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sábado, julho 26, 2014

A VOLTA DO GRANDE CIRCO NONSENSE - AMÁCIO MAZZAROPI

AMÁCIO MAZZAROPI


No rosto do homem, a inexpressão dominava suas feições limitadas, fixas e absolutas e um tom parvo se impunha a tudo que o interpelava. Mas o timbre de sua voz contradizia de certa forma a ausência de expressão e brevidade de comunicação. Olhava as pessoas em sua volta, retribuía ocasionalmente algum cumprimento formal, respondia alguma pergunta simples, hora através de um breve sim e outrora através de um breve não. Mas tanto o advérbio concordante como o discordante eram ambos proferidos firme e secamente. Definiam perfeitamente a vontade natural do homem. Cabia tão somente aos seus cuidadores acatar ou desacatar seu desejo manifesto.
 
E era justamente nos momentos de tomada de decisão entre fazer a vontade do homem ou descumpri-la que sua cuidadora mor e também esposa merecia um olhar mais curioso. Ela gabava-se o tempo inteiro por cuidar muito bem do homem, pois dizia que ele era um homem bom a vida toda, bom marido, bom pai e por aí ficava. Ele era bom. Não era ótimo nem excelente. Mas era bom e apenas bom.

“Ele está comendo com a própria mãozinha. Precisa ver que gracinha. E ele aprendeu a fazer manha. Se for outra pessoa que vai pra dar comida pra ele, ele enrola e não come. Trava a boquinha ou então fica um tempão com qualquer coisinha mastigando, mastigando, mastigando sem fim. Aí venho eu e ele come cada pratada de comida que dá gosto. Precisa ver que belezinha!”

E o homem realmente, apesar de a mulher dizer que se alimentava muito bem, emagrecia a olhos vistos. Uma coisa impressionante. Amanhecia com o porte de uns setenta quilos. Pela hora do almoço, já havia disposto de uns quinze quilos, no mínimo. As roupas vestidas após o banho matinal sobravam em seu corpo ao termino da mesma manhã. No final da tarde, mais uns vinte quilos de massa haviam se esvaído de suas carnes como por encanto, simples tal qual evaporação.

Após o jantar, no final da tarde, antes mesmo do cair da noite, alimentavam-se sempre muito cedo, costume dos tempos de roça, lá estava o homem, uns quarenta ou cinquenta quilos mais magro do que iniciara o dia; era uma verdadeira incógnita se ele realmente chegaria ao dia seguinte com alguma carne cobrindo os ossos.

“Eu vou te falar uma coisa e é perigoso o senhor não acreditar. Eu já levei esse coitadinho em tudo que é médico daqui. Teve um doutor que disse que isso é da doença dele mesmo. E que, por ele não se mexer quase nada, aí vai ficando assim mesmo, magrinho, vai murchando tudo, atrofiando. Eu não sei mais o que fazer. Mas eu tenho muita fé em Deus e Nossa Senhora de Aparecida. À noite, eu rezo, rezo, rezo... rezo a noite inteirinha. Quando é pela manhã, bem cedinho, aí o senhor precisa ver, quando é bem cedinho ele já tá outra vez fortinho, com as carninhas todas cobrindo os ossinhos dele e tudo. Uma gracinha! Aí vem o resto do dia e vai a gente sofrer tudo de novo. Uma judiação!”

Seria sempre por volta da meia noite o momento mais aflitivo. Exaurido de forças e esvaído de carnes, o homem estertorava e estridulava sobre a cama até parecer não ter mais energia nem mesmo para atravessar aquela hora que traria a madrugada seguinte.

“Aí vem a enfermeira da noite e dá pra ele uma vitamina, de colherinha em colherinha, e ele arriba outra vez”.

O homem novamente transformava-se diante olhos e bocas estupefatas que quisessem testemunhar o estranho fenômeno de recomposição física. Pelo início da manhã, ficava até difícil transportá-lo na cadeira de banho até o banheiro para os primeiros cuidados no início do dia, de tão recomposto que ele se encontrava.

