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segunda-feira, dezembro 08, 2014

ARMELAU – HELLHAISER E OS SETE EURICOS

Naquela manhã chuvosa, as horas não passavam no relógio de parede posto diante da mesa de Armelau, à meia altura. O ponteiro dos segundos era vermelho e o funcionário, dominado por tédio e apatia, achou de acompanhar a passagem do tempo com os olhos fixos no movimento daquela estreita haste hipnótica até completar a hora para o almoço.

Logo perdeu de vista o fundo branco do aparelho e viu a cor escarlate tecer uma fina película opaca, algo feito uma névoa insinuante, que se expandia do centro para as extremidades do objeto e aos poucos tomava a forma de um furo pregueado na parede diante o funcionário bocejante.

Armelau ouviu passos ecoados do corredor. Ajeitou sua postura na cadeira tratando de voltar os olhos imediatamente para a tela do computador, e deitou a mão sobre o mouse, e fingiu ler algo atentamente para não ser surpreendido por algum superior em pleno ócio no ofício.

Era Edmundo Hellraiser, o encarregado de setor, que na verdade não sabia ser Hellraiser, pois seu nome de batismo era Edmundo Ambrósio, a alcunha de Hellraiser fora colocado pelo pessoal do almoxarifado, por motivos especiais e vingativos. Cabe destacar que o almoxarifado da empresa era uma espécie de oficina do Diabo. Ali ficavam os funcionários mais antigos, maldosos e maledicentes do local.

Mas Edmundo bem que merecia o apelido. Vivia reclamando da vida e falando mal dos outros. Estava sempre fritando alguém, e quando não tinha a quem fritar por ali, fritava seu marido a qualquer um que quisesse ouvir. Sim, marido. Não eram oficialmente casados, porém viviam juntos há muitos anos. Ele dizia que o marido era um preguiçoso. E dizia que ele era depressivo, e que nunca havia se recuperado da perda da mãe, e que fora um erro ter se juntado ao cônjuge, e que o sujeito só sabia dormir e jogar videogame... Dizia o tempo todo. Daí a alcunha de Hellraiser, o renascido do inferno. E então o maledicente de todas as gentes entrou pela sala de Armelau e disse que tinha que colocar uma balança para pesar os fardos de papel ao lado da mesa dele.

Assim, de súbito, no meio da manhã... Armelau achou aquilo estranho e preferiu não discutir. Os carregadores de fardos de papel nunca andam sozinhos e aquilo perturbaria sobremodo o ambiente. Seria um abrir e fechar de porta sem fim. Gente conversando sobre coisas que não interessam a ninguém e olhando tudo dentro da sala com olhos curiosos e perscrutadores. Um cheiro de constrangimento pairava no ar. Mas ele consentiu com a cabeça num gesto resignado.

Armelau voltou os olhos para o local onde estaria o relógio e o objeto não guardava de modo algum sua forma original. Apenas o buraco esférico circundado por um halo róseo contrátil e de fendas escarlate pairava molemente na parede diante de sua mesa, à meia altura.

Hellraiser saiu pelo mesmo corredor que o trouxe e retornou antes mesmo que qualquer elemento acusasse a mínima passagem de tempo. O tempo se extinguiu como por um encantamento e Armelau procurava aflito outro relógio ao pé da tela do seu computador. Não havia nada lá. Tateou os bolsos em busca do celular e também não o encontrou. Ficou tenso por não saber que horas era e assim, consequentemente, não poder sair para o almoço.

Novamente ouviu passos em direção à sua sala e viu Hellraiser entrar, mas dessa vez acompanhado de um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete Euricos. Por algum motivo de fundo pessoal o homem queria provar a Armelau que ele não tinha autonomia nenhuma sobre sua sala ou até mesmo sobre si.

Euricos eram auditores e cada qual correspondia a um vício humano. Havia o Eurico Glutão, o Eurico Avaro, o Eurico Luxurioso, o Eurico Iracundo, o Eurico Invejoso, o Eurico Preguiçoso e o Eurico Orgulhoso.

