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sexta-feira, janeiro 31, 2014

GRANDE ELENCO – SIMPLES COMO UM OVO OU UMA BOMBA NUCLEAR

Não era a primeira vez que ele a atendia, e nem era a primeira vez que se detinha diante às imagens dos quadros da sala. Mas era a primeira vez que ela concordava em sair do quarto, da cama, para ser mais exato, para uma pequena caminhada pelo corredor, passando pela sala e indo à sacada do sobrado.

Então eles iam passando diante às tais imagens da sala, quando ele comentou, a fim de nutrir a empatia, o que é indispensável numa sessão de Fisioterapia, que eram belas as imagens. Uma, numa tapeçaria emoldurada em madeira escura e coberta por vidro, como um quadro; nela havia a imagem das ruínas do ataque nuclear à Hiroshima, o Memorial da Paz de Hiroshima, ou Cúpula da Bomba Atômica. São as ruínas do Antigo Centro de Exposição Comercial da Prefeitura de Hiroshima, ruínas da construção mais próxima ao epicentro da bomba nuclear a permanecer parcialmente de pé após o ataque, transformado num símbolo em memória às vítimas de 1945. Uma imagem fortíssima, que, sem dúvida, induz a refletir quanto ao significado daquilo tudo para aquele casal de japoneses idosos residentes naquela casa, que receberam a trágica notícia aqui no Brasil. Ela olhou a gravura e nada disse: "Morreu muita gente lá".

Dois passos à frente, pararam novamente. Agora diante um quadro em tinta guache, no qual se via a imagem do Monte Fuji. Ele reconheceu a imagem e perguntou se era mesmo o famoso monte, ao que ela respondeu que sim e acrescentou: “Eu estive lá.”. Ele demonstrou admiração e interesse pelo fato e perguntou do quanto seria belo presencialmente. Por um momento, ela nada acrescentou ao seu comentário. Fez uma pequena pausa. Alinhando-se no andador, tomou fôlego e, inclinando a cabeça para melhor olhar o quadro, entrou por outra vertente: “Lá eles cozinham ovo com o calor que sai do chão”. “Interessante!...”, disse o fisioterapeuta. “Eu comi ovo lá”, ela completou. “E era bom?”, perguntou o rapaz.  “Era ovo”, disse ela, e seguiu para completar o curto trajeto até a sacada.

segunda-feira, janeiro 27, 2014

KB - LUCKY STRIKE - OS FAMÉLICOS GALOS INFELIZES

Ele chegou dois dias antes do dia marcado para o encontro. Pensou em tomar um banho, cochilar um pouco e depois rever o seu plano. Fazia muito calor naquela manhã. Faria mais ainda à tarde. Não conseguiu desligar por minuto que fosse. Embora o corpo pedisse por algum descanso, o colchão poeirento e os pernilongos não permitiam. A cama, toda frouxa, balançava muito ao mínimo movimento. Decidiu não vestir-se e descer o colchão ao chão, cobri-lo com a toalha úmida na qual se secou, mas não adiantou. O calor o fazia aquecer a toalha úmida em poucos minutos com sua abundante transpiração e seu pequeno ventilador giratório preso junto à parede da cabeceira da cama produzia mais ruído do que vento.

Irritou-se. Sentou-se nas ripas do estrado descoberto. Pensou em ir à janela fumar um Lucky Strike, mas decidiu não ir. O plano era bem outro. Ficaria incógnito até o dia do encontro. Já havia calculado descer ao refeitório para o café na manhã do dia seguinte e de lá mesmo pediria as refeições pelo telefone do hotel em alguma bodega das proximidades. Deixaria tudo combinado e acertado previamente. Falaria com o magricela da recepção, o cara da cara seca e cheia de bexigas. Daria uma gorjeta ao figura.

Na tevê, apenas o canal religioso e uma infinidade de missas pra tudo que é necessidade, crime, pecado e gosto. Anoiteceu enfumaçando e olhando as paredes brancas e observando a movimentação de suas habitantes dominantes, esguias damas de oito pernas compridas e donas de inúmeras armadilhas engenhosas plantadas em cada canto e orifício do vestíbulo. Rente ao bocal de luz, por exemplo, uma trama de pequenos esqueletos de insetos esgotados até a última gota pendia como um suvenir de numerosas caçadas bem sucedidas.

Apagou a luz, deixou a janela um pouco aberta para que entrasse alguma brisa noturna, porém não adormecia. Parecia impossível. Uma vez tendo em conta vencidas as adversidades animais e climática, quando o sono e o cansaço pareciam principiar pequena vitória, vinha um sobressalto do susto causado pelo estrondo de enormes máquinas ruidosas. O estrepito de pneus gigantes rolando no asfalto, coletivos a cada dez ou quinze minutos, cada vez mais velozes ao cair da noite, sendo que, muitas vezes, vinham até três seguidos, o despertavam a cada breve cerrar de pálpebras.

