Amigos

sábado, março 19, 2016

ARMELAU – O MESTRE TAXIDERMISTA BRANDON

Brandon, escriturário e mestre do ofício da taxidermia, um homem dotado de extrema magreza e aspecto frágil, o qual naturalmente compensava com a cara de ódio como se desse ao mundo o recado de sua real ferocidade, era todo ele uma imensa contradição entre a delgada solidez física e a subjetividade da personalidade inflada.

A despeito de sua aparente fragilidade, o homem cria-se uma fera e tentava convencer todos à sua volta do quanto nada significava aquela aparência. Aos finais de semana, ocupava-se em dar trato aos bichos mortos e passear com seu poodle pelo bairro em atitude vigilante. Mantinha também na rede social um grupo no qual se compartilhava toda e qualquer presença e ou atitude suspeita nas imediações.

Certa vez, quando Armelau atravessava o portão de sua morada para sair em uma caminhada, o poodle de Brandon invadiu sua garagem. Antes mesmo que o sonâmbulo voltasse o rosto para o interior da área, a fim de ver aonde ia o pequeno invasor, Brandon, sem pedir licença, invadiu a casa de Armelau sob pretexto de resgatar o animal e perscrutou cada canto visível, o lixo e cada entrada da residência do vizinho. Satisfeito após a sondagem, Brandon voltou para a calçada e com um breve assobio teve o bichinho de estimação a seus pés se contorcendo e abanando o cotozinho obedientemente.

Armelau então fechou atrás de si o portão, volveu a chave e teve sérias dúvidas se aquilo não era mais uma peça onírica pregada por outro incômodo pesadelo. Mas não. Brandon fez um comentário sobre o quanto o poodle era traquina e perguntou se o vizinho estaria saindo em caminhada, alinhou passo e ambos partiram para um passei pelo ensolarado bairro.

Naquela manhã, nasceria uma amizade que traria à monótona vida de Armelau um contato mais estreito com a ameaça da criminalidade ao bairro e propiciaria também os primeiros passos na arte da taxidermia. Foi este o assunto que despertou o interesse de Armelau pela contraditória e enigmática figura de seu vizinho Brandon.

Empolgado, o homem magro revelou ao vizinho seu gosto pela taxidermia e ódio pelos bandidos, infratores e contraventores. Disse ser capaz de dar vida eterna às formas de qualquer criatura morta ou viva sobre a face da terra, de bem ou não. Armelau apenas assentia com a cabeça e parecia vagar distante com a ideia e possibilidades contidas nela.

Aos finais de semana, em suas caminhadas solitárias, vez ou outra Armelau deparava-se com algum pequeno pássaro falecido sobre uma calçada, a rua ou algum canteiro. Aquela ausência de vida sempre intrigou Armelau. Indagava-se de como teriam sido os momentos finais daquele ser capaz de voar sobre todos os outros seres. Era mesmo uma incógnita a circunstância do óbito. Perguntava-se se seria o caso de o pequeno já ter aterrissado agonizante e expirado sobre a superfície na qual fora encontrado. Ou quem sabe a criaturazinha tivesse sido acometida por um mal súbito enquanto cantava lugubremente empoleirada num galho ou fio de telefone ou eletricidade. Ou ainda, num ato carregado de dramaticidade, o pequeno ser sentira o fel do grão envenenado da lavoura envenenada espremer o seu canto e constringir sua glote até a escuridão tomar por completo as cores do dia por de trás de suas pequeninas pálpebras. Ou talvez, enquanto planava uma massa de ar aquecida e confortável, teria sentido a ardência que antecede o coração que para e faz com que os pássaros deixem seu corpo abandonado em um último rasante atingir o chão sem sequer estar presente para sentir o próprio baque na solidez do asfalto.

Armelau sempre quis fazer algo que imortalizasse aquelas criaturinhas em seus dias dotadas da mais divina graça, a de voar pelos céus. Interessou-se pela taxidermia de Brandon, que era infinitamente mais ambicioso em seus planos na arte do que seu primeiro e único pupilo. Armelau iniciou pelos mais comuns, os pardais.

sábado, março 12, 2016

ARMELAU - LÁGRIMAS DE MORÉIA

Pela porta entreaberta, era possível ver Moréia. Revoltada, ela chorava sobre a sequidão de suas carnes, soluçava com os anos acumulados nas papadas de seus lábios e tremelicava comprimindo as rugas incrustadas no entorno de seus olhos. Cada vez mais seca, cada vez mais rude, cada vez mais amargurada.

