Amigos

quarta-feira, julho 31, 2013

VALENTINA, A ORQUÍDEA # 01

Uma orquídea é um ser capaz de gerar desavenças e, paradoxalmente, angariar simpatias e boas amizades? Não sei. Não estou aqui para dar respostas. Com sorte, serei capaz de gerar alguma interrogação, quem sabe? Às vezes penso que Valentina não é deste mundo. Somente uma criatura de outro mundo seria capaz de fender um inverno e fazer jorrar um fluxo intermitente hora primaveril hora de outono.
Por ocasião da data comemorativa do dia do amigo, recebi em um vaso muito singelo e bem arranjado um presente de amizade, é claro. O vaso de barro vinha trajando uma caixa de papelão xadrez quadriculada em branco e azul. Do vaso se erguia inclinando-se curvada e pejada por seis belas flores brancas a frágil e encantadora criatura. Risonha e formosa como um sonho colorido e maravilhoso, Valentina, a orquídea, não tinha como ser mais graciosa. Ela trazia um pouco acima da base de seu caule um laço de fita azul de cetim que combinava com imensurável perfeição com sua figura e personalidade. Da referida orquídea ignoro a espécie, a origem, os devidos cuidados, a expectativa de vida, os nomes científico e popular, ignoro tudo e mais algo que se possa ignorar para além do que se é possível ver com o simples olhar. Só não ignoro sua beleza e personalidade. Suas características mais fortes, misteriosas e marcantes, bem como são os maiores mistérios do universo.

Da ocasião em que fui nomeado tutor da flor posso assim narrar: a amiga estendeu-me a criatura um pouco antes de adentrarmos o salão no qual teríamos uma sessão de exercícios terapêuticos e disse que era um presente pelo dia do amigo. Tomei o vaso em minhas mãos, agradeci, recebi em partes as orientações de cuidados, informações que não absorvi por completo. Pois logo que tomei a flor e agradeci, fui furtado em minha atenção por uma leva de braços em abraços desferidos pelos demais participantes do grupo. Todos aproveitaram o ensejo da flor para ofertar um enlace e saudar à amizade. Foi aí que Valentina causou, pela primeira vez diante de meus olhos, comoção pública. Valentina foi parar em cima da grande mesa branca e vazia do auditório. E ficou ali quieta assistindo a nossa sessão enquanto me aguardava. Ao término do trabalho, a amiga que havia me presenteado com a flor aproximou-se e disse baixinho: “Apenas um detalhe: ela fala” e foi assim que eu conheci Valentina, a orquídea. 

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