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domingo, janeiro 20, 2013

A PEQUENINA MESA DE ARMELAU

Armelau voltou ao trabalho numa quarta feira de céu nublado e com tempo chuvoso. Achou estranho e melhor não comentar, mas sua sala havia sido completamente modificada, sua mesa fora trocada e outras três foram introduzidas no local.

Ao fundo da sala, sobre a mesa de tamanho maior, colocaram os pertences de alguém que ele julgou não conhecer. Tratava-se de uma moça, uma moça com um largo sorriso de pérolas e olhos grandes, nariz longo e fino, cabelos escorridos e etc. Na extremidade oposta, em uma das duas mesas de tamanho médio, depositaram os pertences de outra pessoa estranha que sorria no porta retrato com o mar e montanhas por fundo da foto. Tratava-se de outra moça, uma de olhos negros e cabelos negros, lábios grossos e bochechas rotundas, nariz pequeno e etc. E na terceira mesa, uma também de tamanho médio, posicionada junto à parede lateral, além dos pertences, estava outro retrato de alguém estranho. Era o de um rapaz de pele morena, jovem, porém de cabelo falho, de rosto arredondado, aparentemente meio obeso, com olhos pequenos e óculos, boca pequena e etc.

Com tristeza, Armelau notou que a mesa mais acanhada, a qual era menor que uma carteira escolar, a de tampo pouco maior que a tampa de uma caixa de sapatos, do tampo do tamanho da tampa de uma caixa de camisa, sustentava, empilhados, todos os seus pertences e seu porta retrato; de frente para baixo, no alto da pilha de pastas e papéis.

Armelau sentiu sua laringe entrar em espasmo e seus olhos marejarem turvando sua visão da mesa e da sala. A grande esforço, conteve uma lágrima em sua pálpebra inferior direita. “Indelicadeza!”, ele pensou. Suspirou longamente, abandonou os braços flácidos pendendo ao longo das laterais do tórax e sorriu um riso de escárnio. Concluiu que aquilo nada mais era senão uma peça que lhe era pregada por seu inconsciente mandrião. Mais uma. Um sonho nefando. Uma brincadeira de mau gosto.

Decidiu seguir em frente até que despertasse e visse até onde aquele absurdo todo iria. Com enorme dificuldade, acomodou-se na estreita cadeira diante à minúscula mesa, e, depois de mal acomodado, não havia espaço para apoiar os braços; deixou-os caídos ao longo do corpo. Soprou um riso seco pelas narinas ao notar que por capricho a pequenina mesa ostentava duas caixinhas sob o tampo por gavetas. Eram duas minúsculas caixinhas de Pandora. De sua mesa, olhou em redor e lançou um sorriso sarcástico, bufou e abandonou sua postura curvando a coluna e baixando a cabeça em desalento.

No momento seguinte, ergueu os olhos e, discretamente, beliscou o próprio braço direito como forma de atestar seu estado onírico. Sentiu um gelo no abdome seguir à dor e suas mãos imediatamente suaram frio. Afinal, possivelmente não estava dormindo. Ouviu passos e vozes que se aproximavam pelo corredor e viu quando romperam três pessoas por sua sala adentro indo lhe oferecer mãos quentes em forma de cumprimentos. Viu que conhecia àquelas pessoas. Aceitou os cumprimentos com um rosto lívido e os respondia com movimentos labiais desprovidos de voz. Achou ter pedido licença e, com movimentos embaraçados e complicadíssimos, a grande custo, ergueu-se e desvencilhou-se da mesa e cadeira.

Atravessou o corredor e caminhou a passo lento e pesado até o banheiro. Entrou e fechou a porta. Ergueu a tampa e urinou na borda do vaso. Deu descarga e foi até o espelho sobre a pia. Molhou o rosto com as duas mãos, deu tapinhas em sua face, enxugou-a na áspera toalha de papel e encarou-se por um ou dois minutos.

Saiu do banheiro e foi até a copa tomar um café. Tomou dois, três, quatro e retornou para sua mesa.

domingo, janeiro 13, 2013

TEMPO DE PENSAR E NÃO DIZER

Não sei se querem realmente saber o que meus olhos andam vendo ultimamente. Olho e fico com o que vi em meu pensamento, guardado em mim mesmo. Penso e logo coloco a chave no buraco da fechadura da porta da mente. E se um pensamento de abrir a porta, por ventura, me acedia com a intenção de sugerir a exibição do guardado, volvo a chave e a jogo no bolso da camisa azul clara de corte social e botões que ainda não comprei.

Compartilhar o que penso? Não tenho tido vontade. Nem sou obrigado. Acho que tudo que havia para eu pensar em segurança já foi pensado e apenas as idéias um tanto quanto originais possuem o apelo do qual necessito para imprimir minhas poupas digitais contra as cretinas teclas enfileiradas no teclado. Não escrevo mais.

E acho até mesmo que nunca mais escrever será como já foi em minha vida. O tempo da empolgação agora conhece suas cinzas. Cerquei-me de blocos de notas, pequenas cadernetas, diversas canetas esferográficas pretas, única cor que gosto de usar no papel branco virgem, andei com esse aparato de coisas no bolso ou em pequenas bolsas por todos os lugares onde estive durante cerca de doze dias. E o máximo que consegui produzir foi um pensamento nada original que acabou por abalar ainda mais o meu ânimo para com a escrita. Ocorreu que, diante o mar, numa tarde ordinária de pouco sol ou sol nenhum, no final daquela mesma tarde, pus-me a contemplar e ouvir o marulho das ondas que lavavam a areia da praia. Então pensei já com a chave da porta do pensamento empunhada:

“O mar, com sua marulhada, diz algo que jamais saberei exprimir em forma de palavras. E já dizia muito antes de eu estar aqui. E continuará dizendo muito depois de eu partir.”

Hoje, sozinho em casa, de modo contraditório, achei de compartilhar isso. Quis dividir minha chateação para com minha condição de reles ser humano finito e insignificante diante da eternidade da criação exuberante e eterna do Pai. Tomei a chave em minha mão, coloquei-a no buraco da fechadura da mente e, após abrir um pouco a porta, apenas o suficiente para alcançar este pensamento supracitado entre aspas, tirei-o de dentro da pequena caixa mais próxima e vim colocá-lo aqui onde coloco tudo que quero mostrar.

Duzentas e noventa e três vezes eu postei algum texto aqui em meu blog. São quatro anos de atividade ininterrupta. Porém vivo um momento em que não sinto vontade de escrever e nem de postar. É como se eu tivesse durante este período inteiro de trabalho apenas plantando empilhado algo. Penso que seja tempo de olhar para dentro do cômodo da mente, adentrá-lo, organizar as caixas, ver o que pode ser aproveitado e jogar o que não terá utilidade fora.

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