Amigos

quarta-feira, dezembro 31, 2014

REVEILLON

Bala que partiu não tem volta. E se ela vai de encontro ao leito venoso do rio da vida que corre rumo ao fim, ai ai ai... Pode imediatamente dar início aos preparativos para a grande convenção final. Compre flores, muitas flores. Se possível, uma coroa com alguns dizeres genéricos bem bonitinhos, sensíveis, comoventes. Peça a um poeta para elaborar um texto bem tocante no sentido da compreensão das almas mais sensíveis. E se não conhecer nenhum poeta disponível, que horror!, mesmo que amador, deixe que o pessoal do marketing se encarregará do conteúdo, eles sempre sabem o que o povo gosta de ler de modo geral, amplo e irrestrito. 

Já decidiu quem é que levará o seu esquife à mansão dos mortos? Veja bem, melhor que seja gente forte e saudável. Já teve infeliz que fez a escolha errada e acabou caindo na própria rua da cova, ao pé do sepulcral. Um vexame total para os amigos, não os tem, sim, mas tem parente, não importa que sejam poucos os tais, parentes e familiares: mãe e irmã, sobrinhos e sobrinhas, primos e primas, cunhado... Só indigentes perdem completamente o contato com as origens aborrecíveis da vida. Mas e o esquife em si será daqueles com ornamentos e em madeira nobre, sim. Não. E quem é que pode nos dias de hoje dar-se a tais luxos. Mas vê lá se não faz muita economia nessa ocasião tão especial da sua história; só se morre uma vez na vida, hein.

A roupa também tem que representar bem. Não importa que nunca tenha usado um traje social em vida; quando se morre, faz figura para quem vier ver, não é a seu gosto que tem que ser, entenda isso logo de uma vez. É uma ocasião muito importante pra você se apresentar daquele jeito jeca que passa todos os dias parecendo que não tem outra troca senão uma bermuda velha e uma camiseta branca toda furada, peças que veste ao rastejar da cama e que pendura na cabeceira ao final de mais um dia modorrento. Ah, e aquele chinelo ridículo, por favor, hein, não vá aparecer dentro do caixão de meias e com aqueles chinelos.

Olha, se começar a feder, não terá como esperar o pessoal que chega naquele vôo do nordeste. Sua tia, a irmã da sua mãe, certamente quererá vir para vê-la. Sim. Vê-la. Pois quem é que perde tempo em vê-lo, novo defunto estraga festas. Não seja sentimentalóide, oras. Elas só se vêm em ocasiões especiais. Virá ela e o filho, aquele barbudo e bem sucedido no ramo da agiotagem, aquele que sempre conta seus sucessos nas aquisições quando aparece a cada década. Verdade é que eles nem deveriam vir. Primeiro, por que perderão o passeio que pagarão ainda durante o ano inteiro. Depois, acabarão deixando todo mundo tenso e envolvidos numa espera inútil, não dará tempo mesmo de verem sua cara, defunto. Passagens aéreas são muito concorridas nesta época do ano por conta das festas; embora nunca tenha andado de avião, você sabe. Terão que arranjar hospedagem, pois o padrão deles não admite improviso em casa de parente. Será mais um constrangimento.

Com a papelada não se preocupe, meu amigo. Aquele seu cunhado que te detesta e vive te criticando pelas costas tomará a frente de tudo só pra poupar sua irmã bonitona da trabalheira burocrática. E ele é bom com essas coisas, não é mesmo. Já trabalhou em cartório e até fez Direito, embora jamais tenha passado no exame da Ordem.

Bem capaz que apareça alguma daquelas mulherezinhas com quem andou se enroscando e chafurdando nos últimos anos. Caso apareça de fato, fará contra ponto à sua esposa, mulher decente, maravilhosa. Uma loba. Continua em plena forma, às portas dos quarenta bem vividos e bem rodados. Mulherão do caramba. Ainda bem que não fez filhos nela. Seria um transtorno pra vida inteira ter que ficar tratando de guarda, visitas, deveres com você, que nunca prestou pra nada que fosse compromisso sério.

E só estou tentando entender como é que você veio parar aqui, em Ilha Comprida, plena noite de ano, só pra ver a queima de fogos. Com tanta Copacabana por aí, e você vem parar justamente aqui, e na quitinete do seu cunhado. Deve ter deixado o lugar um lixo, nojento, seu porco. E depois ainda terão que dar um jeito na pia da cozinha entupida e imunda e naquelas latinhas todas jogadas por toda parte, e até camisinhas você deixou pra fora do cesto do banheiro. Um horror. Sua roupa limpa misturada à roupa suja, e tudo vai de embolada. Nem sei como é que conseguiu se vestir para chegar até a praia. A morena que conheceu no quiosque levará um susto de morte. Ela se arrependerá até o último fio de cabelo crespo da alma por ter aceitado deixar a bandeja pra te acompanhar à beira do mar.

