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sábado, novembro 27, 2010

A CRUEL VINGANÇA DE SEU IGNÁCIO/PARTE II

Ao termino de uma semana de tratamento domiciliar, Seu Ignácio inquiriu ao Dr. Israel sobre qual o motivo que o teria trazido à Capela do Norte, um lugarejo perdido no mundo, conforme suas palavras.
Dr. Israel sorriu, e placidamente explicou que, apesar de seus pais serem ambos da capital, bem como ele próprio, o seu bisavô teria vivido seus últimos anos em Capela do Norte. Aposentando-se como funcionário da extinta companhia férrea, onde cuidava da bilheteria. Daí viria sua simpatia e interesse pelo lugar.
_Vendia bilhetes? Perguntou Seu Ignácio ao médico, que consentiu positivamente com a cabeça, e completou dizendo que seu bisavô fora o velho Licurgo.
Os olhos de Seu Ignácio brilharam e emitiram faíscas ao ouvir o médico dizer que era bisneto do finado Licurgo Bilheteiro.
_Conheci demais o seu bisavô. Ele era freguês de cachaça no bar do meu avô. O destino foi quem nos colocou aqui, Doutor. Não tenho a menor dúvida disso, Doutor. Agora vejo que estamos em casa. Mundinho pequeno!
O médico sorriu surpreso e curioso ao mesmo tempo. Então perguntou ao Seu Ignácio sobre o que mais se lembraria de seu finado bisavô.
_Lembro-me demais! Seus parentes devem ter lhe falado, e o senhor é que não está lembrado. O seu bisavô só não morreu dentro do bar do meu avô por que o levaram às pressas para morrer no hospital.
A interrogação crescia no rosto do médico, bem como os ares de surpresa e apreensão. Afinal, eis que um estranho fora quem lhe revelara coisas íntimas de família as quais jamais havia tido acesso.
_O Seu Licurgo estava pra lá de Bagdá quando chegou o Chico Doido dizendo que a mulher dele, a senhora sua bisavó, que Deus a tenha em bom lugar, havia sido a meretriz mais competente da história de Capela do Norte.
Ao dizer a palavra meretriz, Seu Ignácio desfrutou com um malicioso sorriso o inevitável arregalar de olhos do espantado médico.
_Mas seu bisavô, mesmo quando bêbado, era um bom sujeito, e nunca foi homem de levar desaforo para casa não. Tomou Chico Doido pelo pescoço e começou apertá-lo quase o erguendo do chão. O azar de seu bisavô foi Chico Doido ter alcançado com a mão direita o gargalo da garrafa de cachaça que estava sobre o balcão. A última imagem que seu bisavô viu nessa vida foi a cara feia do Chico Doido roxo, quase enforcado em suas mãos.
O médico não dizia palavra. Ouvia a tudo hipotônico e com a palidez de um cadáver. E Seu Ignácio seguia entusiasmado narrando os fatos.
_Pobre Seu Licurgo! Ficou mais famoso postumamente do que em vida. Não havia um viajante que, vindo por essas bandas e passando pelo bar de meu avô, não perguntasse a respeito da história do tal homem que morreu duma garrafada.
Seu Ignácio dizia por entre pequenas pausas. Usava o tempo de silêncio para colher as feições do médico. E após um breve instante ele retornava.
_Sabe como é, né Doutor? Garrafada não é coisa que mata. Garrafada, aqui pra essas bandas, é coisa que cura, remédio dos antigos. Então, meu avô toda vez era obrigado a contar todo o caso. Inclusive a parte mais engraçada, que foi justamente a do velório de seu finado bisavô.
Doutor Israel, apesar de ainda não ter recobrado as feições, fora capaz de surpreender-se novamente ao ouvir a palavra velório dentro do contexto supracitado.
_Sim, um dos velórios mais engraçados da história de Capela do Norte - continuou Seu Ignácio - Aconteceu que, após o seu bisavô ser velado, indo pelas mãos do cortejo a caminho da cova para ser enterrado, o fundo do caixão, que era de madeira muito da vagabunda, começou a ceder. Foi um pandemônio. Já era possível ver parte do paletó do defunto apontando por entre as farpas. A sorte do seu bisavô foi meu avô, que era muito amigo da sua família, ter tido a idéia de arrancar uma estaca do jardim da Praça e colocá-la de atravessado no caixão, amparando o dorso do defunto. Se não fosse por isso, o seu avô teria caído na rua durante o trajeto do velório ao cemitério. Seu Ignácio concluiu a narrativa rindo muito. Como se fechasse a história com chave de ouro.
O médico ouviu a tudo com indisfarçável perplexidade. Porém, disse ao Seu Ignácio que já conhecia as tais histórias, mas nem se recordava. E disse que era bom saber por acaso de alguém tão amigo de sua família.
Despediu-se do marido da paciente dizendo para que cuidasse bem dela, fez as recomendações do costume, e partiu para retornar na semana seguinte.

