Amigos

domingo, março 25, 2012

RIDE THE LIGHTNING

A vida dele nunca foi fácil. Gostava de rock. Era o estilo que transformava a opressão que sofria em energia pra reagir, saltar, dar cabeçadas e socos no ar. E essa era toda sua rebeldia. Sem álcool, sem drogas, sem dinheiro, sem convites para festas e lugares.

O rock lhe salvava de qualquer violência sofrida ou melancolia oportunista. Em sua mente compunha contos fabulosos onde sob a violência dos acordes tornava-se um herói de si mesmo, seu próprio defensor. Não entendia piorra nenhuma do inglês gritado pelos americanos. Fora algum refrão, tudo era um emaranhado ininteligível, uma gritaria enfurecida, uma extravagância charmosa e sedutora. Gostar de rock, para ele, e para alguns, era ser ferrado na vida com estilo.

Um dia foi espancado violentamente. Levou tantos socos na cabeça que por fim já não os sentia. Não havia a quem apelar. E quem poderia lhe ajudar se acovardava. Após a surra, após a saraivada de golpes sobre sua caixa craniana, a entidade monstruosa fartara-se em desferir pancadas, tinha as mãos inchadas pelo impacto, precisava descansar. Foi então que ele teve um momento de trégua. Com um curto circuito labiríntico, com a cabeça dando pau, arrastou-se pelo corredor inteiro até o quarto. Fechou a porta, trancou-se. Estava a salvo. Aquela porta não cairia naquele dia. Ao menos ele assim cria. Ergueu o som sem se importar com a mão determinada (mesmo inchada) que agora veio deitar murros na porta de seu quarto. Que esmurrasse a porta. Nada mais importava. Quando a dignidade fica em um canto do corredor, é hora de juntar os cacos. Já estava em posse do antídoto para aquele veneno todo, era só aumentar o volume. E no mais, antes murros na porta do que em sua cabeça.

Who made you God to say
"I'll take your life from you!!" (Metallica)

domingo, março 18, 2012

O LEILÃO

Passava do meio dia e incidia um resplandecente sol de domingo quando ela foi despertada por um homem magro, de estatura média, cabelos castanhos escuros e bem cortados que puxou lentamente o lençol que lhe servira por cobertura durante a madrugada fresca e chuvosa. E ao recolher o tecido, era possível inalar o forte ar de fera amanhecida. A moça que dormia até após o meio dia exalava aromas adocicados, salgados, ácidos. Tudo misturado ao cansaço do corpo e da pequena roupa íntima que trajava. Não era fácil precisar naquela hora e circunstância quantos anos ela teria. Com o rosto ainda maquiado e de ressaca, aparentava cerca de vinte e dois ou vinte e três anos. Mas ao imaginá-la sem a maquiagem, ‘de cara lavada’, como dizia Tartá, um dos sócios da Chácara da Fantasia (nome informal do estabelecimento), não seria uma surpresa se ela ainda não tivesse alcançado a maioridade.

‘Bom dia!’, disse o homem. Repetiu a saudação outras duas vezes antes de caminhar até a janela e abrir uma das partes. A moça ergueu a mão a fim de proteger os olhos dos raios fúlgidos que inundaram o pequeno e abafado vestíbulo e, ao mesmo tempo, por entre os dedos anular e médio da mão esquerda, tentava identificar quem lhe castigava com toda aquela luz. ‘Vamos embora, prenda minha. Tenho negócios a tratar e já é tarde. Venha que agora eu quero levar o meu prêmio, minha sorte grande!’

Certamente aquele seria um dos homens que na noite anterior ocupavam as cadeiras em redor da mesa de carteado. Certo que fosse. E no mais, jamais ela identificaria a face de qualquer um deles. Nem mesmo saberia dizer qual era o número de jogadores que habitava a brumosa mesa situada dentro do camarote suspenso ao pé da pista de dança, no lado oposto ao do palco onde ela e colegas de ofício rebolavam para divertir os freqüentadores da casa.

‘Quem é você?’ Ela quis saber. ‘Sou o cara que te ganhou no jogo. Ganhei do figurão que te arrematou no leilão. Agora sou seu dono’ Disse ele. E ela recebeu a informação esfregando o rosto e bocejando ao mesmo tempo. ‘Vamos, não posso me atrasar. Vista uma roupa e vamos embora que a viagem é longa’ ‘Mas pra onde vamos e quem é você?’ Ela insistiu. Ele fechou o cenho, atirou pra ela uma blusa que encontrou ali no chão e fez um gesto que apontava para a estreita porta do acanhado banheiro. ‘Não importa quem eu seja. Importa que você agora é minha. Ganhei e sou seu dono, Gypsi. Seu nome é a Gypsi, não é?’ Ela concordou de modo derrotado, quase inaudível. Tomou na mão a camiseta e enrolou-se no lençol que ficara embolado aos seus pés. Cambaleante, caminhou até o banheiro. Com dificuldade, fechou a porta atrás de si. Sentada no vaso, com o lençol ainda sobre o dorso, começou a recordar-se da noite anterior.