Tem de tudo aqui. É uma tribo contemporânea. A cada ano a repetição só tende a aumentar. Muita gente de branco, garrafas de champanhe barato empunha pelo gargalo e taças em brindes desordenados e tilintares surdos. Cada qual com seu objeto de captar imagem e acessar internet do momento, algo que muito diz sobre a condição social dos felizes fotógrafos da ocasião. Uma molecada de mãos atadas às mãos dos pais. Uma molecada adolescente planejando suas aventuras sexuais pelo calçadão. Gente pulando ondinhas. Oferendas à Iemanjá.

Vai começar a queima dos fogos, o show pirotécnico bancado pela prefeitura municipal de Ilha Comprida – SP. Até que você não ficou mal com esta roupa. Não havia escolha de uma camisa melhor para dar o tom dramático à ocasião, camisa branca. Além do mais, esta camisa combina perfeitamente com a bermuda caqui do ano passado.

Vem a primeira rajada de fogos. O céu fica colorido por inúmeros pontos fugazes, que sedem vez a outros pontos igualmente fugazes, que parecem eclodir de dentro de seus predecessores. É bonito. E com tanta gente se movimentando por toda parte, e gente inebriada pelo espetáculo que ilustra o céu especialmente estrelado na noite da virada, é claro que malandro tentará aproveitar o delírio coletivo pra fazer função e gozar sorte. A mulher não quer largar a bolsa e o malandro já tá muito louco chapado na pedra quente da lata, pra coçar o dedo falta isso aqui, um triz. O marido dá um passo à frente pra tentar desvencilhar a mulher da bolsa ou até mesmo resgatar a bolsa de volta, eu sei lá, eles terão que explicar tudo direitinho ao delegado da 8° DP de polícia, é, lá na delegacia, dentro em poucos minutos.

A segunda bateria de fogos sobrepõe-se a primeira e parece que o melhor ainda estava reservado para compor um espetáculo crescente. No céu, os pontos são brancos, amarelos, verdes e vermelhos. Em sua camisa, infelizmente para alguns poucos, e nem me venha com hipocrisia dizer que estatísticas e noticiários possuem sentimentos, que passo-lhe um esculacho sem o menor cuidado em ofender, logo o borrão carmim estará estampado. E parecerá vivo na manhca crescente e cada vez mais informe. Sentiu queimar as costas como se uma brasa lhe tivesse repousado sobre a pele e o peito foi quem umedeceu, pois varou o projétil. Arfou em busca do ar, que não veio. As forças e o tônus se esvaiam no fluxo da brisa marítima e das brisas mais das ocasiões públicas festivas. Soltou a mão da morena e levou a mão à ferida da saída como que pra conferir o bilhete de partida. Caiu de joelhos de frente pro cargueiro que estava atracado próximo à praia desde o início da semana. 

Tudo culminou naquele desfeche: desde a sua decisão de passar a virada do ano vendo a queima de fogos em Ilha Comprida, até o meliante que achou de aproveitar o ensejo pra angariar algumas bolsas na moral. E não há como retroceder na trajetória certeira. E como já disse, bala que partiu...

segunda-feira, dezembro 08, 2014

ARMELAU – HELLHAISER E OS SETE EURICOS

Naquela manhã chuvosa, as horas não passavam no relógio de parede posto diante da mesa de Armelau, à meia altura. O ponteiro dos segundos era vermelho e o funcionário, dominado por tédio e apatia, achou de acompanhar a passagem do tempo com os olhos fixos no movimento daquela estreita haste hipnótica até completar a hora para o almoço.

Logo perdeu de vista o fundo branco do aparelho e viu a cor escarlate tecer uma fina película opaca, algo feito uma névoa insinuante, que se expandia do centro para as extremidades do objeto e aos poucos tomava a forma de um furo pregueado na parede diante o funcionário bocejante.

Armelau ouviu passos ecoados do corredor. Ajeitou sua postura na cadeira tratando de voltar os olhos imediatamente para a tela do computador, e deitou a mão sobre o mouse, e fingiu ler algo atentamente para não ser surpreendido por algum superior em pleno ócio no ofício.

