Amigos

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

ON THE ROAD [06.01.2012]

[13:32] Estamos na Rodovia dos Bandeirantes, km 72. Faz sol pra caramba. O Princesão ficaria horrorizado se visse o calor que estamos passando. Quatro horas e vinte minutos de viagem, e é nossa primeira parada. Paramos em um lugar um tanto curioso. Uma placa diz que é o único shopping aéreo da América Latina [e eu acho interessante essas coisas de “O maior da América Latina”, “O maior da América do Sul”, “O maior do mundo”. Neste exato momento, por exemplo, eu sou o único cara da América Latina que está escrevendo este texto; e isso eu digo pra conferir grandiosidade à coisa]. O local em questão é um conjunto comercial cujo alicerce é um viaduto que passa por sobre a Rodovia dos Bandeirantes, ficando assim, de certa forma, suspenso sobre a rodovia. Curioso mesmo é urinar em um banheiro aéreo. Você, enquanto urina, avista os carros que passam por debaixo do viaduto e vê com bastante nitidez seus ocupantes. Se você já passou ali embaixo, certamente foi observado por um viajante que urinava por sobre o seu carro. Estranho isso!

Saímos do nosso banheiro, e elas ainda estavam no feminino [é impressionante, mas mulheres gastam três vezes mais tempo em banheiros do que nós homens; quando questionadas, justificam-se pela anatomia; eu, sinceramente, não sei se é pra tanto; mas esqueça isso que eu disse; elas odeiam ser questionadas sobre este tipo de assunto]. E do tempo de nossas vidas que aguardamos por elas, o que fazer? Eu procuro uma banca e entro pra me perder nas capas das revistas e nos títulos dos best sellers do ano presente e do ano que passou que jamais li, e é como se os conhecesse de tanto ouvir divulgações sobre eles.

E seguimos nosso caminho...

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

ITUVERAVA - GUARÁ [06.01.2012]

[07:28] É hora de escolher um ou dois livros para levar na viagem (na verdade já tenho alguns fortes candidatos). Experimentei um prazer que somente quem está montando uma pequena biblioteca há mais de cinco anos pode entender. Ainda não contei quantos títulos possuo, mas são muitos. Ganhei muitos livros e, além disso, deixei de comprar bastante roupa e calçado para ter vários dos títulos que possuo.

Viajamos em quatro pessoas. Somos dois adultos e duas crianças. Dispomos de um carro popular. Temos que estudar bem o preparo da bagagem e a acomodação da mesma para não perdermos nosso delicado conforto. Penso, calculo, penso mais um pouco, calculo mais um tanto. Não é muito o espaço de que dispomos. Tudo tem que caber no porta malas. Na frente, irá apenas o que comeremos e beberemos durante o longo percurso. Acabo de lembrar de um amigo meu. Tremenda figura o Princesão! O cara não entende como conseguimos viajar por mais de mil quilômetros à luz do dia sem termos um ar condicionado no carro. Fica perplexo o cara. Uma figura o Princesão! Pensa que ar condicionado é item de fábrica de todo e qualquer carro, ou que dinheiro surge no bolso de uma calça mágica.


[07:33] Veridiana está novamente gritando pela mãe. Agora é do quarto que ela grita (não há um intervalo de três minutos entre cada sessão de gritos dela). Deve estar em dificuldades com a bagagem. Agora ela grita e eu grito para que ela não grite. A casa está convulsiva em um divertido tumulto de saída. Parece que estamos evacuando uma cidade por conta de uma erupção vulcânica iminente.


[08:35] E ainda estamos nos últimos preparativos para partir. Todos prontos, bagagens no porta malas, porta malas quanticamente abarrotado. Pronto! E acabo de me lembrar que preciso calibrar o estepe. Não tirarei essa bagagem toda daí nem por decreto. Não sei como está o estepe, mas me fio na sorte de que ele estará legal se precisarmos, que a calibragem de não me lembro quando bastará. E para não desconfiar da sorte, acredito piamente que não precisaremos do estepe durante toda a viagem.


[09:00] Estou pegando os livros que escolhi. E adianto, quase não li. Contudo fui muito feliz na escolha dos livros. Agora procuro por minhas canetas pretas com as quais escreverei meu diário de viagem. Nunca havia escrito um em tempo real. Eu recomendo. Recomendo muito mesmo. Não encontro minhas canetas pretas. A arte de perder canetas pretas dentro de casa eu domino. Ninguém sabe ninguém viu. Parece um milagre. Um ninja deve tê-las pego. Só pode.


[09:10] E com duas horas de atraso, partimos para um fantástico mundo de mil quilômetros de pista e um sol incandescente durante grande parte do trajeto. Duas horas mais sedo seriam duas horas mais frescas. Não sei se faria diferença no final de tudo, mas bem que eu queria já ter rodado uns duzentos quilômetros quando o sol de causar vertigem estivesse incidindo como incidi agora.


