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sábado, dezembro 10, 2011

O CHEIRO DO DIABO

Bateu no portão, e, enquanto aguardava, tomou um pouco da chuva fina que caía naquela manhã de céu impenetravelmente nublado. Vendo que ninguém vinha atendê-lo, levou a mão à maçaneta e pode perceber que, como sempre, estava aberto o portão. Abriu um pouco. Apenas o suficiente para perceber que estava destrancado. Assim, pressupôs que houvesse gente no interior da casa. Fechou o mesmo logo em seguida, mas houve tempo para vislumbrar pela fresta da abertura o cãozinho, aparentemente esquizofrênico, saltitando eufórico atado ao arame por sua corrente corrediça. Bateu novamente e aguardou.


Dessa vez, teve mais sorte. Dona Amélia veio atendê-lo. Pediu para que entrasse e não reparasse por ela não lhe apertar a mão, pois estava com as suas molhadas e ensaboadas. Thor Nelson, que já estava apreensivo por sua entrevista de trabalho, não disfarçou a pressa em ir direto ao ponto. Entrou ultrapassando o som do próprio bom dia que proferiu mais pra dentro de sua boca do que para fora. Dona Amélia foi à frente e pisou sobre a corrente do cachorro para que ele não pulasse nas pernas de Thor e o sujasse com suas patas úmidas e barrentas.


O rapaz atravessou o estreito corredor margeado pela horta de pimentas e taiobas, e estranhou a presença de um grande carro no espaço sempre desocupado da garagem. Era a primeira vez que via ali aquele carro. Achou indelicado perguntar de quem seria o jipe, mas ficou olhando com a intenção de inspirar um esclarecimento espontâneo por parte de sua patroa de ocasião.


Contudo, Dona Amélia não notou ou fingiu não notar. Disse para que Thor entrasse no quarto e descesse Seu Felipe da cama para a cadeira, e o deixasse na porta do banheiro que ela terminaria de esfregar “umas pecinha de ropa” e já iria dar o banho no marido. Com o enfermo posicionado diante do banheiro, e vendo que Dona Amélia não se apressava, Thor voltou para o quarto do homem e começou a observar o quão claustrofóbico era aquele cubículo. Foi quando ouviu uma voz masculina vindo da direção do quarto ao lado. Parecia alguém falando ao telefone. Em alguns momentos, era possível entender parte do sentido da interlocução. Noutros, a tonalidade grave da voz masculina abafava o sentido da conversa. Parecia ser uma transação comercial ou algum embaraço por conta de prestações de contas, comércio. Thor voltou os olhos para a janela do quarto do enfermo, que sempre estava apenas com uma fresta aberta, e tentou abri-la por completo empurrando primeiramente uma das partes. Foi quando encontrou a resistência de um velho muro de tijolos à vista cobertos por limo ancestral. A folha da janela bateu e não abriu mais que poucos centímetros. Foi até a outra folha da mesma e repetiu o gesto. Pode ver que o muro igualmente impedia o progresso da abertura.


Ouviu quando o homem começou a alterar o tom de voz com seu interlocutor. Logo o homem estava aos berros. Dona Amélia surgiu na porta do quarto e, meio desconcertada, explicou que o corredor da casa era muito estreito, como ele podia ver, e que nem a janela era possível abrir por conta do muro do “vizim”, que seria “chato e injuado pra dedél. Da moda duoto, casa de pobre é tudo isprimidim” Ela disse e, em seguida, perguntou ao rapaz se ele não queria sentar-se na sala e ver a televisão enquanto ela dava banho no marido.


Sentado na sala, Thor Nelson pode ouvir, casualmente, e com mais clareza, a conversa do homem que estava dentro do outro quarto com a porta entreaberta e na escuridão. Realmente falava de negócios. Explicava que aquilo não era o cheiro do diabo, pois o diabo, conforme ele dizia, todos sabiam que cheirava a enxofre, e aquilo estava muito mais pra cloro. E que se não quisesse, não precisaria ficar com o lote de desinfetante que encomendara. Dona Amélia, em poucos minutos, gritou do banheiro para que Thor fosse ao seu auxílio para devolver o enfermo ao leito. Ao terminar as operações de ajudante, o rapaz partiu para a entrevista sem perguntar quem seria o dono da voz masculina proveniente do quarto ao lado do quarto do enfermo. Dona Amélia despediu-se com um comentário sobre a chuva: “Vai chuvê o dia ínterim”.