Bildo já não trazia alento algum às frustrações da gerente. O rapaz estava demasiadamente envolvido nos cuidados do recém nascido Musca e em seus projetos pessoais de provar ao pai que jamais deveria ter sido qualificado como um bastardo. Corria o dia todo feito um louco atordoado. Incansável, a todos os lugares passíveis de vendas visitava abraçando mais compromissos do que seus braços eram capazes de sustentar. Deixava atrás de si um rastro de incontáveis clientes insatisfeitos. Chegavam reclamações de todas as partes á ZT3, as quais Moréia ocultava carinhosamente em sua caixinha de segredos.

Era a versão mais triste possível da caixa de Pandora a caixeta de Moréia. Enquanto Pandora abrigava em sua caixa todos os males do mundo ocultos aos inocentes e esperançosos olhos dos homens, tudo que Moréia trazia em sua caixinha era o bolor do desalento e a sequidão da desilusão, o vazio existencial e os rancores dos relacionamentos desastrosos, os desamores platônicos e as frustrações das mais ínfimas mazelas mundanas.

Wilson José era um funcionário público da gráfica do município. Dotado da força de um burro e da inteligência de um asno, Wilson José desfrutava com grande avidez as vantagens de um cargo de confiança concedido pelo chefe do município por conta de favores inescrutáveis devidos ao seu pai.

Certa vez, a gráfica do município contratou os serviços da ZT3 para o fornecimento de matéria prima para uma ação panfletária em resposta às revelações supostamente levianas da oposição. A empresa de papéis enviou Moréia e outra funcionária para tratar o montante e fechar o contrato. Diante à mesa de Wilson José, Moréia imaginou assentar-se frente a frente com um homem de poder. Sentiu comichões de agarrá-lo pelos colarinhos altos da camisa a fim de atracarem-se ali mesmo como dois cães desvalidos. Descobriu o telefone pessoal do rapaz e passou a comunicar-se com ele, diariamente, através da rede social. Como ocorria em todo encontro casual, Moréia começou a acreditar que Wilson José seria a solução de seus sérios problemas de relacionamento.

Wilson José, por seu turno, passou a frequentar a ZT3 Paper Company sob os mais variados pretextos de acerto. Parava diante à porta de Moréia e olhava para a senhora senhorita como quem encarasse uma torta de amoras maduras amanhecida. Moréia retribuía com o langor de uma tórrida coxinha de codorna restante em um imenso prato branco de porcelana.

Passavam longos minutos assim, como a exibir apetites voluptuosos um sobre o outro. Para Wilson José, aquilo era o exercício pleno de sua condição de garanhão fidalgo e dono de posto de serviço público de lugarejo. Quanto à Moréia, era a grande oportunidade de ir à forra para com aquelas que sempre caçoavam dela pelas costas e provar que despertava mais do que desinteresse e sono nos homens.
 
E como já era de se prever, o relacionamento entre ambos não foi além das insinuações de um morno enlace amoroso no gabinete e de meia dúzia de encontros matutinos das saídas das baladas nas quais ambos eram figuras desenquadradas e deslocadas por conta do atraso no andamento da cronologia de suas vidas.

Como ambos sendo livres e desimpedidos, não havia qualquer pretexto plausível a favor de Wilson José para sair fora de Moréia. Foi então que o funcionário público se saiu dizendo que Moréia era muito pra ele, que, como tendo três mamilos, se sentia totalmente inadequado dentro de uma eventual relação com a senhora senhorita. O fez via rede social. Naquele exato minuto no qual Armelau avistou a gerente esvair-se em lágrimas assentada em seu posto de trabalho.

sábado, março 05, 2016

ARMELAU – A FRESTA SOMBRIA

Era uma manhã chuvosa. Os funcionários da ZT3 Paper Company chegaram de todos os lados com suas capas impermeáveis, galochas, capotes e capacetes, guarda-chuvas, cremes hidratantes de uso diário com óleo na composição.

