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quinta-feira, setembro 25, 2014

QUEM TEM TATUAGEM É SUSPEITO DE ARRUAÇA E LIBERTINAGENS

Um parafuso saindo de um casulo, como se fosse um bicho da seda, porém não. Um parafuso. Sim. A criatura metamorfoseada sobre a escápula do rapaz era a peça usada para prender partes em partes e nada tinha da sutileza de uma transformação biológica. Uma das tatuagens mais enigmáticas que já avistei.

O leitor que por acaso vá correndo os olhos descontraídos por sua linha do tempo e se depare com meu título acima certamente será tomado dos pés à cabeça por um brusco sobressalto, um repelão, um solavanco. Afinal, quem na atualidade é capaz de ignorar que a tatuagem deixou de ser um estigma dos tempos passados para passar à modinha da ocasião? Atualmente, conforme já disse em outro texto, quem não possui nenhuma tatuagem é que é diferente, por assim dizer.

Mas a coisa não funciona bem assim em todos os ermos situados abaixo da linha do equador. Há ainda os nascidos pouco antes ou pouco depois da segunda metade do século que expirou e que fazem questão de evitar papo com pessoas que exponham as marcas artificiais impressas na pele e pagas em diversas parcelas no cartão de crédito.

Em lugares aonde o tórax vai nu e apenas a parte debaixo da vestimenta é de uso obrigatório, lugares como saunas, por exemplo, não há como os tatuados omitirem do seu dorso, dos membros ou do pescoço suas marcas encomendadas.

Arrependidos ou satisfeitos são obrigados a exibir seus tribais, suas caveiras mexicanas, seus nomes de familiares, parentes e amigos, suas rosas dentadas e serpentes coloridas, seus beija-flores e aranhas, golfinhos e distintivos de clubes, e coisas indefiníveis, e coisas indecifráveis, e outras coisas indizíveis até.

Aos olhos do bom ancião conservador, aquele pobre sujeito marcado por vontade própria não merece confiança alguma. Como não podem impedi-lo de entrar nos lugares públicos, esperam que ao menos eles, os próprios tatuados, tenham a consciência e o bom siso de não tentar ingresso nos assuntos que circulam nas rodas de conversa das gentes de bem. Deveriam antes permanecer mudos e arrependidos, reflexivos.

Mas eu presenciei o conflito moral e agora posso tentar trazê-lo à luz (ou treva) da rede social. Ocorreu numa manhã de sábado, no salão de estética. O ancião fazia uma limpeza de pele, enquanto o rapaz tatuado fazia uma vigorosa esfoliação geral deixando à mostra suas costas com o tal parafuso recém saído do casulo.

Naquela ocasião, havia outros dois clientes no mesmo horário. Cada qual travava um assunto. Todos seguiam animados em uma conversa comum. O tatuado bem que tentava se entrosar, porém, toda vez que tomava a palavra, a conversa morria subitamente e os demais clientes apenas entreolhavam-se em uma concordância plena e silenciosa de censura.

E não era porque o tatuado se saísse mal na conversação não. Falavam de carro, conhecia até os motores. Falavam de pessoas, conhecia todas. Falavam de pescaria, conhecia os rios, peixes e lugares. Mas aquela tatuagem... Aquilo incomodava. Na visão do ancião, aquilo, além de ser uma marca grotesca, era também uma criatura repulsiva. A tatuagem e o rapaz compunham uma simbiose, e que deveria ficar em silêncio.

domingo, setembro 14, 2014

CASO SEJA ELEITO

Parecia o anúncio de um grande espetáculo circense, mas não era. Um cordão composto por carros estampados com legendas, cores e rostos sorridentes. Como sorriem esses homens! A vida é bela, Benigni! Carros de som estrondam o cancioneiro da moda com paródias que superam o horror do mau gosto das canções originais de apenas um refrão e uma onomatopéia. Caminhões e caminhonetes densamente tripulados desfilam em um contínuo teste de paciência dos amortecedores. Pessoas indo a pé, compondo o cortejo, empunham bandeiras com cores uniformes, trajam camisetas impressas com os mesmos rostos sorridentes estampados nos carros e nas bandeiras.

O sol está ardente e a principal avenida da cidade repleta pelas gentes. Transeuntes atordoados e, ao mesmo tempo, curiosos, bem como costuma ser comum nos ermos mais pacatos em circunstâncias normais. O ir e vir de um lado a outro pelas calçadas do comércio do centro da cidade é constante.

A turba tumultuosa chama a atenção pelo alarido que impõe de modo imperioso. Um homem vinha pelo meio da rua transitando no nervo do séquito com os braços erguidos e gesticulando como um maestro regente de toda aquela balburdia insana. O adversário surgia a poucos metros e cumprindo o mesmo trajeto, com um tropel equivalente e algo progressivamente mais barulhento, efeito Doppler, talvez.

Embora se aproximassem bastante as turbas, não se encontrariam jamais. Feito água e óleo que seguem uma substância após a outra por meio de um estreito canal, seguiam-se e repeliam-se, propeliam-se e continham-se, porém, jamais mesclavam suas cores e representações.

