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sábado, abril 27, 2013

GENYSIS - A CRIAÇÃO SURDA

A fachada da casa ostentava um estilo que há muito havia caído em desuso e sofrera por contínua substituição ao gosto de momento do mercado imobiliário. Os jovens das cidades parecem odiar as memórias do lugar tanto quanto os velhos das mesmas cidades estimam as mesmas memórias. O curioso é que, com sorte, os jovens sempre envelhecem e passam a suspirar pelas memórias não preservadas e destruídas pelos outros jovens da ocasião.

Naquela casa era trabalho inútil apertar a tecla do interfone mudo. Após duas ou três preensões o visitante perceberia que ali o código era o estalar das velhas e infalíveis palmas, de preferência com as mãos por sobre o velho, desbotado e ferruginoso portão marrom. E o som certamente demorava algum tempo para atravessar a decrépita fachada e alcançar alguém no interior da residência, pois até o latido do cão só era ouvido após a segunda tentativa e durante a terceira salva de palmas. E somente após todas essas barreiras é que a cuidadora vinha ver e receber quem batia à porta.

Tímida e simpática, a mulher gordinha surgia sorridente de um riso contínuo e discreto com suas grandes bochechas a comprimir seus olhos para receber a quem chamava e já se explicando e se desculpando pelo interfone quebrado, pela velhice do local, pelo cão surdo... E conduzia o recém chegado através do alpendre indo ter na sala de recepção onde ao abrir da porta emanava quente baforada de mofo misturado ao forte odor canino, ao que certamente seu olfato já não mais reagia com a devida sensibilidade sensorial, pois quanto a isso não fazia nenhuma menção e tampouco se desculpava. À porta contra lateral do vestíbulo introdutório da casa, feito um fantasma, um cão imóvel ladrava em direção ao visitante recém chegado ao local. 

O velho cão era tão velho quanto o livro que ao longo dos anos resistiu ao manejo de mãos descuidadas e a insidiosos ataques de traças. Parecia um pano branco encardido, roto e gasto por incontáveis lavagens e hibernações em fundos de gavetas ocasionalmente visitadas por baratas e roedores comedidos. Velho como o móvel atacado por cupins meticulosos dotados do capricho de devorar somente a carcaça sem abalar a estrutura como que a preservar algo para os dias de grande escassez.

E o cão era ainda surdo como uma tábua. Latia de um latido rouco e grave como se em seu puído arcabouço ósseo reverberasse o som antes de partir para fora de sua boca esgarçada rumo ao ambiente sombrio da velha casa.

A cuidadora o enxotava e dizia para que o visitante não tivesse medo, pois, “além de manso, ele é completamente surdo”. Gostava de repetir isso. E gesticulava para que o animal fosse para o quintal e não importunasse o visitante obstruindo a passagem como um velho rabugento que não admite sobre hipótese alguma a entrada de visitantes. E como parte de um ritual indispensável acrescentava que o bicho era muito, muito, muito velho, e que deveria já estar com mais de quinze anos. Mas era provável que aquele animal já houvesse passado de longe os quinze anos e que por alguma razão não investigada e por tanto não explicada sobrevivia a várias décadas contrariando a natureza da raça e as leis do universo.

Toda vez ocorria o caso de o cão não arredar ao tempo da passagem da cuidadora com o visitante da ocasião. Então ela o tomava debaixo do braço como se o animal fosse um travesseiro velho, esfarrapado e com a plumagem de ganso (pelos de cão no caso) a perder-se pelo ar com a apreensão do membro forte sobre suas frágeis costelas rarefeitas e osteoporóticas. Conduzia o velho animal ranzinza até o quintal e o dispensava no chão do lado de fora onde ele permaneceria a ladrar durante todo o tempo que durasse a visita e, segunda a cuidadora, algum tempo ainda após o visitante ter partido.

Mas uma questão inquietava o visitante. Como poderia um cão surdo em algum momento perceber que alguém batia palmas à porta? A explicação veio em outra visita que será narrada no capítulo seguinte de GENYSIS a ser postado a qualquer momento neste mesmo blog.

domingo, abril 21, 2013

PERUCA DE COBALTO

Descia pela rua adjacente. ‘Treze concursos públicos e nenhuma sorte’, pensava enquanto caminhava. Atravessou a rua a passo largo com sua peruca de cobalto, salto alto, mascando fumo, pisando forte, das atenções sendo alvo, desdenhando dos olhares com ares de deboche. Ganhou a avenida principal da pequena cidade esquecida no tempo, guardada no passado, de hábitos e costumes ultrapassados. Contou sete pessoas dentro de uma kombi amarela parada no cruzamento e que, de repente, começou a soltar fumaça pelas janelas e pelo escapamento. Estaria o motor fundindo ou estaria fundido o motor? A kombi não se movia, apenas tremulava.

Nas mesas dos bares, pessoas teciam conversas intermináveis entre um gole e outro de bebidas inesgotáveis. Senhores idosos acompanhados de moçoilas casadoiras riam da própria sorte que o dinheiro comprou entre talagadas de Martini e baforadas de fumaça feito dragões de komodo com suas línguas venenosas. Alguém toca um rock em alguma porta distante. É Pink Floyd.

