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sábado, junho 29, 2013

VIDINHA E O PEDINTE DO AMOR

O andarilho parou diante à empresa, observou o letreiro ao alto, certificou-se de não haver nenhum segurança e adentrou pela recepção do setor onde ela era recepcionista e foi ter direto diante sua mesa: “Oi! Você tem aí um trocado? Qualquer moedinha serve. Só um trocado pra um pobre coitado. Estou com fome, com sede, o de sempre. Mas vejo que você é bonita. Acho que estou apaixonado por você..., Vidinha. Não é que você é mesmo lindinha..., Vidinha! Eu troco um trocado por um beijinho seu, linda. Vamos embora daqui, Vidinha. Vem comigo pelo mundão sem fim e sem fronteiras”.

Por mais repentina e inusitada que fosse a proposta do mendigo apaixonado, Vidinha, que não se chamava Vidinha de fato, é claro, por um momento sentiu-se enternecida e lisonjeada pelo modo cativante com que o andarilho do amor revelou sua paixão repentina e fulminante. Nos dias seguintes, todos os dias, nas vezes em que entrava e saía da empresa, lá estava sentado à porta, todo sujo e roto, o andarilho do amor. Com seus cabelos emaranhados formando longos carrapichos, os quais ele ajeitava de minuto em minuto, com seus andrajos puídos e encardidos, os quais ele não parava de alinhar ao ver a aproximação da moça na garupa do moto táxi, e com o saco onde carregava toda sua tralha de andanças e acompanhado pelo inseparável cão vira latas Melão, ele sorria mostrando os dentes amarelos por trás da densa barba que se confundia com o vasto bigode.

“Bom dia, Vidinha!” ele dizia, assim que a moça descia da moto e acertava com o mototaxista. Vidinha, que não era vidinha, como já disse, dava-lhe um trocado e negava-lhe um beijinho. O tempo passou e o frio do inverno não demoveu o andarilho apaixonado de seu plano romântico.

Porém, com o final do inverno, assim da entrada da primavera, em sua manhã de estreia, Vidinha, que não se chama Vidinha, convém não esquecer, procurou com o olhar em todas as partes o homem que lhe tributava um sentimento puro e original. Ele não estava mais ali. Vidinha entrou e seguiu com a vida, com seu trabalho. Nutriu a esperança de ver o homem que lhe mendigou o amor na saída para o almoço e no final do expediente. No dia seguinte, Vidinha ainda achou que pudesse ver o encardido pedinte do amor ali no lugar do costume, mas ele não apareceu lá, assim como não esteve na semana seguinte e nem nas outras. E o outono daquele ano, por mais contraditório que pareça, foi para ela mais frio que o inverno que passou.

domingo, junho 02, 2013

GENYSIS – O PAI DO CHICO

“Ela disse que é pro senhor entrar” indo à frente, adentrando e seguindo pela casa, falou a cuidadora ao visitante, que respondeu com um gesto positivo de cabeça e seguindo após a mulher.

Havia no corredor, inundado por uma fina nevoa de luz solar salpicada de filamentos de poeira, um grande retrato em preto e branco de uma moça em traje de festa e com um largo sorriso de graúdos dentes de perolas. Ainda no corredor, seguindo à direita do visitante, à porta de entrada do vestíbulo onde a anciã o aguardava, havia uma cômoda repleta de relíquias, imagens de santos, bibelôs e porta retratos.

“Parece que ela está dormindo. Mas o senhor pode falar com ela. Se ela não acordar, o senhor terá que voltar outra hora” explicou a mulher.

“Dona Eulália, bom dia! A senhora está me ouvindo?” “Perfeitamente, meu caro. Mas quem é senhor?” “Sou o escrevente que a senhora pediu para que chamassem.” “Sim. Claro! Seja bem vindo! Qual o seu nome, meu filho?” “José.” “José?” “José.” “Ah, José!..., o senhor não sabe o quanto minha vida tem sido difícil...; mas isso não vem ao caso. O senhor trouxe papel e caneta para anotar o que vou lhe ditar? Ah, o senhor tem um desses aparelhinhos modernos de escrever!, hein, um computador! Tem certeza de que não perderá aí o que vou lhe contar?” “Fique tranqüila. Saindo daqui imprimirei tudo em bom papel. É que neste aparelho eu escrevo mais rápido. Estou muito acostumado e ele oferece algumas facilidades.”

 “O senhor viu aquela moça do retrato no corredor? É minha filha... Bonita, não? E é muito erudita, formou-se em História; é doutora em História! Saiu de casa muito cedo, pra ir à universidade. O pai não queria que ela fosse embora pra estudar não. Dizia que ela tinha tudo aqui e poderia ser professora como eu, dar aula nos mesmos colégios. Mas ela não quis saber. Precisou que ele assinasse uns papeis pra ela ir morar fora, quando ainda era menor de idade; o pai foi obrigado a assinar, muito contragosto. Não queria contrariá-la. Quando ela encasquetava com alguma coisa, o senhor precisava ver!, ninguém a demovia da intenção... Foi estudar na universidade onde o pai do Chico Buarque era o reitor. Ele a adorava!”

A cuidadora, que o tempo inteiro permanecia ao lado de ambos, disse em voz baixa ao visitante, para que a patroa não ouvisse: “Nem tudo que ela fala é lá muito confiável; dá umas variadas, coitada! Muita coisa é fantasia da cabecinha dela, mas outras não; isso é o Alzheimer, doença mais triste!”

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