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quinta-feira, agosto 22, 2013

CONFISSÕES À VALENTINA # 01

Percebendo que Valentina perdia flores a uma proporção maior do que as concebia, achei por bem deixá-la a semana inteira sem visitar minha sala; postada sobre a mesa da varanda que serve de entrada aos funcionários.

Ela até que ficou bem. Ainda conserva duas flores no ápice de seu frágil e recurvado caule. Acredito que sua florada esteja chegando ao final, porém, como nada sei sobre a planta, aguardarei o desfeche de seu ciclo.

Todos os dias eu a vi ali, parada sobre a mesa, impassível, embora doce e meiga. Passei por ela, no entanto jamais falei com a flor nos momentos em que havia alguém presente. Acho estranho e acho que também causaria estranheza aos que nos vissem conversando. Ela não disse palavra durante a semana que passou. Eu até acariciei suas pétalas e folhas sempre que pude, banhei-a sob a torneira do tanque e ofereci algumas poucas horas sob o sol do final das manhãs no terraço. Ao todo foram dois banhos que lhe dei. Tento não ser ausente, mas o trabalho não permite que eu dedique mais tempo à flor.

Como sendo final de semana, só a verei amanhã pela manhã, segunda feira. Espero que fique bem. Já penso em trazê-la para casa em definitivo; para que venha morar em minha goiabeira; onde já tenho uma hóspede orquídea de outra espécie. Uma bem rústica que resistiu a todas intempéries do tempo e períodos de longa ausência por parte do vil jardineiro que vos fala. Raimunda é o nome da planta que só floriu uma vez em três ou quatro anos. Talvez naquela ocasião estivesse apaixonada por algum pássaro mandrião veranista.

Quanto à Valentina, devo admitir ter sentido sua falta na semana de sua ausência. Meus colegas de sala pouco falam, e quando falam não é o mesmo que ouvir Valentina, que fala de literatura e através de uma visão mais filosófica e existencialista. Gosto de meus colegas; damo-nos bem; mas preciso falar de literatura com alguém. É que somente compreendo a vida através da literatura.

Noutra noite, até sonhei com Valentina. Sonhei que ela metamorfoseava-se numa linda deusa nórdica. A deusa nórdica dos olhos doces e frios feito um par de opalas reluzentes e cortantes. Morar naquele olhar, quem sabe lá? Quem sabe se um dia, ah!... E como seria? Tantos músculos... Tantos encantos... Uma volta ao mundo enlaçar aquele enorme monumento feminino. Uma estátua doce de açúcar, uma boneca de marshmallow branco virginal, uma vertigem, uma miragem no deserto árido dos meus dias mais ordinários, uma escultura viva talhada no mais puro mármore branco. Um sonho. Um sonho que se desfez ao toque de meus lábios. Não era algo para ser tocado. Era algo pertencente ao vaporoso e soporífero universo onírico.

Acordei sem a planta e atormentado pela imagem da deusa nórdica em que ela se tornou por um breve momento de encanto dormente. Preparei o café sem nem mesmo notar a medida que depositei de pó sobre o coador. Ficou forte feito café de padre e de bebum.

Ao chegar no trabalho, era dia de relatórios e fechamento de produção mensal. Vi a flor ao chegar, contudo não a levei comigo para minha sala, ainda não. Valentina era a ausência em minha mesa. Eu era a ausência em minha mesa. Tudo era ausência e falas formais pouco vibrantes.

12 comentários:

  1. Olá Jeff! Anda sumido do meu blog...! Ma olha só que interessante: ao ler hoje esta sua postagem fui remetida à esta minha http://danielaemgrego.blogspot.com.br/2013/08/teorema-de-valentina.html
    Coincidência! Saudações!

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    1. Que bom! Estou indo ao seu. Beijo! Obrigado!

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  2. Oi Jefh! Ihhh, quando uma Valentina, ooops!!!, começa a perder mais do que produzir é preocupante. Ela vai gostar de ficar na goiabeira... como todo ser vivo, ela vai morrer... mas não será o fim...
    Sempre haverá a Literatura.

    Abração
    Jan

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    1. E viva a Literatura, JAN! Sua leitura aguda alegra minha alma e atravessa o texto, mais uma vez. Beijo e obrigado, querida amiga!

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  3. A minha "Valentina" resolveu florescer depois de um ano. É igual à sua.

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    1. Tal qual minha Raimunda. Legal! Beijo, Christiane!

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  4. Hoje tirei um tempinho para visitar meus amigos do Blog, não podia de jeito nenhum deixar de passar por aqui pelo seu cantinho, Gigante escritor! Como sempre, textos excelentes. Parabéns, Jef! Fica com Deus, tenha uma ótima noite! Eliana do Palavras que Abraçam!

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  5. Oi Jef, voltei a passar pelo Blog e fiquei feliz quando vi meu comentário postado rsrs. Você como sempre uma excelente pessoa! Depois de muito tempo sem entrar no meu Blog, não lembro a senha, por isso estou aqui como anônimo. Qualquer dia desses vou tentar fazer uma nova senha, para voltar a entrar devagarinho e dar também uma nova cor a nele. Este comentário é só para falar da felicidade que fiquei em ver meu comentário postado, não precisa postar não, ok? Fica com Deus, tenha um ótimo dia e parabéns, sempre! Um abraço

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  6. Oxente, você postou?! Rsrs... obrigada! Ótimo dia para você!

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  7. Consegui recuperar meu Blog rsrs. E de vez em quando passarei aqui, com todo prazer! Acabei de ler os textos que estão no início do seu Blog, todos como sempre, maravilhosos!!! Uma ótima noite para você! Um abraço. Ah! Referente ao primeiro texto que li hoje aqui: Que bom que o ladrão não foi um ladrão rsrs

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