O imperioso cheiro de bacon sendo frito se espalhava e domina aquele cruzamento daquela avenida. Ali, tudo é bacon frito, kombi fundida e velhos fumantes e moças demasiadamente perfumadas em fragrâncias acres e açucaradas. Outros casais em outras mesas e outras turmas em outras mesas. A pizzaria da esquina não é páreo para o carrinho de lanches e sua chapa aflita que tanto frita as proteínas como evapora a gota do suor do chapeiro que ali mofinha.

Passou e foi embora com seu gingado quadrado e pensando no azar de treze concursos públicos e nenhum sucesso. Seguiu pela outra calçada a passo lento com sua peruca de cobalto, salto, mascando chicletes, pisando manso, das atenções saindo fora, desdenhando dos que ficaram para trás.

Não viu o que todos que saíram às portas dos bares e outros estabelecimentos noturnos viram estupefatos. A kombi em chamas e os rapazes adormecidos, talvez, a ela atados de maneira irremediável. Mais uma queima de arquivos, quem sabe, mais uma peruca de cobalto de destino ignorado que vai pelas ruas mal iluminadas. 

Obs. Arte visual de Davi Santarosa. 

domingo, abril 07, 2013

AGDA E OS MENINOS SEM ROSTO

Não era toda noite que ela saia na noite com um traje com ares melancólicos como o qual ela escolheu para aquele encontro de amigos após a aula. Geralmente escolhia uma roupa leve, colorida e alegre, e levava alguns acessórios e a maquiagem dentro da bolsa para só depois da última aula ir ao banheiro arrumar-se. Estava cansada do dia de trabalho enfadonho e das pequenas tramas e intrigas de certa colega da empresa, uma com quem dividia a mesma sala. Enjoada do sacolejo do ônibus. Impressionada com meninos que se atiravam do piso alto de um restaurante para a rua como forma de fuga ou diversão. É claro que aquilo poderia dar errado, resultar em um pé quebrado, traumas na coluna, dores difusas, lesões articulares. “Eram uns meninos negros e de cabeça raspada, todos mal nutridos e não tinham mais que doze anos cada. Vi quando um se jogou após ser empurrado pelo qual certamente seria o líder e idealizador da farra. Em seguida, o suposto líder empurrava outro que ia meio desesperado, relutante, certamente contra vontade. Aquele encontrou meu olhar através da janela do ônibus que me transportava. Pude ver a aflição angustiosa em seus olhos, apesar dele parecer não ter um rosto definido, mas apenas a estampa de sua aflição em seus grandes olhos. O ônibus seguiu e os meninos ficaram entregues às suas próprias sortes.” Relatou Agda.

Naquela noite, todos haviam comparecido à aula para tratar os assuntos finais da comissão de formatura. A maioria havia caprichado na indumentária, ou se preferir, no visual, sabendo que as câmeras estariam apostas para o registro à posteridade, mas muito mais às redes sociais. Agda era a única visivelmente inclinada ao soturno, sombrio e já maquiada desde a primeira aula em tonalidades escuras. Combinaram o encontro no Bar da Constância, onde haveria música ao vivo, uma boa banda. Lá muitos foram com a intenção de se embebedar o quanto fosse possível. Agda permaneceu calada e introspectiva. Hora observava o tumulto de sons, vozes e movimentos, hora apenas sorvia uma tragada no vermute contemplando a taça.

Despediu-se dos amigos que esticariam pela madrugada e aceitou a carona de Bruna e Marcelo. A caminho de casa, notou que estava diante o restaurante pelo qual havia passado durante o dia de ônibus e avistado o menino de rosto desfocado. Foi quando um gato preto atravessou à frente do Pálio de modo repentino, inesperado. Bruna, que dirigia o veículo, tentou com um movimento brusco desviar do animal, porém chocou-se contra o poste á margem direita da rua. Os três amigos, devido ao impacto do choque, permaneceram por algum tempo desacordados. Agda foi a primeira a recobrar os sentidos. Notou que havia um menino de pé do lado de fora do carro observando os ocupantes. Estremeceu ao perceber que a face do menino era idêntica ao rosto do amigo Marcelo que estava desacordado no banco do carona. Pessoas se aproximaram do carro, acionavam o resgate, um ou dois carros que trafegavam por ali pararam. Agda já se comunicava com os curiosos, Bruna perguntava o que havia ocorrido. As amigas ficaram assustadas quando notaram que os curiosos dedicavam grandes exclamações ao observar o rosto do ocupante do banco do carona. Marcelo fora o único a se ferir. Não usava cinto no momento do acidente. Com o rosto o rapaz rasgou o para brisa e chocou-se contra o painel. Daquela noite em diante, infelizmente, Marcelo nunca mais veria seu rosto diante o espelho conforme fora registrado nas fotos do encontro da turma de faculdade.

Obs. Arte visual de Davi Santarosa.

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