Aquilo já era demais. Aquela gente toda passando pra lá e pra cá era de enlouquecer até mesmo o pacato Armelau. E o homem não aceitou. Levantou-se de sua mesa e gritou furiosamente com uma voz gutural para que Hellraiser e os Euricos sumissem pelo buraco da parede, que naquele momento apresentava o diâmetro de uma roda de carroça.

Os Euricos correram pela porta por onde haviam entrado e Hellraiser ficou vesgo, girou, revirou os olhos e apontou sua língua fina e estreita para fora da boca cada vez mais achatada. Sua cabeça também se achatou. Sua pele passou de rósea à branca e o sujeito estrebuchou em terríveis espasmos lançando os braços à frente e as pernas para os lados. Seus membros se encolhiam e apontava-lhe no prolongamento do cóccix uma pequena calda, que se alongara sobremodo a cada espasmo da criatura. Logo o corpo todo do encarregado de setor retraiu-se e o ser inumano assumiu a forma de um pequeno animal. Caiu no chão e escalou a parede até alcançar o furo.

Armelau estava aterrorizado e tentou fugir de sua própria sala. Esbarrou no copo plástico de café, que banhou sua perna manchando a calça. Sentiu o calor na virilha e tentou abanar-se. Ao retornar os olhos na direção da criatura metamorfoseada, viu apenas uma pequena lagartixa plantada ao lado do relógio de parede. Era meio dia e meia, hora de partir para o almoço.

domingo, outubro 12, 2014

NORMANDO, O PARANORMAL












NORMANDO, O PARANORMAL





Para Normando, o mundo das coisas visíveis era simplesmente o esconderijo das coisas invisíveis.

Numa noite tumultuosa e tempestiva, uma em que os ventos balouçavam furiosamente as janelas e deitavam as copas das velhas árvores quebrando galhos e guinchando assovios infernalmente agudos, Normando acordou ao sentir um repelão no pé esquerdo, que pendia para fora dos limites do colchão durante a agitação causada por um horrível pesadelo.

Levemente angustiado, Normando sentou-se à beira do leito, olhou no relógio de cabeceira, que marcava 03h33min, sentiu o corpo todo dorido e ainda com a impressão de ossudas e nodosas garras em torno de seu tornozelo, ainda meio besta sob a sedação do sono, sentou-se à beira da cama e procurou por suas pantufas tateando com as plantas dos pés. Primeiro, na lateral da mesma por sobre o tapete branco encardido de tricô, depois, embaixo da mesma. As pantufas haviam desaparecido mais uma vez. Lamentou o fato recorrente e foi mesmo descalço até a cozinha para tomar um copo de água fresca, não gelada; Normando sempre detestou água gelada e com gosto de geladeira. Se alguém quisesse agradar Normando, que não lhe oferecesse água gelada em momento algum. Mais do que tomar água, Normando precisava ir ao banheiro. Tinha a bexiga preenchida até a uretra. No entanto não sentia presença de coragem e ou disposição para pisar no úmido chão do banheiro com os pés descalços. Decidiu que iria até a escura lavanderia em busca de algum outro calçado.

Abriu a porta rangente da lavanderia, procurou o interruptor da luz, porém encontrou apenas uma superfície peluda sobre o que seria o interruptor. Retirou rapidamente a mão do local e trouxe-a para junto de si, rente ao peito. Respirou fundo, mentalizou uma oração e tentou novamente a ação. Desta vez encontrou lá o interruptor e acendeu a luz, que pouco iluminava. Havia uma pequena prateleira ao canto da parede posterior do cubículo. Encontrou um par de velhos chinelos e inclinou-se para apanhá-lo. No canto posterior do cubículo, à esquerda do batente de entrada, uma mulher arquejada chorava copiosamente enquanto desprendia de seu corpo chamuscado uma odorífera fumaça fina. Normando, lívido e gélido, achou melhor ignorar a triste figura da lavanderia. Passou rente à figura desconsolada e sequer se lembrou de apagar a luz. Fechou a porta e quase estatelou ao ouvir os terríveis gritos vindos lá de dentro. Uma mistura entre “minhas carnes ardem em brasas!” e “apague esta maldita luz, seu miserável!”. Normando abriu a porta apenas o suficiente para que sua mão alcançasse o interruptor e apagasse a luz. Fechou a porta. Respirou fundo. Seguiu orando.