Lembrou da figura tresloucada de Tartá subindo ao palco com o microfone, girando e anunciando uma coreografia. Gypsi e outras duas garotas dançariam em disputa para definir quem era a melhor dançarina, explicou o desvairado apresentador. Tartá era um sujeito gordo, dono de uma imensa papada sob o suposto queixo, tinha os cabelos crespos, compridos e falava com a língua solta; esta língua sanduíche que todos insistem em dizer tratar-se de língua presa. Usava roupas coloridas, largas e extravagantes.

Os votos para as dançarinas seriam computados na forma de bebidas deixadas pagas para elas no bar do estabelecimento. Tartá fazia questão de dizer que elas consumiriam sim todos os votos e para que os freqüentadores não tivessem preguiça para votar em sua preferida. Alguns votos eram servidos às garotas ainda sobre o palco. De tempo em tempo, Tartá subia com as parciais. Naquela noite Gypsi seria a vencedora. Como vencedora, além de embebedar-se, deveria permanecer firme para a dança final. E foi em meio à confusão do momento e o tropel das intenções ali expostas que Gypsi fora anunciada por Tartá como ‘A vencedora e prenda na Dança do Leilão!’

E só agora tudo fazia sentido. O vencedor estava de pé ali fora aguardando para levar a mercadoria para desfrutar em algum lugar distante. Ela se lembrou de sua família em Cuiabá, de sua vida de estudante, de sua casa, cachorros. Deixou o lençol sobre o boxe. Chorou um pouco diante do espelho. Lavou o rosto na pequena pia branca. Escovou os dentes com o dedo indicador. Vestiu a camiseta e saiu para encontrar mais um pouco de seu destino, sua realidade.

Lá fora o homem permanecia de pé aguardando sem indícios de impaciência. Parecia até mesmo que esperaria por mais tempo sem queixar-se. Dava essa impressão. ‘Prenda minha, pegue suas coisas e vamos’. Ela juntou todos os seus pertences em uma pequena mochila escolar. Vestiu uma calça jeans desbotada e calçou um par de tênis branco. E era tudo que ela possuía ali na Chácara da Fantasia. Ao deixar o quarto, acompanhada de seu ganhador, fora surpreendida pela grande quantidade de homens vestidos de preto e coletes que faziam companhia a Tartá e Mendonça, seu sócio. Fora da casa ainda encontraria algumas meninas e dois ou três clientes em posse dos policiais. Os proprietários da casa estavam com caras chorosas e mãos para trás, algemados. E foi só então que o homem que lhe acordara revelou sua verdade: ‘A casa caiu! Bora pra delegacia que temos muita coisa pra esclarecer por lá pro delegado. Bora!’

domingo, março 11, 2012

O INFERNO SEGUNDO CONSTA

Agora e sempre, toda essa gente na hora e no lugar do costume pra dizer e fazer saber as mesmas coisas do costume. Elas andam, param, pensam, dirigem e tudo transcorre num ir e vir costumeiro e, de certa forma, improvisado.

E eu, não sendo isento ou diferente ou indiferente ao costume, aqui estou. Preso dentro desta caixa de vidros, plásticos e metais que é meu pequeno veículo. Uma nave rastejante sobre o asfalto. Uma lesma que ao rastejar, ao invés de visco, deixa uma quase sempre imperceptível marca de borracha impressa na superfície do solo por onde passa.

E em horário de trabalho eu trabalho. Sou um trabalhador honesto e honrado. Todavia confesso que em meu tempo de descanso eu cometo o ato vil de escrever e contar coisas que deveriam muitas vezes perecer no imaginário. Computador? Somente depois das dezoito ou dezenove horas. Neste teclado não ponho os dedos antes que todas as minhas tarefas sejam vencidas. Mas hoje fujo à regra e cometo uma exceção. Não se trata simplesmente de um rascunho imagético, uma experiência quase sobrenatural, mas sim de um fenômeno da natureza do universo que suplanta e engole a limitada natureza humana. É uma situação extrema.

Você que me lê, o caos bate à sua porta e rompe através dos portais. Venho no meio da tarde trazer a epístola que anuncia o fim do mundo que já começou sei lá quando e só agora eu fiz perceber. O apocalipse previsto por João. Não soaram trombetas inaugurais para cada qual tentar com suas unhas e dentes uma oração redentora de todos os pecados condenatórios. Aqui estamos compartilhando de minha perplexidade óbvia e ululante.

