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sexta-feira, julho 27, 2012

O CÔNCAVO DA AXILA DIREITA DE ROSALMA

Com o braço rente ao tórax e movimentos curtos, ela grafava com grande dificuldade em um bloquinho de notas as palavras que lhe vinham à mente logo abaixo do título que encabeçava a pequena página. Título escolhido intuitivamente, ao acaso, durante uma divagação ocorrida ali mesmo debaixo da goiabeira que deitava galhos e folhas para dentro da varanda da velha casa abandonada e arruinada na qual o pequeno portão aberto e enferrujado permitia o trânsito livre dos desafortunados vagabundos que buscavam abrigar-se dos olhos do povo ou do braseiro do sol ardente da tarde.  ‘EU QUERO UM AMOR’ era o título cabeçalho. E abaixo do título seguiam frases jogadas sem qualquer pontuação de trânsito gramatical, exceto o agigantamento maiúsculo de algumas consoantes iniciais que cumpriam bem a função de falso parágrafo ‘Que fale de amor Que fale de amor com sentimento Que fale de amor Que fale de amor com gravidade Que fale de amor Que fale de amor com comprometimento Que fale de amor Que fale de amor com ressonância fonética Que fale de amor Que fale de amor com qualidade Que fale de amor com Que fale de amor Que fale Que fale Que fale’

No côncavo da axila direita, ela trazia algo que encontrara numa pilha de tijolos pó de mico em uma tarde de domingo em que ajudava com os materiais da reforma da casa que há tempos ficaram abandonados na calçada, dos dias em que ainda o pai estava vivo e internado com tétano e raiva, muita raiva.

Ele chegou sem dizer nada e logo encostou a cara parva no pescoço pálido e esquálido de Rosalma e, roçando-lhe a barba, deitou para fora uma língua grossa, trêmula e úmida com aspecto de lesma gorda e rósea. Com a boca de jibóia desdentada aberta e escancarada abrigou quase todo o cíngulo da escápula da moça e sugava ruidosa e escandalosamente. Sugava. Sugava. Sugava. Sugava. Sugava. Sugava. Sugava. Parou. Decidiu que era tempo de descer pelo dorso e ir ter nos arrabaldes ventrais por sobre os arcos costais da jovem magra de aspecto desnutrido, puído, lúgubre e macilento. Ela deixou-se abandonada com aparência de morta fresca sobre a chapa de madeira que um dia servira para tampar alguma construção civil de alguma rua paralela àquela em que se encontravam. Com devassidão, contava suas costelas com a língua molusca e os dedos. Aquele ato aritmético nada no mundo em que habitamos poderia explicar. Ele contava os arcos com a língua e nas pontas dos dedos, e revirava os olhos como se o prazer lhe causasse ondas convulsivas no íntimo de seu encéfalo severamente atrofiado por sol e cachaça. Sobre o ventre de Rosalma serpenteava um largo cordão de pelos negros e grossos que lhe desciam da barriga e evadiam-se pelo púbis sugerindo a existência e preservação de densa mata resguardada ao gosto dos militantes ambientalistas. 

Deitou barba e bigode sobre a trilha da mata pilosa e fungava enrolando os pelos projetados para fora de suas largas narinas arfantes aos da tortuosa e negra linha alba da esquelética Rosalma. Enquanto apalpava cambitos e secas nádegas, carros passavam na rua à frente da velha casa abandonada com seus pneus espocando estalidos graves e ocos sobre os velhos paralelepípedos de antanho. Como se tivesse esquecido algo na sequência de seu curioso ritual, decidiu voltar à axila de Rosalma para inalar, sugar e contemplar com seus olhos arregalados, porém vagos de alma. Rosalma sorriu discretamente com o canto direito dos lábios como se soubesse que cedo ou tarde o esfomeado amante se daria conta de não ter-lhe apreciado o côncavo da axila que abrigava seu estimado animal peçonhento de criação. Com o mesmo sorriso discreto e cruel soergueu o braço para que o amante lhe pudesse chafurdar por entre a mata negra de cheiro acre e quente. E no côncavo da axila direita de Rosalma o miserável faminto deitou diligentemente a molusca língua rósea e úmida a duelar com o tufo emplastrado por óleos humanos e desodorante roll on. De repente, num repelão, o homem afastou-se sobressaltado. Sentiu um fincar de agulha na língua molusca que imediatamente começou a tremular, formigar e adormecer. Com os olhos arregalados, viu o aracnídeo, um escorpião amarelo recolher-se de volta ao côncavo da axila direita de Rosalma. No minuto seguinte, com a língua cada vez mais protuberante por inchada que estava e mais inchada ficava, sentiu o volumoso órgão privar-lhe da passagem do ar mormacento daquela tarde de verão. Levou as mãos ao pescoço e iniciou uma escalada de tonalidades azuis progressivas da pele da face até ficar completamente roxo, cianótico. Rosalma observou a tudo sem mudar a expressão e o sorriso contido. Ao ver que seu parceiro não mais se movia, vestiu as peças das quais havia se despido durante o enlace. Procurou o pequeno bloco de notas. Encontrou. Por mais tempo procurou a caneta esferográfica de tinta preta. Encontrou e partiu sem fazer alarde algum. Partiu pela calçada da rua de paralelepípedos sob o sol das três a ouvir o som espocar dos pneus dos carros sobre os paralelepípedos com o bloquinho na mão direita e o braço rente ao dorso enquanto lia o que havia escrito minutos antes ‘EU QUERO UM AMOR Que fale de amor Que fale de amor com sentimento Que fale de amor Que fale de amor com gravidade Que fale de amor Que fale de amor com comprometimento Que fale de amor Que fale de amor com ressonância fonética Que fale de amor Que fale de amor com qualidade Que fale de amor com Que fale de amor Que fale Que fale Que fale’

