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sexta-feira, agosto 30, 2013

CONFISSÕES À VALENTINA # 02

Estando todos conformemente instalados em nossa sala, fora introduzido um quarto elemento para compor o grupo. Januário, o aspirante a chefe de setor foi apresentado aos colegas, incluindo o narrador que vos fala, no mesmo dia em que me dei ao desfrute de ostentar a flor sobre minha mesa. Foi antipatia à primeira vista. Januário estava para a flor com o mesmo desagrado que a flor estava para Januário.

Não sou de formular conceitos prévios ao tempo necessário para se conhecer devidamente uma nova pessoa que vem conviver comigo, seja em ambiente de trabalho ou outro qualquer. Ao menos conscientemente não o faço. Contudo, independentemente da opinião de Valentina, notei que Januário tinha algo que não me agradava logo da ocasião na qual fomos apresentados.

As semanas foram passando e à medida que a flor confirmava sua natureza otimista e alegre Januário provava sua disposição contrária. Numa ocasião em que consultei os colegas quanto à permanência ou não da flor em nossa sala, Januário foi taxativo quanto à Valentina: “Essa flor morrerá aqui. Isso não é ambiente para uma flor.” Todos se entreolharam. Houve quem concordasse. Houve quem se omitisse. E eu, claro, discordei. Afinal, Valentina tinha uma missão a cumprir. Não é por acaso que uma flor vem lhe fazer companhia em um dos momentos mais tumultuados de sua vida. Eu estava feliz com a flor, ela estava sendo boa para mim, fazendo-me bem. Não havia porque não querê-la ali.

Mas a florzinha era mesmo perspicaz e, quando já falante, na primeira oportunidade que teve, disse baixinho e sussurrado pra que só eu ouvisse: “Esse seu novo colega é negativo feito bolor. Logo contaminará a todos com sua natureza negativista.” E foi curioso perceber que Valentina sabia perfeitamente o que dizia. Pra tudo que houvesse, Januário tinha sua versão trágica e pessimista dos fatos pronta para ser lançada sobre nossas cabeças. Na boca de Januário, tudo parecia preferencialmente tender a dar errado. Fosse o que fosse. O rapaz sequer era capaz do gesto corriqueiro de retribuir ao “Bom dia!” que alguém lhe dissesse com mais ênfase. Ele simplesmente ignorava o cumprimento.

Noutra ocasião, ao ouvir mais uma das previsões pessimistas do aspirante a chefe de setor, logo nas primeiras horas do dia, a planta disse: “Vê o novo rapaz? Ele é o bolor que descolore minhas folhas. A cada frase negativa dele eu sinto como se me faltasse luz e ar. Não sei até quando resistirei. É preciso conservar a alegria e tratar a vida com o mínimo de leveza, meu rapaz. Do contrário, até você ficará constrangido em parecer leve e feliz. Vi isso acontecer na casa onde morei sobre o piano antes de vir pra cá. Uma pessoa pessimista contaminou a casa inteira. Saí de lá quase morta. Tive que renascer para ser feliz nas mãos da florista que te presenteou comigo.”

E não era preciso ser um grande analista para perceber que, tanto Amélio quanto Rivaldo já estavam ficando um tanto quanto, digamos, pálidos e embolorados. Amélio por ser de personalidade flexível e mais sugestionável repetia com frequência muitas frases e posicionamentos do novo colega de sala. Já Rivaldo por ainda não ter bem claras e definidas suas opiniões quanto ao dia e nova formação do grupo hora permanecia impassível e hora dava indícios de negativismo, porém ainda achava normal sorrir e dizer coisas leves. E eu comecei a ficar curioso pelo fenômeno do bolor que crescia a um canto da sala.

Devo admitir que, de início, achei ser pura invenção da planta, criatividade herbácea. No entanto logo pude notar uma pequena mancha de bolor de cor roxa na parede onde ficava apoiado o encosto da cadeira de Januário. E a mancha crescia e espalhava outros pequenos focos sobre a mesa, cadeira e objetos do rapaz.

quinta-feira, agosto 22, 2013

CONFISSÕES À VALENTINA # 01

Percebendo que Valentina perdia flores a uma proporção maior do que as concebia, achei por bem deixá-la a semana inteira sem visitar minha sala; postada sobre a mesa da varanda que serve de entrada aos funcionários.

Ela até que ficou bem. Ainda conserva duas flores no ápice de seu frágil e recurvado caule. Acredito que sua florada esteja chegando ao final, porém, como nada sei sobre a planta, aguardarei o desfeche de seu ciclo.