“Ela gosta muito dele. Ela faz de tudo pra agradar ele. Se for preciso, ela tira dela mesma pra oferecer pra ele. Já faz quinze anos que ela tá com a gente. De primeira, ela era empregada aqui. Aí, quando ele ficou doente, eu precisei de alguém que me ajudasse no banho dele e ela se dispôs. Depois precisei de ajuda pras trocas dele e pra dar os remédios na hora certinha. Ela tem a cabeça muito boa. Não esquece de nada e é muito atenciosa. Ela até fez curso de enfermagem e agora, além de ajudar aqui em casa, ela também trabalha no hospital de enfermeira. Ele gosta muito ela”.

A moça era caprichosa e sabia que o enfermo gostava ou havia algum dia gostado muito do Mazzaropi. Fazia sempre agrados temáticos ao patrão. Certa vez, ao visitar parentes, veio de Minas com um chapéu de palha de presente e introduziu a peça no vestuário do patrão. A patroa não recusou o agrado e permitiu seu uso diário. Noutra ocasião, enquanto pagava algumas contas no centro da cidade, em horário de almoço, a moça avistou em uma vitrine uma calça verde em corte social e uma bela camisa xadrez quadriculado em tonalidades de vermelho e azul. Não teve dúvida. Comprou para o patrão e fez o agrado.


O cinto e a botina foram fáceis de conseguir. Ele sempre gostou do estilo roceiro e sempre usou tais peças em seu vestuário, tinha ambas em seu guarda roupas, esquecidas dentro de caixas. A enfermeira foi e resgatou-as. As novas aquisições sim eram novidades. A calça verde pula brejo e a camisa xadrez, mais o chapéu de palha foram peças que deram uma mudada em seu estilo de proprietário rural e reforçaram um traço típico caipira.

Logo seus cabelos brancos foram tonalizados ao ponto de escurecer tornando-se negros como as penas do anu, o mesmo ocorreu com seu fino bigodinho. O detalhe é que em posse de suas faculdades administrativas de si mesmo o homem jamais havia usado barba e ou bigode.

O acaso fez das suas e tratou de dar acabamento ao personagem. Certa vez, em uma fria manhã de inverno, veio então, da roça, um antigo compadre, a fim de visitá-lo. Trouxe consigo uma prenda, um rolo de fumo goiano, que enrolado em seu braço envolvia e escondia o membro inteiro do visitante. O enfermo recebeu o presente e ninguém impediu o uso. Era um gosto antigo dele o de mascar fumo e pitar cigarro de palha. Algo que a esposa só revelou à enfermeira na ocasião na qual surgiu o tal presente pendurado na parede da varanda.

“Gosto de enfermo é coisa que não se nega. Afinal, a vida é uma só e que mal pode haver em ter um prazer bobo onde abundam tantos desprazeres inevitáveis”, pensava a esposa com outras palavras.

A vida seguiu com suas peculiaridades. O homem, vestido tal qual seu suposto ídolo da televisão, emagrecia durante o dia, assistia ou não assistia aos filmes do comediante, mascava o fumo picado e depositado em sua boca para que não ficasse nervoso, como a esposa dizia. Cuspia no chão, conforme conseguia, escorrendo pela boca. Pitava um cigarrinho só, da mão da própria esposa, e emagrecia até dar meia noite, para então engordar em companhia da enfermeira prestimosa e dedicada até o amanhecer.

A enfermeira passou a chamá-lo de Mazzaropi, como um modo descontraído de dirigir-se ao patrão. Mas a esposa, muito dada às formalidades do trato, não via aquela intimidade com bons olhos. Quando surpreendia a moça em tal gracejo, a corrigia de imediato e retificava que o nome do marido era Amácio, e que assim ela deveria chamá-lo. Em confidência aos filhos, estudava a possibilidade de demitir a moça por postura inadequada.

“Onde é que já se viu ficar chamando o pai de vocês de Mazzaropi. Que coisa mais sem graça!”

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