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domingo, março 31, 2013

SPEEK LEE, O CÃO TRAFICANTE

Nunca imaginei um dia sentir falta daquele bicho infeliz com sua cara parva inabalável esperando platonicamente por um afago de minha parte. E pra dizer a verdade e fazer da sinceridade minha única diretriz, não sou o tipo que afaga bichos e depois permanece cinicamente sem lavar as mãos só para fazer tipo.

Até a última vez em que o vi, ele era branco, com poucas e grandes manchas negras espalhadas por sua rala pelagem. Dotado de porte rigorosamente médio, era ele todo medíocre. A impressão que eu tinha é de que o bicho ficava atado eternamente por uma curta corrente ao arame estendido à distância de cinco metros indo de um caibro a outro de sustentação da frágil cobertura de telhas de amianto que servia por abrigo do carro. No entanto, sua dona sempre afirmava que ele dava lá suas escapadelas pelas redondezas. Se isso realmente acontecia, algo que não posso afirmar, pois jamais o vi solto, deveria ser um momento de profundo êxtase e gozo de liberdade nas asas da mais pura vadiagem canina. Algo como cheirar rabos de forma promiscua e indistinta, revirar os sacos de lixo de todo o universo daquela periferia, tomar água batizada por desinfetante empoçada nas margens das calçadas, trocar fluidos e parasitas com os demais vagabundos da comunidade, trotar junto à turba dos semelhantes famintos por alimento e saturados de lascívia.

Toda vez que eu chegava era sempre o mesmo sufoco. Eu tinha que esperar até vir alguém da casa pisar sobre a corrente do bicho para que ele, em seu surto de alegria tola, não me pulasse sobre as pernas sujando as minhas calças com suas patas molhadas em sua própria urina. Verdade é que, o animal tinha lá sua graça. Talvez fosse por seus modos festivos, pois era dotado de uma alegria incontrolável, agitada, histérica, gratuita, saltitante e contorcida. Muito provavelmente aquilo se desse pela ocorrência de um dos raros momentos em que lhe era destinada alguma atenção e pronunciado seu nome absurdo: “Speek Lee, quieto!”

Não sei de quem foi a idéia de escolher um nome americano e de um famoso cineasta para um cão vira latas branco, brasileiro. Bem, mas isso é o que menos importa. A simplicidade tem lá seus caprichos particulares e até mesmo certa sofisticação quando exibe seu humor em detrimento do resto de tudo, sendo capaz de dar nomes incríveis apenas para ter o gosto de algo sofisticado que dizer na vida. E no mais, ao menos até aqui, ninguém deve ser censurado por escolher um nome extravagante para um cão.

E pra falar a verdade e retomar o foco, triste mesmo foi constatar que, onde antes havia a presença esfuziante do bicho, restou apenas o estúpido arame estendido de caibro a caibro e a corrente corrediça atada e abandonada em um ponto qualquer da extensão sob o inapelável vigor da lei de Newton. Aquele vazio da presilha que atava a coleira do animal ao elo da corrente assumiu um assombroso ar de melancolia. E aquilo seria algo crescente a cada dia de sumiço do pobre infeliz feliz. Se alguém quisesse escolher uma alegoria perfeita para uma campanha publicitária designar uma ausência, tirando a canção “Naquela mesa ta faltando ele; E a saudade dele ta doendo em mim”, a qual conheci na voz do saudoso Nelson Gonçalves, a corrente vazia do Speek Lee seria a imagem ideal ao caso.

No exato dia em que dei pela ausência do cão, perguntei sobre o bicho e a dona forneceu a seguinte resposta: “Ele escapuliu. Ele sempre dá as fugidas dele. Daqui um pouco ele volta com sede e fome”.

Na semana seguinte, o prognóstico não se confirmou. Já contava uma semana desde o desaparecimento do bicho. Diante à notória facilidade que tive para entrar na casa, perguntei novamente pela criatura desaparecida. A dona, com seu rosto rústico e de profundas fendas entalhadas por uma vida de agruras em série, disse com um pesar de alto teor dramático: “Alguém roubou o Speek Lee!”.

