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sexta-feira, abril 22, 2011

A ONÍRICA COMPETIÇÃO DE ARMELAU

Ao saber que havia outro trabalhando em seu lugar, Armelau sentiu a fria sombra do fantasma do desemprego pousar sobre sua pessoa.

Quando deixou a empresa por síndrome do túnel do carpo bilateral, saiu convicto de que aquela era a decisão mais acertada. E nos primeiros dias até achou confirmar-se o acerto de sua decisão. Contudo, com o passar do tempo, – e o tempo é o senhor absoluto de todas as ações humanas – Armelau viu pouco a pouco enfraquecer-se a convicção em seu propósito.

Distante da movimentada rotina de trabalho, Armelau encontrou-se ocioso e solitário. Logo lhe sobreveio uma sensação de vazio, de improdutividade, de tédio... Os dias tornaram-se longos e enfadonhos, monótonos, medonhos.

Nas cadeiras de espera para a perícia médica, sentiu-se humilhado – não que lhe impusessem algum vexame naquelas ocasiões. Seu mal estar provinha mesmo era da ação de ir até ali provar a veracidade de sua incapacidade para o trabalho, de sua invalidez temporária, justamente em dia e horário de trabalho.

Pesou também o fato coincidente de ser um ex-colega dos tempos do ensino fundamental o sujeito responsável por tomar sua ficha e introduzir-lhe à sala do médico. Nunca houve empatia entre ele e o Aroldo Antunes, o sujeito em questão.
Armelau era capaz de jurar ter notado qualquer coisa de uma dissimulação de escárnio nos modos expansivos com que Aroldo Antunes o recebeu da primeira vez em que esteve ali naquela situação, e nas outras vezes inclusive.

A coisa ficou ainda pior quando Armelau se viu interrogado e examinado pelo jovem médico perito da “divina previdência social” (conforme Armelau se referia ao serviço do governo). O médico lhe pareceu mais um investigador de policia do que um agente promotor de saúde.

Ao ser informado de que teria que retornar dali a três meses para nova perícia, Armelau sentiu saudades da empresa. Três perícias e nove meses depois, Armelau viu seu céu escurecer ao saber por um colega ao telefone que havia outro agente administrativo trabalhando em seu lugar.

Naquela noite, Armelau teve dificuldades para dormir. Entre leves cochilos, encontrou-se em sua sala na empresa, bebendo café em grandes vasos de cerâmica. Em seguida, dirigiu-se ao corredor principal da empresa, onde se perfilou aos colegas que ali estavam apostos para uma prova de trinta metros rasos sem barreiras. Todos estavam às portas de suas salas e aplaudiram efusivamente ao ver chegar o corredor Armelau trajando apenas sua cueca branca. Largaram e, antes da conclusão da prova, estando Armelau em desvantagem para os demais competidores, ele chocou-se contra um bebedouro de água.

Acordou angustiado. Acendeu a luz, inclinou-se sobre o criado à cabeceira da cama, abriu a gaveta e retirou de dentro sua carteira de trabalho. Ficou folheando-a lentamente. Parou os olhos em uma pagina:

“Trabalhador, esta é a sua Carteira de Trabalho e Previdência Social, instituída pelo Decreto...”

Obs. A foto que ilustra a postagem fora realizada, com permissão da secretária, dentro da Galeria Municipal de Arte de Itajaí S.C, em Janeiro deste ano. O quadro fotografado é de autoria do artista Venâncio Domingos Neto. E a canção que eu recomendo para acompanhar o todo é Fantasia, da obra de Heitor Villa Lobos.

No Twitter: @Jefhcardoso74

quarta-feira, abril 13, 2011

O ARTICULISTA PSICOGRAFADO

Eu nunca havia publicado um texto em um jornal. O primeiro foi por acaso. Morreu uma pessoa muito querida, fiz um poema de despedida, compartilhei com os colegas, eles decidiram publicar. Fiquei surpreso. Fiquei ainda mais surpreso quando o jornal me convidou para assinar uma coluna em sua contracapa. Disseram que eu seria ‘articulista’. Então, eu pensei: “Nossa, serei um articulista do jornal de minha cidade...” E em seguida concluí o pensamento: “Mas o que é o um articulista?”. Bem, até aquele momento eu ignorava que havia um termo que denominava o cara que escreve artigos.


