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terça-feira, maio 24, 2011

O ALMOÇO COM O QUAL ARMELAU JAMAIS SONHOU

Dona Afonsa repousava à mesa uma grande travessa de quiabo cozido com músculo de vaca, quando teve um furioso acesso de tosse. E se não fosse por ter virado o rosto ao lado oposto, o cozido teria sido retemperado com fluidos naturais.

“Coff Coff Coff”: Tossia Dona Afonsa e sugava a coriza numa súbita e ruidosa inspiração.


Dona Afonsa havia preparado também arroz carreteiro, feijão tropeiro e, segundo ela, sua especialidade; um guisado que seria segredo e tradição de família o seu conteúdo, bem como a fórmula utilizada para atingir àquela consistência especialmente viscosa.


Armelau sentia apetite algum. Contudo, fora rigorosamente educado para não desfeitear a ninguém, principalmente em casa onde fosse o convidado – e quem é que nessa vida nunca se sentiu amarrado pó limitado pela educação ou convenções herdadas?


Teria provado somente um pouco do arroz, beliscado a salada e poderia render elogios convincentes aos dotes culinários da sogra de seu colega de trabalho. Mas não... Nada disso fora possibilitado. Dona Afonsa não esperava que o homem terminasse heroicamente uma concha do tal quiabo musculoso e já vinha logo com outra. E Almir, por sua vez, completava o prato do amigo com outra concha transbordante do tal guisado misterioso.


“Coff Coff Coff”: Tossia Dona Afonsa e enxugava a coriza com o dorso da mão que empunhava o garfo.


Resignado, Armelau agradecia com um aceno de cabeça. Timidamente, assinalava com a mão espalmada indicando que já bastava. Olhava para o prato refeito. Olhava e forma furtiva, discretamente para o amigo Almir, que parecia conter um sorriso algo jocoso, e comia mais um pouco.


Lílian brigava com os gêmeos, repreendia-os, beliscava-os. Comia apenas salada e não se referia a Armelau diretamente. Quando queria saber algo, se referia ao marido e usava a terceira pessoa para tratar Armelau: _Ele está gostando da comida, Almir? E Armelau, de boca cheia, via o amigo responder por ele: _Claro que está. Não está, Armelau? Não é boa a comida de Dona Afonsa? E terminava liberando o até então contido sorriso.


Terminada a refeição, o que para Armelau pareceu durar uma eternidade, Dona Afonsa foi até a geladeira e retirou uma tigela repleta de doce de abóbora com coco queimado em pedaços. Com o doce ao centro da mesa, cada qual tomou uma colher e se servia diretamente na tigela. Almir fez questão de servir o amigo, duas vezes. Após a primeira colherada, Armelau não pode deixar de notar que Dona Afonsa gostava muito de doce e comia gulosamente, sem trocar de colher, sem lavar, sem sequer enxaguar o talher...


Após a sobremesa, Lílian ofereceu um cafezinho a todos. Levantou-se e foi preparar a bebida. Armelau sentiu uma espécie de alívio ao perceber que não seria a sogra do colega a preparar o café. Até concordou que um café seria ótimo. Lílian terminou o café. Dona Afonsa se levantou, serviu uma xícara, provou um pequeno gole e criticou o café da filha: _Este café está amargo feito fel. Café amargo é uma bosta! Colocou duas colheres das de chá de açúcar, volveu três vezes a colher, provou novamente e estendeu o restante ao estupefato Armelau: _Agora sim este café está bom, tome Amadeu. Disse Dona Afonsa.


“Coff Coff Coff”: Tossia Dona Afonsa.


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segunda-feira, maio 16, 2011

ARMELAU FICA PARA O ALMOÇO

Dona Afonsa surgiu no alpendre aos brados convidando o genro e Armelau para o almoço: _Almir, venha almoçar, e traga esse seu amigo! Andem logo que a comida está esfriando. Comida fria é uma bosta! E do mesmo jeito que a mulher surgiu desapareceu casa adentro.