E umas tantas motos de escapamentos barulhentos urravam rua abaixo conclamando desordem e decretando a impossibilidade da paz. Também carros com sons a todo volume estrondando funks repetitivos como se todos emitissem uma mesma e única música também contribuíam para a desordem sonora e atordoamento dos sentidos.

Mas em um dado momento o transporte público encerrava suas atividades febris e os motoqueiros e motoristas desordeiros encontravam algum bar ou boca de fumo para acalmar a sanha de ver o mundo em chamas de uma vez por todas.

Aí a fauna local ressurgia em seu esplendor noturno. Alguma casa vizinha ao hotel mantinha uma rinha desativada de decrépitos galos no quintal. Eram os galos cantores mais infelizes e melancólicos que ele já havia ouvido na vida. O canto dos galos sucedia-se em diversas lamúrias em direção ao seu quarto, à sua janela, e sempre soava como um lamento de bicho cego e idoso, carcomido por artrite, penitente de dores por todo o corpo, sem galinhas, famélico e sem esperanças. "É um canto de mau agouro", ele pensou.

Havia também uma infinidade de cães e uma imensa variedade de tipos de latidos nas imediações. Hora os bichos latiam em revezamento, outra hora sobrepunham latido a latido com notório esforço dos histéricos menores em suplantar o ladrar dos maiores. Esganiçavam-se os pequenos. “São os mais irritantes em sua mediocridade e ignorância da própria insignificância”, pensou ele; “todos muito histéricos e imbecis”, completou. Latiam para todo e qualquer maloqueiro que se perdia para cima ou para baixo da rua. Latiam uns para os outros. Latiam por ruídos que o ouvido humano não capta. Latiam para espectros que o olho humano não vê. Latiam por tédio. Latiam por ira. Latiam por mágoa. Latiam por solidão e desespero.

“Pena que só tenho facas e não tenho uma arma para abrir fogo contra esses malditos cães em suas respectivas casas”, concentrou-se no canto triste dos galos até amanhecer insone.

segunda-feira, janeiro 20, 2014

KB - HOTEL DO COMÉRCIO

Sem mais esperar, desviou-se de suas próprias dúvidas e incertezas, meteu a mochila nas costas e seguiu caminho, a pé, até a rodoviária. A passagem estava comprada desde a véspera. Não havia motivo para desistir de seu intento e abandonar o planeado. Já estava tudo escrito. Chegando o momento certo, teria finalmente a aguardada oportunidade da vingança. O ônibus partiria as vinte e três e quinze, conforme previsto. De Matheus Lacerda à Casa Violácea, seria viagem para dez horas ou mais.

Além da muda de roupa que trazia no corpo, constituída por calça jeans preta e camisa xadrez em preto, azul e branco, preparou trocas para apenas uma semana. Calçava macios sapatos pretos de pelica. Dentro da mochila, também colocou um par de tênis próprio para corrida, com amortecedores e bem leve, pois poderia ser útil numa eventual fuga. Enroladas em camisetas pretas estampadas com bandas de rock, levou consigo três facas virgens de lâminas bem afiadas, a ponto de cortar papel.

Era certo que ninguém o revistaria. Não é prática das empresas de transporte rodoviário a rotina de revistas. Além do mais, ele não era em nada suspeito, tinha aparência comum: branco, sobrepeso, um tanto quanto calvo frontalmente, orelhas bem separadas, aparentava recentes quarenta, barba rala, óculos de armação preta e lentes grossas, estatura média, também era desprovido de tiques e ou cacoetes, sorria fácil e tinha o olhar razoavelmente inteligente, um aspecto todo gentil, perfeito cidadão pacato e mediano.

Até Cidade do Sudeste, fez viagem razoavelmente confortável. Apenas seu braço esquerdo viajou um tanto quanto retraído; hora colado ao tórax, hora cruzado com o direito, hora disputando o braço móvel de separação entre as poltronas. É que a ocupante de sua poltrona vizinha era obesa e restringiu um bocado seu espaço durante o percurso. A mulher roncava e eliminava gases quase que o tempo inteiro, concomitantemente. Com o ar condicionado ligado e, claro, todas as janelas fechadas, faltou pouco para que ele achasse ser o caso de abrir uma das janelas de emergência.