Obs. Repito: Estamos na final do Prêmio Top Blog 2011! Eu digo estamos, pois essa é uma vitória de todos que me apóiam nesse trabalho. Muito obrigado a você que votou em meu blog e divulgou minha campanha! Esse prêmio é nosso!

domingo, dezembro 04, 2011

O GALO ERA UM BODE

O galo cantou. Aquele maldito galo deveria sofrer de algum distúrbio do sono. Cantou quando era uma hora. Tornou a cantar quando era uma e vinte e sete. Ele sentiu vontade de matar e comer o bicho. Sempre que o galo cantava após a meia noite, sentia vontade de degolá-lo com as próprias mãos, esgotar-lhe o sangue até a última gota, e comer o bicho ao molho pardo. Não que apreciasse tal iguaria. Na verdade, na verdade, jamais havia provado o prato. Imaginava comer o galo ao molho pardo por lhe parecer um requinte de sofisticada crueldade alimentar-se do bicho embebido em seu próprio sangue. Tinha fome e sede de vingança.

Mas o galo era um bode. Sim, o galo era apenas um bode expiatório. Bem como o calor insuportável, o despertar tardio ao meio dia daquele domingo e, principalmente, a possibilidade de acontecer a entrevista de trabalho na manhã que seguiria. Tudo lhe tirava o sono naquela noite e lhe trazia pensamentos tumultuados e inquietantes relacionados aos acontecimentos dos últimos dias. Mas o que lhe incomodava de fato, e levava seu sono para outras cabeças distantes e mais tranquilas, era o sumiço de seu pai.

Afinal, onde andaria aquele velho velhaco, rabugento mor, inquiridor constante, cafajeste elegante, aquele crápula?

Lembrou-se do pai, de sua voz rouca e metálica. Lembrou-se de uma fala recorrente do velho, e era como se pudesse vê-lo abaixar o jornal e falar de sua poltrona: “Thor, o tempo é mesmo implacável. Não perdoou nem Jane Fonda, que aos 23 anos, isso em 1960, meu amigo, parecia um anjo dotado de beleza inesgotável; o que dizer de nós miseráveis mortais condenados ao eterno anonimato nessa terra de vaidades?” Sorriu com a lembrança do velho e talvez tenha dormido, talvez não.

Obs. Estamos na final do Prêmio Top Blog 2011! Eu digo estamos, pois essa é uma vitória de todos que me apóiam nesse trabalho. Muito obrigado a você que votou em meu blog e divulgou minha campanha! Esse prêmio é nosso! E este humilde conto, que começou ao pé da página em A PEQUENA LOJA, continua em O CHEIRO DO DIABO. Ser ler, por favor, comente. Obrigado!

sábado, novembro 26, 2011

GIVANILDO CASA GRANDE

Passava a poupa digital da ponta do indicador sobre a televisão para conferir a cor e a textura da poeira quando ouviu o toque da campainha. Olhou pelo olho mágico da porta que dava para a rua. Viu que era Givanildo, o vizinho do lado direito de quem estivesse de frente para sua casa.

Aquilo era incomum, nunca se visitaram. Nunca se freqüentaram os vizinhos. Estranhou a presença de Givanildo à sua porta. Mais estranho era perceber que Givanildo era a imagem e a semelhança da finada Dona Neuza, sua mãe.

Abriu a porta. Givanildo sorriu um sorriso que abrigava alguma partícula de sarcasmo mal ocultado, talvez propositalmente. O vizinho estendeu a mão para cumprimentar Thor Nelson: “Olá, Thor! Como vai? E seu pai, tem notícia do velho?”

Givanildo era o mais velho dos três filhos da finada Dona Neuza. Formou-se em Administração de Empresas e Contabilidade. Possuía uma imobiliária: “Oi, Givanildo. Não... Não tenho notícias de meu pai...” Disse Thor Nelson.

