Com o auxílio de dona Elvira, o padre introduziu a hóstia na boca de seu Honório. Seu Honório já quase não deglutia os alimentos, estava em vias de colocar uma sonda para a alimentação.

Vendo que o marido não havia engolido a hóstia sagrada, Dona Elvira pediu ao padre Bento para que segurasse a cabeça de seu Honório erguida para que ela lhe desse um golinho de água para ajudar a descer a hóstia.

O Padre cumpriu o que lhe fora ordenado, e ainda segurava em suas mãos a cabeça de seu Honório quando, ao ver o homem com a face azulada, notou que ele havia se afogado pela segunda vez.

Desta vez o padre valeu-se da primeira experiência e começou a gritar desesperado por Cleuza. Quando Cleuza adentrou o quarto, seu Honório já não estava com a face azulada, mas tinha o rosto, as mãos e os pés roxos.

Dona Elvira ligou para a filha, a filha ligou para o médico da família, e o médico da família estava em um congresso e ligou para um colega.


domingo, fevereiro 20, 2011

DOIS COPOS COM ÁGUAS

_Ele hoje não quis comer nada. Ele só come comigo, sabe? Não aceita que mais ninguém lhe dê alimento, seja liquido ou sólido. Ela disse isso de pé ao lado da cama do doente. Fazia três meses que ela estava encarregada do enfermo e dos cuidados da casa. Entrava às sete e ia embora às dezessete; tinha duas horas de almoço.
Ela gostava de olhar para o enfermo com ar de piedade e exclamar: _Coitado! E completava com outra de suas frases prontas preferidas: _É duro o fim da vida da gente!
O homem não dizia nada. Estava consciente, porém reservava as suas falas para reagir com alegria, caso chegasse alguém muito querido e estimado, ou mesmo zangar-se, em caso de algo lhe contrariar; como ocorreu na ocasião em que Cleuza lhe derramou água na blusa de seu pijama enquanto o servia no leito. Disse ele, com surpreendente firmeza na voz: _Não! Assim não uai! Cê tá mi moiando tudo.

Cleuza não podia ver qualquer pessoa que se aproximasse, e logo reiniciava seu discurso; ela dizia: _Coitado! Eu tenho “muita” dó dele. Ele não aceita que eu vá embora. E baixinho, em tom confidencial, como se quisesse evitar que a esposa do enfermo ouvisse, ela completava: _Por ele eu ficaria aqui vinte e quatro horas por dia, de domingo a domingo; mas o que eu posso fazer? Tenho minha casa pra cuidar, meu marido.

Conforme Cleuza ia firmando sua importância através de seu trabalho e suas frases prontas, dona Elvira, a esposa do enfermo, cada vez mais se encolhia. Dona Elvira não era mulher de personalidade fraca; era pequena, porém enérgica e autoritária. No entanto, três meses após a admissão de Cleuza, Dona Elvira tornara-se irreconhecível.
Os filhos atribuíam a mudança de postura de dona Elvira ao momento delicado que atravessava com o marido cada vez mais moribundo.
Mais três meses se passaram e o enfermo não piorou nem melhorou. Lúcido, porém apático, sonolento...
Dona Elvira é que se encolhia cada vez mais e mais. Ela já não atendia à porta para receber as visitas; mesmo quando eram os filhos que chegavam. Não proferia ordens para a realização das tarefas domésticas. E, em muitas ocasiões, sequer era possível percebê-la dentro da casa. Quando era vista, estava sempre com um copo d’água numa mão e um terço na outra, sussurando, acompanhando a reza pela televisão: _Esse padre é muito feio e grita muito, credo! Ela dizia enquanto “bentificava” a água.

Mais um mês, e dona Elvira praticamente sumiu de vez dentro do próprio lar. Agora quem acompanhava à reza pela televisão era dona Cleuza, enquanto Elvira enxaguava uns paninhos, fazia uma sopinha, e lhe trazia dois copos com água; sendo um para a reza, que não podia parar, e o outro era para dona Cleuza beber. E ai de Elvira se por esquecimento não trouxesse a água de beber bem gelada.


domingo, fevereiro 13, 2011

MILK SHAKE DE MICOSE

Num dia extremamente quente, caminhando pelas ruas do centro de uma grande cidade, gentes de todas as formas e humores passam rente. O chinês atende rápido mais um cliente, sai mais um pastel provavelmente quente. A loja de eletros e eletrônicos, com seus condicionadores de ar potentes, é um refúgio para as gentes que se sentem atordoadas pelo calor crescente.