Tudo ficou silencioso e o homem pode finalmente ir ao banheiro aliviar-se da pressão hidrostática que ameaçava romper com sua bexiga. Levou a mão à maçaneta e tentou abrir a porta do banheiro, porém deveria estar emperrada, pois parecia fechada por dentro, o que seria impossível, uma vez que estava só em casa.
Tentou mais uma vez com um movimento um pouco mais vigoroso. Novamente não obteve sucesso. Levou as mãos à fronte, curvou a cabeça e viu a porta abrir-se espontaneamente. Antes de tentar entrar, espiou pela fresta produzida pela abertura e viu uma mulher sentada ao vaso. A mulher era loira, aparentava pouco mais de vinte anos, usava um longo e alvo vestido de noiva e trazia um buquê nas mãos e chorava olhando para a parede diante de si.

Normando desistiu de usar o banheiro e foi pelo corredor até o quarto, abriu a porta que dava para o quintal e decidiu aliviar-se ao pé da figueira centenária, sob a sombra da retorcida copa em noite de luar. Ratazana surgiu através das sombras do corredor, lépida e faceira, abanando o rabo e ansiosa por cheirar primeiro os pés e depois o dejeto fluído expelido pelo rapaz. Ao iniciar o fluxo, o rapaz suspirou com o alívio do desaperto. Porém, antes mesmo de terminar o esvaziamento, foi alvejado por um forte golpe na face. Era um morcego que havia se chocado contra seu rosto. O animal, após o forte impacto, o qual produziu um hematoma na parte inferior da órbita direita de Normando, passou a rastejar pelo chão como que ferido gravemente em suas capacidades sensoriais e motoras. E sangrava profusamente o bicho. Já Normando não sofreu nenhum dano mais grave. Ficou apenas com o rosto intumescido.





NORMANDO - CABEÇA, CORPO E DICOTOMIA



Normando decidiu que era tempo de desfrutar um pouco o ar puro do campo, aliviar o stress da cidade e esquecer por algum tempo os fantasmas de sua casa. A família possuía uma pequena propriedade herdada de um tio avô, solteirão e suicida, situada entre densos e extensos canaviais.  Seria o lugar ideal para tomar um fôlego, sorver da atmosfera livre que há nos lugares mais bucólicos e receber uma porção da paz sertaneja.

Veio mais um dos inúmeros dias nos quais amanhecera insone, e então decidiu partir antes mesmo de clarear. Quase atropelou uma mulher e uma criança vestidas de branco e que vagavam pela pista. Na verdade só não atropelou porque os atravessou. Um efeito parecido com o que ocorre quando passamos por densa neblina ou uma cortina de fumaça. Embora as figuras fossem perfeitamente nítidas por de trás do pára brisa; contudo eram apenas tristes espectros.

Quando Normando finalmente avistou a propriedade ao pé da estreita e inclinada estrada de chão, o sol já flamejava. Fazia tanto tempo que não ia ao local, que fez um intenso exercício de memória para encontrar a familiaridade adormecida em algum sótão de sua mente de todos aqueles detalhes: a figueira disforme na frente do terreiro, a casinha e o telhado do alpendre mal sustentado por um caibro carcomido por cupins, o fusca azul abandonado debaixo da jabuticabeira e as galinhas empoleiradas sobre o capô e a capota do veículo.

No quintal da casa, havia um homem cortando lenha à vigorosas machadadas. Porém o homem não estava lá por completo. Ao menos sua cabeça não estava atada ao corpo pelas vértebras cervicais na base do crânio conforme o convencional. Era um homem incompleto no sentido mais próprio e amplo da palavra. Ia apenas com o corpo até o ápice do pescoço. Porém, muito limpo, não se via nele o menor vestígio de sangue extravasado. Era, por assim dizer, um ser perfeitamente ajustado e saudável, á sua maneira incomum. Mas a cabeça do homem é que era o grande enigma da incomum situação. Onde afinal andaria uma cabeça desprovida de um corpo apto à sua locomoção era intrigante o bastante para corroer as entranhas de toda e qualquer alma, ainda que não fosse das mais curiosas.

