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sexta-feira, fevereiro 26, 2016

ARMELAU – A PROCRIAÇÃO DE BILDO

Tudo na ZT3 Paper Company transcorria naturalmente, até que, numa bela manhã de verão, Bildo desse cria. Moréia festejou o nascimento do rebento de seu affair platônico como se a criaturinha tivesse surgido de suas próprias entranhas. Ainda que de modo não consensual, tudo em Bildo e Moréia culminava numa natural simbiose existencial.

Ambos viviam a sórdida rotina de planejar ínfimas trapaças, tramar pequenos trambiques e camuflar leves delitos. Tudo dentro da mais harmoniosa e oculta cumplicidade. Bildo ludibriava os clientes e entregava menos papel do que a ZT3 vendia e recebia da ZT3 valor bem superior ao que entregava. Moréia sabia da armação, apoiava e passava um pano sempre que necessário. Ambos tomaram gosto pelo ato de burlar e festejavam a cada truque bem sucedido. Traçavam pequenas metas sempre em favor de Bildo. Tudo era em favor de Bildo, contanto que fosse em detrimento de Armelau e dos demais vendedores. Enganavam a gregos e troianos e riam interiormente, satisfeitos por sempre encontrarem-se ilesos bem debaixo dos narizes dos clarividentes do subsolo da ZT3.

Na concepção de Moréia, por mais infame e inescrupulosa que fosse a manobra, Bildo deveria levar vantagem acima de tudo. Na fantasia da jovem senhora, A ZT3 era apenas um veículo para suas questões pessoais.

Quanto a Bildo, a pele de coitado rendia dividendos com os quais nem o próprio rapaz havia sonhado quando engendrou a primeira trapaça sob os auspícios de Moréia. Um contrato que acabaria por eliminar um concorrente foi o pontapé inicial na trajetória do farsante com sua tutora. Armelau sabia da tramoia de ambos e ficou indignado quando viu a maneira sorrateira com a qual Bildo assumiu posição em lugar de seu antigo empregador. Bildo não tinha champanhe, festejou com cerveja, linguiça e farofa.

Bildo vivia oculto na pele de coitado. Erguia a bandeira de neto bastardo do seu bisavô e seguia sua marcha modorrenta. Trazia escrito em sua testa a frase de autopiedade, suavizava a voz em um tom nasal lamurioso e fixava seus olhos súplices sobre seus interlocutores como se tivesse o dever de explicar a todos os supostos erros do mundo em desfavor de si. Por seu turno, Moréia destilava em uma imensurável coleção de intrigas e picuinhas o seu dissabor por ser eternamente mal amada no amor. Sua vida era um quadro em preto e branco. Vivia só e solitária. Todas as suas relações pessoais terminavam corrompidas em meio a intrigas e fofocas. Bastava que alguém fizesse qualquer coisa que a contrariasse em seu dia para que a mulher alugasse dezenas de orelhas para desfiar sua narrativa maledicente como se todo desafeto seu devesse ser odiado também pelo mundo inteiro. O caráter de ambos reultava num duo perfeito.

Antes da chegada de Bildo, Armelau e os demais vendedores viviam uma era de paz em seus pequenos gabinetes atrás de suas minúsculas mesas. Armelau era centrado demais em si próprio para perceber que Moréia projetava nele seus sonhos mais secretos e inconfessáveis. Assim como fez com todos os outros encarregados de vendas antes dele, a mulher lançou no sonâmbulo suas projeções amorosas emboloradas no fungo da frustração. Imaginou correr com o então novo funcionário de mãos dadas por um canavial dourado. Ver o dia amanhecer com o rosto deitado sobre o provavelmente cabeludo peito do prestidigitador sonolento. Tomar banho de rio em águas barrentas e secar o corpo nu sobre as pedras negras e sob o sol da manhã dos amantes. Tomar hectolitros de licor de jabuticaba na mesma taça do encarregado. Repartir o lanche de carne de carneiro no final da balada. Casar. Ter filhos. Um lar enfim.