O homem na praça vende seu artesanato sórdido, exibe suas tranças rastafari, olha com desdém os “caretas” que passam, sejam alegres ou apressados.

Uma sorveteria é um oásis num deserto onde os grãos de areia são cabeças de gente e os carros, os ventos. Entro. Quero um sorvete. Pela bagatela de dois reais, densos duzentos mililitros de sorvete com leite. Milk shake.

Uma longa fila de sedentos por sorvete. Finalmente, chega a minha vez. Estendo a mão com a notinha. É hora de dizer a quê vim: _Pra “mim” um milk shake de sensação, por favor! (Mim Tarzan)

Milk shake... Isso é sorvete batido com leite! “Mania de não usar a língua da gente, como se na língua do outro o sabor fosse diferente. Coisa cafona de bênção verbal em inglês para denominar algo que os nossos olhos veem e entendem conforme o é; sorvete com leite”. Penso enquanto o rapazinho me vende.


Sensação é sorvete de morango com morango em pedacinhos, pedaços de chocolate, calda de morango e leite bem gelado. Pedi água mineral com gás para tomar no final.

No balcão, um jovem baixo, magro e de dentes e gengivas à mostra, apanha o meu pedido. Fiquei aguardando. Enquanto aguardava, fiz o que costumo fazer quando estou fazendo nada; observei.

Vi que o jovem era um tanto desajeitado no manuseio dos cremes com que trabalhava. Tinha a mão pesada e deixava que o sorvete escorresse pela borda dos copos. Fazia um monte de pedidos ao mesmo tempo, enquanto conversava alegremente com um colega e uma colega que serviam ao seu lado.
Talvez ele fosse apaixonado pela colega. Talvez quisesse chamar-lhe a atenção a todo custo. Nenhum dos dois usava aliança, e se não fosse por opção, mas sim por serem descompromissados, que mal haveria nele se esforçar para que ela o notasse, ouvisse sua voz, admirasse o seu grande sorriso de dentes e gengivas à mostra?

Ele falava bastante, falava alto quando queria dar ênfase a algo. Notei também que não usava máscara. Lembrei-me de um documentário (maldito documentário!) que vi certa vez por acaso, enquanto zapeava. Era sobre microimagens. Uma microcâmera captava imagens das gotículas de saliva que eram lançadas enquanto uma pessoa falava.

Notei ainda que ele não usava luvas. Pior, notei que tinha uma micose no canto interno da unha do indicador da mão esquerda; mão com a qual ele segurava o copo enquanto com a direita deitava a massa.
Num dado momento, ao inserir uma porção de sorvete sobre o leite gelado já depositado no fundo do copo, o leite fora lançado aos pingos para fora. Escorreram pela mão do jovem, resvalaram pela unha que, eu juro, tinha o canto carcomido por micose...

Uma jovem senhora de olhos negros e grandes, que aguardava ao meu lado, fazia cara de nojo enquanto também observava a manipulação alegre do rapaz. Pegaríamos ao mesmo tempo os copos que nos foram estendidos simultaneamente, o dela era de chocolate com cerejas, floresta negra, uma delícia. Porém, ela não aceitou o copo. Bradou para quem quisesse escutar: _Esse sorvete eu não tomo! E com os olhos vidrados de ódio no rapaz das gengivas à mostra, completou: _Você está cuspindo nos sorvetes faz meia hora! Faça-me o favor, ô rapaz...

Imagino que, se ela tivesse visto o que eu vi, ela o teria agredido fisicamente. Não tenho dúvida que sim.

@Jefhcardoso74 no Twitter

domingo, fevereiro 06, 2011

O GINÁSIO E O FUNDAMENTAL II

Voltando às aulas, digo, meus filhos voltando às aulas, vejo que as coisas não mudaram ao ponto de eu não conseguir traçar linhas comparativas destes tempos com os meus tempos de menino. Tudo muda, e as cabeças sempre, invariavelmente, ficam confusas diante das diferenças, no entanto na essência somos as mesmas crianças de outrora, tá ligado?

Meu filho mais velho, que hoje está com quase onze anos, foi para a quinta série/sexto ano; o que equivale ao meu término de primário e ingresso ao ginásio; o que, a bem da verdade, dá na mesma.
O moleque criou um pelos mais escuros sobre o lábio superior, sua voz, cada vez com mais freqüência, oscila em tons graves sobrepostos por tons agudos exagerados, e em seguida tudo retorna à normalidade.
As aulas começaram. Eu fiz o que fazia nos anos anteriores: esperei o horário e fui para o portão encontrá-lo com um sorriso discreto e conduzi-lo até onde eu havia estacionado o carro.

