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quinta-feira, agosto 14, 2014

A CAMINHO DE CAFARNAUM

A ESTALAGEM

 Era uma tarde quente e com um sol de estorricar qualquer cristão desprovido de abrigo sombreado. Lavado em suor, o viajante avistou uma estalagem à beira do caminho e imediatamente rumou para lá. Ao adentrar o estabelecimento, encontrou o estalajadeiro por de trás do balcão longo, alto e espesso, em mogno, fazendo uma refeição com o prato na palma da mão direita e um garfo tortamente empunhado com a esquerda. Era um homem robusto o estalajadeiro, ruivo e dotado de sobrancelhas densas e furiosos olhos verdes.

“Preciso de um aposento, senhor. Estou na estrada há dois dias e careço demais de um bom banho e lençóis limpos sobre uma cama fresca, por favor.”
“O senhor é paulista?”
“Sim.”
“Aceita linguiça?”
“Não, obrigado. Mas se o senhor tiver um aposento, ficarei muito grato. Preciso de um banho, e é urgente!”
“Elga, leve este homem ao 13. Tá limpo lá, menina? O senhor não tem mais bagagens, além dessa mochila? Estranho isso! Tá indo pra onde?”
“Cafarnaum. Passei no concurso público e a vaga saiu pra lá.”
“O que o senhor faz?”
“Sou professor. Dou aula de literatura.”
“Ah, professor... Mas não vai dar certo não, viu? Sua vida não tá dando certo.”
“Como assim?”
“Sua vida, oras. Ela não tá dando certo.”
“Mas o que é isso?! O senhor é vidente por acaso?”
“A coisa é mais séria do que você imagina, meu amigo. Elga, pare de rir menina boba e vá levar este homem ao 13 logo de uma vez. Não vê que o sujeito quer descansar?”
“Por aqui, moço.”

Não tendo outra opção, o viajante acompanhou a moça ao aposento que lhe fora indicado.

“O que você é dele?”
“Sobrinha.”
“Porque tá rindo?”
“Sua cara, moço, o senhor não imagina sua cara quando o tio falou aquelas coisas.”
“O seu tio é mesmo vidente?”
“Não sei. Se é, nunca contou pra ninguém.”
“Mas justo agora ele tinha que dar uma de adivinho?”
“Aqui é o 13, moço.”
“Obrigado! Ah, mais uma coisa: servem jantar aqui?”
“Não. Só café da manhã, a partir das seis. Mas o senhor pode pedir comida pelo telefone. Tem os números dos serviços de entrega sobre o criado.”

Elga era muito alta e tinha o sorriso solto. Seus olhos eram duas pedras opalescentes e sua tez era branca como nuvem e contrastava com o tom de cevada de seus cabelos longos. Ao deixar o viajante diante o apartamento número 13, ela saiu pelo corredor saltitando feito uma grande criança. O hóspede notou cair-lhe um objeto metálico do bolso de trás da calça. Adiantou-se para fazer a cortesia de apanhá-lo para a moça, porém esta imediatamente voltou o passo ao ouvir o tilintar do objeto no solo e dirigiu-se afoita para ele. O viajante pode ver do que se tratava e ficou sobressaltado pelo visto. Achou melhor duvidar de sua visão. Elga tomou o par de algemas prateado e não prestou qualquer indício de satisfação, apenas continuou seu caminho e desapareceu pelo corredor.



BANHO DE FOGO

 O chuveiro era poderoso e esguichava água com alta pressão e grande abundância. Havia dois registros: um seria para água aquecida e o outro para fria. No entanto, o melhor mesmo era manter apenas na modalidade fria, pois ao abrir minimamente o registro de água quente a temperatura da água era tão alta que seria capaz de queimar a pele em um segundo. E queimou. Queimou parte da face e do pescoço no recuo do homem. Ele gritou. Disse um palavrão estendido ao máximo que pode. Ficou irritado e decidiu que reclamaria na recepção. Tomou o telefone e viu que alguém estava na linha antes mesmo de qualquer discagem. E quem estava lá não estava só, conversava.

“Ele é meio aparvalhado. Tem medo de perder o emprego, mas não dá um jeito na vida. Disse pra todo mundo que tá desesperado, mas não muda aquela cara de tonto, aquele jeito sonso, aquela expressão de contínuo sono.”
“E você acha que seu tio o manda embora mesmo?”
“Claro.”
“Que pena! Eu fico com tanto dó.”
“Fica nada. Você fala assim mas não tá nem aí. E nem deve ligar mesmo. Ele é muito lerdo.”
“Elga! Como você é ruim.”
“Tá. Depois a gente se fala. Agora eu tenho que atender o cliente do 13, que tá n alinha ouvindo a gente faz tempo. Pois não, senhor.”

No sobressalto de ser surpreendido espionando, o viajante, imediatamente, deitou o telefono no gancho sem dizer qualquer palavra. Voltou para o banheiro e observou no espelho que a queimadura havia produzido apenas intensa vermelhidão em sua faça e uma pequena bolha no pescoço. Deu o caso por encerrado e terminou seu banho frio, quando ouviu alguém bater à porta. Não esperava por ninguém, mas achou que deveria ser a sobrinha do estalajadeiro para saber se desejava alguma coisa.

“Quem é?”
“Hans, o seu vizinho aqui da frente, do 14.”
“O que o senhor deseja, seu Hans?”
“Falar com você, ora!”
“Só um momento que vou vestir-me. É cada uma!”
“O que disse?”
“Um momento. Vou vestir-me!”
“Claro, claro. Vocês jovens não perdem uma oportunidade pra esquisitices. Ficar pelado dentro do quarto e desacompanhado. Aonde é que já se viu um troço desses? Ainda bem que não temos um incêndio por aqui hoje, ao menos até o momento.”
“Pois não, senhor, desculpe a demora. Mas em quê posso ajudar?”
“Preciso de fósforos, ou um maldito isqueiro. Quero acender o meu cachimbo e não há uma brasa dos infernos pra que eu faça essa belezinha aqui funcionar.”
“Lamento, mas não fumo.”
“Não fuma? Tem certeza?”
“Claro que sim. Não fumo e jamais fumei em toda a minha vida.”
“Ah, não fuma não, é? Mas e drogas, não fuma drogas?”
“Senhor, isso é alguma brincadeira?”
“Não. Pareço estar brincando? Não. Jamais brincaria com assunto tão sério. O senhor é paulista, não é?”
“O senhor já desceu na recepção para procurar seus fósforos?”
“Essa hora? Você deve ser maluco. Aqui, agora, só amanhã, meu filho. A sobrinha do estalajadeiro deve estar se preparando pra chibatar aquele desocupado do namorado dela até o imbecil desfalecer. Diversão mais esquisita a deles! E os gritos então? Ainda não ouviu, não é? Espere até um pouco mais tarde e verá que é impossível pegar no sono antes do infeliz parar de apanhar e gritar.”
“O senhor não repare, mas eu preciso fazer uma ligação. Com sua licença.”
“Ligação?”
“Com licença, senhor. Até logo!”

O viajante fechou a porta e foi sentar-se na cama para tentar entender o que estava acontecendo. O hospede da frente ficou parado diante a porta fechado por algum tempo antes de retornar para seu próprio quarto.

 

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