segunda-feira, julho 16, 2012

BRB - O SONHO DE DOROTÉIA

Dorotéia dormia no mesmo quarto em que dormia Bob/Rock/Blues. Durante a noite, por muitas vezes, Bob/Rock chamava pela senhora. Dizia que queria o urinol. Ela dizia que ele estava de fralda. Ele dizia que aquilo era uma indecência. Ela cedia, mas quando enfim conseguia posicionar o papagaio de modo com que o patrão pudesse aliviar-se, via já ser tarde. Bob/Rock a culpava pela demora, resmungava por algum tempo, xingava de modo que a ofendesse mesmo sem que ela soubesse qual era o real sentido do xingamento proferido ‘criatura modorrenta!’ e, logo em seguida, virava para algum lado e roncava ao ponto de estremecer as paredes do pequeno e abafado vestíbulo.

A enfermeira acompanhante, sonolenta, sonâmbula e cambaleante, atendia aos pedidos do exigente patrão enfermo. Noutro momento, o que era bem mais comum, Bob/Rock/Blues acordava dona Dorotéia para pedir-lhe um trago. A família já a havia instruído para que não cedesse aos caprichos do velho ‘mas quem é que aguenta esse homem gritando que quer pitar no meio da madrugada?’ ela dizia. Bob/Rock dava umas tragadas profundas, depois soprava, enfumaçava bem o ar do quarto e dizia que somente daquela maneira conseguia dormir. Pedia para que Dorotéia deixasse o cigarro aceso à beira do cinzeiro de pedra para que se consumisse sozinho, assim como um incenso, para impregnar bem o ambiente. E era patente que, quando ambos inalassem toda a fumaça providenciada por aqueles cuidados, ele acordaria novamente Dorotéia para pedir-lhe ‘Dorotéia!... Dorotéia! Morreu, velha surda? Eu quero o papagaio... E me vê um trago que eu já estou agoniado pra pitar, criatura sorumbática!’.

No dia seguinte, Dorotéia queixava-se de dores nas costas e em todo o corpo, dor de cabeça, riniti e náusea. Certo era que, mais dia menos dia, Dorotéia descobrir-se-ia enfisematosa, sem jamais ter consumido um único cigarro por vontade própria. Foi quando teve a idéia que lhe valeria um ar com menor teor de nicotina e algumas horas de sono contínuo. 

Enquanto o iracundo patrão dormia, Dorotéia, de tempo em tempo, vinha com um cigarro aceso e, cuidadosamente, lhe introduzia na boca parcialmente aberta, em um dos cantos dos lábios azulados. A cada roncada, uma tragada. Após dez ou doze boas roncadas, o cigarro consumido até além da metade, a funcionária afastava-se lentamente, pé por pé. Deitava-se em sua cama ao lado da cama do enfermo e retomava o sono intermitente. Por vezes, até sonhava. Ao perceber a mudança de timbre do ronco do patrão e sinais de perturbação de seu sono, repetia a manobra. Bob/Rock passou a exibir maior disposição durante o dia, Dorotéia nem tanto...  

