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sábado, junho 30, 2012

O CHUPA CANAS

‘Não agüento mais este serviço. Preciso arranjar outro. Você não sabe de outro lugar onde estejam precisando de gente pra trabalhar?’ Ela não era bem o tipo que preenchia os padrões dos perfis ao longo do percurso de um emprego. Vivia recentemente empregada, desempregada, e à procura de trabalho. Era o tipo que sempre tem uma sogra para levar à consulta, um filho para levar ao pronto socorro, uma tia para levar à farmácia para tomar uma injeção qualquer, uma mãe agendando uma cirurgia que nunca acontece, ‘diabo de SUS este onde a fila não anda’, ela dizia. Após o primeiro mês, frequentemente faltava ao trabalho e se justificava pelo momento e comportamento da saúde pública no país, a saúde pública calamitosa de seus familiares, os legítimos e bem conhecidos representantes do povo, da nação brasileira. Mas na verdade ela já não estava bem na floricultura. E nada que é pra ser eterno dura para sempre, e então veio a infelicidade no novo emprego. Eram tantas as flores, eram tantos lírios e rosas, margaridas e cravos, crisântemos e flores do papai, eram tantos os espinhos, os fregueses, gente com e sem educação, gente com e sem paciência, troco certo e troco errado, um pano pra toda hora esfregar o chão, patroa, patrão, patrão... Ele tinha os cabelos mais brancos do que grisalhos, a barriga de quem só assisti ao jornal e dorme logo após a novela, as calças, as meias, os sapatos, o cheiro e as camisas sociais do longínquo século passado. Usava óculos de lentes grossas e armação larga, loção pós-barba, só falava das notícias do noticiário e das noticias da cidade, do jogo da véspera e do próximo. Ninguém imaginaria que ele, aquele homem austero, um avô consolidado, um exemplar pai de família, um cidadão modelo e respeitado na comunidade fosse, na verdade na verdade, um devasso. Ela já não agüentava mais as investidas do velho tarado. E não era apenas o fato de ele ser muito encarado, ele encarava, coçava as coisas, o negócio, ela dizia e explicava, ele coçava o negócio dele e depois chupava cana. Ela explicava como ele fazia.  Ele dava uma longa sugada de saliva entre os dentes incisivos da arcada inferior emitindo um som do tipo produzido quando alguém chupa uma cana que já está sem caldo, uma cana no bagaço, ela explicava de modo muito didático e com outras palavras, ela até o imitava emitindo o som de uma chupada de cana com finalidade de assediar moralmente. Era amplo e variado o repertório do velho devasso. Enquanto as funcionárias cortavam das rosas o talo, o cafajeste passava encarando as nádegas das três funcionárias e coçando o negócio, e chupando cana. E a patroa, a esposa, era uma coitada, uma santa. Vivia com dores na coluna, no ombro, no joelho, no joanete, na cabeça, na unha, no pescoço, nos rins, no estômago...  Ele implicava com as dores da pobre na frente das funcionárias e até dos clientes. A empregada da casa, quando ia à floricultura levar ou buscar algo, comentava com as funcionárias que ouvia as discussões do casal. Ele exigia da mulher o que a pobre já não queria lhe dar justificando-se pelas dores e idade, então ele ficava furioso e dizia que precisava, dizia que tomava o azulzinho e que após o azulzinho precisava, sabe? E tudo piorou nos últimos dias onde, pela manhã, ao chegarem à floricultura, ele deu de querer apertar a mão e abraçá-las. ‘Um “Deus nos acuda!”’. E o resto do dia seguia entre secadas e chupadas de cana na cara dura. Ela contou ao marido, o marido achou que era o caso de quebrar a cara do velho, mas ela disse que precisava do trabalho, o marido ponderou que o orçamento estava mesmo apertado, ou pior, deficitário, ele estava desempregado havia meses. E ela queria muito arranjar outro trabalho, mas nada que arranjava. E o patrão continuava tomando o azulzinho e encarando, e coçando o negócio, e chupando cana, e vendendo flores aos apaixonados.

sexta-feira, junho 15, 2012

AGORA OLGA FEZ IOGA

E estando o objeto quase todo regurgitado pra fora da bolsa, exibia detalhes que Mestre Raimundo examinava com imensa atenção e surpresa a cada vez que passava, à passo lento, introspectivo. Seus velhos e bons olhos não alimentavam qualquer dúvida quanto à natureza do objeto exposto. Viu que era uma pequena e delicada peça, não nova, pois não tinha o brilho das novidades. Mas viu também que não era velha, pois não estava desbotada, nem opaca. Verde garrafa saindo de dentro da bolsa que Olga depositara ali sobre o banco, descuidada, juntamente com sua velha blusa de lã cinza. A cada volta, a certeza de Mestre Raimundo gritava e mais revelava a natureza do objeto adereçado ornado de cetim na mesma cor, porém em uma tonalidade mais forte. O objeto misterioso era uma obra fina, rara, uma coisa apropriada somente em ocasiões muito especiais. Mestre Raimundo estava maduro e experiente o suficiente para que o mundo não lhe aterrorizasse com pequenas surpresas. Bem verdade, que nem surpreso fica quem já viu de tudo e sabe que no mundo ou os mundos estão bem guardados no interior de cada portador.