Armelau vinha de uma noite de sono intermitente e estava extremamente sonolento naquela ocasião. Sorvia um copinho de café, quando notou que o cadarço de seu sapato preto estava em desalinho, quase desamarrado. Afastou um pouco a cadeira e abaixou-se para atar o cadarço. Percebeu algum movimento vindo da parede lateral. Notou a fresta escura entre o piso e o rodapé daquela parede. Foi ali que o movimento se encerrou com a evasão de um pequeno vulto para dentro da estrutura da edificação.

O funcionário então retornou aos seus trabalhos. Trinta minutos mais tarde, levantou-se da cadeira e usou toda a possibilidade de abertura da porta de seu gabinete, a fim de observar as outras duas portas à sua frente. A da esquerda, abrigava Moréia em seu tailleur azul marinho e com os saltos agulha Luis XV de todos os dias. A gerente administrativa se encarregava do computador à sua frente e da rede social no celular ao seu lado.

A maior parte de sua vida social ocorria dentro daquela pequenina tela. Nas redes sociais, a mulher encontrou vazão à sua solidão e fantasias de ascensão. Algumas das funcionárias compartilhavam essa visão de mundo, outras, além de refutar, sentiam pena da gerente e ofertavam alguma atenção ao seu discurso raso. Ela falava às suas subalternas da rede social como se aqueles fossem assuntos da maior relevância e grande importância: empolgava-se com fofocas, disseminava intrigas, comentava como informação dada a rotina de pessoas que ela sequer conhecia pessoalmente e menos ainda era conhecida das personagens em questão.

Armelau teve a impressão de notar uma outra fresta bem no canto da parede na qual estava assentada a mesa da gerente, entre o piso e o rodapé. O que chamou a atenção de Armelau para a imperfeição do edifício foi novamente um ágil movimento de uma pequena mancha para dentro da fenda. Ponderou que ZT3 Paper Company estava necessitando de uma dedetização.

Já a porta à direita da visão de Armelau, abrigava Bildo e Musca lutando arduamente com os fardos de papel. Em apenas uma semana a criatura assumiu o porte de seu progenitor, e criador e criatura alcançavam praticamente a mesma estatura. Ao notar o fato, Armelau ficou maravilhado com o fenômeno, porém não conseguiu concluir em tempo se a estatura de Bildo era de fácil alcance ou se Musca, o filho de Bildo, era um gênio transmutado.

Sob pretexto de descansar por dez minutos após cinquenta de atividade ininterrupta, Armelau levantou-se e seguiu pelo corredor à direita, a fim de apanhar mais uma abastada dose de café. Na volta da cafeteira, estacou diante à porta de pai e filho e disse olá, ao que ambos responderam sem erguer o olhar em direção à face do taxidermista amador. O sonâmbulo tentou iniciar uma conversa sobre a chuva copiosa, porém ficou igualmente com a indiferença de outra resposta curta e de concordância como um lacônico é. Gastou algum tempo ainda de pé à porta da sala de Bildo e Musca soprando e sorvendo o café e perscrutando com o olhar a junção do piso dos quatro cantos visíveis da sala, a fim de encontrar alguma fenda como as descobertas em sua própria sala e na de Moréia. Não encontrou nenhuma. No entanto havia a possibilidade de algum dos fardos ou das caixas de papel estarem em posição de ocultar a imperfeição. Mesmo insatisfeito, o prestidigitador sonolento retornou ao seu posto de trabalho, e porque não dizer, observação.

A caminho de seu gabinete, Armelau avistou Croco sentado diante à mesa de Moréia. Ambos estavam envolvidos em uma conversação híbrida de formalidade e descontração usada em anos por ambos sem jamais ser renovada. Sob o efeito Dopller, Armelau se aproximou da porta ouvindo em som crescente a mesma piada simulacro de deboche de Croco e se afastou ouvindo em tom decrescente a piada ser seguida pela mesma risada simulacro de reprovação de Moréia.   

Como sendo a porta de Armelau dotada do dobro da largura de cada porta situada à frente de sua sala, após sentar-se em sua cadeira, o sonâmbulo ainda lançou mais um olhar para dentro da sala à direita. Riu ternamente quando notou Bildo, que havia deixado a extenuante tarefa da preparação das caixas de papel para galopar de um lado a outro do gabinete com o já crescido e sorridente de dentes cerrados Musca sobre seus ombros. Ambos pareciam se divertir à grande. Porém, ao passar o olhar de retorno diante à sala de Moréia, foi com estranheza que notou, além da ausência repentina de Croco, a imagem de um vulto circular e denso espremer-se contra a fresta ao pé da parede até desaparecer por completo na brevidade de um segundo. 