Armelau esboçou uma discreta menção de recusa ao convite. E teria recusado, caso Almir não o tivesse envolvido pelo pescoço e exclamado em tom benevolente que era ele seu convidado de honra.

Armelau já estava ali sem sequer antes ter avisado - bem que ligou para o celular do amigo, mas sabia que era costume dele deixá-lo mais desligado que ligado; todas as suas tentativas tiveram como destino a caixa de mensagens. Decidiu tentar a sorte. E assim foi mesmo sem avisar. Mas agora, almoçar seria algo um tanto confiado demais.
Muito constrangido, Armelau atravessou a sala e um longo corredor até chegar à cozinha debaixo do braço de Almir.

Armelau perguntou onde poderia lavar suas mãos. Almir mostrou o corredor pelo qual o trouxe e disse para que o amigo retornasse e adentrasse à primeira porta à esquerda. Armelau retornou, adentrou, encostou a porta, e dirigiu-se ao lavabo. Em uma espécie de concha marinha de metal repousava um sabonete amarelo gema de ovo. Chamou-lhe a atenção um cabelo grosso, crespo e de coloração ruiva que estava sobre a superfície do sabonete. Armelau curvou-se para observar o cabelo mais de perto. Foi quando notou na outra extremidade da barra uma espécie de pequeno anel vegetal de cor verde. Parecia um aro de corte de cebolinha achatado, porém a cor era verde musgo e não clara conforme são as verduras frescas. Armelau olhou para o espelho acima do lavabo e viu uma face enojada e um par de olhos arregalados.
Olhou em redor e notou que ao lado do vaso havia uma grande pilha de revistas de celebridades e um cesto transbordante de papéis usados. Abriu a torneira e apenas molhou as mãos; - havia decidido não usar o sabonete - molhou-as e enxugou-as na toalha de rosto branca felpuda que estava em um suporte prata de argola ao lado do espelho. Sentiu que a toalha, além de recolher a água que lhe umedecia as mãos, lhe transferiu um pequeno fragmento pegajoso e gosmento. Era marrom esverdeado o fragmento. Devolveu lentamente a toalha ao suporte. Com as pontas dos dedos, explorou-a diante de seus olhos cada vez mais arregalados. Notou que aquela coisinha de cor caramelo não era a única coisa gosmenta na felpuda toalha. Havia mais de três pequenas áreas onde os fiapos da toalha estavam conjugados por uma espécie de glacê em parte vítreo, em parte amarelo.

Armelau, aflito, molhou novamente as mãos em água abundante e, em seguida, esfregou-as em sua calça jeans preta desbotada. Tenso, via no espelho seus grandes olhos quase saltarem das órbitas. Respirou fundo, contou até seis, e deixou o banheiro indo de volta à cozinha. Lá chegando, deparou-se com o amigo que, sentado à mesa, vendo a calça úmida de Armelau, perguntou à esposa se por acaso não havia toalha no banheiro. Lílian disse em tom ríspido que era claro que havia.

Dona Afonsa repousava uma grande travessa de quiabo cozido com músculo de vaca quando teve um acesso furioso de tosse.

Obs. Será que Armelau gostará da comida? Será que a comida ainda estará quente? Não perca a continuação desta onírica saga de Armelau.
ObsII. A foto que ilustra a postagem fora realizada, com permissão da secretária, dentro da Galeria Municipal de Arte de Itajaí S.C, em Janeiro deste ano. O quadro fotografado é de autoria do artista Venâncio Domingos Neto. E a canção que eu recomendo para acompanhar o todo é Bachianas, da obra de Heitor Villa Lobos.


No Twitter: @Jefhcardoso74

sexta-feira, maio 06, 2011

O PESADELO DE ARMELAU, AMIGO DE ALMIR

Armelau perdeu de vista sua paz. Dormia mal atormentado por terríveis pesadelos relacionados ao seu emprego. E havia um sonho que era repetitivo. Nele, Armelau surgia de cueca branca correndo pelos corredores da empresa enquanto era perseguido por uma jovem chinesa empunhando e brandindo uma tocha acesa.

