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domingo, dezembro 15, 2013

A SUSPEITA

Há algum tempo, tomei conhecimento de um caso de morte, no qual a morte é deveras suspeita, porém, como ninguém poderia interrogar a própria morte em si, a linha de investigação criminal seguiu os passos dos outros não tão suspeitos, contudo potencialmente candidatos à culpa.

O caso teria que ter uma causa ou um culpado, para que não ficasse em aberto, insolúvel, que não se pudesse dissolver ou desatar para contentamento dos lesados em primeiro grau.

Todos os envolvidos na tragédia disseram que voltavam de uma festa e que, no caminho, decidiram entrar no prédio inconcluso e abandonado apenas para matar o tempo. Que qual tempo se mata quando finda a madrugada e todos já estão encharcados de álcool e altos de tantas outras substâncias que se consome na noite é a questão que, se não a mais incômoda, incomoda bastante, quando submetida à análise perita criminal, ou não.

Não havia luz em quantidade no local. As lanternas dos celulares auxiliaram a escalada dos três andares pelas escadas poeirentas e incógnitas. Risos e encontrões, abraços pelo caminho e esbarrões, beijos furtivos e advertências onomatopéicas por silêncio, frases ébrias proferidas por débeis línguas hipotônicas e gargalhadas rompantes e inexplicavelmente censuradas por quem talvez temesse acordar os insetos e roedores, únicos ocupantes residentes do local há pelo menos três décadas. 

O que o grupo não teria visto, sendo assim não poderia depor, era a suspeita principal entrar no prédio logo após o alegre tropel de farristas, bem vestidos e perfumados. Ela se infiltrou pelo portal sem porta e rumou pela escada no encalço da turba alucinada e inconsequente.

Havia pouco que chegaram ao piso do terceiro andar. Karina retinha urina desde sua saída da festa; pediu para que os amigos a aguardassem por um minutinho. Alguns segundos depois, todos ouviram um grito afastar-se rapidamente e silenciar em um estrondo abafado e seco.

Talvez um susto por um bicho qualquer a roçar alguma parte desprotegida e em seguida um esbarro em alguma peça de construção abandonada produzira tal efeito sonoro. Os corações disparam ao perceber o quão rápido o grito se afastou e cessou. Todos perguntaram silenciosamente por Karina, dada a lógica da sequência dos eventos. Mais tarde, houve quem dissesse ter tido algum presságio, algo como um sentido inexplicável da presença da principal suspeita, uma coisa ruim.

Histérica, a amiga mais próxima levantou a hipótese de ser uma brincadeira; começou a gritar para que a brincalhona cessasse com o brinquedo; e que fosse um brinquedo; e que seria melhor que fosse mesmo uma simples brincadeira...

Mas a cada segundo se fazia mais evidente o termo sério. À proximidade do local parecido com um fosso de elevador fez com que os amigos se entreolhassem com os olhos esbugalhados, visíveis apenas pelas frágeis reflexões lunares. Os corações alinharam-se céleres e contritos cujas batidas praticamente se faziam audíveis no opressor silêncio da madrugada.

Não havia como ver o que se sucedera de fato. Contudo as evidências eram cada vez mais esmagadoras.

Karina não mais emitia um riso e nem respondia aos insistentes chamados, não mais se fazia presente entre os que se encontravam no pavimento do terceiro andar. Em algum momento, a principal suspeita a conduziu pelo único lugar que jamais ela poderia seguir. Quando os jovens acionaram a polícia e o serviço médico de urgência, era duplamente tarde: passava das quatro e meia e a jovem já estava morta. Vieram as equipes, mas já não havia tempo para mais nada em favor da vida. Daquela altura, ninguém se salva. E a principal suspeita evadira-se do local incólume. Ela nunca é responsabilizada pelos seus atos.

Mas teria sido por vingança, motivo fútil ou banal, a mando de outrem? O fato é que houve um latrocínio: um roubo de vida seguida pela morte. E todo crime cometido pela morte, de certa forma, é um latrocínio.

Aos infelizes fanfarrões restou o gosto amargo da colaboração para com a odiosa criatura informe, que vive de armar emboscadas aos desavisados de todos os lugares e épocas, e restou a pecha da suspeita e o inevitável arrependimento por todos os eventos casuais que contribuíram para aquele final fatal e irreversível.

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