Mas para desespero da senhora que chegou à idade sem ter se casado, Armelau em nada correspondeu às suas expectativas. Sem dizer palavra, o encarregado manifestou o não às intenções da mulher e despertou nela um ódio tanto inexplicável quanto inesgotável. Se um dia ela se ocupou em lançar aos quatro cantos da ZT3 pétalas do quanto Armelau era adorável em seu modo onírico de ser, após o desencanto ocupou-se quase que exclusivamente em difamar o taxidermista amador distribuindo cardos que jurava serem frutos da própria queratina do funcionário.

E em um cenário onde tudo desfavorecia Armelau, ele tomou um copinho plástico de café, a fim de rechaçar o terrível sono matinal. A porta de sua pequenina sala abriu-se por vontade própria. Na salinha contígua, Bildo surgiu de pé, para em seguida agachar-se, abaixar as calças, erguer a calda, esguichar um fluido odorífero pelas glândulas recônditas e urrar como que sentindo espinhos romperem por sua cloaca. Foi o nascimento de Musca, ato presenciado pelo atônito Armelau. Bildo enfim deu cria.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

1981 – O DEFUNTO DA RUA DE TRÁS

O ano é 1981 e eu tenho sete anos de idade. Aquela tarde caía por de trás do horizonte e consigo levava o sol para lugares distantes que eu jamais conheceria até o presente momento em que teço essa narrativa. Naquele ano, morreram Bob Marley, músico, Amácio Mazzaropi, ator e cineasta, Glauber Rocha, cineasta, e o defunto da rua de trás do quarteirão no qual eu morava. Não que o homem tivesse vivido defunto e assim morrido. Mas sim por eu tê-lo conhecido defunto e defunto ele ter vivido sempre em minha memória.



Eu estava no portão de casa olhando para o nada. Os moleques sujos e espancados da esquina percorriam a rua convocando todos os outros garotos para verem o espetáculo do defunto desfigurado da rua de trás. Eu já havia tomado meu banho, tinha o cabelo úmido e meticulosamente repartido no meio da cabeça formando uma espécie de cortina de testa. Vestia uma camiseta de listras com gola pólo e a bermuda de costuras tortas feita com restos de brim pela minha avó, que sempre dizia que não sabia costurar. Calçava as sofríveis sandálias franciscanas em couro marrom. Elas eram péssimas para correr com a molecada da rua. Eu sempre ficava para trás por causa da transpiração dos meus pés que deixava as sandálias escorregadias e com a palmilha pegajosa por causa do barro formado pela poeira do asfalto. Pior era quando algum pedrisco entrava entre a palmilha e a planta dos meus pés.



Parecia mesmo ser uma grande aventura uma excursão para ver um defunto na rua de trás, uma oportunidade. Disseram que era um homem muito velho e que havia sido atropelado por um cavalo, ou uma charrete, ou uma carroça, ou um carro, ou um caminhão de transportar gado para o abate. A cada frase dos garotos o acidente perdia e ganhava elementos.



Eles perguntavam entusiasmados se eu não ia ver o morto da cara de jornal, do nariz de cera, da perna de madeira, do braço de plástico, do olho de vidro. O estrago feito pelo acidente teria sido tamanho que a desfiguração do cadáver obrigou o uso de peças artificiais para recompor o corpo a um estado viável ao velório.



Eu nunca havia visto um morto para além da tela do meu televisor em preto e branco e de má sintonia. Os moleques tinham muita pressa. Estavam esbaforidos. Já haviam ido e voltado diversas vezes à casa do defunto. Queriam que o bairro inteiro testemunhasse o grande evento fúnebre.



Mas eu não sabia se poderia ver o morto, ainda mais sendo ele uma figura tão deformada e certamente assustadora. A própria morte como evento e fenômeno sobrenatural seria o suficiente para impedir de eu conseguir a autorização da minha mãe para embarcar em tal expedição. Pior ainda sendo o defunto recomposto por partes de materiais inumanos, algo que me traria à lembrança certo filme de terror no qual uma criatura humanóide se regenerava diante dos olhos atônitos dos seus algozes mutiladores. Tive várias noites de insônia após encontrar o filme do “regenerator”, por acaso, durante uma visita, quando fui deixado na sala de uma senhora enquanto meus pais conversavam com ela na copa.