domingo, julho 08, 2012

BRB - KUDURO, O CÃO

Pela manhã, o sol resplandece evaporando as boêmias gotas remanescentes do sereno noturno. Pessoas vão em seus ires e vires por algo que algum dia não fará todo sentido, ou muito sentido, ou sentido algum. A casa de Bob/Rock/Blues acorda com o despertador do celular do filho, praticamente madrugador, o primeiro a levantar-se. Ele toma café e folheia o jornal antes de partir para o trabalho. Vê Dorotéia chegar abrindo portões e portas com dificuldade devido à bicicleta que trás ao seu lado pelo guidão. Ela tem as chaves. E ela só se sentará para tomar café após ter dado o banho em Bob/Rock e lhe preparado para receber a fisioterapeuta que deveria chegar às sete. O cão Kuduro dorme no corredor. Desperta com Dorotéia abrindo a primeira fechadura, a do portão da rua. Ele não late. E se rosna, é prontamente advertido pelo filho de Bob/Rock, doutor Olavo Passo. Bob/Rock/Blues não gosta de receber ajuda para tudo que faz. É contragosto que aceita Dorotéia lhe conduzir da cama à cadeira de banho e desta ao boxe. Sim, antes passa pelo vaso sanitário. ‘É a pior parte’, diz Bob/Rock. Melissa, a fisioterapeuta, chega quase sempre alguns minutos atrasada para o horário previamente combinado. Kuduro parece saber das horas, ou talvez saiba algo sobre a ansiedade do dono que não sabe esperar minutos sequer. Se Melissa chega dentro do horário, Kuduro vai até ela, cheira os sapatos, olha com um olhar lânguido canino e desaparece para dentro do quarto do dono, para as profundezas debaixo da cama, sua segunda casinha. E o cão usa cinco minutos de tolerância. Talvez tenha senso de justiça e certa complacência patronal. Mas se Melissa chega mais de cinco minutos atrasada, Kuduro torna-se indócil, feroz. Late vociferante com as presas à mostra, investe intermitentemente em direção à moça, rosna com ódio no olhar semi-coberto por pelos grisalhos. Não chega a ir a termo, mas intimida.

Naquela fatídica manhã, a fisioterapeuta havia chegado com treze minutos de atraso. Melissa era alérgica a tudo e algo mais. Bob/Rock/Blues temia o ar ou o vento como se temesse à própria morte. Dizia que um vento frio poderia ceifá-lo antes do tempo. Impedia Dorotéia de deixar qualquer porta, janela, ou escotilha aberta em qualquer parte da casa. Kuduro chacoalhava o corpo e lançava seus pelos, ácaros e microorganismos no bafo viciado das respirações da noite da véspera. O sol começava a esquentar fora da casa e abafar ainda mais dentro do pequeno quarto. Os raios fulgidos trespassavam o vidro da janela evidenciando a espetacular coreografia dos filamentos de poeira na órbita do cômodo. Não era possível sequer a moça desculpar-se pelo atraso, Kuduro, naquela manhã, parecia ser capaz de matá-la, tamanha sua fúria. Dorotéia veio e abriu a porta, tocou o cão, ele encolheu-se embaixo da cama. A enfermeira aproveitou para desforrar alguma mágoa antiga e socou-lhe com vassouradas lançadas a esmo para debaixo do estrado. O bicho não emitiu qualquer som, apenas quietou. Dorotéia achou melhor deixar a porta aberta para o caso da fera reanimar. Bob/Rock pediu outra blusa. Foi atendido. Iniciaram a sessão. Melissa não percebeu quando Kuduro esgueirou-se de debaixo da cama para o corredor. A sessão estava pelo meio, quando Melissa começou a sentir um forte cheiro de cigarro. Bob/Rock também se queixou da fumaça e alertou ‘Tem alguém fumando embaixo da cama’. Melissa riu do absurdo, mas Bob/Rock insistiu e não gostou de a moça ter rido ‘Eu já disse, tem alguém fumando embaixo desse inferno dessa cama!’. Melissa abaixou-se como que para tirar qualquer dúvida a fim de quietar o cliente e não contrariá-lo sobremodo. Foi com espanto e terror que viu a bituca de cigarro, provavelmente encontrada na rua, na boca de Kuduro. Ergueu o rosto pálido e com os olhos azuis estatelados gaguejou ‘Seu Bob/Rock, o Kuduro tá com um cigarro aceso na boca’. Bob/Rock/Blues riu com o cinismo de sua dentadura alva e larga, e tranquilizou a moça ‘É. Mas ele não traga.’   

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