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

ARMELAU – A PROCRIAÇÃO DE BILDO

Tudo na ZT3 Paper Company transcorria naturalmente, até que, numa bela manhã de verão, Bildo desse cria. Moréia festejou o nascimento do rebento de seu affair platônico como se a criaturinha tivesse surgido de suas próprias entranhas. Ainda que de modo não consensual, tudo em Bildo e Moréia culminava numa natural simbiose existencial.

Ambos viviam a sórdida rotina de planejar ínfimas trapaças, tramar pequenos trambiques e camuflar leves delitos. Tudo dentro da mais harmoniosa e oculta cumplicidade. Bildo ludibriava os clientes e entregava menos papel do que a ZT3 vendia e recebia da ZT3 valor bem superior ao que entregava. Moréia sabia da armação, apoiava e passava um pano sempre que necessário. Ambos tomaram gosto pelo ato de burlar e festejavam a cada truque bem sucedido. Traçavam pequenas metas sempre em favor de Bildo. Tudo era em favor de Bildo, contanto que fosse em detrimento de Armelau e dos demais vendedores. Enganavam a gregos e troianos e riam interiormente, satisfeitos por sempre encontrarem-se ilesos bem debaixo dos narizes dos clarividentes do subsolo da ZT3.

Na concepção de Moréia, por mais infame e inescrupulosa que fosse a manobra, Bildo deveria levar vantagem acima de tudo. Na fantasia da jovem senhora, A ZT3 era apenas um veículo para suas questões pessoais.

Quanto a Bildo, a pele de coitado rendia dividendos com os quais nem o próprio rapaz havia sonhado quando engendrou a primeira trapaça sob os auspícios de Moréia. Um contrato que acabaria por eliminar um concorrente foi o pontapé inicial na trajetória do farsante com sua tutora. Armelau sabia da tramoia de ambos e ficou indignado quando viu a maneira sorrateira com a qual Bildo assumiu posição em lugar de seu antigo empregador. Bildo não tinha champanhe, festejou com cerveja, linguiça e farofa.

Bildo vivia oculto na pele de coitado. Erguia a bandeira de neto bastardo do seu bisavô e seguia sua marcha modorrenta. Trazia escrito em sua testa a frase de autopiedade, suavizava a voz em um tom nasal lamurioso e fixava seus olhos súplices sobre seus interlocutores como se tivesse o dever de explicar a todos os supostos erros do mundo em desfavor de si. Por seu turno, Moréia destilava em uma imensurável coleção de intrigas e picuinhas o seu dissabor por ser eternamente mal amada no amor. Sua vida era um quadro em preto e branco. Vivia só e solitária. Todas as suas relações pessoais terminavam corrompidas em meio a intrigas e fofocas. Bastava que alguém fizesse qualquer coisa que a contrariasse em seu dia para que a mulher alugasse dezenas de orelhas para desfiar sua narrativa maledicente como se todo desafeto seu devesse ser odiado também pelo mundo inteiro. O caráter de ambos reultava num duo perfeito.

Antes da chegada de Bildo, Armelau e os demais vendedores viviam uma era de paz em seus pequenos gabinetes atrás de suas minúsculas mesas. Armelau era centrado demais em si próprio para perceber que Moréia projetava nele seus sonhos mais secretos e inconfessáveis. Assim como fez com todos os outros encarregados de vendas antes dele, a mulher lançou no sonâmbulo suas projeções amorosas emboloradas no fungo da frustração. Imaginou correr com o então novo funcionário de mãos dadas por um canavial dourado. Ver o dia amanhecer com o rosto deitado sobre o provavelmente cabeludo peito do prestidigitador sonolento. Tomar banho de rio em águas barrentas e secar o corpo nu sobre as pedras negras e sob o sol da manhã dos amantes. Tomar hectolitros de licor de jabuticaba na mesma taça do encarregado. Repartir o lanche de carne de carneiro no final da balada. Casar. Ter filhos. Um lar enfim.