Ar.ti.cu.lis.ta s2g. Autor de artigos de jornal, revistas, e o caramba (Aurélio).


Durante algum tempo, - por pouco tempo na verdade - foi legal esperar chegar o jornal em casa para ver como o meu texto havia ficado nele. Mas havia um problema grave nisso. Toda vez que eu relia um texto de minha autoria, como ocorre ainda hoje, descubro algum problema, alguma imperfeição. No blog, eu tento arrumar, no jornal não dava, ficava conforme estava, e paciência.


Como viram, comecei com um poema, mas na sequência escrevi para o jornal umas duas crônicas, contudo não eram as crônicas que me tinham a alma. Eu queria mesmo era escrever contos, criar estórias, inventar e misturar, iludir, reorganizar, imaginar, voar...


Tentei um ou outro conto, mas estes eles guardavam; e a pessoa que era responsável pela edição tinha o azar, uma espécie de maldição, de encontrar-me em tudo que era lugar da cidade. Incrível como a coincidência nos atraía para nos confrontarmos em toda parte! Na rua, nas lanchonetes, nas lojas, na fila do banco, na recepção do hospital, na sorveteria... Era mutuamente constrangedora a situação de eu ter um texto aguardando sua publicação. A pessoa já se explicava antes mesmo de eu perguntar qualquer coisa sobre a publicação do texto. Em verdade, eu nunca perguntava. Continha-me, à grande custo, mas continha-me. E a pessoa dizia: “Seu texto está lá. É ótimo! Sairá neste final de semana.” Eu falava alguma coisa sobre o mote do texto, o processo pelo qual o concebi. Eu parecia até um escritor falando da cria, ou um pai falando do texto, como queira.


Depois de alguns textos publicados mais adiante, cheguei a enviar um ou outro poema, alguma crônica. Até que um dia, e tudo um dia termina, perdi minha vaga.


Mas não perdi para um concorrente comum. Perdi para um escritor póstumo. O meu lugar de articulista fora ocupado por uma pessoa que enviava suas mensagens via psicografia. Respeito profundamente a memória desta pessoa. Aceitei com resignação a perda do espaço. Não enviei mais textos para aquele jornal. Mais tarde, uma pessoa influente do mesmo jornal me revelou que gostavam de meus textos, mas aquilo que eu fazia era Literatura, e que não havia ali espaço para Literatura. Disseram que era até uma falha não ter tal espaço, mas era aquilo no momento. Compreendi.


O fato de eu perder meu posto para um escritor póstumo fora algo, com o devido respeito, inusitado. Mas Machado não escreveu as Memórias Póstumas de Brás Cubas dedicando a obra ao verme que primeiro roeu as frias carnes do cadáver do protagonista do livro? Portanto, não seria este um motivo para que eu desistisse de escrever. Continuei. Sou determinado. Perdi alguns concursos. Tive textos recusados por outro jornal e até por uma revista. Vou colecionando os nãos. Isso não me aflige. Na escola, nunca tive uma redação elogiada. Nunca fui o melhor aluno em Português. Sou uma espécie de anti-herói. Em minha infância, em casa, tínhamos uma bíblia ilustrada, um livro sobre hortaliças e seus efeitos medicinais, e revistas de vidas de celebridades descerebradas, e mais nada. Mas nada disso me aflige. Escrever, para mim, é uma necessidade. E publicar é um gosto. Eu gosto. Um dia ainda escreverei algo que me permitirá escrever ainda mais, e espero que não seja via psicografia.


Obs. Esta postagem foi escrita com o intuito de descontrair meu pensamento em um momento que eu poderia ter optado pela contração do mesmo. Hoje vivo algo mais feliz. Estou em vias de ter meu primeiro livro publicado. Mas a tudo agradeço pela cota que caiba. Obs.II Na foto o farol de Itajaí




Twitter @Jefhcardoso74

domingo, abril 03, 2011

A ONÍRICA VIDA DE ARMELAU

Era um dia comum como tantos outros dias de trabalho comum na vida do funcionário Armelau. Com o céu nublado, caía uma fria garoa intermitente sobre os telhados marrons lodosos e o pavimento cinza escuro. A sala de Armelau ficava onde fora a sala de estar de uma antiga casa adaptada pela empresa de papeis na qual ele trabalhava.