No Twitter @Jefhcardoso74

sábado, novembro 20, 2010

A CRUEL VINGANÇA DE SEU IGNÁCIO/PARTE I

Seu Ignácio foi realmente cruel quando soube que Dr. Israel Bravo era bisneto de Seu Licurgo. Ao menos foi essa a impressão que ficou para Dr. Israel, tempos depois de ter ouvido em detalhes a história de seu antepassado contada na versão sem cortes de Seu Ignácio.
Ele não sabia das particularidades nem dos pormenores da história. A família sempre evitou o assunto, tratava por cima. Talvez por zelo. Ou então a fim de não molestá-lo com tal desagrado. Ou até mesmo, quem sabe, na intenção de poupar as novas gerações. Ou ainda evitassem tratar o assunto por simples vergonha dos fatos.
Eu diria, diante do narrado póstumo, que Seu Ignácio foi maquiavélico - caso eu achasse Nicolau Maquiavel um sujeito maquiavélico; mas longe disso; Nicolau, para mim, ao menos em seu tempo, foi muito mais um cientista político, um teórico, um estrategista, do que um sujeito astuto, velhaco, pérfido, como ficou sugerido na expressão que leva o seu nome.
Portanto, seu Ignácio foi apenas cruelmente vingativo. Fato que sua ação foi de cunho passional.
Seu Ignácio casou-se de segundas núpcias com uma bela jovem chamada Lorena. Lorena era alegre, bonita, expansiva, comunicativa, muito dada... A moça tinha vinte e seis anos quando fora acometida por uma grave pneumonia, que por pouco não lhe ceifa a vida em pleno esplendor de sua formosura.
Seu Inácio a levou do hospital sob a condição de receber e arcar com as despesas diárias das visitas de Dr. Israel.
Dr. Israel era um homem polido. Tinha um jeito nobre. Mantinha sempre uma boa postura. Era vigoroso e bem cuidado em seus quase quarenta anos de idade. Cabelos grisalhos sempre bem aparados. Roupa branca reluzente. E movimentos ágeis, fáceis. Elegante. Falava com grande desenvoltura. Sempre muito simpático e bem humorado.
Lorena não lhe poupava elogios durante suas visitas. Afirmava Seu Ignácio, após o médico partir, que a moça agradecia mais ao médico que a Deus por sua boa recuperação.
Seu Ignácio começou a implicar até com a tosse da jovem esposa. Dizia que esta cessava durante as visitas do médico, e após o mesmo partir, se intensificava como que anunciando a indispensável próxima visita.
Lorena dizia para a velha enfermeira que lhe assistia, que Dr. Israel era o arquétipo de um príncipe moderno. Dizia isso a todo instante.
Foi esse elogio, sem dúvida alguma, que fez com que Seu Ignácio tivesse sede de vingança.
O homem não suportou ter Dr. Israel frequentando o seu aposento a tirar mais do que inspirações profundas, mas também suspiros de sua jovem esposa.
Ficava ao lado do médico durante cada visita. Não arredava o pé por nada. Nem mesmo para apanhar um copo com água que o médico lhe solicitasse. Antes, ordenava secamente à velha enfermeira para que o buscasse.
Ao final de cada visita de consulta, fazia questão de perguntar diante de Lorena qual era o preço pelo trabalho. E invariavelmente sacava um bolo de notas do bolso, retirava algumas, que em nada diminuía o volume do bolo, e estendia ao médico sem dizer nada além de “toma seu dinheiro”.