O corpo sem cabeça cortava um toco, deitava o cabo do machado sobre o ombro e seguia a passos indecisos, tateando o solo em seu redor na busca de mais alguma acha de lenha. Era aflitivo perceber que durante algum tempo fugia-lhe completamente a mínima noção da próxima ação a ser executada. Estacava. Girava o braço livre do machado volvendo a parte anterior do tórax como se procurasse por algo que esquecera. Certamente se apercebera da falta da cabeça, que havia ficado alguns metros atrás. Aquilo incomodava a quem visse. Um corpo sem cabeça e indo em frente e indeciso, coisa mais horrível. Mas é o que acontecia. Era um homem sem cabeça e uma cabeça certamente perdida por aí sem um corpo. Cada qual em um ponto distinto.

Claro que o corpo, como sendo provido de suas pernas, levava certa vantagem sobre a cabeça sem membros. Mais tarde e com um pouco mais de observação, ficou claro como funcionava a sociedade dicotômica daquelas personagens surpreendentes: a cabeça era depositada sobre alguma pedra ou qualquer outra superfície plana e ficava ali parada, esquecida no tempo, mergulhada em suas próprias ideias, contemplativa, filosofando, achando certa graça ou falta de graça em tudo a seu redor. A cabeça sempre se aborrecia das ações inopinadamente tomadas pelo corpo. No entanto o que mais a incomodava, chegando até mesmo a enfurecê-la, eram os ataques das formigas cabeçudas. Considerava aquilo, além de doloroso, humilhante.  Punha-se aos gritos pelo corpo surdo que, de algum modo sensorial ou extra sensorial, sempre pressentia a cabeça em apuros.

Normando nem bem consentira da existência daquela dicotomia e já era assaltado pela figura que surgia subindo pela estreita estrada de chão. Um homem de paletó preto, monóculo e chapéu, e barba longa, e bigode com guias elevadas e curvas. Conversava sozinho e disse que tinha apenas 32 anos e que já era tido como um sábio, embora fosse apenas lido e curioso. Disse, bem lá atrás, e seguiu caminho. Encontrou o corpo solitário em nova tarefa diferente do manuseio da lenha. Ele roçava um pedaço de terra e arrancava do chão algumas ramas de mandioca. Aquilo era um sinal de que o corpo certamente sentia fome.

O homem estacou (sim, novamente o termo “estacou”, pois sempre prefiro esta palavra à palavra “parou”; parece algo mais correto e relevante), digo o tal tido como sábio, estacou diante do corpo e fez um cumprimento com o chapéu; algo que lembrou uma leve reverência. O corpo sequer dignou-se a interromper sua faina. Tinha muita fome. Normando retribuiu ao cumprimento.

Civilizados por civilizados, cada qual age conforme ache conveniente. Mas o corpo não era de todo néscio. Seguia seus instintos básicos de sobrevivência e aquilo não deixava de ser, de certa forma, um modo inteligente de garantir a existência; ou seja, uma forma ainda que rudimentar e primitiva.

Dado certo momento, não sem ser alvo da perplexidade do sujeito tido como sábio, o corpo interrompeu a colheita da mandioca, enxugou o suor do pescoço e seguiu pelo caminho que ainda tinha sobre sua superfície poeirenta as pegadas frescas do suposto sábio precoce.

Passados poucos minutos, tempo suficiente apenas para sumir da vista do visitante e ressurgir, vinha subindo o estreito caminho de terra batida o corpo com a cabeça debaixo do braço. Buscou então a sombra de uma figueira e sobre o côncavo de uma das maiores ramas das grandes raízes da árvore, à sombra, depositou sua companheira pensante.

Era uma bela cabeça. Tinha o porte de uma abóbora moranga média madura e a forma de uma pequena e jovem jaca. Eu diria não ter nem mais nem menos do que 40 anos de vida. Era um tanto quanto calva. Na face, trazia uma barba principiada a grisalha, contudo sobre a cabeça os brancos fossem ainda bem raros.