Através daquela nefasta folia de candidatos a reis, os postulantes aos cargos públicos digladiavam pelo voto dos populares. Queriam com aquilo provar o merecimento da confiança das gentes e conquistar os acentos nas cobiçadas cadeiras que representam aquele mesmo povo que assisti a tudo com um misto de curiosidade, espanto, indiferença e aborrecimento.

Senhoras passam irritadas e queixosas do barulho inoportuno. Dentro dos estabelecimentos, atendentes e clientes reclamam da dificuldade de comunicação das transações de consumo. O vendedor da loja de calçados diz que aquilo é uma encheção de saco. Um senhor esfaimado pede uma esfirra e um guaraná, porém recebe uma coxinha e uma cerveja. A criança chora assustada e a mãe, irritada, chacoalha a pobre coitada ao invés de afagá-la.

Por outro lado, não obstante, a proposta é de um grande festejo, uma enorme farra democrática. É como se a administração pública brasileira só tivesse o que festejar e o eleitor motivos de sobra para votar cantando e saltitando em seus espetaculares candidatos da vez. Ora, se um pobre diabo entra dançando e cantando para votar, é evidente que será tomado por louco pelos que aguardam pela vez na fila. Porém as gentes que pedem o voto daqueles pobres eleitores nestes exatos e supracitados termos não respondem por loucas jamais e sempre podem recorrer das caluniosas denúncias de improbidade.

Se eu não tivesse já sido inteirado de que a terra é esférica, suspeitaria seriamente de que o mundo está de cabeça para baixo. O bom senso é falta de educação e rabugice. Refugio-me numa loja sob pretexto de comprar um short de corrida. O dono da loja é um velho conhecido meu. Nem bem o cumprimento e já ouço sua queixa do tumulto que passa diante seu estabelecimento. Ele diz que é incrível, mas a cada momento aquela gente eleva mais e mais o som a fim de impor-se mutuamente, e que o ouvido dele não é pinico, e que aquilo é, bem, deixa pra lá, quer saber quanto custa o short?

Deixo o centro, porém o carnaval segue manhã a fora. Enquanto me afasto, vejo gente conhecida e reconhecidamente desprovida de qualquer inclinação política e ou ideologia partidária empunhando uma bandeira a fim de complementar o ordenado. Já dentro do carro, penso que cada um faz o que pode e que o espetáculo não pode parar.

sábado, setembro 06, 2014

CAFÉ, MAGREZA E SUSPEITAS

Agora estou atrasado. Estaria adiantado, não fosse o ladrão ter aparecido. Entraria no banho vinte minutos mais cedo e, por conseguinte, chegaria também vinte minutos antes do horário ao trabalho, o que seria ótimo para organizar algumas pendências.

Mas então o telefone tocou. Atendi. Era Adélia. Dizia que havia um carro prata, muito parecido com o nosso, da mesma marca, porém doutro modelo, estacionado diante de nossa casa e com um sujeito magro e muito esquisito ao volante.

Bem, minha família acabara de deixar nossa casa em nosso carro e retirou o veículo da garagem passando por de trás do veículo suspeito estacionado à entrada. Atualmente não mora ninguém na casa da frente. A casa ao lado, a da esquina, faz frente pra rua perpendicular à nossa. As outras casas próximas não são de receber tipos estranhos, ainda mais um sujeito magro que aguarde dentro do carro antes das sete horas da manhã de uma quarta feira útil.

No interior da casa, eu me agito. Os pensamentos aceleram e começam a girar tecendo conjecturas variadas. O café, tomado em jejum, é absorvido pela corrente sanguínea e age como combustível extra ao stress da situação. O pulso ganha velocidade e provoca ardor no coração, progressivamente mais turbulento. As notícias de violências, invasões, assaltos ocorridos em dias comuns de semana, tudo adquiri contorno de real terror.

Pode haver um ladrão sim, bem agora, diante de minha porta, imaginando que a casa tenha ficado desocupada a partir das sete e apenas aguarde o momento exato para saltar do carro e iniciar suas vis ações criminosas. Arrombar a porta e adentrar a casa. Ele não imaginaria haver ali dentro ainda o dono a se preparar para sair uma hora após os demais habitantes do lugar.

Abri a porta da sala e fui até a caixa do correio espiar pela fresta, que oferece uma diminuta faixa de visão da rua.

E vejo. Vejo o carro prata. Dentro, o tal sujeito magro e muito suspeito. Ele veste uma jaqueta preta com detalhes vermelhos; uma muito parecida com a que o Michael Jackson usou no clipe de Thriller, porém com a disposição das cores invertida. Tem um celular na mão. Olha o celular, depois o aperta na palma da mão, olha novamente. Tudo indica uma espera ansiosa.

Estando a três metros de distância, não vejo o seu rosto nitidamente. Meu campo de visão é limitado. Mas também eu não sou visto do lado de fora.

As mãos ossudas, mãos inquietas, nervosas e ansiosas, mãos que suponho sejam de um ladrão prestes a executar um crime. São mãos estranhas demais para um homem honesto. E o sujeito está muito ansioso pra alguém que não fará nada de errado.

