Amigos

domingo, março 11, 2012

O INFERNO SEGUNDO CONSTA

Agora e sempre, toda essa gente na hora e no lugar do costume pra dizer e fazer saber as mesmas coisas do costume. Elas andam, param, pensam, dirigem e tudo transcorre num ir e vir costumeiro e, de certa forma, improvisado.

E eu, não sendo isento ou diferente ou indiferente ao costume, aqui estou. Preso dentro desta caixa de vidros, plásticos e metais que é meu pequeno veículo. Uma nave rastejante sobre o asfalto. Uma lesma que ao rastejar, ao invés de visco, deixa uma quase sempre imperceptível marca de borracha impressa na superfície do solo por onde passa.

E em horário de trabalho eu trabalho. Sou um trabalhador honesto e honrado. Todavia confesso que em meu tempo de descanso eu cometo o ato vil de escrever e contar coisas que deveriam muitas vezes perecer no imaginário. Computador? Somente depois das dezoito ou dezenove horas. Neste teclado não ponho os dedos antes que todas as minhas tarefas sejam vencidas. Mas hoje fujo à regra e cometo uma exceção. Não se trata simplesmente de um rascunho imagético, uma experiência quase sobrenatural, mas sim de um fenômeno da natureza do universo que suplanta e engole a limitada natureza humana. É uma situação extrema.

Você que me lê, o caos bate à sua porta e rompe através dos portais. Venho no meio da tarde trazer a epístola que anuncia o fim do mundo que já começou sei lá quando e só agora eu fiz perceber. O apocalipse previsto por João. Não soaram trombetas inaugurais para cada qual tentar com suas unhas e dentes uma oração redentora de todos os pecados condenatórios. Aqui estamos compartilhando de minha perplexidade óbvia e ululante.

E era pra ser apenas mais uma tarde quente de trabalho como muitas que aqui incendeiam enquanto vamos ocupados de mais com nossos afazeres. E bem no meio da tarde, num horário que as imagens a céu aberto adquirem uma coloração amarelada como se víssemos tudo através de um negativo de foto, um efeito sépia, eu vi o Nefasto. O calor atingiu níveis tão insuportáveis a nós humanos que outras criaturas se sentiram libertas para circular à luz do dia e por entre nós tratar de seus interesses hediondos, odientos e odiosos. E nós, que trabalhamos sob a opressão dos poderosos grilhões do calor a envolver nossos punhos e tornozelos, sabemos que este tipo de acontecimento amiúde é o prenúncio do fim dos tempos, o sinal, o prefácio apocalíptico.

Indo daqui ali, e ‘daqui ali’ você que escreve sabe que nunca vem ao caso, eu fiz uma parada diante do semáforo aceso em vermelho como brasa. Levemente sufocado, sem ligar o ar condicionado do carro da empresa, pois sou alérgico (e eu não estaria pictoricamente detalhando tais coisas se não fosse por querer, de certa forma, ajudar os que me lêem a enxergarem com clareza a gravidade do fato). E foi nestas circunstâncias que, ao acender o sinal verde, sem se importar com os carros engrenados e já acelerando em progressão, Ele saltou diante de todos e atravessou à passo largo. Um forte cheiro nauseabundo de fumo e enxofre se desprendia de sua capa e roupas pretas invadindo o interior dos carros e dos estabelecimentos comerciais imediatos. As faces se contorciam ao inalar o odor ácido. A imagem encheu-me de assombro e terror. O Diabo atravessou a frente de meu carro e eu quase o atropelei. Deu um soco no capô, encarou-me, pude ver seus olhos vermelhos e a origem de seus córneos frontais. Seguiu rumo á margem oposta. Entrou por uma loja onde à porta se via uma vendedora muito bem equipada ociosa, mascando chicletes e escorada no batente. Deu-lhe um selinho e entrou. A moça entrou logo atrás. Eu segui com o carro e não vi mais nada. Paro na primeira porta de lan house e anuncio o fim que está próximo. Esta tarde fez o tal calor dos Diabos.

Obs. O meu nome é Constantino Bonaparte e sou um pseudônimo do autor do blog, mas podem me chamar de Consta.

domingo, março 04, 2012

NAVEGANTES [07.01.2012] [07:16]

[07:16] Faz uma belíssima manhã ensolarada. Acordo cedo, por volta das sete. Fico um tempo deitado tentando realinhar minhas articulações, ossos e músculos. A casa se move lentamente, delicadamente, cuidadosamente, aos sussurros. O cheiro de café perfuma a copa e a cozinha. Mais suavemente, invade também os outros cômodos. Esqueci os chinelos em casa, – eu sabia que estava esquecendo mais algo - arranjo outro par. Vou até a sala onde ligo a televisão e o videogame da Sega que há na casa. ELA delega tarefas a todos. Jogo minha terceira partida de COLUMNS e vou ver qual é a minha incumbência.