Mas para desespero da senhora que chegou à idade sem ter se casado, Armelau em nada correspondeu às suas expectativas. Sem dizer palavra, o encarregado manifestou o não às intenções da mulher e despertou nela um ódio tanto inexplicável quanto inesgotável. Se um dia ela se ocupou em lançar aos quatro cantos da ZT3 pétalas do quanto Armelau era adorável em seu modo onírico de ser, após o desencanto ocupou-se quase que exclusivamente em difamar o taxidermista amador distribuindo cardos que jurava serem frutos da própria queratina do funcionário.

E em um cenário onde tudo desfavorecia Armelau, ele tomou um copinho plástico de café, a fim de rechaçar o terrível sono matinal. A porta de sua pequenina sala abriu-se por vontade própria. Na salinha contígua, Bildo surgiu de pé, para em seguida agachar-se, abaixar as calças, erguer a calda, esguichar um fluido odorífero pelas glândulas recônditas e urrar como que sentindo espinhos romperem por sua cloaca. Foi o nascimento de Musca, ato presenciado pelo atônito Armelau. Bildo enfim deu cria.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

1981 – O DEFUNTO DA RUA DE TRÁS

O ano é 1981 e eu tenho sete anos de idade. Aquela tarde caía por de trás do horizonte e consigo levava o sol para lugares distantes que eu jamais conheceria até o presente momento em que teço essa narrativa. Naquele ano, morreram Bob Marley, músico, Amácio Mazzaropi, ator e cineasta, Glauber Rocha, cineasta, e o defunto da rua de trás do quarteirão no qual eu morava. Não que o homem tivesse vivido defunto e assim morrido. Mas sim por eu tê-lo conhecido defunto e defunto ele ter vivido sempre em minha memória.



Eu estava no portão de casa olhando para o nada. Os moleques sujos e espancados da esquina percorriam a rua convocando todos os outros garotos para verem o espetáculo do defunto desfigurado da rua de trás. Eu já havia tomado meu banho, tinha o cabelo úmido e meticulosamente repartido no meio da cabeça formando uma espécie de cortina de testa. Vestia uma camiseta de listras com gola pólo e a bermuda de costuras tortas feita com restos de brim pela minha avó, que sempre dizia que não sabia costurar. Calçava as sofríveis sandálias franciscanas em couro marrom. Elas eram péssimas para correr com a molecada da rua. Eu sempre ficava para trás por causa da transpiração dos meus pés que deixava as sandálias escorregadias e com a palmilha pegajosa por causa do barro formado pela poeira do asfalto. Pior era quando algum pedrisco entrava entre a palmilha e a planta dos meus pés.



Parecia mesmo ser uma grande aventura uma excursão para ver um defunto na rua de trás, uma oportunidade. Disseram que era um homem muito velho e que havia sido atropelado por um cavalo, ou uma charrete, ou uma carroça, ou um carro, ou um caminhão de transportar gado para o abate. A cada frase dos garotos o acidente perdia e ganhava elementos.



Eles perguntavam entusiasmados se eu não ia ver o morto da cara de jornal, do nariz de cera, da perna de madeira, do braço de plástico, do olho de vidro. O estrago feito pelo acidente teria sido tamanho que a desfiguração do cadáver obrigou o uso de peças artificiais para recompor o corpo a um estado viável ao velório.



Eu nunca havia visto um morto para além da tela do meu televisor em preto e branco e de má sintonia. Os moleques tinham muita pressa. Estavam esbaforidos. Já haviam ido e voltado diversas vezes à casa do defunto. Queriam que o bairro inteiro testemunhasse o grande evento fúnebre.



Mas eu não sabia se poderia ver o morto, ainda mais sendo ele uma figura tão deformada e certamente assustadora. A própria morte como evento e fenômeno sobrenatural seria o suficiente para impedir de eu conseguir a autorização da minha mãe para embarcar em tal expedição. Pior ainda sendo o defunto recomposto por partes de materiais inumanos, algo que me traria à lembrança certo filme de terror no qual uma criatura humanóide se regenerava diante dos olhos atônitos dos seus algozes mutiladores. Tive várias noites de insônia após encontrar o filme do “regenerator”, por acaso, durante uma visita, quando fui deixado na sala de uma senhora enquanto meus pais conversavam com ela na copa.