O velho iogue, diante da visão enigmática, evocou em sua memória lembranças de outras dúvidas e mistérios perenes ao longo de sua vida. Já aceitava resignadamente a verdade de que nem tudo vem à luz do dia. Aceitou que era inútil discutir a natureza e razão daquele objeto estar ali tanto quanto seria inútil, ele, um amante da literatura, discutir se Capitu traiu ou não Bentinho. Pois da medida de realidade que o autor, Machado, se serviu para compor a célebre narrativa, ela serviu apenas para alimentar a dúvida que certamente ele mesmo, o autor, trazia no espírito até sua última inspiração literária e última expiração de vida. O delicado e potencialmente revelador objeto de Olga não dizia por que estava ali, não dizia o motivo, a razão de andar com ela à luz do dia, de ir ao trabalho e, consequentemente, à ioga. Aquilo era da categoria de coisas que habitam o imenso baú dos insondáveis mistérios da vida. Coisas que não se explicam, pois quem de fato poderia esclarecer não fora inquirido, nem jamais será. Mestre Raimundo aceitou passivamente o imutável mistério da calcinha verde garrafa de Olga que fez ioga.

sábado, junho 09, 2012

OLGA FAZ IOGA

Ela vinha, sei de onde, ninguém ousaria duvidar, era pessoa insuspeita, séria, imaculada, ela vinha do trabalho, é claro. Do trabalho e de nenhum outro lugar. Era horário de serviço terminado. Era o tempo exato de ela chegar ao Galpão Tântrico TL101 caminhando à pé pela calçada. Vinha com a roupa uniforme de trabalho. Vinha esbaforida, apressada, atrasada, obsequiosa, resfriada, muito, mas muito resfriada mesmo. Olhos quase cerrados e lacrimosos, voz fanhosa, coriza contínua, postura cansada, desalinhada. A sessão de ioga já havia começado há dez minutos. Os colegas se aqueciam, se alongavam, respiravam com especial atenção ao diafragma, assumiam posturas incomuns ao cotidiano. Os colegas, os outros alunos, já iam mergulhados em seus interiores, já desciam em busca de seus âmagos trajando malhas de mergulhadores de âmagos. Naquele dia, a solidão que sempre a acompanhava e sempre era visível no tom de sua voz, em suas histórias, em seu semblante, em seu sorriso contido, quase triste, naquele dia a solidão parecia mais sórdida que sempre. Ela comentou que estava muito mal. Que um resfriado praticamente a inutilizara para o trabalho, mas que se levantou por opinião, fez seu próprio chá, escolheu um potente comprimido em seu arsenal farmacológico doméstico e tomou, e somente por necessidade chegou ao Galpão Tântrico TL101, seu lugar de equilíbrio e recomposição. Outros alunos, os menos concentrados, a praga dos alunos menos concentrados, os que se dispersam por tudo e por nada, arregalaram os olhos temendo contrair o maldito resfriado. Gente egoísta que ela conhecia muito bem o tipo. Gente que, antes de tudo, pensa totalmente em seu próprio bem estar. Gente sem sensibilidade para admirar a atitude heróica de Olga. A recriminavam com olhos e traços espantados e temerosos nas faces de máscaras sem solidariedade, temiam contrair o maldito resfriado. Maldito. Mas veja bem, quem está em equilíbrio não contrai resfriado algum. É, antes de tudo e na verdade, uma verdadeira muralha de imunidade. Mas essa gente sabe que não está lá com esse equilíbrio todo. Intui que não tem saldo nem de equilíbrio e muito menos de imunidade. Olga deixou aquela gente pra lá. Afinal, não era por eles que ali estava. Estava ali pra resgatar seu equilíbrio. Pra ter um raro prazer no dia. Pra receber as instruções divinais de Mestre Raimundo, o iogue mais velho do mundo. Ao menos é o que todos diziam. Talvez tivesse 92 anos e fosse mesmo de 1920, ou talvez fosse de 1930 e tivesse apenas 82 anos, quem sabe? Ele consentiu que Olga se juntasse ao grupo. Fez do modo calmo e cordial de sempre e sem pronunciar uma única palavra. Todos entendiam perfeitamente seus gestos. Era incomum ele precisar emitir algum som além o da respiração profunda, controlada, diafragmática. Com outro gesto deu a entender se ela não iria trocar a roupa uniforme de trabalho pela malha de mergulhar em âmago. Outra vez, Olga se desculpou. Depositou a bolsa e a blusa que trazia consigo sobre o banco destinado aos pertences dos alunos em um canto da grande sala retangular iluminada do altíssimo teto mais pelas luzes das clarabóias que pelas lâmpadas de mercúrio pendulares pendentes por correntes. Mestre Raimundo a desculpou com um gesto de reservada aprovação e leve cumplicidade. Olga se juntou ao grupo e mergulhou. Mestre Raimundo percorria os corredores humanos por entre seus pupilos. Tocava, posicionava, respirava, demonstrava com gestos manuais curtos, discretos, codificados em uma linguagem própria e, paradoxalmente, universal. Ia andando, observando, orientando, observando, pensando, observando. Ao passar pelo banco dos pertences, não pode deixar de notar que um delicado objeto pendia de dentro da bolsa de Olga. E estando o objeto quase todo regurgitado pra fora da bolsa, exibia detalhes que Mestre Raimundo examinava com imensa atenção e surpresa a cada vez que passava à passo lento.