A família que está na casa, e partirá logo mais, ainda não despertou. Pouco depois, ouço gritos de agonia no quarto do final do corredor. Ficamos todos sobressaltados com o som, surpresos. Não sabemos o que está acontecendo. Esperamos o que há de vir na seqüência. Eis que a porta se abre. Sabemos que um casal e um filho estão no apartamento. Fomos avisados pela dona da locadora. Sabemos também que, ao chegarmos, eles partirão nos deixando no exato dia que será o nosso primeiro dia de praia.

Uma mulher pequena, magra e de traços rudes, aparentando mais de sessenta anos, envolta em um roupão preto de cetim com detalhes florais púrpura, rompe pela porta e nos cumprimenta estendendo a mão, sorrindo timidamente, desejando bom dia a todos, um a um, se dizendo Maria, e se desculpando pelo incidente dos gritos do marido. “O Zé já acorda gritando”, ela diz toda desconcertada. E se apresenta um pouco mais. E pergunta se fizemos boa viagem, se dormimos bem. E pede licença para usar a cozinha para preparar a dieta do marido. Então tomamos conhecimento de que o Zé é enfermo e se alimenta via sonda nasoenteral: “Uma mangueirinha que vai do nariz ao duodeno”, ela explica. Zé é magro e possui grandes olhos pretos arregalados. Grita. Não conversa. Parece irritado e assustado.

domingo, fevereiro 26, 2012

RODOVIA CÂNDIDO PORTINARI

Um soldado na pista sinaliza para que os carros usem somente a faixa da direita e reduzam a velocidade. “Vai de vagarinho. De vagarinho. Por aqui!”: diz o soldado. Os condutores obedecem, os carros se alinham. O sol do meio dia é forte. São muitos os veículos que trafegam naquele momento no trecho de pista urbanizada de lado a lado. A periferia encontra os cantos e se instala. Casas populares abrigam famílias, rendem votos, ocupam o perímetro urbano até à beira da pista. Sigo pela rodovia. A ambulância pisca suas luzes rotatórias logo à diante. Viaturas da polícia ocupam o acostamento. O povo lota a passarela à frente e os arredores da cena. Povo de todas as cores, tamanhos e formas. Povo de vestido longo e cabelo amarrado, é crente. Povo jovem e forte, sem camisa e com o peito à mostra, é mano. Povo que para a bicicleta e encosta a magrela no quadril enquanto olha, é curioso. Povo que cruza os braços enquanto observa, é maioria.

Os carros seguem cada vez mais lentos e enfileirados. Ocupam meia pista, conforme fora ordenado. Logo passarei pelo foco principal da cena. É inevitável. Mas posso desviar o rosto e olhar para o lado, não olhar o centro da movimentação, não carregar para casa a culpa por uma curiosidade mórbida. E no mais, venho de um lugar onde tive um momento muito agradável. Comprei uma bomboniere. A recheei com balas e bombons. Embrulhei tudo em papel de ceda rosa e celofane transparente. A moça fechou o embrulho com um laço de fita vermelha. Estou fechando uma manhã de levezas.

Não preciso olhar a tragédia que sinto a cada metro avançado. Contudo a tragédia se impõe. Mulheres choram. Uma é delgada, chora amparada por outra que é obesa e mais baixa. Ambas não são brancas. Ambas não são amarelas nem pardas. Ambas não são negras. São pessoas pretas. Sobre elas paira uma sombra preta fosca que lhes tragara toda e qualquer luz que pudessem refletir na manhã resplandecente. A sombra lhes apagou as feições, lhes roubou a nitidez dos traços. Para elas não há sol, pois é dia de tragédia.

E o que você tem a ver com isso? Com isso tudo? Com essa tragédia anunciada aos verbetes, aos goles, de pouco em pouco? Você nem mesmo comprou os bombons que eu comprei para dar de presente. Você não comeu o churro que eu comi, e nem tomou o sorvete misto com forte sabor de leite que eu tomei. Isso não é justo. Compartilho a amargura, a desgraça alheia, mas não lhe ofereço das doçuras. Pare de ler essa coisa agora. Vá se divertir. Aqui tudo só vai piorando enquanto o meu carro progride e para, progride e para.