Cabe salientar aqui que em momento algum temi presenciar o fenômeno da auto-regeneração. Os divulgadores do evento deixaram bem claro que as partes anexadas já estavam perfeitamente instaladas e conformadas ao defunto. A lembrança do filme foi algo que me ocorreu quando pensei em argumentar e justificar a importância do meu ingresso naquela fantástica e imperdível excursão funérea.



Eu sabia que meu tempo de rua já havia se esgotado naquele dia assim que entrei no banho, era a rotina. Pedi apenas para ir até a esquina, algo que não levantaria qualquer suspeita sobre minha verdadeira intenção, pois também fazia parte da rotina. Com sorte, minha mãe estaria de bom humor e permitiria sem maiores questionamentos. O meu gosto por ficar fora de casa não era nenhum segredo.



Fui feliz em meu intento e recebi a autorização apenas para ver a rua mais um pouco. Podia ir até a esquina, mas sem me sujar de modo algum. Para além daquilo, eu já cairia na ilegalidade. Então parti. Contudo perdi a excursão dos moleques sujos e espancados e fiquei ali na esquina mesmo, parado, sem coragem para ir sozinho ao outro lado do quarteirão procurar pela casa do morto. 



Após alguns minutos, um moleque retardatário, morador das quadras de cima, descia para ver o morto desfigurado e que havia sido anunciado inclusive em sua rua. Ele também desconhecia o exato endereço. Descemos a procurar. Não foi difícil encontrar. As referências e as pessoas aglomeradas nos levaram diretamente ao meio da rua de trás do quarteirão.



Tratava-se de uma casa modesta de paredes azuis desbotadas, muro e portão baixos e descascados. A residência estava repleta de gente, e totalmente aberta ao público. Em seu interior, movia-se uma massa trajada em cores escuras e que dizia frases doloridas e derramava lágrimas aqui e ali em redor do esquife. Bem do meio daquela gente, foi possível ver surgir algumas caras sujas e conhecidas, as dos moleques sujos e espancados. Vinham lívidos e de olhos esbugalhados, porém, logo que notavam a presença de outros moleques no recinto, eles providenciavam uma máscara de sorriso falso, um simulacro de coragem e missão cumprida.



Muitos egressos da borda do esquife certamente passariam diversas noites sem dormir por conta da forte experiência de encarar a morte na face do morto. O movimento da massa fúnebre era constante e logo me tragou para dentro de si. Aos poucos fui conduzido ao destino de todos, que era a beirada do caixão. Vozes sussurravam a desventura do velho, que teria sido brutalmente atropelado na estrada. Fiquei intrigado pela circunstância de ele perambular pela pista sendo dotado de tanta idade.



Quando dei por mim, já estava de pé diante o ataúde e seu misterioso habitante, um homem velho e magro de cabeça branca e pele cinza, comprido como certamente seria a estrada que o matou. Ele tinha um nariz fino e longo ladeado por dois grandes buracos cabeludos. Um enorme par de orelhas murchas e com ouvidos cabeludos. Os olhos estavam mergulhados dentro de suas profundas fossas orbitais. Não tinha lábios, apenas uma fenda murcha e cerrada denotava a presença do que havia sido uma boca algum dia. Seu rosto era fino e longo como todo o corpo e certamente feito de cera. Suas mãos, ossudas e nodosas como galhos secos retorcidos, certamente eram peças feitas a partir de alguma jabuticabeira. O resto eram flores brancas murchas e um par de sapatos bicudos e compridos apontando para o teto escuro de telhas sobre ripas.



Talvez aquele homem odiasse toda aquela gente a aquecer a sala com seus corpos vivos capazes de derreter a cera de algumas de suas partes postiças, o que seria um imenso vexame. Sobretudo ele deveria odiar a presença dos moleques que ali estavam não para se despedir, mas apenas para satisfazer a curiosidade mórbida em ver um defunto tão horrendo quanto a criaturas de filmes de terror.



Disseram que o mais corajoso entre todos os moleques tocaria o defunto, e que tocaram, porém nenhuma testemunha confiável viu tal ousadia. Alguns viram o defunto se mexer como se sentisse alguma coceira recôndita, outros juraram tê-lo visto abrir os olhos e olhar de soslaio para um dos moleques.



Pude apenas notar que ele ainda respirava pesadamente através de suas imensas fossas nasais cabeludas. Parecia muito cansado.

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