A cabeça não tinha a mesma ausência de modos do corpo. Era polida em seus modos. E tão logo avistou o visitante e Normando, os saudou com um sonoro e firme “Boa tarde, senhores!”, ao que o visitante, seguido pelo paranormal, retribui numa mistura de perplexidade e respeito. Naquela tarde de sábado, era a primeira vez que o homem tido como sábio tinha consciência de estar diante da dicotomia entre corpo e cabeça. Uma experiência nova e aparentemente rara para ele. Já para Normando a coisa não surpreendia muito.

quinta-feira, setembro 25, 2014

QUEM TEM TATUAGEM É SUSPEITO DE ARRUAÇA E LIBERTINAGENS

Um parafuso saindo de um casulo, como se fosse um bicho da seda, porém não. Um parafuso. Sim. A criatura metamorfoseada sobre a escápula do rapaz era a peça usada para prender partes em partes e nada tinha da sutileza de uma transformação biológica. Uma das tatuagens mais enigmáticas que já avistei.

O leitor que por acaso vá correndo os olhos descontraídos por sua linha do tempo e se depare com meu título acima certamente será tomado dos pés à cabeça por um brusco sobressalto, um repelão, um solavanco. Afinal, quem na atualidade é capaz de ignorar que a tatuagem deixou de ser um estigma dos tempos passados para passar à modinha da ocasião? Atualmente, conforme já disse em outro texto, quem não possui nenhuma tatuagem é que é diferente, por assim dizer.

Mas a coisa não funciona bem assim em todos os ermos situados abaixo da linha do equador. Há ainda os nascidos pouco antes ou pouco depois da segunda metade do século que expirou e que fazem questão de evitar papo com pessoas que exponham as marcas artificiais impressas na pele e pagas em diversas parcelas no cartão de crédito.

Em lugares aonde o tórax vai nu e apenas a parte debaixo da vestimenta é de uso obrigatório, lugares como saunas, por exemplo, não há como os tatuados omitirem do seu dorso, dos membros ou do pescoço suas marcas encomendadas.

Arrependidos ou satisfeitos são obrigados a exibir seus tribais, suas caveiras mexicanas, seus nomes de familiares, parentes e amigos, suas rosas dentadas e serpentes coloridas, seus beija-flores e aranhas, golfinhos e distintivos de clubes, e coisas indefiníveis, e coisas indecifráveis, e outras coisas indizíveis até.

Aos olhos do bom ancião conservador, aquele pobre sujeito marcado por vontade própria não merece confiança alguma. Como não podem impedi-lo de entrar nos lugares públicos, esperam que ao menos eles, os próprios tatuados, tenham a consciência e o bom siso de não tentar ingresso nos assuntos que circulam nas rodas de conversa das gentes de bem. Deveriam antes permanecer mudos e arrependidos, reflexivos.

Mas eu presenciei o conflito moral e agora posso tentar trazê-lo à luz (ou treva) da rede social. Ocorreu numa manhã de sábado, no salão de estética. O ancião fazia uma limpeza de pele, enquanto o rapaz tatuado fazia uma vigorosa esfoliação geral deixando à mostra suas costas com o tal parafuso recém saído do casulo.

Naquela ocasião, havia outros dois clientes no mesmo horário. Cada qual travava um assunto. Todos seguiam animados em uma conversa comum. O tatuado bem que tentava se entrosar, porém, toda vez que tomava a palavra, a conversa morria subitamente e os demais clientes apenas entreolhavam-se em uma concordância plena e silenciosa de censura.