Armelau sentia precisar saber quais eram os comentários feitos na empresa sobre sua pessoa... Passava horas conjecturando falas de colegas, ares de reprovações dos seus superiores, chacotas internas praticadas pelo pessoal do cafezinho...

Sábado pela manhã, não agüentando mais aquela curiosidade, decidiu ir até a casa de Almir para saber a quantas andava os comentários sobre ele. Tomou o ônibus na esquina de sua casa, trinta e cinco minutos depois descia a uma quadra da casa do amigo, onde havia ido apenas uma vez deixar o colega quando ainda possuía uma moto.

Uma senhora muito obesa e de meia idade foi quem lhe atendeu à porta. Perguntou quem era e o que desejava e, após ouvir Armelau dizer que era colega de Almir na empresa, pediu para que esperasse um pouco, pois chamaria Almir para atendê-lo - provavelmente, aquela seria dona Afonsa, sogra de Almir, pessoa de quem Almir sempre falava no emprego, muito mal por sinal. Almir dizia que a sogra era uma mulher desprovida de higiene de modo geral e pouco disposta para o trabalho, mas sempre muito animada para os eventos sociais da igreja.

Minutos depois, eis que chega Almir bocejando e com a cara amassada pedindo para que o colega saísse do sol e entrasse no alpendre. Armelau estendeu a mão para cumprimentá-lo, mas Almir já se dirigia à cadeira de descanso e com um gesto displicente de indicação mostrava o acento da outra cadeira que Armelau deveria ocupar.

_E então, melhorou, Armelau? Perguntou o amigo.
_É, estou melhorando. Essas coisas nunca são rápidas, né? Para ficarmos doentes basta um minuto, mas para sararmos é que são elas... Haja tempo!
_É...
Pairou um incomodo silêncio no ar, então Armelau reagiu:
_Almir, desculpe se atrapalhei o seu sono. Pensei que sendo agora mais de dez horas fosse lhe encontrar acordado; inda mais com este sol que está de rachar mamona no asfalto.
_Pois é, aos sábados eu aproveito para dormir até um pouco mais tarde; já chega a semana inteira que acordo cedo para ir ao trabalho e o domingo para ir à igreja.
_Nossa, Almir! Se quiser posso voltar outra hora!
_Não, que isso? Fique à vontade. Depois que eu acordo eu custo pegar no sono, e daqui a pouco a Lilian chegará com as crianças e nós estaremos é almoçando.

Armelau estava muito determinado em saber qual era a situação de sua pessoa física enquanto ausente da empresa. Fez todas as perguntas possíveis sobre o andamento do seu setor até alcançar a oportunidade de especular sobre as qualidades e defeitos de seu suplente. Ficou muito contrariado ao saber das qualificações notáveis do jovem que o substituía, e muito aborrecido por não ouvir nenhum defeito apontado pelo amigo Almir. Pensou que Almir, por alguma razão desconhecida, estivesse omitindo os defeitos do jovem. “Afinal, todos possuem qualidade e defeitos!”: Ponderou.

Aproximadamente após uma hora e meia de conversa e bocejos com Almir, Armelau viu uma jovem morena adentrar o alpendre com dois pequenos alegres e lépidos corredores.

_Armelau, está é Lilian, minha esposa, e aqueles dois capetas que pularam os seus pés são Frederico e Ferdinando, meus enteados gêmeos.

Armelau, muito cortês, levantou-se para cumprimentar Lilian, e fez elogios aos meninos dizendo que eram muito saudáveis e alegres. Lilian sorriu ao elogio e, em seguida, voltou-se para o marido como se Armelau não estivesse presente, e perguntou se Armelau era aquele de quem ele havia falado. Almir consentiu com uma flexão do pescoço afirmativa. Lilian disse: _Ah!

Obs. Olha, esse capitulo continua mesmo! Está até pronta a sequência. Só vou adiantar que haverá gritos, choro e ranger de dentes. Aguarde “O Almoço Insólito”.

ObsII. A foto que ilustra a postagem fora realizada, com permissão da secretária, dentro da Galeria Municipal de Arte de Itajaí S.C, em Janeiro deste ano. O quadro fotografado é de autoria do artista Venâncio Domingos Neto. E a canção que eu recomendo para acompanhar o todo é Fantasia, da obra de Heitor Villa Lobos.


