Pular para o conteúdo principal

Postagens

A PEQUENINA MESA DE ARMELAU

Armelau voltou ao trabalho numa quarta feira de céu nublado e com tempo chuvoso. Achou estranho e melhor não comentar, mas sua sala havia sido completamente modificada, sua mesa fora trocada e outras três foram introduzidas no local. Ao fundo da sala, sobre a mesa de tamanho maior, colocaram os pertences de alguém que ele julgou não conhecer. Tratava-se de uma moça, uma moça com um largo sorriso de pérolas e olhos grandes, nariz longo e fino, cabelos escorridos e etc. Na extremidade oposta, em uma das duas mesas de tamanho médio, depositaram os pertences de outra pessoa estranha que sorria no porta retrato com o mar e montanhas por fundo da foto. Tratava-se de outra moça, uma de olhos negros e cabelos negros, lábios grossos e bochechas rotundas, nariz pequeno e etc. E na terceira mesa, uma também de tamanho médio, posicionada junto à parede lateral, além dos pertences, estava outro retrato de alguém estranho. Era o de um rapaz de pele morena, jovem, porém de cabelo falho, de ros...

TEMPO DE PENSAR E NÃO DIZER

Não sei se querem realmente saber o que meus olhos andam vendo ultimamente. Olho e fico com o que vi em meu pensamento, guardado em mim mesmo. Penso e logo coloco a chave no buraco da fechadura da porta d a mente . E se um pensamento de abrir a porta, por ventura, me acedia com a intenção de sugerir a exibição do guardado, volvo a chave e a jogo no bolso da camisa azul clara de corte social e botões que ainda não comprei. Compartilhar o que penso? Não tenho tido vontade. Nem sou obrigado. Acho que tudo que havia para eu pensar em segurança já foi pensado e apenas as idéias um tanto quanto originais possuem o apelo do qual necessito para imprimir minhas poupas digitais contra as cretinas teclas enfileiradas no teclado. Não escrevo mais. E acho até mesmo que nunca mais escrever será como já foi em minha vida. O tempo da empolgação agora conhece suas cinzas. Cerquei-me de blocos de notas, pequenas cadernetas, diversas canetas esferográficas pretas, única cor que gosto de usar no papel ...

O DOUTOR DO ESPAÇO E O PEDREIRO FICCIONISTA

Ou ele cria nas próprias verdades ou o tempo o tornara um especialista na arte de imaginar convencer a quem o ouvia. Tudo era motivo para iniciar uma empolgada narrativa permeada pelo fantástico e o extraordinário. E tudo em seu universo narrativo era cheio de sólida convicção e indissolúvel ficção. Começava como quem nada queria. De repente, arrastava seu ouvinte por um universo místico de roças distantes na linha do tempo e extraordinários personagens ocultos que transitaram numa zona rural já extinta, ou, quem sabe, ainda transitem pelas cidades em seus múltiplos disfarces de pessoas comuns. “Quando criança, eu tive garrotil..., quase morri.” Disse o ficcionista em tom testemunhal. “Garrotil?” Perguntei eu com certa estranheza, pois nunca havia ouvido o tal termo. “Sim. Garrotil. Doença de cavalo, uai!” Afirmou ele com impaciência na voz e firmeza no olhar. Após apurar, pressupus que certamente se referia ao garrotilho, uma doença equina. E o pequeno homem, apoiado ao cabo da enx...