A comunidade [e comunidade é coisa de periferia, não se chama comunidade o povo que se agrega no bairro de classe média] se aglomera para ver o cenário de choro marginal à pista. As mulheres pretas choram pelo homem que vem deitado dentro de uma caixa plástica cor de laranja transportada por dois sujeitos do resgate e dois prováveis voluntários. Ele tem cabelos crespos que pedem por corte. Ele tem barba cheia e é magro. Não é branco e nem negro. Não é amarelo e nem pardo. Ele é preto fosco como a noite sem estrelas, como as mulheres que lhe choram a desventura daquela manhã ensolarada. Nele incide a sombra que bloqueia o brilho do dia. E é estranha aquela cor de noite sem estrelas. Aquela cor sem cor e sem alegria. Seus pés estão descalços. E as solas de seus pés são brancas como velas. Ele não tem sandálias. Não tem sandálias e parece nem ter vida. Chico Buarque diria que ele morreu na contra mão atrapalhando o trânsito? Talvez. Mas seria precipitação juvenil. Chico, ao dizer isso, não atinou que quem morre na contra mão também morre na mão. Tudo é uma questão de deslocamento, de trânsito. Mas aquele homem pode ter morrido de tiro. Eu não vi sangue, mas àquela distância, aquela falta de cores, aquela sombra. Nada favorecia a observação de detalhes confiáveis. Pode ser que estivesse envolvido com narcotraficantes e, mesmo sem perceber, tenha pisado na bola de modo injustificável e irreversível. Essa gente do tráfico é muito rigorosa. Pisada na bola é fato, resolvem no tiro. Tiram a vida do malandro e fim. Mas quem é que sabe se o sujeito era malandro de fato? Vai que fosse um pai de família em final de expediente de sábado. Sábado o trampo termina próximo à hora do almoço e o sujeito vai tomar umas geladas para refrescar as idéias pagãs. Vai imaginar mulheres ensaboadas brincando em uma banheira em algum lugar do mundo. Vai falar que seu time, aquele time que mais dissimula do que joga, aquele time que é na verdade uma grande jogada de marketing, vai ser o campeão da galáxia. E vai que o sujeito nem tá morto de fato. Vai que as mulheres pretas choram e não se aproximam por puro terror da comunidade que lhes olha e devora a cena com os olhos. Vai que não se aproximam por estarem inibidas pela passagem lenta e curiosa de tantos carros. Um sujeito de bermuda e camiseta tira fotos. E o que aquele cara pretende fazer com as fotos do homem preto e aparentemente inerte na caixa laranja plástica? Será um jornalista que ia passando, ou seria um facebookeiro preparando material para compartilhar com seus amigos de rede? Enquanto isso a fila anda, o carro segue. Transferem o homem para uma maca. Talvez ainda tenha vida. Porém ninguém lhe acode. Parece uma causa perdida. Não são feitas manobras que o reanimem. Não lhe é oferecida nenhuma máscara de oxigênio em cilindro. Os homens do resgate não aparentam pressa. Executam suas tarefas. Apenas isso. O trânsito aos poucos vai desafogando. É melhor desligar o pisca alerta. Ainda tenho alguns quilômetros de pista para chegar em casa. O sol continua quente. Sigo viagem. As mulheres pretas ficam para trás. Elas derramam lágrimas no asfalto. O homem preto, inerte, fica para trás. Toda a aglomeração vai diminuindo no retrovisor até desaparecer por completo numa alteração geográfica. A comunidade começa a dispersar. Cada um tem uma história para contar. Todos tentam tecer histórias de valentia e conformidade diante dos fatos da vida. Todos estão prontos para ir almoçar e compartilhar os fatos. Eu preciso chegar em casa e tomar um banho frio. Minha família me abraçará. Serei festejado. Hoje é dia de alegria. Eu trago presentes.









quinta-feira, fevereiro 23, 2012

AGATHA CHRISTIE

O apartamento é o mesmo de outras vezes. É a quarta vez que empreendemos essa longa viagem. Um inverno e três verões. Uma família ocupa o local antes de chegarmos. São cinco pessoas. Uma mãe e dois casais de filhos com longa distância de idade entre cada casal. Encontro na sala, sobre o raque, o exemplar ASSASSINATO NO CAMPO DE GOLFE. Alguém está lendo Agatha Christie. Dizem que quem lê Agatha é viciado na romancista policial britânica que só perde para a Bíblia e Shakespeare em número de traduções pelo mundo. Eu não leio. Sei que ela é venerada por tantos, mas ainda não tive um momento a sós com a Duquesa da Morte. Fico curioso, mas já escolhi minha leitura para essa viagem. Três livros trago em minha bagagem, os quais eu penso ainda não ser tempo de revelar. Poirot investiga os casos de Agatha, a família dorme para partir no dia seguinte, e eu também preciso dormir pelo menos oito horas bem dormidas.

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