E era pra ser apenas mais uma tarde quente de trabalho como muitas que aqui incendeiam enquanto vamos ocupados de mais com nossos afazeres. E bem no meio da tarde, num horário que as imagens a céu aberto adquirem uma coloração amarelada como se víssemos tudo através de um negativo de foto, um efeito sépia, eu vi o Nefasto. O calor atingiu níveis tão insuportáveis a nós humanos que outras criaturas se sentiram libertas para circular à luz do dia e por entre nós tratar de seus interesses hediondos, odientos e odiosos. E nós, que trabalhamos sob a opressão dos poderosos grilhões do calor a envolver nossos punhos e tornozelos, sabemos que este tipo de acontecimento amiúde é o prenúncio do fim dos tempos, o sinal, o prefácio apocalíptico.

Indo daqui ali, e ‘daqui ali’ você que escreve sabe que nunca vem ao caso, eu fiz uma parada diante do semáforo aceso em vermelho como brasa. Levemente sufocado, sem ligar o ar condicionado do carro da empresa, pois sou alérgico (e eu não estaria pictoricamente detalhando tais coisas se não fosse por querer, de certa forma, ajudar os que me lêem a enxergarem com clareza a gravidade do fato). E foi nestas circunstâncias que, ao acender o sinal verde, sem se importar com os carros engrenados e já acelerando em progressão, Ele saltou diante de todos e atravessou à passo largo. Um forte cheiro nauseabundo de fumo e enxofre se desprendia de sua capa e roupas pretas invadindo o interior dos carros e dos estabelecimentos comerciais imediatos. As faces se contorciam ao inalar o odor ácido. A imagem encheu-me de assombro e terror. O Diabo atravessou a frente de meu carro e eu quase o atropelei. Deu um soco no capô, encarou-me, pude ver seus olhos vermelhos e a origem de seus córneos frontais. Seguiu rumo á margem oposta. Entrou por uma loja onde à porta se via uma vendedora muito bem equipada ociosa, mascando chicletes e escorada no batente. Deu-lhe um selinho e entrou. A moça entrou logo atrás. Eu segui com o carro e não vi mais nada. Paro na primeira porta de lan house e anuncio o fim que está próximo. Esta tarde fez o tal calor dos Diabos.

Obs. O meu nome é Constantino Bonaparte e sou um pseudônimo do autor do blog, mas podem me chamar de Consta.

domingo, março 04, 2012

NAVEGANTES [07.01.2012] [07:16]

[07:16] Faz uma belíssima manhã ensolarada. Acordo cedo, por volta das sete. Fico um tempo deitado tentando realinhar minhas articulações, ossos e músculos. A casa se move lentamente, delicadamente, cuidadosamente, aos sussurros. O cheiro de café perfuma a copa e a cozinha. Mais suavemente, invade também os outros cômodos. Esqueci os chinelos em casa, – eu sabia que estava esquecendo mais algo - arranjo outro par. Vou até a sala onde ligo a televisão e o videogame da Sega que há na casa. ELA delega tarefas a todos. Jogo minha terceira partida de COLUMNS e vou ver qual é a minha incumbência.

A família que está na casa, e partirá logo mais, ainda não despertou. Pouco depois, ouço gritos de agonia no quarto do final do corredor. Ficamos todos sobressaltados com o som, surpresos. Não sabemos o que está acontecendo. Esperamos o que há de vir na seqüência. Eis que a porta se abre. Sabemos que um casal e um filho estão no apartamento. Fomos avisados pela dona da locadora. Sabemos também que, ao chegarmos, eles partirão nos deixando no exato dia que será o nosso primeiro dia de praia.

Uma mulher pequena, magra e de traços rudes, aparentando mais de sessenta anos, envolta em um roupão preto de cetim com detalhes florais púrpura, rompe pela porta e nos cumprimenta estendendo a mão, sorrindo timidamente, desejando bom dia a todos, um a um, se dizendo Maria, e se desculpando pelo incidente dos gritos do marido. “O Zé já acorda gritando”, ela diz toda desconcertada. E se apresenta um pouco mais. E pergunta se fizemos boa viagem, se dormimos bem. E pede licença para usar a cozinha para preparar a dieta do marido. Então tomamos conhecimento de que o Zé é enfermo e se alimenta via sonda nasoenteral: “Uma mangueirinha que vai do nariz ao duodeno”, ela explica. Zé é magro e possui grandes olhos pretos arregalados. Grita. Não conversa. Parece irritado e assustado.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails