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domingo, outubro 12, 2014

NORMANDO, O PARANORMAL












NORMANDO, O PARANORMAL





Para Normando, o mundo das coisas visíveis era simplesmente o esconderijo das coisas invisíveis.

Numa noite tumultuosa e tempestiva, uma em que os ventos balouçavam furiosamente as janelas e deitavam as copas das velhas árvores quebrando galhos e guinchando assovios infernalmente agudos, Normando acordou ao sentir um repelão no pé esquerdo, que pendia para fora dos limites do colchão durante a agitação causada por um horrível pesadelo.

Levemente angustiado, Normando sentou-se à beira do leito, olhou no relógio de cabeceira, que marcava 03h33min, sentiu o corpo todo dorido e ainda com a impressão de ossudas e nodosas garras em torno de seu tornozelo, ainda meio besta sob a sedação do sono, sentou-se à beira da cama e procurou por suas pantufas tateando com as plantas dos pés. Primeiro, na lateral da mesma por sobre o tapete branco encardido de tricô, depois, embaixo da mesma. As pantufas haviam desaparecido mais uma vez. Lamentou o fato recorrente e foi mesmo descalço até a cozinha para tomar um copo de água fresca, não gelada; Normando sempre detestou água gelada e com gosto de geladeira. Se alguém quisesse agradar Normando, que não lhe oferecesse água gelada em momento algum. Mais do que tomar água, Normando precisava ir ao banheiro. Tinha a bexiga preenchida até a uretra. No entanto não sentia presença de coragem e ou disposição para pisar no úmido chão do banheiro com os pés descalços. Decidiu que iria até a escura lavanderia em busca de algum outro calçado.

Abriu a porta rangente da lavanderia, procurou o interruptor da luz, porém encontrou apenas uma superfície peluda sobre o que seria o interruptor. Retirou rapidamente a mão do local e trouxe-a para junto de si, rente ao peito. Respirou fundo, mentalizou uma oração e tentou novamente a ação. Desta vez encontrou lá o interruptor e acendeu a luz, que pouco iluminava. Havia uma pequena prateleira ao canto da parede posterior do cubículo. Encontrou um par de velhos chinelos e inclinou-se para apanhá-lo. No canto posterior do cubículo, à esquerda do batente de entrada, uma mulher arquejada chorava copiosamente enquanto desprendia de seu corpo chamuscado uma odorífera fumaça fina. Normando, lívido e gélido, achou melhor ignorar a triste figura da lavanderia. Passou rente à figura desconsolada e sequer se lembrou de apagar a luz. Fechou a porta e quase estatelou ao ouvir os terríveis gritos vindos lá de dentro. Uma mistura entre “minhas carnes ardem em brasas!” e “apague esta maldita luz, seu miserável!”. Normando abriu a porta apenas o suficiente para que sua mão alcançasse o interruptor e apagasse a luz. Fechou a porta. Respirou fundo. Seguiu orando.

Tudo ficou silencioso e o homem pode finalmente ir ao banheiro aliviar-se da pressão hidrostática que ameaçava romper com sua bexiga. Levou a mão à maçaneta e tentou abrir a porta do banheiro, porém deveria estar emperrada, pois parecia fechada por dentro, o que seria impossível, uma vez que estava só em casa.
Tentou mais uma vez com um movimento um pouco mais vigoroso. Novamente não obteve sucesso. Levou as mãos à fronte, curvou a cabeça e viu a porta abrir-se espontaneamente. Antes de tentar entrar, espiou pela fresta produzida pela abertura e viu uma mulher sentada ao vaso. A mulher era loira, aparentava pouco mais de vinte anos, usava um longo e alvo vestido de noiva e trazia um buquê nas mãos e chorava olhando para a parede diante de si.

Normando desistiu de usar o banheiro e foi pelo corredor até o quarto, abriu a porta que dava para o quintal e decidiu aliviar-se ao pé da figueira centenária, sob a sombra da retorcida copa em noite de luar. Ratazana surgiu através das sombras do corredor, lépida e faceira, abanando o rabo e ansiosa por cheirar primeiro os pés e depois o dejeto fluído expelido pelo rapaz. Ao iniciar o fluxo, o rapaz suspirou com o alívio do desaperto. Porém, antes mesmo de terminar o esvaziamento, foi alvejado por um forte golpe na face. Era um morcego que havia se chocado contra seu rosto. O animal, após o forte impacto, o qual produziu um hematoma na parte inferior da órbita direita de Normando, passou a rastejar pelo chão como que ferido gravemente em suas capacidades sensoriais e motoras. E sangrava profusamente o bicho. Já Normando não sofreu nenhum dano mais grave. Ficou apenas com o rosto intumescido.





NORMANDO - CABEÇA, CORPO E DICOTOMIA



Normando decidiu que era tempo de desfrutar um pouco o ar puro do campo, aliviar o stress da cidade e esquecer por algum tempo os fantasmas de sua casa. A família possuía uma pequena propriedade herdada de um tio avô, solteirão e suicida, situada entre densos e extensos canaviais.  Seria o lugar ideal para tomar um fôlego, sorver da atmosfera livre que há nos lugares mais bucólicos e receber uma porção da paz sertaneja.

Veio mais um dos inúmeros dias nos quais amanhecera insone, e então decidiu partir antes mesmo de clarear. Quase atropelou uma mulher e uma criança vestidas de branco e que vagavam pela pista. Na verdade só não atropelou porque os atravessou. Um efeito parecido com o que ocorre quando passamos por densa neblina ou uma cortina de fumaça. Embora as figuras fossem perfeitamente nítidas por de trás do pára brisa; contudo eram apenas tristes espectros.

Quando Normando finalmente avistou a propriedade ao pé da estreita e inclinada estrada de chão, o sol já flamejava. Fazia tanto tempo que não ia ao local, que fez um intenso exercício de memória para encontrar a familiaridade adormecida em algum sótão de sua mente de todos aqueles detalhes: a figueira disforme na frente do terreiro, a casinha e o telhado do alpendre mal sustentado por um caibro carcomido por cupins, o fusca azul abandonado debaixo da jabuticabeira e as galinhas empoleiradas sobre o capô e a capota do veículo.

No quintal da casa, havia um homem cortando lenha à vigorosas machadadas. Porém o homem não estava lá por completo. Ao menos sua cabeça não estava atada ao corpo pelas vértebras cervicais na base do crânio conforme o convencional. Era um homem incompleto no sentido mais próprio e amplo da palavra. Ia apenas com o corpo até o ápice do pescoço. Porém, muito limpo, não se via nele o menor vestígio de sangue extravasado. Era, por assim dizer, um ser perfeitamente ajustado e saudável, á sua maneira incomum. Mas a cabeça do homem é que era o grande enigma da incomum situação. Onde afinal andaria uma cabeça desprovida de um corpo apto à sua locomoção era intrigante o bastante para corroer as entranhas de toda e qualquer alma, ainda que não fosse das mais curiosas.

O corpo sem cabeça cortava um toco, deitava o cabo do machado sobre o ombro e seguia a passos indecisos, tateando o solo em seu redor na busca de mais alguma acha de lenha. Era aflitivo perceber que durante algum tempo fugia-lhe completamente a mínima noção da próxima ação a ser executada. Estacava. Girava o braço livre do machado volvendo a parte anterior do tórax como se procurasse por algo que esquecera. Certamente se apercebera da falta da cabeça, que havia ficado alguns metros atrás. Aquilo incomodava a quem visse. Um corpo sem cabeça e indo em frente e indeciso, coisa mais horrível. Mas é o que acontecia. Era um homem sem cabeça e uma cabeça certamente perdida por aí sem um corpo. Cada qual em um ponto distinto.

Claro que o corpo, como sendo provido de suas pernas, levava certa vantagem sobre a cabeça sem membros. Mais tarde e com um pouco mais de observação, ficou claro como funcionava a sociedade dicotômica daquelas personagens surpreendentes: a cabeça era depositada sobre alguma pedra ou qualquer outra superfície plana e ficava ali parada, esquecida no tempo, mergulhada em suas próprias ideias, contemplativa, filosofando, achando certa graça ou falta de graça em tudo a seu redor. A cabeça sempre se aborrecia das ações inopinadamente tomadas pelo corpo. No entanto o que mais a incomodava, chegando até mesmo a enfurecê-la, eram os ataques das formigas cabeçudas. Considerava aquilo, além de doloroso, humilhante.  Punha-se aos gritos pelo corpo surdo que, de algum modo sensorial ou extra sensorial, sempre pressentia a cabeça em apuros.

Normando nem bem consentira da existência daquela dicotomia e já era assaltado pela figura que surgia subindo pela estreita estrada de chão. Um homem de paletó preto, monóculo e chapéu, e barba longa, e bigode com guias elevadas e curvas. Conversava sozinho e disse que tinha apenas 32 anos e que já era tido como um sábio, embora fosse apenas lido e curioso. Disse, bem lá atrás, e seguiu caminho. Encontrou o corpo solitário em nova tarefa diferente do manuseio da lenha. Ele roçava um pedaço de terra e arrancava do chão algumas ramas de mandioca. Aquilo era um sinal de que o corpo certamente sentia fome.

O homem estacou (sim, novamente o termo “estacou”, pois sempre prefiro esta palavra à palavra “parou”; parece algo mais correto e relevante), digo o tal tido como sábio, estacou diante do corpo e fez um cumprimento com o chapéu; algo que lembrou uma leve reverência. O corpo sequer dignou-se a interromper sua faina. Tinha muita fome. Normando retribuiu ao cumprimento.

Civilizados por civilizados, cada qual age conforme ache conveniente. Mas o corpo não era de todo néscio. Seguia seus instintos básicos de sobrevivência e aquilo não deixava de ser, de certa forma, um modo inteligente de garantir a existência; ou seja, uma forma ainda que rudimentar e primitiva.

Dado certo momento, não sem ser alvo da perplexidade do sujeito tido como sábio, o corpo interrompeu a colheita da mandioca, enxugou o suor do pescoço e seguiu pelo caminho que ainda tinha sobre sua superfície poeirenta as pegadas frescas do suposto sábio precoce.

Passados poucos minutos, tempo suficiente apenas para sumir da vista do visitante e ressurgir, vinha subindo o estreito caminho de terra batida o corpo com a cabeça debaixo do braço. Buscou então a sombra de uma figueira e sobre o côncavo de uma das maiores ramas das grandes raízes da árvore, à sombra, depositou sua companheira pensante.

Era uma bela cabeça. Tinha o porte de uma abóbora moranga média madura e a forma de uma pequena e jovem jaca. Eu diria não ter nem mais nem menos do que 40 anos de vida. Era um tanto quanto calva. Na face, trazia uma barba principiada a grisalha, contudo sobre a cabeça os brancos fossem ainda bem raros.

A cabeça não tinha a mesma ausência de modos do corpo. Era polida em seus modos. E tão logo avistou o visitante e Normando, os saudou com um sonoro e firme “Boa tarde, senhores!”, ao que o visitante, seguido pelo paranormal, retribui numa mistura de perplexidade e respeito. Naquela tarde de sábado, era a primeira vez que o homem tido como sábio tinha consciência de estar diante da dicotomia entre corpo e cabeça. Uma experiência nova e aparentemente rara para ele. Já para Normando a coisa não surpreendia muito.

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