Vendo meu leve e providencial espanto, acrescentou que acreditava saber quem o havia surrupiado. Atestou que aquilo certamente seria obra dos traficantes da baixada que agora mantinham Speek Lee encarcerado em algum obscuro quintal.

Achei um tanto fantasioso o relato, porém, de boa fé, creditei crença sincera ao caso. Foi aí que a dona se sentiu à vontade para contar as minúcias do ocorrido: “Ele deve de tá bem perto. Eu escuto o latido dele. É de madrugada que ele fica mais desesperado e late até não poder mais. Late junto com a cachorrada toda da vizinhança. Nunca vi ter tanto cachorro igual aqui! No seu bairro tem muito cachorro? Aqui tem demais! Sabe, foram os traficantes que pegaram o Speek Lee. Os traficantes estão acabando com tudo aqui. Outro dia, ali na esquina, pediram a bolsa duma mulher e ela não quis dar. Aí o traficante bateu nela até ela entregar. A polícia veio, mas só conseguiu pegar de volta a bolsa vazia e o celular sem créditos. O dinheiro eles deram um fim. Compraram tudo em droga... Que Deus me perdoe, a gente não deve desejar o mal de ninguém não, mas eu acho que deveriam era cortar as mãos deles; assim não roubariam mais ninguém.”

“E a senhora acha que ainda pode recuperar o Speek?” “O Speek Lee? Sei lá! Vai saber. Essa gente tem o coração muito ruim. Mas eu ainda ouço o latido dele. Ele tá bem perto.” Neste momento, a mulher fez uma pausa olhando para o céu acima do telhado de amianto como se apurasse a audição a fim de encontrar o som da suposta agonia do bicho.

E como é que você vai dizer à pessoa que um dia o cão para de latir ou por desistência ou por comodismo? Vai que na casa do traficante ele recebeu um nome mais condizente com sua condição existencial, e vai que o senhor traficante lhe dá uma boa ração ao invés de apenas restos de comida. E vai que na casa do bandido o fio onde ele permaneça atado seja mais extenso ou até mesmo inexistente. Pior, e se lá houver também pequenos filhos do traficante para brincar e alegrar os dias do pobre cãozinho? Tudo isso sem considerar que o Speek Lee pode também ter tomado essa opção na vida após ter recebido muitos agrados e delícias à porta da casa do transgressor da lei e então, quedado na marginalidade, atraído por suas benesses, tenha então decidido ir pro crime de uma vez e por vontade própria. O cão pode sim estar agora na mais profunda marginalidade. Digo em questão de conivência e cumplicidade, uma vez que cães não comercializam drogas. Ao menos não em meu bairro. Em seu bairro cães trabalham para o tráfico? Não sou muito de noticiários, mas é bem provável que isso já tenha ocorrido em algum lugar. Eu já soube de cães usados como mulas.

“A senhora quer saber de uma verdade? Esqueça o Speek Lee. Ele agora pertence ao crime.”

domingo, março 24, 2013

ESPERANDO A VIDA

“No final do mês,...” “De qual mês?” “O mês que finda, este.” “Ah.” “Posso continuar?” “Sim, por favor.” “Pois bem, no final deste mês, a nossa editora começa a reedição dos melhores e mais importantes textos dele.” “E como se elege os melhores e mais importantes textos de alguém?” “Tem certeza de querer mesmo sustentar esta pergunta? Não lhe parece óbvio?” “Não. Não me parece.” “Pesquisa, oras. Através de pesquisa é que se chega aos textos de maior relevância de um autor durante sua vida produtiva.” “Mas e se ele, por ventura, se ainda estivesse vivo, descordasse dos textos eleitos?” “Como saber? Eu sei lá! Você tem cada pergunta. Ele que proteste então das profundezas ou das alturas.”