Sentado em sua mesa, Armelau ajeitou alguns papéis, abriu uma pequena gaveta da sua escrivaninha, da qual retirou um pequeno embrulho em papel kraft. Em seguida, fechou-a e volveu a minúscula chave, duas vezes. Fechou também algumas páginas em que navegava na web. Deixou carregando um programa de dados que estava baixando desde a primeira hora de serviço. Naquela manhã a internet estava especialmente mais lenta do que de costume. Com um esforço das pernas, empurrou a cadeira com rodízios para trás, descalçou os sapatos, depois desafivelou o cinto. Também afrouxou o nó de sua gravata enquanto observava fixamente a barra de progressão do download do programa. Desabotoou o punho da camisa e puxou a barra para fora da calça... Teve a impressão de cochilar por algum tempo, por muito tempo. Levantou-se lentamente com as mãos sobre os joelhos e com os olhos fixos na tela do monitor. Espreguiçou-se longamente e bocejou feito um leão sonolento.

Após algum tempo mais, deixou sua sala e entrou pelo corredor. Caminhou macio até a pequena cozinha com o piso frio sob os pés. A faxineira, Rosalva, vinha logo atrás com um pano quase seco no rodo esfregando o chão embaçado. Ela levantou os olhos para Armelau e pareceu surpresa com o que via, espantada. Parou de esfregar o chão de súbito e passou a olhar fixamente para o rapaz. Almelau abriu o embrulho do qual retirou de dentro um enroladinho de queijo e presunto e colocou no forno de microondas, fechou a portinhola e programou o aquecimento e o tempo.

Vendo que era encarado insistentemente por Rosalva, fingiu não notar. Abriu a porta da velha, barulhenta e antiga geladeira azul, apanhou uma lata de néctar de manga. Ao ouvir o alarme do cronômetro do forno disparar, retirou o salgado e colocou-o no prato. Com o suco na mão esquerda e o salgado na direita, encaminhou-se para a recepção, onde havia uma televisão; queria assistir ao noticiário esportivo, ver se seu time dava algum indício de que escaparia do rebaixamento no ano corrente.

A secretária, ao ver Armelau adentrar com a lata de suco e o salgado no prato, também pareceu surpresa em um primeiro momento e espantada a seguir. Ele mais uma vez achou ser adequado fingir não notar o comportamento estranho das mulheres. Sentou-se na poltrona que ficava posicionada de frente para o aparelho televisor, cruzou as pernas, depositou o prato no colo e a lata de suco no chão e pediu para que Adalgisa aumentasse um pouco o volume, “se possível, por favor.”. Adalgisa aumentou o volume mecanicamente como se não entendesse algo.

Antes mesmo que Armelau terminasse o seu almoço, chegou o diretor geral da empresa, Osvaldo Graça, seguido por Rosalva, e estacou ao lado da poltrona do rapaz. Encarou-o firme e reprovadoramente dizendo “O senhor poderia, por gentileza, acompanhar-me agora mesmo até a minha sala, seu Armelau?”. Armelau depositou o restante do enroladinho no prato, a lata de suco e levantou-se ainda sob o olhar do diretor. E indagou serenamente, como que lamentando grandemente o presságio de algum fato vindouro: “Então eu não estou sonhando, Sr. Sigismundo?”. O diretor apenas repetiu o convite para que o rapaz o acompanhasse até sua sala estendendo a mão espalmada e indicando a direção. Armelau seguiu com um semblante apático e derrotado. Ao passar pela porta deslizante, pode ver no vidro a sua imagem refletida. Viu que era branca a cueca que usava, e mais nada.


Obs. A foto que ilustra a postagem fora realizada, com permissão da secretária, dentro da Galeria Municipal de Arte de Itajaí S.C, em Janeiro deste ano. O quadro fotografado é de autoria do artista Venâncio Domingos Neto. E a canção que eu recomendo para acompanhar o todo é Fantasia, da obra de Heitor Villa Lobos.


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