Por outro lado, pode ser que ele seja mesmo magro por conta de um metabolismo demasiadamente acelerado e não pela ansiedade crônica que o toma antes de cada crime. Conheço pessoas assim. O pai da amiga de minha filha, por exemplo, é um sujeito magro e come feito um desesperado. No entanto, a esta altura, eu já nem sei de nada. Afinal não são os gordinhos que costumam ser ansiosos e comem desesperadamente para satisfazer a ansiedade, e desenvolvem compulsão alimentar, e adquirem problemas com o peso? E pode ser que ele seja de fato um ansioso de longa data e tenha ingerido muito café antes de sair de casa, agravando assim o quadro. Todos sabem que café em demasia causa agitação.

Mas afinal, o que um sujeito tão magro faz parado diante minha casa num horário em que aparentemente todos saíram para trabalhar? É um ladrão. Só pode ser. Ligarei para a polícia. Ligarei para a polícia, já está resolvido. Pronto.

Outro pensamento chega espavorido. A qualquer momento a Rosalma chegará para passar a roupa e acabará pega pelo bandido, que a fará abrir o portão e entrará em casa com ela feita refém. Preciso ligar imediatamente para Adélia e pedir para que avise a Rosalma para não chegar agora, pois estou chamando a polícia e o sujeito parece extremamente perigoso e determinado. A polícia virá e abordará o cidadão que, vendo-se cercado, não reagirá e permitirá sua revista e a do veículo. Encontrarão a arma do assalto e o pé de cabra do arrombamento. Tudo será resolvido.

Adélia entendeu o recado e se comprometeu em contatar a funcionária e alertá-la para que não se aproxime do local onde o roubo está sendo engendrado por aquele abjeto monstro ansioso e descompensado. Rosalma estava a uma quadra de distância e ficou aflita com o recado, paralisada. Disse que aguardaria nova ligação para saber se já poderia chegar ao trabalho. Quis prender Adélia ao telefone, mas Adélia tinha já cliente e tinha que desligar para continuar o trabalho, mesmo que tensa.

Vou mais uma vez até a caixa do correio e observo o criminoso. Não posso ver de modo algum o seu rosto, mas aquelas mãos... Aquelas mãos não deixam dúvida. Aqueles dedos longos estão se aquecendo para aprontar as piores ações concebíveis por aquela mente doentia. Ele é magro demais para ser honesto e inocente. Mário Prata certamente concordaria comigo e teria absoluta certeza de tratar-se de um ladrão feroz e ainda notaria outros indícios que não alcancei em minhas observações turvas pela adrenalina da situação extrema.

Ligo para a polícia, porém não me identifico. Narro toda a situação e o cabo fala com um soldado enquanto me pergunta sobre a aparência do sujeito e de como ele está vestido. Há um agitamento perceptível do outro lado da linha. O cabo pede para que o soldado deixe o arrombamento para depois e vá primeiro tratar de minha denúncia. Pede pra que eu diga mais uma vez o endereço e confirma que será enviada uma viatura, que por sinal já se encontra nas imediações.

Percebo que minha descrição do que via causou uma reação elevada no policial. Será que o que eu disse confere com a aparência do arrombador que está sendo procurado logo cedo? Será que aquele estado de agitação é normal no policial, que pode ter passado a noite em rondas e ocorrências de seu plantão e que, sob efeito de muito café, já não contêm sua ansiedade por estar muito pilhado?

A polícia não vem logo e decido ir mais uma vez ver se o sujeito desistiu do crime e evadiu-se do local. Porém ele permanece lá, com suas mãos nervosas e agitadas. Os minutos assumem a forma de uma eternidade. Tomo uma arma em punho e decido que haverá luta. Agora sou eu ou ele. Não há como fugir da verdade humana. Somos todos selvagens.

Há barulho na rua. Talvez a polícia o tenha abordado e já o tenha algemado. Vou mais uma vez até a fresta da caixa do correio. O carro ainda está lá. Porém o sujeito deixou o local. Conversa agora com meu vizinho da direita, o que sempre está viajando. No estante seguinte, ambos passam no carro do meu vizinho e o carro do suspeito é deixado diante de minha casa. O mistério parece solucionado. Pelo modo e tempo pelo qual conversaram amigavelmente, trata-se de um conhecido do vizinho.

Agora posso tomar meu banho em paz, mas ainda tenho que ligar avisando para que Adélia avise Rosalma de que está tudo em ordem; também ligo para a polícia e aviso ao cabo que tudo não passou de um mal entendido.

Entro no banho e ouço o abrir do portão. Rosalma já está em casa e iniciou seus trabalhos. Preparo-me para sair. Deixo o quarto e encontro Rosalma na sala, passando as roupas. Pergunto se recebeu o recado e digo que está tudo bem agora. Ela diz que já sabe e que o carro que está lá fora é do filho de uma irmã da igreja.

Parto para o trabalho num passo apressado, já estou atrasado. No meio do caminho, tenho um sobressalto. Afinal, quem é que pode garantir que meu vizinho, Rosalma e o filho da irmã da igreja não fazem parte de uma terrível quadrilha de assaltantes?

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