Enquanto os homens de negócios discutem o destino do autor finado, eu falo das coisas mais imediatas, das coisas mais corriqueiras. Eu conhecia o autor e gostaria de agora registrar um ultimo relato. Algo bem simples e pitoresco, bem ao meu estilo. Fato é que, em determinado momento de sua vida, tomou muita cachaça, é verdade. Mas a pinga ele só consumiu durante os anos em que dispunha de vigor físico e disposição à embriaguez. Para grande surpresa dos familiares, abandonou o hábito do consumo da maldita sem o menor estardalhaço. Nunca foi um bebum de fato. Bebeu durante algum tempo mais pelo costume do consumo do que pelo prazer que a bebida lhe proporcionava.  Mais tarde, porém, resignou-se ao consumo do tabaco por único vício. Dizia que o cigarro era seu companheiro das horas mortas. Por fim, eram enormes os prejuízos que seu amigo fumo havia lhe causado. Para locomover-se dentro de sua própria casa, era um custo; tudo que fazia o deixava arfante, exausto. Tinha então que deitar-se e inalar oxigênio do cilindro à cabeceira de sua cama por várias vezes ao longo do dia para realizar as pequenas tarefas das quais se ocupou até não ter mais como levantar-se da cama.

Foi uma espécie de herói sem grandes livros, textos e ou façanhas. Viveu uma vida comum e sucumbiu sem alterar o andamento das coisas cotidianas nas imediações de sua casa, as coisas da ordem do dia seguiram como se sua morte fosse um evento corriqueiro. Verdade é que, apenas a família o pranteou. Os amigos, como normalmente ocorre com todos que passam dos oitenta, em sua maioria já haviam expirado, e os poucos que ainda restavam já estavam maduros demais para chorar pelo mal inevitável e único destino tido como cem por cento certo na vida de qualquer ser humano.

Da última vez que o vi com vida, a morte já estava sentada ao seu lado. Era um fim de tarde ordinário e ele observava o movimento dos trabalhadores que iam e retornavam diante sua casa, no banco de praça frio de concreto que ali os filhos instalaram justamente com a finalidade daquele desfrute contemplativo. Recebeu-me com sua alegria triste, com seus modos discretamente festivos e evidentemente melancólicos. Eu sabia que ele tinha prazer em me ver, mesmo assim não conseguia ficar muito tempo junto dele. É que a morte não nos deixava à vontade para conversar sobre a vida. O saudei sorrindo e ele respondeu com um muxoxo, mas sorriu. Perguntei o que ele fazia, então ele olhou disfarçadamente para o lado, de rabo de olho, soslaio, e, como que provocando a morte que estava sentada ao seu lado, também olhando os passantes, disse-me: “Esperando a vida.” Entendi a deixa. Era a rara manifestação de seu dom de ser cínico. Perguntei por todos da casa, estavam bem. Falamos do livro que ele, na verdade, apesar de sempre dizer estar trabalhando na obra, não havia escrito uma linha sequer. Ele disse que ia bem, carecendo de algumas modificações, mas bem. Conversamos mais um pouco sobre amenidades; até de futebol falamos. Então nos despedimos sem marcar um próximo encontro.

Dias depois, eu soube do fato. Em meio a uma devastadora crise de falta de ar, a morte pôs termo em suas histórias. Morreu no meio da madrugada. Sozinho no quarto. Com o cateter de oxigênio posicionado nas narinas e um cigarro entre os dedos consumido até o filtro. Foi encontrado pela manhã, pela esposa, que dormia no quarto ao lado, não sei por qual motivo.

Agora um editor acostumado a retirar seus provimentos dos mortos discute acerca da publicação de seus melhores textos com o seu chefe de oficina. Afinal, os homens vão e a indústria fica.

sexta-feira, março 15, 2013

O GRANDE CIRCO NONSENSE – A INCRÍVEL MULHER DA BOCA TORTA

É claro que naquele lugar sempre haveria separação entre pessoa e pessoa. Tudo ali era o mais puro e sólido embuste. Vendiam a imagem das superioridades e impunham gratuitamente a das inferioridades, como quem defende a qualquer custo uma mentira travestida em absoluta verdade. E ai de quem questionasse aquela pompa! Pompa pobre, é verdade; porém deveras pomposa.