“Sabe por que estou aqui? [...] É que vou aumentar o meu muro” Givanildo era figura cativa da coluna social do jornal local. A cada ano comprava um carro maior para sua garagem, colocava mais silicone nos peitos e nas nádegas da esposa, e também, todos os anos, aumentava um tanto a casa que herdara de sua mãe. Talvez o pai de Thor tivesse razão ao dizer que o vizinho tinha um complexo de Napoleão latente, pois era baixinho e arrogante como o imperador francês.

Thor já pressupunha a razão da visita: “Sim!?” Respondeu com ar de tédio.

“É. Vou aumentar o meu muro novamente. Sabe como é. Sua casa não tem nenhum dispositivo de segurança, os ladrões podem facilmente pular para o meu quintal passando pelo seu. E tem mais, a Elaine gosta de privacidade, gosta de ficar bem à vontade em nossa piscina”

Thor Nelson, com evidente desdém, respondeu ao que o vizinho explicava: “Tá [...]”

“E isso vai gerar alguma despesa com materiais e mão de obra. Mas é uma melhoria da qual até sua velha casa irá se beneficiar. Afinal, cada vez que invisto em minha casa as casas vizinhas acabam sendo mais valorizadas no mercado imobiliário por estar ao lado de uma construção de alto padrão, endente? Também terei que reinstalar minha cerca elétrica. E o pessoal não faz isso de graça. Já perguntei. Aliás, nada é de graça, não é mesmo?”

“Givanildo, to desempregado, meu pai tá desaparecido. Não posso nem contar com a aposentadoria dele. Até tranquei a faculdade. A coisa tá feia, amigo. Não tenho como contribuir com nada. To levando as contas com um bico que to fazendo, cuidando dum doente”

“É, mas de qualquer jeito a sua casa irá se valorizar. E outra; você tem obrigação de contribuir, o muro que cerca sua casa está dentro de meu terreno, é meu. Você o usa o tempo inteiro sem que eu te cobre nada. Já disse isso ao seu pai, o Veloso”

“Givanildo, eu não quero discutir com você o mérito dessa questão, amigo. Eu agora não posso contribuir com nada. Espere meu pai voltar, aí você conversa com ele”

“Um, sei. Vou falar com o meu advogado, aí vejo se é mesmo o caso de esperar que seu pai volte pra conversar sobre a obrigatoriedade de sua contribuição”

“Givanildo, converse com quem você quiser. E tem mais; o muro não está em seu terreno conforme você vem dizendo. É só olhar pelo padrão da energia, ele demarca em qual terreno o muro está situado de fato. Meu pai já disse isso há muito tempo pra senhora sua mãe, já disse pra você inclusive. Esse muro tá dentro do nosso terreno”

Givanildo puxou a calça para cima pegando pelas laterais do cinto, acomodou a parte inferior da barriga dentro da calça, apalpou sua bolsa escrotal, e fez uma firula como se fosse embora no decorrer da conversa; chegou a dar um passo; retornou com a mão estendida para o vizinho; disse que já não tinha tempo para continuar a conversa, e se despediu: “Depois eu falo com o seu pai, se é que ele vai voltar mesmo”


“Passe bem!”


“Passe bem...”


Obs. Este humilde conto continua em O GALO ERA UM BODE. Se ler, por favor, comente. Obrigado!

sábado, novembro 19, 2011

A IMPRENSA SUPREMA

Ao chegar em casa, assim que fechou a porta atrás de si, sentiu a melancólica atmosfera opressora lhe esmagar como se um saco de sessenta quilos de tristeza lhe fosse recolocado sobre sua cabeça.

A situação não era tão difícil enquanto estava na rua. Talvez por distrair-se observando o vai e vem das pessoas. O fato é que, ao ver a casa vazia e os habituais cantos costumeiros de seu pai agora desocupados, a poeira sorrateira acumular-se sobre a poltrona verde musgo reclinável, as pilhas de jornais intactos crescerem feito planta nos cantos da sala, um arrependimento liquefeito invadia a chaga aberta na alma após a última discussão que tiveram. A discussão que antecedeu ao sumiço do velho. Parou de pé diante da cozinha, e começou a recordar aquela manhã.


