Ela dizia coisas que ninguém queria ouvir. Coisas que ninguém ouvia de fato. Passava o final de semana inteirinho dentro do apartamento, dentro do quarto. E quando saía à rua, não havia ninguém que dissesse ter sentido sua falta. Minto. Apenas um garoto sentia sua ausência. Apenas um garoto queria ouvir suas narrativas, suas lamúrias, suas decepções, suas agruras e suas amarguras. Era George o garoto que a ouvia. Somente George parava para ouvi-la. O garoto George. Ao amigo ela pedia um conselho, um dólar, um abraço e um tempo. O garoto não se importava com suas contradições e dizia que queria mais era vê-la feliz e ser feliz também. Correr sem ter para onde ir, ir sem ter aonde chegar. Era um espírito livre o garoto George. Ela chorava. Dizia que por ser gorda o mundo não a amava, os rapazes não a queriam e a felicidade era um sonho inatingível. Ela chorava e chorava. George dizia que tudo aquilo era uma bobagem e que um dia ela veria o amor em cores límpidas e translúcidas. Oferecia-lhe seu ombro frágil de adolescente. George acreditava no amor e nas promessas dos amantes. Queria ensinar sonhos na universidade da vida, esse era o seu sonho. Tanto insistiu com sua discípula primeira e única que a convenceu da verossimilhança do amor. Ela acreditou no amor que George lhe pintou. Ela agradeceu dizendo que sua dívida de gratidão para com o amigo só fazia crescer. Ela colocou quantos piercings pode, fez quantas tatuagens lhe coube. Pintou os cabelos em vermelho como fogo e passou a usar couro. Eles conversavam sobre livros e amores quando os encontrei num final de tarde de frente para o mar de Navegantes. E depois disso nunca mais os vi nessa vida. E se alguém me pergunta sobre Navegantes, mesmo que eu não diga, ocorre-me imediatamente George e Camila.
domingo, janeiro 29, 2012
sábado, dezembro 31, 2011
O CÍNICO
“Você tá falando sério que nunca ouviu nada sobre Diógenes, a lenda Diógenes, o cínico, o filósofo, o grego? O discípulo de Antístenes, que foi discípulo de Sócrates, não conhece mesmo? Francamente, você é um fisioterapeuta. Um doutor! Ou não é doutor o fisioterapeuta? Então. Doutor fisioterapeuta! Deveria saber, oras. O Tonho! Tonho! É surdo. Por favor, chame aqui aquele safado do Antonio José, o cínico. Rá, Rá, Rá, Rá. Antonio José, o cínico. Esse você conhece? Pois é, chame aquele ordinário que eu quero dá uma mijada e ele consumiu com o meu negócio de mijar. Eu esqueço o nome daquele troço. Papagaio! Isso! Levou o papagaio pra lavar lá fora e até agora não trouxe de volta. Malandro. Aí ele! O Tonho, cadê o papagaio? Então vá logo que eu to apertado! Como eu ia dizendo, Diógenes foi um filósofo grego. Dizem que viveu entre 413 e 323 a.C.. Foi um sujeito interessante até. A filosofia dele, a qual ele seguia, a escola cínica, desprezava tudo quanto era riqueza, conforto, convenção. Obedecia, de certa forma, à natureza. Ele andava descalço, dormia debaixo das pontes, comia o que lhe dessem. Se embrulhava numa capa imunda, velha, furada e saía pela cidade. Cadê o Tonho que não vem nunca com esse papagaio? Vou mijar nas calças. Faz um favor, vai lá pra mim e vê se o Tonho tá fabricando o negócio. Aí Tonho, eu já tinha mandado ver se você tinha morrido. Até que em fim, né? Ahhh! Como é bom! Que alívio! Despreze ali no vaso pra mim, Tonho. Toma. Mas voltando no que eu tava te falando; sabe, conta o anedótico que parte do tempo Diógenes morava numa barrica. Essas barricas grandes. Isso. Parecida com um barril. A propósito, eu já te contei a história do casal de Igarapaba que não podia engravidar e foi num benzedor que colocou a mulher de cabeça e tronco dentro duma barrica só com as pernas pra fora? Não?! Rá, Rá, Rá, Rá. Essa é boa história também! Uma hora eu te conto. Me lembre de te contar. Mas então, a barrica. A barrica era tipo dum barril grande. Isso! Um tonel. Muito bem! Essa barrica ficou famosa na Grécia inteira... Famosa também ficou a história do encontro que Alexandre, o grande, teve com o cínico, em Corinto. Do Alexandre, o grande, você já ouviu falar? Claro que já. Alexandre na ocasião teria perguntado ao cínico se ele queria alguma coisa, algo que amenizasse sua miséria. Um teto, por exemplo. O cínico disse que, certa vez, teria visto um rapazinho bebendo água numa fonte, no côncavo da própria mão. Disse que diante daquela cena percebeu que ainda possuía coisas supérfluas. Contou que então teria jogado longe a vasilhinha de madeira que trazia consigo. A reação do Alexandre? A reação dele eu não sei não, mas deve ter ficado admirado. Mas e então? Vamos começar o exercício? Vamos que eu não quero tomar seu tempo.”
Obs. É aniversário de 3 anos do blog, e o que eu tenho a dizer está no meu perfil, ok?
segunda-feira, dezembro 26, 2011
ESTADO ANÍMICO
Estou em meu estado anímico. Preciso ter pressa em escrever para que não retorne ao estado puramente animal perdendo assim o ímpeto narrativo. Quero falar de um amigo. E é preciso estar em estado anímico para falar desta alma iluminada. Ele foi, sem a menor dúvida, um dos pacientes mais interessantes que tive até aqui em minha carreira como fisioterapeuta.
