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terça-feira, dezembro 15, 2009

O Cobrador - Parte VII


Contam os homens do pé de jaca (os jacas), e confirmam os antigos moradores do local (os antigos), que os religiosos, ao encontrar-se, se entreolharam, olharam para a praça embaçada pelo fumo, porém, agora visível, e novamente se entreolharam. O “mendigo” ocupava o centro da área, os cães haviam dispersado, e nem sinal de Edmundo Adeodato. Pobre coitado!
Em torno da cidade as chamas castigavam toda vegetação, bem como as benfeitorias das propriedades e as propriedades. As cinzas negras cobriam toda superfície. Como único alento figurava o termômetro, que naquela ocasião retrocedeu um bocadinho pela primeira vez desde que subira.
Ainda assim a canícula era insuportável, porém a cidade se sentia como diante de uma brisa fresca; e que saudade sentiam de uma brisa!
Padre Agostinho e pastor Martinho, deram as mãos em um forte aperto. Sentiram que o momento era para unir as forças, e que a missão era, sem sombra de dúvida, de longe, a mais delicada que já enfrentaram em suas profissões de fé.
O padre propôs ao pastor que tentassem uma aproximação do “mendigo”, conversando e aspergindo água benta. O pastor contrapôs, disse que seria mais eficaz uma abordagem mais vigorosa, com bíblia em punho, lendo uma passagem como a do livro de Marcos capítulo 5, e proferindo palavras de ordem de expulsão, com grande autoridade.
Foi então que ocorreu o primeiro embate entre os religiosos; discordaram, argumentaram e se exaltaram; o “mendigo” seguia em sua postura, indiferente a presença dos representantes de Deus, como se estes fossem nada; era como se eles nem estivessem ali.
Como não concordaram quanto a melhor forma de abordagem, decidiram ir cada qual a sua maneira. Padre Agostinho disse:
_Vai tu primeiro.
Pastor Martinho retrucou:
_Oras, e por que não vai tu que possui mais tempo de profissão de fé, sendo muito mais experiente em se tratando de demônios?
Dessa vez não iniciaram nova discussão, pois padre Agostinho teve uma vertigem necessitando do amparo do colega:
_Padre Agostinho, o senhor esta bem? Perguntou o pastor, ao que o padre respondeu:
_Sim, estou, é que sofro de labirintite; mas por que não vamos os dois num só tempo ter com o forasteiro?
Pela primeira vez concordaram em algo, e ao iniciar a aproximação o pastor achou que deveriam ir de antemão aos berros, proferindo palavras de ordem de expulsão. O padre discordou, disse que seria melhor uma ação quando estivessem mais próximos do forasteiro. Iniciaram nova discussão. Desta vez, mais impacientes quase chegaram a se agredir; o clima era bastante tenso. E após farpas e mais farpas, cada qual foi ocupar um banco da praça, em extremidades opostas.
Minutos depois os religiosos eram tomados de súbito por um grande torpor, uma enorme sonolência, e não resistindo entregaram-se ao sono letárgico que os tomara.
Pastor Martinho viu-se erguer do banco e levitar indo pousar diante do mendigo que o encarava. O pastor, tomado por fúria, disse com grande autoridade:
_Saia imediatamente, bata já em retirada, em nome de Jesus eu ordeno, Legião!
O forasteiro, fixando os olhos no olhar do pastor disse com voz rouca, de uma tonalidade metálica:
_O que tenho eu contigo, filho de Deus? Nessa terra já enfrentei crente e descrente, suas palavras não me causam medo, para mim, não passam de vãs palavras e você não significa nada, portanto não me amole, vá embora, tenho negócios importantes a tratar.
Pastor Martinho ao despertar da madorna viu-se novamente no banco onde sentara, sentiu um calafrio lhe percorrer todo o corpo. O calor do ambiente era intenso como na chegada, mas agora o frio que sentia lhe fazia tremer as pernas, bater o queixo e abraçar ao próprio tronco.
Na outra extremidade da praça era padre Agostinho quem despertava de uma madorna. Tremia as pernas e batia o queixo em meio a calafrios, enquanto recordava de ter sonhado que levitara. Sonhou que se aproximava do forasteiro, e lhe indagava sobre seu propósito obscuro naquele lugar.
Ainda, ao recordar-se do “sonho” lembrou ter ouvido o forasteiro responder com uma voz rouca e de tonalidade metálica:
_Que tenho eu contigo filho de Deus? _Nessa terra já enfrentei católico e ateu, suas palavras não me amedrontam, para mim, não passam de vãs palavras, e você significa nada, portanto não me amole, vá embora, tenho negócios importantes a tratar.
Os religiosos se ergueram dos bancos com grande dificuldade, completamente frustrados de seu intento de expulsar o...você sabe quem...
Um escorou o outro numa difícil caminhada até as imediações do hospital. Ali deram entrada em estado crítico; febris, respiravam com grande dificuldade; delirantes e desorientados, já não produziam um relato confiável, mas o que diziam deixava a todos ainda mais aterrorizados.

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