Todos os dias eu a vi ali, parada sobre a mesa, impassível, embora doce e meiga. Passei por ela, no entanto jamais falei com a flor nos momentos em que havia alguém presente. Acho estranho e acho que também causaria estranheza aos que nos vissem conversando. Ela não disse palavra durante a semana que passou. Eu até acariciei suas pétalas e folhas sempre que pude, banhei-a sob a torneira do tanque e ofereci algumas poucas horas sob o sol do final das manhãs no terraço. Ao todo foram dois banhos que lhe dei. Tento não ser ausente, mas o trabalho não permite que eu dedique mais tempo à flor.

Como sendo final de semana, só a verei amanhã pela manhã, segunda feira. Espero que fique bem. Já penso em trazê-la para casa em definitivo; para que venha morar em minha goiabeira; onde já tenho uma hóspede orquídea de outra espécie. Uma bem rústica que resistiu a todas intempéries do tempo e períodos de longa ausência por parte do vil jardineiro que vos fala. Raimunda é o nome da planta que só floriu uma vez em três ou quatro anos. Talvez naquela ocasião estivesse apaixonada por algum pássaro mandrião veranista.

Quanto à Valentina, devo admitir ter sentido sua falta na semana de sua ausência. Meus colegas de sala pouco falam, e quando falam não é o mesmo que ouvir Valentina, que fala de literatura e através de uma visão mais filosófica e existencialista. Gosto de meus colegas; damo-nos bem; mas preciso falar de literatura com alguém. É que somente compreendo a vida através da literatura.

Noutra noite, até sonhei com Valentina. Sonhei que ela metamorfoseava-se numa linda deusa nórdica. A deusa nórdica dos olhos doces e frios feito um par de opalas reluzentes e cortantes. Morar naquele olhar, quem sabe lá? Quem sabe se um dia, ah!... E como seria? Tantos músculos... Tantos encantos... Uma volta ao mundo enlaçar aquele enorme monumento feminino. Uma estátua doce de açúcar, uma boneca de marshmallow branco virginal, uma vertigem, uma miragem no deserto árido dos meus dias mais ordinários, uma escultura viva talhada no mais puro mármore branco. Um sonho. Um sonho que se desfez ao toque de meus lábios. Não era algo para ser tocado. Era algo pertencente ao vaporoso e soporífero universo onírico.

Acordei sem a planta e atormentado pela imagem da deusa nórdica em que ela se tornou por um breve momento de encanto dormente. Preparei o café sem nem mesmo notar a medida que depositei de pó sobre o coador. Ficou forte feito café de padre e de bebum.

Ao chegar no trabalho, era dia de relatórios e fechamento de produção mensal. Vi a flor ao chegar, contudo não a levei comigo para minha sala, ainda não. Valentina era a ausência em minha mesa. Eu era a ausência em minha mesa. Tudo era ausência e falas formais pouco vibrantes.

sábado, agosto 10, 2013

VALENTINA, A ORQUÍDEA # 03

Não sei como aconteceu e nem por onde ela emitiu o som de sua voz fina e esganiçada. Só sei que finalmente Valentina decidiu falar. Era uma ensolarada manhã de inverno onde, na rua, lufada após lufada, o vento espalhava a poeira por toda a cidade. No interior da empresa, estávamos na sala que divido com meus colegas Amélio e Rivaldo. Ouvi bem quando ela, assentada ao lado de meu monitor, agradeceu-me por seu nome e começou a falar como se estivesse guardando tudo há tempos. Excitada, disse que em casa de seu antigo dono ela não tinha um nome, e que não ter nome ia contra sua base e princípios cristãos, e que morava sobre um piano, e que coisas estranhas aconteciam naquela residência de niilistas.

Ela falou também que não gosta do sereno da madrugada, que sente frio e que amanhece ensopada. Foi o que aconteceu quando a deixei a céu aberto de terça para quarta para passar a noite ao relento. Ela afirmou que detestou, e que foi um grande erro que cometi, mais um de uma série. Fiquei meio sem graça. Ela interpretou meu embaraço como um pedido de desculpa não formal e nem verbal, e aceitou, disse.

Colocou também que não gosta de sol a qualquer horário. Que minha idéia de deixá-la exposta ao final da tarde de quinta foi um verdadeiro desastre à sua beleza e que não sabe como ainda preservou três de suas delicadas flores brancas atadas ao caule, embora murchas como se tivessem doentes e em idade avançada. Percebi que tudo que fiz para seu conforto, saúde e bem estar durante a semana foi realmente uma sucessão de erros bem intencionados. Agora sei que ela só aprecia o sol do início da manhã e o sereno que entre por uma garagem ou janela não muito aberta. “Vivendo e aprendendo” é um clichê do qual pretendo jamais separar-me nesta vida. 