O GRANDE CIRCO NONSENSE - HEMATÓFAGO

‘Quem?’, p erguntou prolongando ao máximo possível a extensão da pequena palavra com sua voz esganiçada a velha mulher magra, solteira e um tanto solitária imediatamente após soar o toque da campainha pelos cômodos desabitados de sua casa indo ecoar à porta da rua, possibilitando a quem acionou ouvir perfeitamente o som. ‘Sou eu, o m ágico Pipo!’, r espondeu o homem de cartola e capa preta plantado de pé en frente ao portão olhando um ponto fixo no muro da casa azul marinho. ‘Ah, é você, m ágico Pipo?! ’ , r espondeu a mulher magra, solteira e solitária com discreta porém perceptível alegria festiva na voz e familiaridade no tom : ‘ Eu estou esperando o açougue, o verdureiro e a farmácia ; a chei que fosse algum deles ; m as que bom que é senhor ! Entre, m ágico, entre ! Ela tá te esperando na cama, coitada! Essa noite não dormiu nada ; c onversou à noite in-tei-ri-nha, coitadinha . É a crise. A crise voltou . ’ Concluiu a mulher curvando a cabeça em uma flexão de seu pes...

QUESTÃO DE PERFIL

Por um momento o silêncio opressor dominou o ambiente sombrio da sala do dono da empresa. E então o patrão, com um leve giro de sua cadeira, colocou-se em posição frontal diante à face do empregado, este já encolhido após assumir péssima postura desencostando do encosto da cadeira, curvando o tronco e deitando as mãos e parte dos antebraços no colo. ‘Pois bem, - começou por dizer o patrão - mandei chamar-lhe aqui, Igor, por um motivo que acredito seja bastante desagradável pra você. Tem corrido na empresa, e por diversas fontes, sendo essas fontes clientes, fornecedores e até mesmo os seus colegas de trabalho, que você é um sujeito estranho. Dizem que é muito individualista e que não aceita ajuda de ninguém causando assim lentidão na descarga das mercadorias, fato que eu mesmo tenho visto e estou em condições de confirmar. E dizem mais coisas graves a seu respeito, dizem que é muito calado e que não se entrosa de modo algum. Um esquisitão, com o perdão da franqueza. Mas o senhor...

CHÁ DE INVISIBILIDADE

Imediatamente, Igor Socolov depositou a caixa de bacalhau norueguês na pilha, lavou as mãos e os braços na pia do barracão e foi até a sala do patrão que o aguardava com o telefone colado junto ao ouvido, falando e gesticulando. Tsarov fez um gesto breve com a mão esquerda direcionado ao rapaz para que este entrasse e outro ainda mais breve para que fechasse a porta atrás de si. Antes de fechá-la, foi possível ver Fedosov, o gerente bedel, sobressaltado, com o pescoço esticado e os olhos arregalados, a meio caminho para sua mesa postada diante à porta da sala do patrão. Tsarov, vendo que o empregado entrou porém não se sentou, fez outro gesto curto para que ele se sentasse e continuou ao telefone. Falava de uma carne seca. Dizia que a carne seca estava toda bichada e que não haveria como aproveitá-la de modo algum. Fazia uma pausa como que para ouvir seu interlocutor e repetia toda a história da carne seca que ficara exposta e teria contraído larvas. ‘Dimitri, a carne seca está podr...

TODO O PRAZER DE FEDOSOV

Nos dias que seguiram, tudo era frio, poeira, sombras e mistérios. Sergey Fedosov encontrou-se no direito e liberdade de intensificar o espetáculo de seus horrores da mesquinhez. Fofocava à porta e nos vestíbulos, olha v a de soslaio, empunhava caras de deboche, deleitava-se em mofas e chacotas de toda espécie. Bastava que Igor entrasse em algum vestíbulo onde o bedel já se achasse para que o mesmo desatasse a rir com quem ali estivesse como se falasse algo de graça extrema. Igor só via motivos para trabalhar. E teve mesmo que trabalhar dobrado após o incidente das contas erradas. Enquanto todos os carregamentos eram descarregados na empresa por duplas ou trios de chapas, fosse a carga mais pesada que fosse, ninguém lhe vinha em auxílio; certo era que aquilo fosse por uma ordem do próprio Yuriy Tsarov. E Fedosov ficava a vigiar os outros para que ninguém se compadecesse da situação do isolado Igor. Se alguém se atrevesse a oferecer-lhe ajuda, imediatamente Fedosov repreendia o s...