Era artista plástico e, segundo o próprio, de reconhecimento nacional e, ocasionalmente, internacional. Sua matéria prima era composta por retalhos, madeira e sucatas das mais diversas origens. Debruçava-se por horas sobre aquelas formas sólidas e ali lutava até conseguir dar nova versão ao emaranhado disforme. Costumava dizer que não fazia nada demais e que qualquer esfomeado ou famigerado seria capaz de travar a mesma luta com êxito equivalente, caso fosse o caminho apontado rumo ao que lhe saciaria o apetite. E concluía dizendo que era ele próprio um esfomeado famigerado pela vida.
Seus amigos eram todos desajustados perante a sociedade, contudo perfeitamente ajustados perante seu olhar. Não gostava de se relacionar com pessoas socialmente ajustadas. Não mais que o necessário. Costumava dizer que os certinhos só serviam para tarefas burocráticas e compor a biomassa. Um bando de acomodados, ele dizia.
“Cale a boca. Ouça a buzininha! Ouviu? Me leve à sacada, vamos! Vê aquele catador de lixo? Sim, aquele mesmo. Este é um verdadeiro artista! Passa todos os dias aqui, exceto aos sábados e domingos, sempre sob o sol do meio dia. Ele sabe exatamente qual roupa lhe torna mais absurdo aos olhos da sociedade. Possui um senso estético invejável. É meu colaborador. Traz a matéria prima para meus trabalhos. Traz e não diz nada. Negocio o preço ouvindo-o dizer se é pouco ou se está bom, e isso é tudo. Nem bom dia!, nem boa tarde!. Pega o dinheiro e segue com sua buzininha de Chacrinha. Vê a jaqueta preta de couro que ele está usando? Pois é, faz mais de uma semana que ele a adquiriu das mãos de alguém que quis se sentir generoso e por isso lhe deu a velha jaqueta encostada no fundo do maleiro. Essas calças jeans largas e rasgadas, essa corda que lhe serve de cinto, esses chinelos ao invés de tênis ou sapatos, tudo isso é de propósito. Ele faz questão de ser absurdo. Essa foi a maneira que encontrou de atrair os olhares e assim poder desprezá-los. Essa é sua respostas à sociedade que o trás à margem. É um cínico. Conhece a história de Diógenes, o cínico? Não? Ora, mas você não sabe nada?!”
domingo, dezembro 25, 2011
NATAL MACABRO
Ainda é Natal [gosto disso]. É com certeza a data que mais gosto no ano. Tenho a sorte e a alegria de estar em família [outra coisa que venero na vida]. Estamos todos bem [isso é mágico]. Divertimo-nos com muita naturalidade [temos apenas o suficiente, e isso nos basta]. Não troco o meu Natal em família por nenhum outro Natal do mundo. Minha alma sorri e canta essa alegria sincera de viver. E não sou um desavisado. Sei que o tempo escoa, o elenco se renova, os seres perecem [sei que os nossos Natais são contados]. Os tenho como verdadeiras jóias [dádivas do Mestre].
Se eu fosse o magnífico Ferreira Gullar, esse seria o momento de puxar alguma memória dos Natais passados e entremear com o Natal presente com elegância, maturidade e ressonância. Não sendo um Gullar, sigo com meu ‘espírito uvas frescas, cerejas, pêssegos maduros, figos em calda, passas e castanhas’.
Comi com singular moderação. Bebi apenas o suficiente para não deixar de beijar o lábio de vidro da taça e sorver sua saliva doce e gelada. Os meus olhos é que me embriagaram do desfrute da ocasião. Mais do que qualquer consumação, foi em ver os meus queridos que me satisfiz ao ponto de transbordar em alegria.
Não consegui escrever uma crônica natalina conforme, intimamente, havia me proposto [nos últimos dias, andei lendo “Histórias Extraordinárias” de Edgar Allan Poe; e quem já leu sabe que, sob essa influência, fica meio difícil escrever algo belo, leve e romântico, conforme eu gostaria de oferecer no blog]. Sentado para escrever, apesar do delicioso clima natalino que dominava toda minha casa e todos em casa, tudo que consegui imaginar foram figuras de Noéis macabros em ações hediondas [foi mesmo mancada ter pegado Poe logo após Nelson Rodrigues justamente em vésperas de Natal, mas coincidiu]. Enfim, achei melhor não publicar minhas tentativas de texto. Teria sido um conto de terror, algo discrepante de meu verdadeiro estado de espírito.
Se eu estivesse lendo algo mais leve, algo como o livro cuja propaganda vi no jornal, o livro do canadense Neil Pasricha, onde ele fala sobre pequenos prazeres e sensações da vida, “O Livro Do Sensacional”, talvez eu escrevesse algo mais condizente com meu real estado de espírito. E quer saber, provavelmente eu nem leia o livro [não sou adepto dos best-sellers].
E dentro do Natal, tomando posse do que me compete deste clima natalino, fico devendo uma crônica, admito; porém, desejo a todos um ótimo final de Natal e um ótimo resto de ano [espaço de tempo que também considero mágico]. Obrigado a cada leitor pelo carinho da atenção! Obrigado pelo apoio constante dos que deixam sua marca comentando e enriquecendo cada postagem com suas deliciosas observações e compartilhamentos! Abraço!
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