Cabe salientar aqui que em momento algum temi presenciar o fenômeno da auto-regeneração. Os divulgadores do evento deixaram bem claro que as partes anexadas já estavam perfeitamente instaladas e conformadas ao defunto. A lembrança do filme foi algo que me ocorreu quando pensei em argumentar e justificar a importância do meu ingresso naquela fantástica e imperdível excursão funérea.



Eu sabia que meu tempo de rua já havia se esgotado naquele dia assim que entrei no banho, era a rotina. Pedi apenas para ir até a esquina, algo que não levantaria qualquer suspeita sobre minha verdadeira intenção, pois também fazia parte da rotina. Com sorte, minha mãe estaria de bom humor e permitiria sem maiores questionamentos. O meu gosto por ficar fora de casa não era nenhum segredo.



Fui feliz em meu intento e recebi a autorização apenas para ver a rua mais um pouco. Podia ir até a esquina, mas sem me sujar de modo algum. Para além daquilo, eu já cairia na ilegalidade. Então parti. Contudo perdi a excursão dos moleques sujos e espancados e fiquei ali na esquina mesmo, parado, sem coragem para ir sozinho ao outro lado do quarteirão procurar pela casa do morto. 



Após alguns minutos, um moleque retardatário, morador das quadras de cima, descia para ver o morto desfigurado e que havia sido anunciado inclusive em sua rua. Ele também desconhecia o exato endereço. Descemos a procurar. Não foi difícil encontrar. As referências e as pessoas aglomeradas nos levaram diretamente ao meio da rua de trás do quarteirão.



Tratava-se de uma casa modesta de paredes azuis desbotadas, muro e portão baixos e descascados. A residência estava repleta de gente, e totalmente aberta ao público. Em seu interior, movia-se uma massa trajada em cores escuras e que dizia frases doloridas e derramava lágrimas aqui e ali em redor do esquife. Bem do meio daquela gente, foi possível ver surgir algumas caras sujas e conhecidas, as dos moleques sujos e espancados. Vinham lívidos e de olhos esbugalhados, porém, logo que notavam a presença de outros moleques no recinto, eles providenciavam uma máscara de sorriso falso, um simulacro de coragem e missão cumprida.



Muitos egressos da borda do esquife certamente passariam diversas noites sem dormir por conta da forte experiência de encarar a morte na face do morto. O movimento da massa fúnebre era constante e logo me tragou para dentro de si. Aos poucos fui conduzido ao destino de todos, que era a beirada do caixão. Vozes sussurravam a desventura do velho, que teria sido brutalmente atropelado na estrada. Fiquei intrigado pela circunstância de ele perambular pela pista sendo dotado de tanta idade.



Quando dei por mim, já estava de pé diante o ataúde e seu misterioso habitante, um homem velho e magro de cabeça branca e pele cinza, comprido como certamente seria a estrada que o matou. Ele tinha um nariz fino e longo ladeado por dois grandes buracos cabeludos. Um enorme par de orelhas murchas e com ouvidos cabeludos. Os olhos estavam mergulhados dentro de suas profundas fossas orbitais. Não tinha lábios, apenas uma fenda murcha e cerrada denotava a presença do que havia sido uma boca algum dia. Seu rosto era fino e longo como todo o corpo e certamente feito de cera. Suas mãos, ossudas e nodosas como galhos secos retorcidos, certamente eram peças feitas a partir de alguma jabuticabeira. O resto eram flores brancas murchas e um par de sapatos bicudos e compridos apontando para o teto escuro de telhas sobre ripas.



Talvez aquele homem odiasse toda aquela gente a aquecer a sala com seus corpos vivos capazes de derreter a cera de algumas de suas partes postiças, o que seria um imenso vexame. Sobretudo ele deveria odiar a presença dos moleques que ali estavam não para se despedir, mas apenas para satisfazer a curiosidade mórbida em ver um defunto tão horrendo quanto a criaturas de filmes de terror.



Disseram que o mais corajoso entre todos os moleques tocaria o defunto, e que tocaram, porém nenhuma testemunha confiável viu tal ousadia. Alguns viram o defunto se mexer como se sentisse alguma coceira recôndita, outros juraram tê-lo visto abrir os olhos e olhar de soslaio para um dos moleques.



Pude apenas notar que ele ainda respirava pesadamente através de suas imensas fossas nasais cabeludas. Parecia muito cansado.

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