Obs. Durante uma visita, fiquei muitíssimo encantado com a imagem de um palhaço pendurada na parede de um cômodo mais profundo da casa, sem destaque. Pedi permissão para ver e fotografar. Olhando mais de perto, pude notar tratar-se de um trabalho do artista Marozo, de quem ouço falar e vejo obras em diversos locais de Ituverava. Tive o forte desejo de publicar a imagem e agora o faço. Caso isso não me seja permitido por algum motivo, quem for de direito queira me comunicar e removerei prontamente a imagem deste blog. Por agora, espero que todos aproveitem o deleite. Ah, e este texto continua e termina no próximo final de semana.

domingo, junho 03, 2012

GENÉRICO GENTIL

A mulher esganiçava sua voz tentando superar o grave timbre da voz do companheiro. Ele cobria a voz dela como um trovão que estronda no céu sobre as cabeças atordoadas dos frágeis mortais que não possuem abrigo às tempestades. Afirmava com enérgica autoridade e convicção de pedra que ela havia dormido sim, que ela havia dormido era muito, e que ele a havia visto dormir, roncar a noite inteirinha. E dizia ainda que não havia essa coisa de insônia nenhuma, que a insônia dela era falsa, uma farsa, preguiça, uma coisa do capeta. Por fim, a vizinha silenciou de vez. O homem, insatisfeito, continuou dizendo em sua fala cantada e cheia de sotaque que aquilo não tinha futuro nenhum, e que depois não adiantaria os apelos da mulher. Disse que ela iria lamentar muito, pois ele iria embora. Dizia que iria cuidar da vida dele, que aquilo não tinha futuro, que a mulher era uma dorminhoca. Nos minutos seguintes, tudo pesou em silêncio.

Genérico seguia com a sessão. Terapeuta e cliente tinham suas atenções avidamente debruçadas no muro dos supostos paranaenses. Seguindo à pausa silenciosa, veio um cheiro de café que saltou o muro escuro de grandes tijolos pó de mico cobertos por limo e invadiu o interior do quarto de Zé Ari. E a sessão de Genérico conheceu o seu final. Genérico despediu-se do cliente agitado e de olhos arregalados, e partiu sem comentar coisa ou fato. Deixou tudo no ar misturado ao cheiro de café forte. Dona Arlinda conduziu o terapeuta até o portão. Genérico se despediu e entrou no carro prometendo retornar na semana seguinte.

No entanto, antes mesmo que se afastasse muito em direção ao centro, viu uma ambulância reduzir e ir parando diante à casa de seu cliente. Genérico reduziu a velocidade do carro. Ia parar e retornar. Apenas parou. O que foi suficiente para ver, pelo retrovisor, que era na casa dos supostos paranaenses que desciam os homens de branco e, no instante seguinte, saíam com um grande homem na maca. Genérico, somente na semana posterior, soube por Dona Arlinda que o vizinho, que sabia agora ser de Angulo, havia enfartado naquela manhã do atendimento da sessão anterior, uma tragédia! A viúva, segundo Dona Arlinda, estaria desconsolada. A pobrezinha, que era de Barra do Jacaré ou Sertaneja, não se sabia ao certo, não tinha ninguém ali na cidade. Acompanhou o marido que veio por ter encontrado trabalho como serralheiro.

Seu Zé Ari aguardava com os grandes olhos giratórios a chegada de Genérico à beira de seu leito. Genérico o cumprimentou e foi cumprimentado como sempre. A sessão transcorria naturalmente. Contudo, um pouco antes do termino do trabalho, o cheiro de café fresco mais uma vez saltou o muro e invadiu o quarto do cliente. Seu Zé Ari e Genérico se entreolharam nos olhos e, em seguida, olharam para a janela de aço. Ambos pararam para ouvir a bela canção de Marisa Monte (Gentileza) na doce voz da vizinha viúva recente do finado vizinho já não mais supostamente paranaense.

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