Era como se pudesse ver perfeitamente toda a cena: Era hora do café, café fresco e pães à mesa. O velho enxugou as mãos no pano de pratos encardido que trazia sobre o ombro esquerdo e sentou-se e tomou o jornal nas mãos. Vestia o velho roupão vinho em tecido acetinado, o mesmo que usava todos os dias a mais de cinco anos, desde o falecimento da esposa por atropelamento. Por baixo do roupão, o que era possível notar pelas descuidadas pernas abertas, usava sempre uma das calcinhas da falecida. O rapaz fingia não saber dessa excêntrica forma de nostalgia do pai. Nunca mencionara o assunto. O velho repousou o jornal sobre a mesa, acendeu um cigarro, reabriu o jornal e comentou a queda de mais um ministro: “Em dez meses de mandato da presidenta, já são seis os ministros que entregaram o cargo. Já viu algo parecido? Vê só o nível da roubalheira que essa gente vive?”


Thor Nelson fez questão de demonstrar seu desconforto pela fumaça do cigarro do pai, mas o velho, vendo que o incomodava, fazia por onde direcionar ainda mais a fumaça ao rapaz. Ele queria saber o que o filho achava de mais um ministro cair em tão pouco tempo de mandato da presidenta, apenas dez meses de mandato. O rapaz disse que não se importava, e que aquilo era um jogo de interesses pelo qual não se interessava.


O velho deu um murro na mesa que fez com que as xícaras e a faca da manteiga tilintassem. “Aí, ta vendo como você é? Ta vendo? Você não se interessa por nada mesmo. Nunca vai ser ninguém nessa vida. Onde já se viu não querer saber da política do país? Fica aí, metido com esses romancistas idiotas, esse bando de fracassados, bêbados, doidos, drogados. É isso que você quer ser, esse é o seu ideal de vida? Ser um desajustado como são todos esses vagabundos que se dizem escritores, intelectuais?”


Thor Nelson ficou surpreso pela reação desproporcional do pai. Desde a morte de sua mãe, eram os únicos na casa, e o que restou da família.

Apanhou seu pão e sua xícara de café e caminhou até a porta da cozinha como que para tomar um pouco de ar fresco e despoluído, e evitar a discussão. Ali, decidiu expor seu ponto de vista ao iracundo pai. “Essa onda de denúncias da imprensa, em minha opinião, é algo leviano e contraproducente. O que vai mudar se tiver um escândalo a cada semana? Tirando o lucro dos jornais e o movimento da famigerada imprensa, nada muda de fato. Acho que o trabalhador não ganha nada com isso. Apenas se revolta cada vez mais e vai ficando descrente e desmotivado”.


“Ah, e você se diz um democrata... Que grande democrata você é! Quer saber? Você não existe, Thor! Você é um caso pra ser estudado, estudado por uma junta de especialistas. Seus pensamentos são absurdos. Você não existe!”


Thor Nelson sabia que aquilo era em parte pelo Alzheimer. Seu pai ficava cada vez menos previsível e cada vez mais descompensado. Irava-se por nada. Suas reações eram desproporcionais. Não demorava cinco minutos para que se desculpasse. Mas naquele dia Thor Nelson não quis ficar para uma reconciliação. Disse que não agüentava mais o velho e que arranjaria um lugar para si. Bateu a porta e partiu. Ao retornar, só encontrou a casa vazia. Percebeu que uma mala e parte das roupas de seu pai haviam desaparecido, inclusive as calcinhas da falecida mãe, todas. E daquela triste manhã, já havia quatro meses que não via o velho. Dois dias depois, após falar com os conhecidos, que só teriam visto o velho descer a rua bem vestido pela hora do almoço, decidiu prestar queixa de desaparecimento à polícia.


Obs. Este conto conhece sua continuação em GIVANILDO CASA GRANDE. Se ler, não se acanhe, comente. Abraço!

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