Não foi fácil ver mais uma vez a doce Adele humilhar-se por tão pouco. O que ela ganharia ali além do ingresso àquele circo de convenções bizarras por mais uma noite enfadonha? Um prato com salgados frios e um bolo de glacê insípido e amanteigado? Era preciso entender por que afinal de contas Adele se sujeitava a partilhar tão triste espetáculo fornecendo àqueles seres a substância que alimentava toda falsa caridade que exerciam em socorro do desafogo da própria consciência permissiva.

Abriram uma porta e, com todo desdém de que foram capazes, deixaram que Adele adentrasse o recinto. Ela veio com aquele sorriso sofrido e de difícil manutenção. Trazia à mão um pequeno embrulho por oferenda. Era pequeno o embrulho como eram pequenas as finanças da moça e o alcance de seu poder de consumo. A anfitriã tomou o minúsculo pacote e fez uma boca torta dizendo algo que vinha carregado de uma proposital e nítida decepção premeditada e irônica.

É. Em certas horas seria melhor não estar no local, seria melhor até mesmo nem existir ali, mas que se há de fazer quando ali está e ali existe? O jeito é tocar em frente para ver até onde vai a truculência alheia. E Adele saiu de sua casa perfumada e no melhor traje que lhe fora possível, o que, a bem da verdade, não era lá grande coisa diante à boca torta da anfitriã cheia de adereços extravagantes, inadequados à ocasião singela.

Adele se uniu ao grupo e fruiu das horas que mesclavam uma viva alegria por estar entre pessoas que tanto queria bem e uma fria tristeza por estar entre pessoas que não sabiam simplesmente querer bem sem aproveitar o ensejo para exercitar seus frívolos jogos de distinção e tosca encenação.

Era estranho como a anfitriã entortava sua boca fálica cada vez maior no ângulo inferior dos lábios à direita de quem a encarasse. Com o tempo, seus lábios tornaram-se bolsas intumescidas que sacolejavam enquanto ela falava coisas tortas e presumíveis, porém ininteligíveis. E ninguém dizia à ela que sua boca estava torta e sua fala era cada vez menos compreensível. Afinal, não era uma característica natural em sua família aquela boca torta. De onde teria saído aquilo? Aliás, ninguém na família de origem da mulher possuía boca torta. Todos eram dotados de finos e comportados lábios alinhados horizontalmente e dispostos a sorrir por qualquer besteira lançada pela vida. 

A única explicação para tamanha resignação de Adele não era outra senão seu imenso apego aos laços afetivos. Se em algum momento teve algo que a uniu àquela mulher da boca torta, acontecesse o que acontecesse, passasse o tempo que passasse, Adele continuaria fiel em atenção, carinho e frequência.

Era mórbido o gosto que a mulher da boca torta tinha em sempre ficar exibindo seus lábios pendentes diante a cálida figura de Adele. E soturna também era a ausência de espírito que arrastava Adele toda vez que era chamada para aquelas estranhas convenções. Um filósofo justificaria tudo dizendo que a soberbia precisa da humildade assim como um equino não prescinde de seu capim.  Mas quem é que precisa da opinião dos filósofos quando ambas as partes concordam em participar com seus papeis em um estranho e nebuloso espetáculo?

quarta-feira, março 06, 2013

O ÚLTIMO CHORO

Ao ver a multidão que se aglomerava diante à porta do apartamento do cantor, na Rua Moerás, Pinheiros, zona oeste de São Paulo, em um condomínio de classe média, em horário que muitos saíam para o trabalho, estudantes para a escola, a mãe do menino de doze anos do bloco verde disse a ele: “Corra, vá ver o que acontece e volte aqui pra me falar.” O menino voltou arrasado: “Tanta gente chata, e foi morrer justo o roqueiro do prédio!” disse o garoto que tanto se gabava aos amigos por ter o ídolo por vizinho. “Morrer não combinava com ele.”, completou o jovem de si pra si. E fato é que naquela manhã ninguém esperava que alguém tão vivo como ele ficasse assim, tão morto de repente. E sabe aquela história de que pra morrer basta estar vivo?, receio ser verdade.