Obs. Sei que não possui todo o tempo do mundo para a minha escrita. Mas este conto ficou mais longo que o costume. Portanto, o postarei em duas partes. Sendo esta a primeira, e a segunda será publicada no próximo sábado, dia 27 de novembro.
ObsII. Foto realizada por mim no interior do Theatro Pedro II em Ribeirão Preto.
ObsIII. Para quem quiser me acompanhar também no twitter @Jefhcardoso74.
Obrigado por sua atenção!

sábado, novembro 13, 2010

LOBATO E O RATO

O rato, sem mentira nenhuma, era maior que o Lobato. Lado a lado, o rato e Lobato, enquanto transitavam no quintal, posso jurar que o rato era maior que Lobato por um rabo ou algo mais.
Joaninho, o vovô Joaninho, lançou a bola para que o menino fosse apanhá-la, mas eis que, por debaixo da entulhada, surgiu um ser até então desconhecido, ignorado pelos da casa.
Vovô Joaninho, tomado por terror e espanto, não conseguiu levantar-se da cadeira de pano firmando-se na bengala. Tentou três vezes, contudo, nada de levantar-se. Foi então que empalideceu, engasgou a voz, arregalou os olhos, e já não presenciou consciente a cena do garotinho Lobato disputando a bola com o gigantesco rato. Ao menos a criança achava que era a bola que pretendia o roedor em suas investidas. O bicho vinha agressivo e mostrava os dentes sujos, grunhia, avançava diante da face do menino.
O garotinho levou a mão e alcançou a orelha do bicho, este se contorceu e desvencilhou-se do pequenino, causando-lhe um pequeno arranhão no dorso da mão, algo que a família atribuiu a algum resvalo nos objetos do quintal. Lobato, ao pressentir o perigo, abandonou a disputa com o roedor. Deixou a bola aos gritos de choro e encaminhou-se de volta para o pé da cadeira onde estava inconsciente o avô. Ergueu-se com o apoio na estrutura de madeira da cadeira de pano. O enorme roedor veio se aproximando sorrateiro e ardil. O pequeno Lobato intensificava os seus gritos, agora de terror. Os gritos alcançaram o ouvido da mãe que limpava resíduos de alimento que o bebê havia derrubado sobre o chão da cozinha. Ao chegar à porta que dava para a varanda, a mulher teve princípios de desmaio ao ver o seu pai com o corpo desfalecido na cadeira e a criança berrando ao lado. Aquilo era sinal de que algo terrível estaria acontecendo. Escureceu-lhe a visão, retrocedeu alguns passos sem controle das pernas, e, para não cair, tentou apoiar-se sobre a pia. Derrubou uma grande jarra de suco de laranja no chão. Recobrou os sentidos, e seguiu rumo à varanda. O barulho do vidro ao espatifar-se provavelmente foi o que fez com que o roedor debandasse.
O velho não estava morto, apenas desmaiado. Isso foi um alívio para a mãe de Lobato. Joaninho levou um dia e meio para dizer algo, e quando disse, só falava de um tal rato gigante que quase teria pego Lobato.
Todos ficaram com pena de Joaninho. Diziam: “Pobre vovô, está a cada dia mais esclerosado”.
Obs. Meu twitter @Jefhcardoso74

sábado, novembro 06, 2010

DENTISTA (O PRELÚDIO DO TRAUMA)