Ela comentou que, antes de ser-me dada, estava lendo Tomás de Aquino, o santo doutor da igreja, mas que seu santo de preferência era o filósofo bispo de Hipona, Agostinho. Disse que o santo filósofo a comoveu principalmente pela maneira compreensiva com a qual tratava sua mãe, Mônica, a qual teria problemas com o álcool. Eu, que já li Confissões de Agostinho de Hipona, nunca atentei à tal particularidade. Talvez eu seja de fato um leitor não muito confiável, relapso e meio displicente conforme ela disse que deve ser o caso. Mas confesso aqui que realmente não me recordava de tal passagem de Confissões e nem de tal aspecto. Precisarei consultar novamente à obra do santo.

Valentina demonstrou certa impaciência para com minha parvoíce. Eu estava ainda perplexo e aturdido com a flor falante. Sua ação de falar e, principalmente, sua cultura literária voltada à teologia deixaram-me um tanto assombrado. Acho que fez isso com a deliberada intenção de me impressionar. Não contente quis saber qual era da bíblia meu livro favorito. Achei melhor não responder. Ela bufou. Olhei para meus colegas. Eles olhavam para suas telas. Pareciam não ouvir a planta e nem sequer suspeitar o que se passava em minha mesa. Ela bufou novamente e disse que, já que eu não tinha condições de manter um diálogo mais filosófico e consistente, diria ela então qual o livro bíblico de sua preferência. Perguntou se eu já havia lido Tobias. Vendo que eu nada dizia, complementou: “É um livro incrível! Um verdadeiro romance bíblico. Cheio de sedução e intrigas, mistérios. Vale a pena”. Em seguida, narrou a história em linhas gerais e causou-me certo espanto ao dizer com imensa naturalidade que Raquel sempre viuvava ao raiar de cada noite de núpcias. Achei aquilo meio mórbido. Ela riu de mim como quem ri de um simplório puritano. Levantei com os olhos fixos sobre a flor e a deixei em companhia de meus colegas; pensativo, segui para realizar os atendimentos daquela manhã.

domingo, agosto 04, 2013

VALENTINA, A ORQUÍDEA # 02

Confesso que de início não dediquei à Valentina a devida atenção. Em parte por uma grande turbulência pela qual passava minha vida naquele momento e em outra parte por não ter o hábito de dar atenção às flores em momento algum. Mas eu quis levá-la para casa no mesmo dia em que a recebi, porém só não levei Valentina e a colei em minha goiabeira naquela mesma tarde por uma questão logística. Estava de carro, o carro estacionado ao sol estaria quente como uma fornalha; e a flor não resistiria acompanhar-me enquanto percorresse algumas distâncias dentro da cidade e realizasse ainda três atendimentos. O jeito foi deixar a planta sobre minha mesa e cuidar de tudo que era muito mais urgente na ocasião. Deixei-a e parti.

Ela até que ficou bem. Cheguei no dia seguinte e ela estava lá. Parada. No mesmo lugar em que a deixei. As pessoas elogiavam a beleza de Valentina. A bem da verdade, não houve quem ficasse indiferente ao seu encanto. Alguns disseram que a queriam levar embora. Eu apenas sorri. O que dizer? Alguém vem e diz que levará um presente seu embora. Isso não faz muito sentido. Melhor rir e fingir que foi apenas por brincadeira desprovida de cobiça que disseram. Mas não pense que me enganam esses que desejam flores alheias. Bastaria um leve aceno desdenhoso meu quanto ao caso para que num sobressalto tomassem posse de minha linda Valentina e a levassem sabe Deus lá pra onde.

Diziam o que diziam e Valentina permanecia impassível. Fingia não ouvir ou fingia não notar. É bela e nobre demais para reagir a gracejos. Contudo, não demorou até que surgisse pessoa mais entusiasmada e afoita para com a bela e lhe dedicasse algo mais que um simples elogio. Senti a mordidela do ciúme na manhã do dia em que, ao chegar em minha sala Valentina lá não estava. Tomei um leve susto que me abriu os olhos. Onde estaria minha flor?

Saí pelo corredor para ver o que é que se passava afinal de contas. Percorri todas as salas vizinhas e as imediações indagando por ela. Perguntava por Valentina e ninguém sabia responder. Ninguém havia visto para onde ela havia ido. Como isso seria possível? Flores não andam, ao menos eu acho. De súbito, tive a idéia de sair no terraço dos fundos da empresa. Foi quando encontrei, postada a um canto esquecido, à beira da porta de vidro, minha pequena menina.

Naquele exato momento desconfiei de Sandra Rosa. E logo depois tive a confirmação de que foi mesmo Sandra Rosa, a moça da limpeza quem havia levado minha Valentina para tomar sol e ar. Logo mais, como quem queria nada, ela confessou tudo. Disse também que havia dado de beber à planta. Sei... Sei muito bem da verdade dessas ações samaritanas. Embora Sandra Rosa seja pessoa simpática e agradável, eu é que não confio em suas verdadeiras intenções para com minha Valentina...

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