Descobri o fato ao ler a matéria do site do Estadão que tratava o caso. Descobri tomando uma xícara de café e comendo torrada com geléia de amoras silvestres que colhi nos prados do entorno de minha cidade no último final de semana: "Ele tinha marcado com o motorista de pegá-lo ao meio-dia de ontem. O motorista foi ao prédio e não conseguiu falar com ele. Depois, voltou à noite e novamente não conseguiu contato. Por conta disso, hoje (quarta-feira) pela madrugada decidiram entrar no apartamento para ver o que tinha acontecido", dizia o trecho da matéria.

Entraram no apartamento e encontraram-no morto a um canto próximo à bancada da pia atulhada de restos de alimentos, embalagens e pratos  e copos sujos. Estava de bruços com o rosto inerte colado ao chão frio e embaçado por gordura velha e impregnado por um muito suspeito pó branco. O cheiro de mofo competia com o cheiro de cadáver. Um apartamento imundo, bagunçado, em desordem, deteriorado. Ele próprio, o homem, o cantor, estava um tanto quanto deteriorado. A decomposição não tinha pressa, contudo ia lenta fazendo o seu trabalho de modo ininterrupto.

A polícia insinuou com proposital evidente dissimulação e certa naturalidade artificial de policial haver indícios de luta corporal, porém nada que apontasse a presença de outra pessoa física no local. Na suposta hora prévia ao embate entre o cantor e a morte, o zelador disse que sentiu um frio repentino percorrer-lhe toda a espinha, algo como um presságio. Disse que se benzeu três vezes, conforme aprendeu com sua avó materna quando menino no interior do estado de Pernambuco; e teria ficado nisso mesmo, não fosse o caso dele dizer que também sentiu pelo resto da noite uma opressão no peito, uma coisa ruim, uma agonia, uma angústia, algo inexplicável. O policial quis saber a que horas exatamente foi isso; não a angustia que acabara de relatar, mas o frio que percorreu a espinha do zelador no relato anterior. E o serviçal disse que teve o capricho de olhar no relógio da parede que fica atrás de si em sua mesa na cabine, e que foi à meia noite. O policial fez cara de que achou estranho ou suspeito, não se sabe muito bem o que o policial quis demonstrar com aquela cara indescritível. O zelador foi dispensado por um momento.

Ali mesmo, os técnicos começaram a examinar as imagens da câmera do circuito interno de segurança para ver se alguém ou mesmo a morte teria sido captada no momento em que passou para ir ao apartamento do músico. O solitário, em sua agonia, teria lutado para não ser arrastado pela velha senhora fria. Lesões nos pés e na face esquerda do cantor são indícios de que é provável que tenha trocado chutes e socos com ela, e talvez tenha tentado mordê-la na mão para que deixasse cair a foice, mas de qualquer forma, tudo que tenha feito fora em vão.

Os solitários têm a mania de morrer e deixar no ar um algo misterioso, uma aura sombria. São solitários até mesmo em sua última hora, a da partida. Não há testemunha dos últimos momentos de um legítimo solitário pleno de sua vontade, independência e força física. Ele sucumbirá qualquer dia desses dentro do próprio apartamento imundo e deteriorado quando o traço de seu destino der o desfeche de sua solidão.

Não importa quanto sucesso ele tenha alcançado, quantos amigos possua; sim, eu disse amigos; e isso pode parecer contraditório dentro do texto que desenrolo, porém afirmo que não é; pois, o solitário, ele pode ter muitos amigos, uma legião, e, contudo nenhum que alcance sua alma, sua clausura espiritual. Muitos dirão que eram como irmãos, e aí lembraremos que nem todos os irmãos são próximos.

Ele afasta-se de todos, briga com muitos, passa meses sem falar com diversos convivas de outros dias. Rompe laços e pontes que pareciam indestrutíveis, vai ao fundo do poço, de onde Terron disse que se vê a lua, mas não vê a lua coisa alguma como disse o escritor, vê sim as trevas e o dissabor.

