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A ONÍRICA COMPETIÇÃO DE ARMELAU

Ao saber que havia outro trabalhando em seu lugar, Armelau sentiu a fria sombra do fantasma do desemprego pousar sobre sua pessoa. Quando deixou a empresa por síndrome do túnel do carpo bilateral, saiu convicto de que aquela era a decisão mais acertada. E nos primeiros dias até achou confirmar-se o acerto de sua decisão. Contudo, com o passar do tempo, – e o tempo é o senhor absoluto de todas as ações humanas – Armelau viu pouco a pouco enfraquecer-se a convicção em seu propósito. Distante da movimentada rotina de trabalho, Armelau encontrou-se ocioso e solitário. Logo lhe sobreveio uma sensação de vazio, de improdutividade, de tédio... Os dias tornaram-se longos e enfadonhos, monótonos, medonhos. Nas cadeiras de espera para a perícia médica, sentiu-se humilhado – não que lhe impusessem algum vexame naquelas ocasiões. Seu mal estar provinha mesmo era da ação de ir até ali provar a veracidade de sua incapacidade para o trabalho, de sua invalidez temporária, justamente em dia e horário d...

O ARTICULISTA PSICOGRAFADO

Eu nunca havia publicado um texto em um jornal. O primeiro foi por acaso. Morreu uma pessoa muito querida, fiz um poema de despedida, compartilhei com os colegas, eles decidiram publicar. Fiquei surpreso. Fiquei ainda mais surpreso quando o jornal me convidou para assinar uma coluna em sua contracapa. Disseram que eu seria ‘articulista’. Então, eu pensei: “Nossa, serei um articulista do jornal de minha cidade...” E em seguida concluí o pensamento: “Mas o que é o um articulista?”. Bem, até aquele momento eu ignorava que havia um termo que denominava o cara que escreve artigos. Ar.ti.cu.lis.ta s2g. Autor de artigos de jornal, revistas, e o caramba (Aurélio). Durante algum tempo, - por pouco tempo na verdade - foi legal esperar chegar o jornal em casa para ver como o meu texto havia ficado nele. Mas havia um problema grave nisso. Toda vez que eu relia um texto de minha autoria, como ocorre ainda hoje, descubro algum problema, alguma imperfeição. No blog, eu tento arrumar, no jornal não da...

A ONÍRICA VIDA DE ARMELAU

Era um dia comum como tantos outros dias de trabalho comum na vida do funcionário Armelau. Com o céu nublado, caía uma fria garoa intermitente sobre os telhados marrons lodosos e o pavimento cinza escuro. A sala de Armelau ficava onde fora a sala de estar de uma antiga casa adaptada pela empresa de papeis na qual ele trabalhava. Sentado em sua mesa, Armelau ajeitou alguns papéis, abriu uma pequena gaveta da sua escrivaninha, da qual retirou um pequeno embrulho em papel kraft. Em seguida, fechou-a e volveu a minúscula chave, duas vezes. Fechou também algumas páginas em que navegava na web. Deixou carregando um programa de dados que estava baixando desde a primeira hora de serviço. Naquela manhã a internet estava especialmente mais lenta do que de costume. Com um esforço das pernas, empurrou a cadeira com rodízios para trás, descalçou os sapatos, depois desafivelou o cinto. Também afrouxou o nó de sua gravata enquanto observava fixamente a barra de progressão do download do programa. ...

A CASA DE PORTINARI

A arte que um homem faz pela vida a fora é nada mais que sua reação diante de todas as coisas que lhe chegam aos sentidos. Um dom é uma coisa maravilhosa. Uma atribuição divina. O artista é todo aquele que existe. O artista que alcança frutos e fama através de sua arte é um afortunado, um privilegiado, pois tudo neste mundo é arte e ele obteve a sorte de conquistar o mundo através da sua. Deus premia quem cria com fidelidade a Ele, com perfeição e paixão, mesmo na imperfeição. Um homem tem que saber de si, tem que admitir-se, pois se não, passa a ser uma imitação de algo, uma fraude, uma cópia. Abre mão de si próprio para agarrar-se a uma imagem que não é a dele. Diante da casa de Portinari pude ver que a ostentação é uma ilusão barata que abriga alguma falha, é a fachada de algo inconfessável, talvez de uma falta de alegria diante da própria vida, a qual se tenta suprimir com ricos adornos, objetos caros. A casa de Portinari é simples como as casas de minha infância. As casas de alugu...