E não era porque o tatuado se saísse mal na conversação não. Falavam de carro, conhecia até os motores. Falavam de pessoas, conhecia todas. Falavam de pescaria, conhecia os rios, peixes e lugares. Mas aquela tatuagem... Aquilo incomodava. Na visão do ancião, aquilo, além de ser uma marca grotesca, era também uma criatura repulsiva. A tatuagem e o rapaz compunham uma simbiose, e que deveria ficar em silêncio.

domingo, setembro 14, 2014

CASO SEJA ELEITO

Parecia o anúncio de um grande espetáculo circense, mas não era. Um cordão composto por carros estampados com legendas, cores e rostos sorridentes. Como sorriem esses homens! A vida é bela, Benigni! Carros de som estrondam o cancioneiro da moda com paródias que superam o horror do mau gosto das canções originais de apenas um refrão e uma onomatopéia. Caminhões e caminhonetes densamente tripulados desfilam em um contínuo teste de paciência dos amortecedores. Pessoas indo a pé, compondo o cortejo, empunham bandeiras com cores uniformes, trajam camisetas impressas com os mesmos rostos sorridentes estampados nos carros e nas bandeiras.

O sol está ardente e a principal avenida da cidade repleta pelas gentes. Transeuntes atordoados e, ao mesmo tempo, curiosos, bem como costuma ser comum nos ermos mais pacatos em circunstâncias normais. O ir e vir de um lado a outro pelas calçadas do comércio do centro da cidade é constante.

A turba tumultuosa chama a atenção pelo alarido que impõe de modo imperioso. Um homem vinha pelo meio da rua transitando no nervo do séquito com os braços erguidos e gesticulando como um maestro regente de toda aquela balburdia insana. O adversário surgia a poucos metros e cumprindo o mesmo trajeto, com um tropel equivalente e algo progressivamente mais barulhento, efeito Doppler, talvez.

Embora se aproximassem bastante as turbas, não se encontrariam jamais. Feito água e óleo que seguem uma substância após a outra por meio de um estreito canal, seguiam-se e repeliam-se, propeliam-se e continham-se, porém, jamais mesclavam suas cores e representações.

Através daquela nefasta folia de candidatos a reis, os postulantes aos cargos públicos digladiavam pelo voto dos populares. Queriam com aquilo provar o merecimento da confiança das gentes e conquistar os acentos nas cobiçadas cadeiras que representam aquele mesmo povo que assisti a tudo com um misto de curiosidade, espanto, indiferença e aborrecimento.

Senhoras passam irritadas e queixosas do barulho inoportuno. Dentro dos estabelecimentos, atendentes e clientes reclamam da dificuldade de comunicação das transações de consumo. O vendedor da loja de calçados diz que aquilo é uma encheção de saco. Um senhor esfaimado pede uma esfirra e um guaraná, porém recebe uma coxinha e uma cerveja. A criança chora assustada e a mãe, irritada, chacoalha a pobre coitada ao invés de afagá-la.

Por outro lado, não obstante, a proposta é de um grande festejo, uma enorme farra democrática. É como se a administração pública brasileira só tivesse o que festejar e o eleitor motivos de sobra para votar cantando e saltitando em seus espetaculares candidatos da vez. Ora, se um pobre diabo entra dançando e cantando para votar, é evidente que será tomado por louco pelos que aguardam pela vez na fila. Porém as gentes que pedem o voto daqueles pobres eleitores nestes exatos e supracitados termos não respondem por loucas jamais e sempre podem recorrer das caluniosas denúncias de improbidade.

Se eu não tivesse já sido inteirado de que a terra é esférica, suspeitaria seriamente de que o mundo está de cabeça para baixo. O bom senso é falta de educação e rabugice. Refugio-me numa loja sob pretexto de comprar um short de corrida. O dono da loja é um velho conhecido meu. Nem bem o cumprimento e já ouço sua queixa do tumulto que passa diante seu estabelecimento. Ele diz que é incrível, mas a cada momento aquela gente eleva mais e mais o som a fim de impor-se mutuamente, e que o ouvido dele não é pinico, e que aquilo é, bem, deixa pra lá, quer saber quanto custa o short?

Deixo o centro, porém o carnaval segue manhã a fora. Enquanto me afasto, vejo gente conhecida e reconhecidamente desprovida de qualquer inclinação política e ou ideologia partidária empunhando uma bandeira a fim de complementar o ordenado. Já dentro do carro, penso que cada um faz o que pode e que o espetáculo não pode parar.

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