No Twitter @Jefhcardoso74

domingo, maio 01, 2011

PUNHOS DO MEDO – O TOQUE DA MORTE

A locadora onde alugo filmes, vez ou outra, faz uma promoção estranha. Eles lhe oferecem um filme do acervo mais antigo a cada vez que você loca três filmes do acervo mais atual. Até aí, nada de incomum. O fato estranho é que, mesmo no dia em que você não loca nenhum filme, não encontra nenhum título interessante disponível, eles te oferecem um filme antigo, de graça. É sério!
_Pegue um filme lá! Disse o rapaz. Achei estranho, argumentei: _Mas eu não vou locar nenhum filme! _Não importa, pode pegar. Essa semana todos os filmes de artes marciais são de graça. Completou o rapaz.
Bem, eu sou brasileiro. Estava me oferecendo um filme em meio a tantos títulos de graça. Já viu brasileiro dispensar algo, de graça?

Muitos filmes eu já havia visto. Quanto mais adentrava ao pequeno corredor com suas prateleiras poeirentas, mais títulos saltavam diante de meus olhos e faziam sinapses em minha memória – adentrar um lugar como este é revisitar o seu passado negro e obscuro. Passei por Chuck Norris, David Carradine, Steve Seagal, Jean Claude Van Damme... Fui ao fundo daquele túnel do tempo. E foi então que deparei-me com ninguém menos que Bruce Lee e sua ‘expressão de ódio para foto’!

Apanhei o filme e fui hipnotizado pela capa. Iniciei um retrocesso de, pelo menos, 27 anos: “Se eu conseguisse falar de Bruce Lee... Se eu conseguisse expressar o Bruce Lee que há em mim... (Há?) (Não sei!) Certamente algum dia existiu... É difícil saber o que resta quando já se passou tanto tempo da morte do ídolo – e não me refiro ao tempo decorrido após a morte do ator, mas, e muito mais, à morte do ídolo.” E continuei pensando: “Vou pegar o filme! Espero que ninguém me veja...”

A caminho de casa, com o filme em mão, comecei a me recordar de como a sociedade infantil é clara em suas distinções. Não há estatutos complicados, protocolos elaborados, imensos conjuntos de leis para garantir direitos e deveres da molecada entre a molecada. Ali é á lei do mais forte ou do filho do mais forte, e o mais fraco que acate.

Ou você é o agredido, ou você é o agressor, ou o amigo do agressor (puxa saco); agredidos não possuem amigos. Simplesmente, possuem cúmplices de um sofrimento. Nunca fui opressor. Nunca tive inclinação para isso. Quando muito, eu revidava com mais energia a uma agressão, uma afronta. Mas era magro, raquítico e, o pior de tudo, educado. Educado não para agredir, mas para o diálogo, para a paz.

O agressor se alimenta do seu medo, reina sobre o seu medo. Ele se deleita, se fortalece quando impõe alguma humilhação, quando afirma seu poderio. Se puder fazer isso diante de várias pessoas, melhor. Se puder fazer diante de meninas então, melhor ainda. Ao fraco e oprimido resta a imaginação:

“Punhos do medo!, O toque da morte!, Punhos de aço! Um descendente de chineses torna-se astro de Hollywood... Torna-se mestre em artes marciais que atravessam milênios. Se um chinês pôde, por quê não eu? O dinheiro para a matrícula e a mensalidade... Lembrei-me! Que o cinema baste ao garoto fraco.”

E quem seria capaz de enfrentar um exercito apenas com os próprios punhos, jogar homens sobre árvores como quem lança caixas de papelão, golpear uma parte do corpo e duas semanas depois, misteriosamente, o golpeado desaparecer do mapa?

Não consigo ver o filme até o final. O mito está morto e sepultado em minha memória. E essa promoção da locadora, francamente, nem se eles me pagassem valeria o meu tempo.


No Twitter @Jefhcardoso74

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