Ao trocar de ônibus no terminal rodoviário de Cidade do Sudeste, viu subir a bordo três policiais militares, que certamente iriam trabalhar em Casa Violácea, mas isso não o afligiu e nem perturbou em nada; viajou sozinho em poltrona dupla. Desembarcou no meio da manhã do dia que seguiu ao de sua partida, uma bela manhã colorida e de sol resplandecente.

Ao colocar o pé no terminal rodoviário, sentiu que teria problemas para encontrar um bom hotel onde pudesse organizar o plano e continuar sua meditação. Pedintes e hippies circulavam a intervalos pelo terminal e, ao tentar informar-se de como faria para tomar um táxi, vários mendicantes o abordaram de modo inquisitivo. Com grande dificuldade, desvencilhou-se da horda de pedintes e adentrou o primeiro táxi que viu estacionado na fila. Disse apenas para que o chofer seguisse em frente e somente quando deixou o terminal pediu para que o conduzisse a um hotel limpo e de diárias justas no centro.

Até quem não era do local perceberia claramente que o taxista desdobrava-se em cabriolas inúteis pelo trânsito confuso antes de finalmente estacionar à porta do soturno Hotel do Comércio com vários quilômetros registrados em seu taxímetro. E não levou muito tempo para perceber que o Hotel do Comércio ficava justamente ao lado do terminal rodoviário.

Durante o tortuoso percurso, a cada semáforo que paravam, uma turba tumultuosa desdobrava-se em milhares de artifícios por algum trocado. Em cada lugar um novo talento o assaltava a atenção. Eram malabaristas, vendedores de balas, portadores de necessidades especiais malabaristas e vendedores de balas, cuspidores de fogo, vendedores de água, artistas performáticos, gente fazendo artesanato com canivete em longas folhas de capim verde...

Ao saltar diante do hotel, fora interpelado por um grande contingente de pequenos famintos de caras sujas e mãos direitas estendidas e espalmadas a esperar por alguma moeda da providência divina. Tinha a nítida impressão de que permanecer por mais tempo na rua seria o mesmo que oferecer-se em sacrifício carnal humano para aliviar a fome daquelas numerosas bocas súplices. Era impossível não adentrar logo de uma vez ao estabelecimento a fim de colocar-se livre daquele delírio e suas ideias novamente em ordem.

domingo, janeiro 19, 2014

KILL BILL

Não há tanto tempo assim e é claro que estamos todos presos em um minúsculo espaço do mesmo. E quando ocorre de seu inimigo mais íntimo já não dispor de energia e vigor para a batalha, o que fazer? Mas você trás dentro do peito um turbilhão de sentimentos revoltosos, os quais aguardam ocasião para emergir e partir feito facas afiadas lançadas rumo ao alvo certo.

Agora olhe como o seu inimigo transformou-se por completo. Veja, ele é apenas um arremedo do que te meteu medo e praticou contra você o mais puro e covarde terrorismo, o terrorismo da opressão, do exercício frívolo pelo gosto de amedrontar e inibir. Quem tem um inimigo tão íntimo despreza o escuro; em verdade, esconde-se na escuridão, até que a ira do inimigo se aquiete.

O dia está marcado. Enquanto arruma suas malas, pense no caminho que deverá percorrer até o tão aguardado acerto de contas. Não deixe que seu coração esmoreça agora e te traia. Você aguardou resignadamente por este momento e o simples fato da promessa de que um dia ele chegaria te sustentou de pé em meio a tantas e tantas tormentas de abalar gente que se diz sempre sã.

Renunciar à vingança e não levar ao encontro suas facas de laminas afiadas e reluzentes para seu intento mais secreto seria o mesmo que admitir anos de ordinária covardia travestida da espera da concretização de seu ideal supremo. Não é tempo de covardia e nem de compaixão, que aqui, no caso, significam a mesma coisa: significam apenas um arremate covarde, que não justifica o sacrifício do medo.

Não seja o suposto suspeito medroso de sempre. Vá em frente! Seja valente. Vá e mostre que seu silêncio trêmulo nas horas dos gritos nada mais foi que um inteligente artifício, pela sobrevivência, uma astuta camuflagem emocional. Diga o que tem a dizer e abra sua mala. Retire dela a faca mais afiada e enterre-a de uma vez por todas entre as costelas do seu adversário. Vencerás. Entenderás Kill Bill.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

FELIZ 2014!

Como é do conhecimento dos que estão comigo há mais tempo, todo início de ano eu me retiro alguns dias do mundo digital. Fico fora das redes sociais e de todos os tipos e espécies de interações na internet por algum tempo. Houve ano em que durou dez dias o retiro, duas semanas, enfim, tão logo eu retorne ao mundo virtual, avisarei. Um bom 2014 a todos!  5.177 abraços! Até breve, se Deus quiser!

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