Até a quarta, tudo bem. Na quinta, ele estava meio calado. Na sexta, abriu o jogo:
_Quero voltar a pé da escola. Quero retornar em companhia dos meus amigos, pai.
Eu não sabia, mas esse fora um direito conquistado ao ingressar no ginásio, digo, no Fundamental II, desculpe, ainda me confundo.

Bem, natural que eu não soubesse, afinal fui e voltei a pé da escola desde o meu primeiro dia do primeiro ano do primário, que os mais velhos insistiam em chamar de grupo, isso para meu desagrado. Grupo. Eca! Primeiro ano primário era o termo correto, tá ligado?
Sempre pensei que ter o pai levando e buscando no colégio fosse um grande privilégio. Eu era livre, feliz, e não sabia.

Aí sabe como é, né. Sentamos para aquela conversa entre gerações. Expliquei o meu martírio e calvário da infância pobre e um tanto desamparada: Mãe gravemente enferma (morre não morre), pai jovem inexperiente e praticamente viúvo (tendo que batalhar para sustentar a casa e cuidar do moleque numa época onde violências urbanas não nos incomodavam aqui no interior), sol menos nocivo, trânsito mais tranqüilo... blá blá blá, blá blá blá...

E finalmente chegamos a um termo. Falta ainda quatro meses para que ele complete onze anos, esse foi meu trunfo. Todos os meninos de sua turma já estão com os onze completos. Conversaremos novamente quando ele fizer onze... ou doze [...]
_Pai!...
_Desculpe, filho. Estou tentando fazer o melhor. As coisas mudam, tá ligado?

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

ÓCIO MAU SÓCIO

Penso que o ócio não seja um bom sócio nesta vida. Há quem preze e se dedique demasiadamente a fazer nada. Há quem se gabe por ter muito tempo para a ociosidade. Há quem almeje ter todo o tempo livre. No entanto, a ociosidade trás em si uma moléstia, que, a meu ver, é das mais graves - a falta de sentido.
Conheci certa vez o caso de um homem chamado Fridolin, que por questões conjugais acabou por ambicionar mais tempo ocioso, a fim de dedicar-se a ocupações libertinas como meio de vingança. Pôs em risco não somente a sua relação conjugal como a própria pele. Enveredou por caminhos que poderiam perfeitamente ter encerrado sua carreira de médico, destruído sua bela família, e até mesmo ceifado sua vida. O ócio para aquele homem seria um veneno letal. Quem narrou à história de Fridolin foi o ex-médico e escritor vienense Arthur Schnitzler no livro “Breve Romance De Sonho”.
Diz a lenda (Wikipédia) que entre os contemporâneos de Schnitzler figurou ninguém menos que Sigmund Freud. E que, em certa carta, Freud teria dito ao escritor: “Sempre que me deixo absorver profundamente por suas belas criações, parece-me encontrar, sob a superfície poética, as mesmas suposições antecipadas, os interesses e conclusões que reconheço como meus próprios. Ficou-me a impressão de que o senhor sabe por intuição – realmente, a partir de uma fina auto-observação – tudo que tenho descoberto em outras pessoas por meio de laborioso trabalho.” (FREUD, 1922).
Isso não é algo impressionante? Eu achei. Portanto, vamos respeitar o exemplo de Fridolin.

Algo mais caseiro ocorreu comigo. Certa vez, durante uma de minhas sessões de Fisioterapia, em meio a um esforço gigantesco para colocar-se de pé, um senhor - o qual trago com muita atenção e carinho entre os meus mestres nessa vida - disse-me, olhando em meus olhos: “Meu filho, feliz é o homem que pode ficar de pé quando quer. Feliz é o homem que acorda de manhã e sabe que possui uma ocupação. Filho, feliz é você!” Bem, eu disse algo tentando elevar a estima dele naquele momento, mas fato é que, qualquer coisa que eu tenha dito na ocasião, fora pouco para contrapor à sabedoria das palavras que ouvi. Uma pessoa trabalha por diversas razões. Uma das mais fortes é o sustento. A mais nobre é o servir. A mais secreta é o reconhecimento. E a mais providencial é repelir o ócio.

Obs. O trecho da carta supracitada fora retirado da Wikipédia.

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