O CAMINHO PARA CASA DE PORTINARI

Se todo caminho leva à Roma, melhor ir perguntando para não errar o caminho da Casa de Portinari. Aos trinta e sete anos de idade, após ter morado por quatro anos a menos de dez quilômetros de distância, eu finalmente decidi ir conhecer a casa onde viveu o famoso pintor. Casa que hoje é o Museu Casa De Portinari. Durante todo o caminho, até a chegada, o tempo esteve nublado. Havia um cheiro de terra molhada. Mais que promessa, era certeza de chuva nas proximidades. Março estava sendo generoso na quantidade de águas. Passa Orlândia, passa Batatais, chega a cidade de Portinari, Brodowski. Ali o tempo parece não ter pressa. Ali vi pessoas sentadas com suas cadeiras de descanso nas portas de suas casas. Bares movimentados à espera de um clássico do futebol, atrasado devido a um temporal na longínqua capital. Casa de Portinari... Mas onde fica essa casa tão ilustre? Seria deste ou daquele lado da Rodovia Candido Portinari? Deste. Vamos! Mas onde está? Não entendo estas placas... Deveria hav...

ÁGUA BENTA BEM GELADA

Quando o médico chegou, o enfermo já havia expelido a hóstia sagrada e recuperado as feições habituais. Padre Bento rezava fervorosamente. Cleuza abanava o enfermo e agradecia a Deus por ele não ter levado consigo o seu único cliente. Dona Elvira falava sem parar, desde à porta, quando fora recepcionar o médico. O médico foi direto ao paciente. Examinou o aspecto do mesmo, aferiu os sinais vitais, examinou as pupilas, fez algumas considerações, contudo ninguém entendia claramente o que o médico dizia. Sua voz parecia ecoar para dentro de seu tórax. Falava aos arranques, e sempre finalizava de modo concordante e com uma risada meio estúpida. Mas estava tudo bem com o enfermo. Todos se acalmaram. Dona Elvira pediu para que o médico lhe acompanhasse até a cozinha e lá lhe ofereceu um copo com água: _Pode beber, Doutor, é água benta, bem gelada. O médico olhou meio surpreso, porém bebeu, aos poucos. Enquanto bebia, retirou do bolso o telefone e fez uma ligação. Cinco minutos depois, ...

HÓSTIA SAGRADA E ÁGUA BENTA

O fato é que o homem estava cada vez mais prostrado. Já não reagia à presença de quem quer que fosse. Decidiram que o melhor seria chamar um padre para que lhe ministrasse a eucaristia e, quem sabe, assim por acaso, a extrema unção divina. O padre veio de boa vontade. Dona Elvira fez questão de recebê-lo pessoalmente à porta, contrariando as recomendações de Cleuza. Ao ver o padre Bento, dona Elvira encheu-se de alegria. Tornou-se radiante. Beijou-lhe a mão, agradeceu por diversas vezes seguidas a prontidão com que ele atendeu ao seu chamado. Fez com que ele se sentasse à mesa para desfrutar um café como há muito não era servido naquela casa, e proferiu as mais variadas ordens à Cleuza, que não ficou parada por um segundo sequer durante a hora e meia que durou a visita. Cleuza, vendo que Dona Elvira não finalizava nenhum assunto que iniciava, tratou de interromper a patroa perguntando se ela queria que vestisse seu Honório também com a parte de cima do pijama; caso o padre quises...