Sempre torço para que a dentista esteja de bom humor mesmo quando marco a sessão para o primeiro horário, pouco depois das sete horas da manhã. Tenho minhas razões para torcer, o que nada tem a ver com a minha dentista atual, que é, na verdade, uma fada do dente. Porém, hoje não tive sorte.
Ela nem mesmo retribuiu de forma perceptível o meu “bom dia!”. Pior, ela certamente estava no dia em que a última coisa que queria em seu primeiro horário era um cliente medroso.
Medo de cadeira odontológica também responde por pavor de cadeira odontológica. Só quem tem pavor por essa modalidade terapêutica sabe como é.
Contudo, que outro remédio, senão sentar-se, estar preso, estar tenso, e abrir a boca até sentir doer a articulação temporomandibular?
_Você tem preferência por algum dente hoje? Ela perguntou.
Eu respondi que iniciasse pelo dente que estivesse em pior estado, ou o mais visível, por favor.
_Com ou sem anestesia? Foi a segunda pergunta que me fez. Aí já me pareceu piada da parte dela, sarcasmo.
_Com anestesia, é claro. Se possível geral. Eu respondi.
Enquanto ela me picava, comentou que se informou sobre uma forma de anestesia nova, moderna, onde o paciente teria um relaxamento não somente local, mas geral, porém ela ainda não havia feito o curso para usar a tal técnica, eu lamentei.
Picadas. Sonda de sucção no canto da boca. Respiração quase suspensa. Taquicardia. Mãos à obra.
Logo no primeiro contato dou um sobressalto da cadeira - Sim, eu estava histérico. Sei que o leitor pensou isso, eu também pensaria.
_Doeu? Ela perguntou. Eu disse que sim, com um movimento enérgico de cabeça. Ela completou: _Não era para ter doido, a restauração é minúscula e super rasa. Eu pensei. “Diz isso pro meu dente, vai que ele compreende e acata.” Ela deve ter pensado: “Frouxo”.
Mais picadas... Ela mexeu a broca e eu temi a morte. Não é que eu seja exagerado. Tenho minhas razões pra tanto. É que, quando eu era criança... bem.

Meu primeiro contato com o profissional dos dentes foi no mínimo vexatório.
Eu cursava o primeiro ano da escola pública, ainda nem era alfabetizado. Franzino, fracote e dominado por uma timidez abismal. Veio uma mulher de jaleco branco até nossa sala, falou com a professora, esta ordenou que nos levantássemos e seguíssemos em fila indiana para fora. Fomos. Na fila as palavras vinham de cochicho, sussurradas. Algum garoto mais esperto anunciou da frente que o nosso destino era o dentista. Eu não sabia como era um, logo os iniciados trataram de espalhar o terror aos desavisados. As exclamações mais horríveis corriam a fila em sentido proximal para distal e vice versa. Ninguém ficava muito tempo lá dentro. O tal motorzinho, que soube de sua pavorosa existência ali naquele momento, não estava “vociferando” contra os que adentravam a sala. Um saía dizendo: _Duas. Outro dizia: _Nenhuma. Outro: _Uma. Esses números corriam a fila, e isso não seria problema nenhum, se não fosse o caso de eu ter sido o recordista. O Doutor, por de trás da máscara, disse para a assistente arregalando os olhos: _Sete! Esta reagiu com a mesma cara de espanto, repetia o numero enquanto anotava a quantidade de cáries na prancheta: _Sete! O próximo da vez não teve dúvida. Eu ainda estava de boca aberta quando o ouvi virar-se para a fila e anunciar em auto e bom som que eu era o recordista da podridão oral.
Caro leitor, um garoto aos sete anos sonha em beijar a menina mais bonita da sala. Você imagina como é que ficou qualquer expectativa minimamente pretensiosa que eu nutria com um mísero grão de alpiste diário, porção permitida por minha imperiosa timidez?
Contudo, não foi essa situação que me causou o grande trauma à cadeira odontológica, mas sim outro fato ocorrido numa...

_Cospe. Ela disse. E eu, surpreendentemente, ainda tinha forças para tal ação. Cuspi. Sentia-me atordoado, e ainda teria um dia inteiro de trabalho pela frente. Eu queria, na verdade, ir para casa, enrolar-me numa coberta, passar o resto da manhã deitado, me recuperando.
_Terça feira, pode ser? Ela perguntou-me. Eu concordei automaticamente. Não tinha condições nem energia para recusar-me.

Obs. Estou agora, no twitter. Se quiser falar comigo lá é @Jefhcardoso74.

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