"A morte entra sorrateira por qualquer fresta, agarra o solitário em meio à sua solidão e faz o serviço, e os policiais é que ficam com a parte difícil, a de explicar que a solidão foi a mandante do crime executado pela morte." Disse o policial.

domingo, março 03, 2013

O GRANDE CIRCO NONSENSE - O TRUQUE DOS LENÇOS COLORIDOS

Naquele horário da manhã, o sol, que incide sobre toda a cidade, naquele pequeno trecho de rua pavimentada com paralelepípedos enegrecidos, não incide. Permanecem a sombra e a umidade do orvalho da madrugada enquanto tudo em redor é incendiado pelos vigorosos raios do astro rei que rege o dia.

Inclusive o pequeno sobrado de paredes brancas e desbotadas que deixam à mostra trechos de areia vermelha do reboco de outros tempos da construção civil local fica claro como se tivesse luz própria.

O interfone soa somente ao final do período de pressão sobre a tecla. A porta corrediça range sobre o trilho seco. Há dificuldade para abrir o trinco do portão fora de esquadro que força continuamente para baixo as dobradiças pelas quais está atado, e somente após algum esforço a jovem cuidadora consegue abri-lo para que entre o mágico.

Seu Alio está de olhos abertos prontos para acolher a imagem do visitante que rompe pelo portal da copa. Estende a mão para cumprimentá-lo e, após o aperto de mão, repousa novamente a mão sobre o abdome como em sinal de espera pelo número que trará o mágico.

Pipo, o mágico, pede licença a cuidadora para ocupar parte da mesa redonda ao centro do grande cômodo e, em seguida, retira a própria capa preta para forrá-la. Ali começa a depositar diversas caixinhas que retira dos bolsos da casaca, do colete e das calças. Enquanto ajeitava as caixas de acordo com sua intenção para o espetáculo, ouvia o que dizia a cuidadora novata de forma risonha e descuidada.

‘Descobri o motivo deles terem mandado a Lenalva embora. Ela estava trazendo homem aqui. Foi o seu Alio quem achou um jeito de delatar. O senhor sabe que ele praticamente não fala, né? Mas um dia, estando o filho, a nora e mais algumas pessoas aqui, ele começou a mostrar aquele canto ali da pia com o dedinho apontado e dizendo “homi”, “homi”, “homi”. Em seguida, ele começou a apontar pra aquela cadeira ali e pra um prato que tava encima da mesa e repetir “homi”, “homi”, “homi”. E por fim, ele apontava pra sala e dizia “homi”, “homi”, “homi”.’

O mágico Pipo ouvia a história com atenção dividida entre a narrativa e a preparação para seu número, porém não sem surpresa evidente. Olhava para a cuidadora contadora com interesse o suficiente para incentivar a continuidade do relato. E a novata seguiu.

‘O pessoal desconfiou, né. Aí o filho dele, o Milésio, começou a dar uma espreitada pra ver se pegava alguma coisa. Não deu outra! Quando foi um dia, ali pelo meio da tarde, ele viu quando um sujeito magro e amarrotado se despedia da Lenalva lá no portão dos fundos, um que dá pra rua lá de trás; não sei se o senhor já viu. Então, ele viu, desceu do carro depressa e se aproximou dos dois que ficaram muito sem gracinha. Eles estavam cheirando a whisky. Depois, foram ver as bebidas do velho, estavam as garrafas cheias de água e chá. E o homem tava segurando uma sacolinha de supermercado; decerto ia levando alguma carne aqui da casa. Tudo que comprava, nada dava; aí que foram descobrir o motivo da Lenalva viver pedindo pra comprar mais carne.’

O mágico ouviu toda a narrativa, sorriu discretamente, anunciou que começaria o espetáculo e, uma a uma, foi desvendando diante dos olhos do cliente o mistério que havia no interior de cada caixa. De uma retirou um lenço azul, de outra um verde, de outra um vermelho. E assim, numa sucessão de cores, retirou mais de dez lenços das pequenas caixas correspondentes. Diante o olhar indiferente de seu Alio, começou a recolher os lenços nas caixas e as caixas nos bolsos. Despediu-se e partiu para retornar na semana seguinte com outro truque.

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