[09:15] Passamos por Guará e noto que há muitos urubus pousados em mourões de cerca em um terreno baldio bem na entrada da cidade. Acho esses bichos fantásticos! Peço desculpas, mas estaciono o carro e tiro as primeiras fotos da viagem. Estrano, eu sei. Os urubus posam para mim.

domingo, janeiro 29, 2012

GEORGE E CAMILA

Ela dizia coisas que ninguém queria ouvir. Coisas que ninguém ouvia de fato. Passava o final de semana inteirinho dentro do apartamento, dentro do quarto. E quando saía à rua, não havia ninguém que dissesse ter sentido sua falta. Minto. Apenas um garoto sentia sua ausência. Apenas um garoto queria ouvir suas narrativas, suas lamúrias, suas decepções, suas agruras e suas amarguras. Era George o garoto que a ouvia. Somente George parava para ouvi-la. O garoto George. Ao amigo ela pedia um conselho, um dólar, um abraço e um tempo. O garoto não se importava com suas contradições e dizia que queria mais era vê-la feliz e ser feliz também. Correr sem ter para onde ir, ir sem ter aonde chegar. Era um espírito livre o garoto George. Ela chorava. Dizia que por ser gorda o mundo não a amava, os rapazes não a queriam e a felicidade era um sonho inatingível. Ela chorava e chorava. George dizia que tudo aquilo era uma bobagem e que um dia ela veria o amor em cores límpidas e translúcidas. Oferecia-lhe seu ombro frágil de adolescente. George acreditava no amor e nas promessas dos amantes. Queria ensinar sonhos na universidade da vida, esse era o seu sonho. Tanto insistiu com sua discípula primeira e única que a convenceu da verossimilhança do amor.  Ela acreditou no amor que George lhe pintou. Ela agradeceu dizendo que sua dívida de gratidão para com o amigo só fazia crescer. Ela colocou quantos piercings pode, fez quantas tatuagens lhe coube. Pintou os cabelos em vermelho como fogo e passou a usar couro. Eles conversavam sobre livros e amores quando os encontrei num final de tarde de frente para o mar de Navegantes. E depois disso nunca mais os vi nessa vida. E se alguém me pergunta sobre Navegantes, mesmo que eu não diga, ocorre-me imediatamente George e Camila.

sábado, dezembro 31, 2011

O CÍNICO

“Você tá falando sério que nunca ouviu nada sobre Diógenes, a lenda Diógenes, o cínico, o filósofo, o grego? O discípulo de Antístenes, que foi discípulo de Sócrates, não conhece mesmo? Francamente, você é um fisioterapeuta. Um doutor! Ou não é doutor o fisioterapeuta? Então. Doutor fisioterapeuta! Deveria saber, oras. O Tonho! Tonho! É surdo. Por favor, chame aqui aquele safado do Antonio José, o cínico. Rá, Rá, Rá, Rá. Antonio José, o cínico. Esse você conhece? Pois é, chame aquele ordinário que eu quero dá uma mijada e ele consumiu com o meu negócio de mijar. Eu esqueço o nome daquele troço. Papagaio! Isso! Levou o papagaio pra lavar lá fora e até agora não trouxe de volta. Malandro. Aí ele! O Tonho, cadê o papagaio? Então vá logo que eu to apertado! Como eu ia dizendo, Diógenes foi um filósofo grego. Dizem que viveu entre 413 e 323 a.C.. Foi um sujeito interessante até. A filosofia dele, a qual ele seguia, a escola cínica, desprezava tudo quanto era riqueza, conforto, convenção. Obedecia, de certa forma, à natureza. Ele andava descalço, dormia debaixo das pontes, comia o que lhe dessem. Se embrulhava numa capa imunda, velha, furada e saía pela cidade. Cadê o Tonho que não vem nunca com esse papagaio? Vou mijar nas calças. Faz um favor, vai lá pra mim e vê se o Tonho tá fabricando o negócio. Aí Tonho, eu já tinha mandado ver se você tinha morrido. Até que em fim, né? Ahhh! Como é bom! Que alívio! Despreze ali no vaso pra mim, Tonho. Toma. Mas voltando no que eu tava te falando; sabe, conta o anedótico que parte do tempo Diógenes morava numa barrica. Essas barricas grandes. Isso. Parecida com um barril. A propósito, eu já te contei a história do casal de Igarapaba que não podia engravidar e foi num benzedor que colocou a mulher de cabeça e tronco dentro duma barrica só com as pernas pra fora? Não?! Rá, Rá, Rá, Rá. Essa é boa história também! Uma hora eu te conto. Me lembre de te contar. Mas então, a barrica. A barrica era tipo dum barril grande. Isso! Um tonel. Muito bem! Essa barrica ficou famosa na Grécia inteira... Famosa também ficou a história do encontro que Alexandre, o grande, teve com o cínico, em Corinto. Do Alexandre, o grande, você já ouviu falar? Claro que já. Alexandre na ocasião teria perguntado ao cínico se ele queria alguma coisa, algo que amenizasse sua miséria. Um teto, por exemplo. O cínico disse que, certa vez, teria visto um rapazinho bebendo água numa fonte, no côncavo da própria mão. Disse que diante daquela cena percebeu que ainda possuía coisas supérfluas. Contou que então teria jogado longe a vasilhinha de madeira que trazia consigo. A reação do Alexandre? A reação dele eu não sei não, mas deve ter ficado admirado. Mas e então? Vamos começar o exercício? Vamos que eu não quero tomar seu tempo.”

Obs. É aniversário de 3 anos do blog, e o que eu tenho a dizer está no meu perfil, ok?



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