Pela manhã, o sol resplandece evaporando as boêmias gotas remanescentes do sereno noturno. Pessoas vão em seus ires e vires por algo que algum dia não fará todo sentido, ou muito sentido, ou sentido algum. A casa de Bob/Rock/Blues acorda com o despertador do celular do filho, praticamente madrugador, o primeiro a levantar-se. Ele toma café e folheia o jornal antes de partir para o trabalho. Vê Dorotéia chegar abrindo portões e portas com dificuldade devido à bicicleta que trás ao seu lado pelo guidão. Ela tem as chaves. E ela só se sentará para tomar café após ter dado o banho em Bob/Rock e lhe preparado para receber a fisioterapeuta que deveria chegar às sete. O cão Kuduro dorme no corredor. Desperta com Dorotéia abrindo a primeira fechadura, a do portão da rua. Ele não late. E se rosna, é prontamente advertido pelo filho de Bob/Rock, doutor Olavo Passo. Bob/Rock/Blues não gosta de receber ajuda para tudo que faz. É contragosto que aceita Dorotéia lhe conduzir da cama à cadeira de banho e desta ao boxe. Sim, antes passa pelo vaso sanitário. ‘É a pior parte’, diz Bob/Rock. Melissa, a fisioterapeuta, chega quase sempre alguns minutos atrasada para o horário previamente combinado. Kuduro parece saber das horas, ou talvez saiba algo sobre a ansiedade do dono que não sabe esperar minutos sequer. Se Melissa chega dentro do horário, Kuduro vai até ela, cheira os sapatos, olha com um olhar lânguido canino e desaparece para dentro do quarto do dono, para as profundezas debaixo da cama, sua segunda casinha. E o cão usa cinco minutos de tolerância. Talvez tenha senso de justiça e certa complacência patronal. Mas se Melissa chega mais de cinco minutos atrasada, Kuduro torna-se indócil, feroz. Late vociferante com as presas à mostra, investe intermitentemente em direção à moça, rosna com ódio no olhar semi-coberto por pelos grisalhos. Não chega a ir a termo, mas intimida.
Naquela fatídica manhã, a fisioterapeuta havia chegado com treze minutos de atraso. Melissa era alérgica a tudo e algo mais. Bob/Rock/Blues temia o ar ou o vento como se temesse à própria morte. Dizia que um vento frio poderia ceifá-lo antes do tempo. Impedia Dorotéia de deixar qualquer porta, janela, ou escotilha aberta em qualquer parte da casa. Kuduro chacoalhava o corpo e lançava seus pelos, ácaros e microorganismos no bafo viciado das respirações da noite da véspera. O sol começava a esquentar fora da casa e abafar ainda mais dentro do pequeno quarto. Os raios fulgidos trespassavam o vidro da janela evidenciando a espetacular coreografia dos filamentos de poeira na órbita do cômodo. Não era possível sequer a moça desculpar-se pelo atraso, Kuduro, naquela manhã, parecia ser capaz de matá-la, tamanha sua fúria. Dorotéia veio e abriu a porta, tocou o cão, ele encolheu-se embaixo da cama. A enfermeira aproveitou para desforrar alguma mágoa antiga e socou-lhe com vassouradas lançadas a esmo para debaixo do estrado. O bicho não emitiu qualquer som, apenas quietou. Dorotéia achou melhor deixar a porta aberta para o caso da fera reanimar. Bob/Rock pediu outra blusa. Foi atendido. Iniciaram a sessão. Melissa não percebeu quando Kuduro esgueirou-se de debaixo da cama para o corredor. A sessão estava pelo meio, quando Melissa começou a sentir um forte cheiro de cigarro. Bob/Rock também se queixou da fumaça e alertou ‘Tem alguém fumando embaixo da cama’. Melissa riu do absurdo, mas Bob/Rock insistiu e não gostou de a moça ter rido ‘Eu já disse, tem alguém fumando embaixo desse inferno dessa cama!’. Melissa abaixou-se como que para tirar qualquer dúvida a fim de quietar o cliente e não contrariá-lo sobremodo. Foi com espanto e terror que viu a bituca de cigarro, provavelmente encontrada na rua, na boca de Kuduro. Ergueu o rosto pálido e com os olhos azuis estatelados gaguejou ‘Seu Bob/Rock, o Kuduro tá com um cigarro aceso na boca’. Bob/Rock/Blues riu com o cinismo de sua dentadura alva e larga, e tranquilizou a moça ‘É. Mas ele não traga.’