Era Edmundo Hellraiser, o encarregado de setor, que na verdade não sabia ser Hellraiser, pois seu nome de batismo era Edmundo Ambrósio, a alcunha de Hellraiser fora colocado pelo pessoal do almoxarifado, por motivos especiais e vingativos. Cabe destacar que o almoxarifado da empresa era uma espécie de oficina do Diabo. Ali ficavam os funcionários mais antigos, maldosos e maledicentes do local.

Mas Edmundo bem que merecia o apelido. Vivia reclamando da vida e falando mal dos outros. Estava sempre fritando alguém, e quando não tinha a quem fritar por ali, fritava seu marido a qualquer um que quisesse ouvir. Sim, marido. Não eram oficialmente casados, porém viviam juntos há muitos anos. Ele dizia que o marido era um preguiçoso. E dizia que ele era depressivo, e que nunca havia se recuperado da perda da mãe, e que fora um erro ter se juntado ao cônjuge, e que o sujeito só sabia dormir e jogar videogame... Dizia o tempo todo. Daí a alcunha de Hellraiser, o renascido do inferno. E então o maledicente de todas as gentes entrou pela sala de Armelau e disse que tinha que colocar uma balança para pesar os fardos de papel ao lado da mesa dele.

Assim, de súbito, no meio da manhã... Armelau achou aquilo estranho e preferiu não discutir. Os carregadores de fardos de papel nunca andam sozinhos e aquilo perturbaria sobremodo o ambiente. Seria um abrir e fechar de porta sem fim. Gente conversando sobre coisas que não interessam a ninguém e olhando tudo dentro da sala com olhos curiosos e perscrutadores. Um cheiro de constrangimento pairava no ar. Mas ele consentiu com a cabeça num gesto resignado.

Armelau voltou os olhos para o local onde estaria o relógio e o objeto não guardava de modo algum sua forma original. Apenas o buraco esférico circundado por um halo róseo contrátil e de fendas escarlate pairava molemente na parede diante de sua mesa, à meia altura.

Hellraiser saiu pelo mesmo corredor que o trouxe e retornou antes mesmo que qualquer elemento acusasse a mínima passagem de tempo. O tempo se extinguiu como por um encantamento e Armelau procurava aflito outro relógio ao pé da tela do seu computador. Não havia nada lá. Tateou os bolsos em busca do celular e também não o encontrou. Ficou tenso por não saber que horas era e assim, consequentemente, não poder sair para o almoço.

Novamente ouviu passos em direção à sua sala e viu Hellraiser entrar, mas dessa vez acompanhado de um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete Euricos. Por algum motivo de fundo pessoal o homem queria provar a Armelau que ele não tinha autonomia nenhuma sobre sua sala ou até mesmo sobre si.

Euricos eram auditores e cada qual correspondia a um vício humano. Havia o Eurico Glutão, o Eurico Avaro, o Eurico Luxurioso, o Eurico Iracundo, o Eurico Invejoso, o Eurico Preguiçoso e o Eurico Orgulhoso.

Aquilo já era demais. Aquela gente toda passando pra lá e pra cá era de enlouquecer até mesmo o pacato Armelau. E o homem não aceitou. Levantou-se de sua mesa e gritou furiosamente com uma voz gutural para que Hellraiser e os Euricos sumissem pelo buraco da parede, que naquele momento apresentava o diâmetro de uma roda de carroça.

Os Euricos correram pela porta por onde haviam entrado e Hellraiser ficou vesgo, girou, revirou os olhos e apontou sua língua fina e estreita para fora da boca cada vez mais achatada. Sua cabeça também se achatou. Sua pele passou de rósea à branca e o sujeito estrebuchou em terríveis espasmos lançando os braços à frente e as pernas para os lados. Seus membros se encolhiam e apontava-lhe no prolongamento do cóccix uma pequena calda, que se alongara sobremodo a cada espasmo da criatura. Logo o corpo todo do encarregado de setor retraiu-se e o ser inumano assumiu a forma de um pequeno animal. Caiu no chão e escalou a parede até alcançar o furo.

Armelau estava aterrorizado e tentou fugir de sua própria sala. Esbarrou no copo plástico de café, que banhou sua perna manchando a calça. Sentiu o calor na virilha e tentou abanar-se. Ao retornar os olhos na direção da criatura metamorfoseada, viu apenas uma pequena lagartixa plantada ao lado do relógio de parede. Era meio dia e meia, hora de partir para o almoço.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails